Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 36 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 35

A FOTOGRAFIA

 

A gratidão não é somente a maior das virtudes,

mas a origem de todas as outras.

– Cícero (106-43 a.C.)

 

Quatro meses depois da minha saída do hospital, Kathy, minha irmã biológica, finalmente me enviou uma foto de Betsy, minha irmã que falecera. Eu estava no quarto, onde tudo começou, e abri o envelope que chegara pelos correios. Encontrei uma fotografia colorida da irmã que eu nunca havia conhecido. Ela estava no cais de Balboa Island, próximo de onde ela morava, com um belo pôr do sol ao fundo. Betsy tinha um longo cabelo castanho e olhos azuis bem profundos, e seu sorriso, que irradiava amor e bondade, pareceu me atingir em cheio, fazendo meu coração se inflamar e se condoer ao mesmo tempo.

Kathy prendeu na foto um poema escrito por David M. Romano, em 1993, que se intitulava “Quando o amanhã começar sem mim”.

Quando o amanhã começar sem mim,

E eu não estiver lá para ver,

Se o sol nascer e encontrar seus olhos

Cheios de lágrimas por mim,

Eu gostaria que você não chorasse

Da maneira que chorou hoje,

Enquanto pensava nas muitas coisas

Que deixamos de dizer.

Sei quanto você me ama,

E quanto amo você,

E cada vez que você pensa em mim,

Sei que sente a minha falta.

Mas quando o amanhã começar sem mim,

Por favor, tente entender

Que um anjo veio e chamou meu nome,

Tomou-me pela mão

E disse que meu lugar estava pronto

Nas moradas celestiais

E que eu tinha de deixar para trás

Todos os que eu tanto amava.

Mas quando me virei para ir embora

Uma lágrima escorreu-me pela face

Por toda a vida eu pensei

Que não queria morrer.

Eu tinha tanto para viver,

Tanta coisa por fazer,

E pareceu quase impossível

Que eu estivesse indo sem você.

Pensei em nossos dias passados,

Nos dias bons e nos dias ruins,

Em todo o amor que vivemos,

Em toda a alegria que tivemos.

Se eu pudesse reviver o ontem

Ainda que só por um instante,

Eu diria adeus e lhe daria um beijo

E talvez visse você sorrir.

Só então descobri

Que isso não aconteceria,

Pois o vazio e as lembranças

Ocupariam meu lugar.

Quando pensei nas coisas deste mundo

Vi que posso não voltar amanhã,

Então pensei em você

E meu coração se encheu de dor.

Mas quando cruzei os portões do céu

Eu me senti em casa

Quando Deus olhou para mim e sorriu

De seu grande trono dourado,

Ele disse: “Isto é a eternidade

E tudo o que lhe prometi.

Agora sua vida na Terra é passado

Mas aqui uma vida nova começa.

Eu prometo que não haverá amanhã,

Mas que o hoje durará para sempre.

E como todos os dias serão iguais,

Não haverá saudades do passado.

Você foi tão fiel

Tão confiável e verdadeiro,

Embora tivesse feito coisas

Que sabia que não deveria.

Mas você foi perdoado

E agora finalmente está livre.

Então que tal me dar a mão

E compartilhar da minha vida?”

Logo, quando o amanhã começar sem mim,

Não pense que estamos separados,

Pois todas as vezes que pensar em mim,

Eu estarei dentro do coração.

Meus olhos estavam turvos quando coloquei a foto cuidadosamente na penteadeira de Holley e continuei a contemplá-la. Betsy me parecia assombrosamente familiar. E é claro que éramos parecidos, afinal, éramos irmãos de sangue e compartilhávamos mais DNA entre nós do que com qualquer outra pessoa no planeta, exceto com nossas duas outras irmãs biológicas. Mesmo sem jamais termos nos encontrado, Betsy e eu estávamos profundamente ligados.

Na manhã seguinte, eu estava em meu quarto lendo A morte: um amanhecer, de Elisabeth Kübler-Ross, quando encontrei a história de uma menina de 12 anos que passou pela EQM e, a princípio, não contou a seus pais. Com o tempo, ela não aguentou mais guardar esse segredo e revelou suas experiências ao pai. Ela contou que viajou por uma paisagem incrível repleta de amor e beleza e que foi acolhida e consolada por seu irmão. “O único problema é que eu não tenho um irmão”, disse ela.

Então seu pai começou a chorar. E confessou que ela teve, sim, um irmão, mas que ele morrera três meses antes de ela ter nascido.

Interrompi a leitura. Por um instante, fui transportado para um espaço deslumbrante e estranho, onde não pensava em nada, apenas absorvia alguma coisa... Algum pensamento que estava na margem da minha consciência, mas que não tinha irrompido.

Então meus olhos viajaram para a estante e para a foto que Kathy tinha me mandado. A foto da irmã que eu nunca conhecera. A quem eu conhecia apenas pelas histórias que minha família biológica contara, sobre como ela havia sido uma pessoa imensamente bondosa e carinhosa. Uma pessoa tão especial que mais parecia um anjo.

Sem o vestido azul-anil, sem a luz celestial do Portal que a circundava enquanto ela se sentava sobre as belas asas de borboleta, não era fácil reconhecê-la de primeira. Mas isso era normal. Eu tinha visto seu “eu celestial”– aquele que vive acima deste domínio terreno.

Mas agora não havia dúvidas. Aquele riso amoroso, o semblante infinitamente calmo e confortador, os olhos azuis radiantes.

Era ela.

Por um instante, os dois mundos se encontraram. O meu mundo aqui na Terra, onde eu era médico, pai e marido. E o meu mundo lá fora – um mundo tão amplo que se você viaja nele perde sua identidade terrena e se torna uma parte integrante do cosmos, daquela escuridão encharcada de Deus e repleta de amor.

Naquele momento, no meu quarto, em uma manhã chuvosa de terça-feira, os mundos mais elevado e mais baixo se uniram. Ver aquela foto me fez sentir como o menino de um conto de fadas que viaja para outra dimensão e, quando retorna, conclui que tudo não passou de um sonho – até descobrir em seu bolso um punhado cintilante de terra mágica do longínquo reino onde estivera.

Quanto mais eu tentava negar isso, mais o conflito crescia dentro de mim. Era uma luta entre a parte da minha mente que tinha estado fora do corpo e o médico curador que passara a vida se dedicando à ciência. Eu olhava para o rosto da minha irmã e do meu anjo e sabia – agora eu sabia – que ambos eram a mesma pessoa. Eu precisava retomar o meu papel como cientista, mas também precisava abraçar meu papel como sujeito de uma jornada extraordinária, muito importante e muito real, para perto de Deus. E isso não era importante por minha causa, mas por causa dos detalhes convincentes e desconcertantes que estavam por trás da experiência. A EQM tinha curado minha alma partida. Ela me fez ter certeza de que sempre fui amado e me mostrou que absolutamente todos no Universo também são. E tudo tinha acontecido enquanto meu corpo físico estava em um estado no qual, pelos parâmetros da medicina, teria sido impossível experimentar qualquer coisa.

Sei que haverá pessoas que desejarão invalidar minha experiência e que muitos simplesmente a descartarão por se recusarem a aceitar que minha história tenha algum valor “científico” – que seja alguma coisa mais do que um sonho febril e delirante.

Mas eu enxergo além. E tanto para o bem dos que estão aqui na Terra quanto daqueles que encontrei na outra dimensão, vejo isso como meu trabalho – como cientista, e, portanto, um buscador da verdade, e como médico devotado a ajudar e curar – para que o maior número possível de pessoas saiba que o que experimentei fora do corpo é verdadeiro, real e transformador. Não apenas para mim, mas para todos nós.

A minha jornada não foi só sobre o amor, mas foi também sobre quem somos, sobre como estamos todos conectados e sobre o sentido da existência. Aprendi quem eu era quando estive lá e, ao voltar, descobri que os últimos elos perdidos sobre quem eu era foram encontrados.

Você é amado. Essas eram as palavras que eu precisava ouvir quase como um órfão, como uma criança que fora abandonada. Mas é também o que todos nós necessitamos escutar, porque em se tratando de quem realmente somos, de onde realmente viemos e de para onde realmente vamos, todos nos sentimos (equivocadamente) como órfãos. Sem recuperar a memória de nossa ampla conexão e do amor incondicional do Criador, sempre nos sentiremos perdidos nesta terra.

Portanto, aqui estou. Ainda sou cientista, ainda sou médico e, como tal, tenho duas obrigações essenciais: honrar a verdade e ajudar a curar. Isso significa contar a minha história. Uma história que, à medida que o tempo passa, tenho mais certeza de que aconteceu por uma razão. Não porque eu seja alguém especial, mas apenas porque eu reunia duas realidades conflitantes. Juntas, no entanto, elas confrontam as últimas tentativas da ciência de dizer ao mundo que a dimensão material é a única que existe e que a consciência ou espírito não é o principal mistério do Universo.

Eu sou uma prova viva desse grande mistério.