Uma prova do céu
Capítulo 12
O NÚCLEO, DE NOVO
Alguma coisa me puxou. Não como alguém puxando meu braço, mas algo mais sutil, menos físico. Foi um pouco como quando o sol se esconde atrás de uma nuvem e você sente seu humor mudar.
Eu estava saindo do centro daquele mundo. A escuridão brilhante se esvanecia na paisagem esverdeada do Portal. Olhando para baixo, vi de novo os moradores da cidade, as árvores, as cachoeiras e os rios cristalinos, e os seres angelicais voando em círculos acima de mim.
Minha companheira também estava lá. Ela ficou ao meu lado o tempo inteiro durante minha jornada pelo Núcleo, como uma esfera de luz. Mas agora ela assumia uma forma humana. Ela estava com o mesmo vestido bonito, e vê-la novamente me deu a sensação de ser uma criança perdida em uma grande cidade alienígena que, de repente, tomava um contorno conhecido. Que dádiva ela era! “Nós lhe mostraremos muitas coisas aqui. Mas, no fim, você irá voltar.” Essa mensagem, dita sem palavras na entrada para a escuridão do Núcleo, retornava para mim agora. E eu também entendia para onde eu ia.
Para a Região do Ponto de Vista da Minhoca, onde tinha começado a odisseia.
Mas o lugar estava diferente dessa vez. Penetrando de novo naquele abismo, com pleno conhecimento do que acontecia acima dele, eu não sentia mais a trepidação de quando ali estive pela primeira vez. Enquanto a música gloriosa do Portal aos poucos dava lugar às batidas ritimadas da região inferior, eu escutava e via essa realidade como um adulto vê um lugar assustador onde já esteve, só que dessa vez sem medo. As trevas e a negritude, os rostos que borbulhavam na sombra e desapareciam, as raízes vermelhas que desciam do alto não me causavam terror porque agora eu compreendia – da maneira sem palavras com que passei a compreender tudo ali – que não pertencia a esse lugar, mas que estava apenas o visitando.
Mas por que o visitava novamente?
A resposta veio da mesma forma instantânea e não verbal como acontecia no mundo reluzente lá em cima. Toda essa aventura, comecei a entender, era um tipo de excursão, um tipo de visão panorâmica do mundo invisível, o lado espiritual da existência. E como qualquer boa excursão, ela incluía todos os aspectos e todos os níveis.
De volta à região mais baixa, as excentricidades do tempo nesse mundo continuaram a surgir. Para se ter uma ideia do que estou falando, pense em como o tempo se descortina nos sonhos. Em um sonho, o “antes” e o “depois” são dimensões enganadoras. Podemos estar em uma parte do sonho e saber o que está para acontecer a seguir, mesmo sem ter acontecido ainda. Ali, o “tempo” era um pouco como isso – embora eu deva enfatizar que o que aconteceu comigo nada tem a ver com as confusões nebulosas dos sonhos e pesadelos terrenos, exceto nos estágios iniciais, quando eu ainda estava no mundo subterrâneo.
Por quanto tempo fiquei lá dessa vez? Não tenho ideia; não há como mensurá-lo. Mas sei que depois de voltar à região inferior, demorei para entender que, na verdade, eu tinha um certo controle sobre o meu percurso e não estava aprisionado nesse mundo inferior. Se me esforçasse, podia me transportar de volta para os planos superiores. Em algum ponto nesses abismos sombrios, me vi desejando que a Melodia Giratória retornasse. Depois de lutar para me lembrar das notas, a música extasiante e a esfera de luz giratória ocuparam minha consciência com sua grandiosidade. Elas irromperam, mais uma vez, pela lama gelatinosa – e eu comecei a subir.
No mundo de cima, aos poucos descobri que conhecer alguma coisa e pensar nela é tudo o que alguém precisa para se aproximar dela. Pensar na Melodia significava fazê-la aparecer, e desejar os mundos superiores me transportou até lá. Quanto mais habituado eu ficava com a esfera superior, mais fácil era retornar a ela. Durante o tempo que fiquei fora do corpo, executei várias vezes esse movimento de ida e volta das trevas lamacentas da Região do Ponto de Vista da Minhoca para o brilho esverdeado do Portal, e de lá para a escuridão santa do Núcleo. Quantas vezes? Não sei exatamente. Mas cada vez que eu acessava o Núcleo, ia mais fundo que antes, e aprendia mais lições daquela forma não verbal como tudo era ensinado nas dimensões acima desta.
Isso não quer dizer que eu via o Universo inteiro, seja na viagem original da Região do Ponto de Vista da Minhoca para o Núcleo ou nas viagens que vieram depois. Uma das verdades que eu aprendia no Núcleo, cada vez que retornava a ele, era que seria impossível entender tudo – fosse o lado físico/visível ou o lado espiritual/invisível do mundo. Isso sem falar dos incontáveis outros universos que existem ou que algum dia existiram.
Porém, nada disso era tão relevante porque eu já havia aprendido a única coisa que realmente importava – aquela mensagem transmitida pela minha companheira de asas de borboleta na primeira vez que passei pelo Portal:
Você é amado e valorizado imensamente, para sempre.
Não há nada a temer.
Não há nada que você possa fazer de errado.
Se eu tivesse que resumir toda essa mensagem em uma frase, ela seria:
Você é amado.
E se tivesse que enxugar ainda mais, para apenas uma palavra, ela seria simplesmente:
Amor.
O amor é, sem dúvida, a base de tudo. Não aquele amor abstrato, difícil de entender, mas o amor cotidiano que todo mundo conhece – o tipo de amor que sentimos quando olhamos para nosso companheiro, para nossos filhos e até para nossos animais de estimação. Na sua forma mais pura e poderosa, esse amor não é ciumento nem egoísta – ele é incondicional. Essa é a maior de todas as realidades, a gloriosa verdade que subsiste no centro de tudo o que existe. E nenhuma mínima compreensão de quem (ou do que) somos pode ser obtida por alguém que não inclua o amor em suas ações.
Um pouco longe do padrão científico? Não acho. Voltei daquele lugar, e nada poderá me convencer de que esta não é somente a verdade emocional mais importante no Universo, como também a verdade científica mais fundamental de todas.
Tenho falado muito sobre essa vivência que tive e encontrado várias pessoas que passaram pela experiência de quase morte ou que estudam o assunto. O termo amor incondicional provoca desconforto em muitas delas.
Entendo por que esse termo causa essa reação. Inúmeras outras pessoas já passaram pela mesma experiência que tive, mas, assim como eu, quando elas voltaram para o plano terreno, tinham apenas as palavras para expressar as lições que aprenderam e que estão muito além da linguagem. É como tentar escrever um romance usando apenas metade do alfabeto.
A principal dificuldade da maioria das pessoas que passam pela EQM não é se readaptar às limitações do mundo terreno – embora isso, com certeza, seja um desafio –, mas conseguir expressar o que o amor que experimentaram lá realmente significa.
Assim como a personagem Dorothy de O Mágico de Oz consegue voltar para casa, nós também podemos restabelecer nossa conexão com aquela região idílica. Nós nos esquecemos de nossa experiência porque o cérebro bloqueia aquele manancial cósmico, da mesma forma que a luz do sol impede a visão das estrelas durante o dia. Imagine como a nossa visão do Universo seria limitada se nunca tivéssemos visto o céu estrelado à noite.
Conseguimos ver apenas o que o filtro do cérebro permite. O cérebro – em particular o lado esquerdo, a parte lógica que gera a racionalidade e define o nosso ego – é uma barreira para experiências mais elevadas.
Acredito que estamos atravessando um momento crucial em nossa existência. Precisamos recuperar esse conhecimento mais amplo enquanto vivemos aqui na Terra, enquanto nosso cérebro está em pleno funcionamento. A ciência, a que me dediquei durante tanto tempo, não contradiz o que aprendi lá em cima. Mas muita gente acredita que sim, pois alguns membros da comunidade científica, presos à visão materialista do mundo, têm insistido cada vez mais que ciência e espiritualidade não podem coexistir.
Eles estão equivocados. Para tornar esse conhecimento acessível ao grande público é que escrevi este livro. Ele trata os demais aspectos de minha vida – o mistério de como contraí a doença, como consegui ficar consciente na outra dimensão e como me recuperei – de forma totalmente secundária.
Isso porque o amor incondicional e a aceitação que experimentei na viagem para o outro lado são, de longe, as mais importantes descobertas que já fiz. E por mais que eu saiba que vai ser difícil processar as outras lições que aprendi por lá, tenho noção também de que, no fundo do meu coração, compartilhar essa mensagem fundamental é a tarefa mais importante da minha existência.