Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 30 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 29

UMA EXPERIÊNCIA EM COMUM

 

Finalmente chegou o dia em que eu já tinha escrito tudo o que era possível – cada lembrança da Região do Ponto de Vista da Minhoca, do Portal e do Núcleo.

Estava na hora de ler o que os outros escreveram sobre o assunto. Então mergulhei no oceano da literatura da experiência de quase morte – um oceano no qual eu nem sequer colocara os pés anteriormente. Não demorei muito para descobrir que inúmeras pessoas haviam passado pelo mesmo que eu, tanto em tempos recentes quanto séculos atrás. As EQMs, no entanto, não são iguais; ao contrário, cada uma tem sua particularidade – embora alguns elementos apareçam com frequência (reconheci muitos deles na minha própria experiência).

Narrativas de passar por um túnel escuro, ou um vale, para chegar a uma paisagem real, brilhante e cheia de vida são tão antigas quanto as civilizações grega e egípcia. Seres angelicais, às vezes alados, remontam à cultura do Oriente Próximo, assim como a crença de que esses seres são guardiães que protegem as pessoas na Terra e as recebem quando elas deixam o corpo físico.

A sensação de poder ver em todas as direções simultaneamente; a sensação de estar acima do tempo linear – de estar acima de tudo aquilo que se pensava ser o limite da vida humana; escutar a melodia sacra que invade todo o ser em vez de alcançar somente os ouvidos; a percepção direta e instantânea de verdades que normalmente se levaria um tempo enorme e muito estudo para compreender, mas sem esforço algum... sentindo a intensidade do amor incondicional.

Nos relatos recentes de EQM e dos textos espirituais da Antiguidade, eu podia sentir o narrador se debatendo com as limitações da linguagem terrena, tentando colocar todo o peixe fisgado no mundo espiritual a bordo do limitado barco do pensamento humano. De uma maneira ou de outra, sempre falhando.

E assim, em cada tentativa fracassada, com todos os autores se esforçando para traduzir em palavras aquela imensidão, consegui perceber que o narrador esperava transmitir toda a glória de sua experiência, mas simplesmente não podia.

Sim, sim, sim! Eu dizia para mim mesmo enquanto lia. Eu compreendo!

Todo esse material, é claro, já estava lá antes da minha experiência. Mas nunca dei a menor bola para ele. Apenas porque nunca estive aberto à ideia de que poderia ser uma coisa autêntica, à possibilidade de que uma parte de nós sobrevive à morte do corpo. Eu era um exemplo típico do médico bom caráter, porém cético e incrédulo. E, como tal, posso garantir que mesmo os mais céticos não são céticos de verdade. Para ser realmente cético é preciso examinar o assunto e levá-lo a sério. E eu, como muitos cientistas, nunca gastei meu tempo com as EQMs. Eu simplesmente “sabia” que elas eram impossíveis.

Investiguei também os registros médicos do meu período de coma – que foi detalhadamente documentado desde o começo. Analisei os exames e ficou claro como meu caso estivera crítico.

De todas as doenças, a meningite bacteriana é a única que ataca a superfície externa do cérebro enquanto deixa intactas as suas estruturas mais profundas. A bactéria primeiro devasta sem piedade a parte humana do cérebro, para depois se tornar fatal atacando as estruturas internas, comuns a outros animais, e que ficam bem abaixo da parte humana.

As outras situações que podem danificar o neocórtex e provocar inconsciência – pancada na cabeça, AVC, hemorragias cerebrais ou tumores – não são nem de perto tão eficientes quanto a bactéria da meningite para danificar a superfície do neocórtex e as estruturas mais profundas e primitivas do cérebro. Devido a tudo isso, a meningite bacteriana é indiscutivelmente a melhor doença que se pode encontrar para representar a morte de um corpo sem que, na verdade, ela tenha ocorrido – embora ela geralmente ocorra.

Apesar de esse fenômeno ser tão antigo quanto a humanidade, o termo “experiência de quase morte” só se tornou amplamente conhecido há poucos anos. Nos anos 1960, foram desenvolvidas novas técnicas que permitiram aos médicos ressuscitar pacientes que sofreram parada cardíaca. Pessoas que em outros tempos teriam morrido podiam agora ser trazidas de volta à vida. Sem saber, esses médicos estavam, por meio de seus esforços de resgate, produzindo uma espécie de viajantes extraterrenos: pessoas que enxergaram o que se esconde além do véu e voltaram para contar a história. Hoje elas já são milhões.

Depois, em 1975, um estudante de medicina chamado Raymond Moody publicou um livro intitulado A vida depois da vida, no qual descreveu a experiência sobrenatural de George Ritchie. Este homem havia “morrido” em consequência de um ataque cardíaco decorrente de complicações de uma pneumonia e ficara fora do corpo durante nove minutos. George Ritchie conta que atravessou um túnel, visitou regiões infernais e celestiais, encontrou-se com um ser iluminado que ele identificou como sendo Jesus e experimentou sentimentos de paz e bem-estar tão intensos que teve dificuldade de expressar em palavras. Com esse livro, a era moderna da experiência de quase morte havia nascido.

Embora soubesse da existência do livro de Moody, eu nunca o lera. E não precisava fazê-lo porque sabia, acima de tudo, que a ideia de que uma parada cardíaca levaria a algum tipo de situação de quase morte não fazia sentido. Grande parte da literatura sobre esse tipo de experiência diz respeito a pacientes cujo coração parou de funcionar por poucos minutos – em geral após um acidente ou na mesa de cirurgia. A teoria de que parada cardíaca equivale a morte está superada há 50 anos.

Muitos leigos ainda acreditam que se alguém retorna de uma parada cardíaca, essa pessoa “morreu” e voltou à vida. Porém a comunidade médica já transferiu há muito tempo a definição de morte para o cérebro, e não mais para o coração (desde que os critérios para a morte cerebral, baseados em exames neurológicos, foram estabelecidos em 1968). A parada cardíaca só é relevante para a morte propriamente dita quando tem efeitos sobre o cérebro. Em alguns segundos de parada cardíaca, a interrupção do fluxo de sangue para o cérebro leva a uma suspensão das atividades neurais auxiliares e à perda de consciência.

Há meio século, os cirurgiões param o coração por minutos ou por horas durante uma cirurgia cardíaca e até em neurocirurgias. Não ocorre nenhuma morte cerebral. Mesmo uma pessoa cujo coração para de bater no meio da rua pode ser poupada de dano cerebral se o esforço de ressuscitação cardiopulmonar começar em até quatro minutos e o coração puder ser reiniciado. Enquanto o sangue oxigenado circular pelo cérebro – e consequentemente por todo o corpo –, o cérebro ficará vivo, apesar da inconsciência temporária.

Esse conhecimento era tudo de que eu precisava para descartar o livro de Moody sem sequer tê-lo aberto. Mas agora, lendo as histórias que ele relatou, tendo como referência o que eu mesmo tinha passado, mudei completamente de perspectiva. Eu não tinha mais dúvida de que pelo menos algumas dessas pessoas haviam deixado o corpo físico. As semelhanças com o que eu vivenciei fora do meu corpo eram impressionantes.

As estruturas mais primitivas do meu cérebro continuaram a funcionar o tempo todo durante o coma. Mas a região do meu cérebro que os neurologistas dizem ser responsável pela minha parte humana havia sumido. Eu podia ver isso nas imagens, nos números do laboratório, nos exames neurológicos – em todos os dados recolhidos aquela semana no hospital. Então eu logo comecei a perceber que a minha experiência de quase morte era tecnicamente quase impecável, e talvez um dos casos mais convincentes na história moderna do fenômeno. O que mais importava no meu caso não era o que tinha acontecido comigo pessoalmente, mas a impossibilidade de afirmar – a partir do ponto de vista médico – que tudo não passava de fantasia.

Descrever uma EQM é um desafio, mas fazê-lo diante de uma comunidade médica que se recusa a acreditar que ela é possível torna a tarefa ainda mais árdua. Pela minha trajetória na neurociência e por minha própria experiência de quase morte, eu tinha agora uma oportunidade única de tornar o assunto mais convincente.