Uma prova do céu
Capítulo 23
ÚLTIMA NOITE, PRIMEIRA MANHÃ
Antes de se sentar para conversar com o Dr. Wade, Holley pediu a Bond que esperasse fora da sala, porque não queria que o filho ouvisse as más notícias que ela temia. Percebendo isso, Bond colou o rosto na porta e captou algumas palavras do médico – o suficiente para compreender a real situação. Para compreender que seu pai não voltaria. Nunca.
Bond correu para o meu quarto e se jogou sobre minha cama. Em prantos, ele beijou minha testa e sacudiu meus ombros. Então, abriu meus olhos e disse diretamente para eles, que estavam desfocados e vazios:
– Você vai ficar bem, papai. Você vai ficar bem.
Ele ficou repetindo isso inúmeras vezes, acreditando, com seu jeito de criança, que se dissesse isso muitas vezes, com certeza se tornaria realidade.
Nesse meio-tempo, em uma sala no andar de baixo, Holley fitava o vazio, tentando assimilar as palavras do Dr. Wade.
Finalmente ela disse:
– Acho que isso significa que eu devo ligar para Eben e pedir que ele volte da faculdade.
– Creio que é a coisa certa a fazer – concordou o médico.
Holley observou pelas grandes janelas da sala de reunião que a chuva havia passado e que os raios oblíquos do sol nascente se debruçavam sobre as montanhas. Ela pegou o celular e começou a digitar o telefone de Eben.
Antes de Holley concluir a chamada, Sylvia se aproximou e disse:
– Holley, espere um pouco. Deixe eu dar um pulo lá em cima mais uma vez.
Sylvia disparou para a UTI e ficou em pé junto ao meu leito ao lado de Bond, enquanto ele acariciava minha mão. Sylvia tocou no meu braço e o apertou delicadamente. Minha cabeça pendia levemente para o lado. Durante a semana inteira, todos tinham olhado para o meu rosto, mas não nos meus olhos. A única vez que meus olhos se abriram foi quando os doutores testaram meu reflexo pupilar à luz (uma das maneiras mais simples e eficientes de checar a função do tronco encefálico), ou quando Holley ou Bond, contrariando as recomendações, insistiam em fazer isso e deparavam com dois olhos vidrados e sem vida, como os de uma boneca quebrada.
Mas, agora, quando Sylvia e Bond olhavam para minha face flácida, recusando-se resolutamente a aceitar o que tinham acabado de ouvir do chefe da equipe médica, uma coisa aconteceu.
Meus olhos se abriram.
Sylvia gritou.
Ela me diria mais tarde que o choque maior que teve em seguida, quase tão grande quanto o de ver meus olhos abertos, foi a maneira como eles imediatamente começaram a olhar em volta. Para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda... Eles lembravam não os olhos de um adulto emergindo de um coma de sete dias, mas os de um bebê – de alguém que acabava de chegar a este mundo, olhando em volta e observando tudo pela primeira vez.
De certa forma, ela estava certa.
Sylvia se recuperou do choque inicial e percebeu que eu estava incomodado com alguma coisa. Ela voou escada abaixo até a sala onde Holley, diante das janelas, conversava no celular com Eben IV.
– Holley... Holley! – gritou Sylvia. – Ele está acordado. Acordado! Diga a Eben que seu pai está voltando.
Holley olhou firme para Sylvia.
– Filho, eu ligo mais tarde. Ele está... seu pai está... voltando à vida.
Holley caminhou apressada para a UTI com Dr. Wade atrás dela. Eu estava me remexendo na cama. Não mecanicamente, mas de forma consciente, e alguma coisa me incomodava. O Dr. Wade entendeu imediatamente o que era: o tubo de respiração que ainda estava em minha garganta. E eu não precisava mais dele porque meu cérebro, assim como o restante do corpo, estava de volta à vida. Ele se aproximou e o retirou com cuidado.
Engasguei um pouco, respirei pela primeira vez sem ajuda de aparelhos em sete dias, e disse as primeiras palavras também depois de uma semana:
– Obrigado.
Phyllis ainda estava saboreando a visão do arco-íris, quando desceu do elevador no segundo andar, empurrado mamãe numa cadeira de rodas. Elas entraram no quarto e Phyllis quase caiu para trás com o impacto do que viu. Eu estava sentado na cama, comparando a perplexidade de todos com a minha. Betsy pulava e ao avistar Phyllis a abraçou forte. Ambas choravam. Phyllis se aproximou e olhou fundo em meus olhos.
Olhei fundo nos dela e nos de todos que estavam ali.
Quando minha família amada cercou a cama, ainda pasma com a melhora súbita e inexplicável, dei um sorriso tranquilo e feliz.
– Está tudo bem – falei, irradiando essa mensagem jubilosa na mesma intensidade das palavras. Fitei cada um deles, reconhecendo profundamente o milagre divino de nossa existência. – Não se preocupem, está tudo bem – repeti, a fim de dirimir qualquer dúvida.
Depois Phyllis me disse que era como se eu estivesse transmitindo uma mensagem do além, de que o mundo é como deve ser e que não temos nada a temer. Ela revelou que se lembrava daquele momento sempre que se sentia atormentada por alguma preocupação terrena – para encontrar consolo na certeza de que nunca estamos sozinhos.
Quando me dei conta do alvoroço ao meu redor, percebi que estava de volta à minha existência terrena.
– O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei.
– O que você está fazendo aqui? – replicou Phyllis.