Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 20 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 19

SEM LUGAR PARA SE ESCONDER

 

Na sexta-feira, meu corpo já passara quatro dias inteiros recebendo três antibióticos intravenosos, mas ainda não estava reagindo. Familiares e amigos vinham de todos os lugares, e os que não apareciam formavam grupos de oração em suas igrejas. Minha cunhada Peggy e Sylvia chegaram naquela tarde. Holley as recebeu com a expressão mais animada que pôde exibir. Betsy e Phyllis continuavam a usar a tática do ele-vai-ficar-bom e manter-se positivas a todo custo. Mas a cada dia isso ficava mais difícil. Até Betsy começou a pensar se a sua ordem de não negatividade no quarto significava algo além de não realidade no quarto.

– Você acha que Eben faria isso por nós se os papéis estivessem invertidos? – perguntou Phyllis naquela manhã, após outra longa noite maldormida.

– O que você quer dizer com isso? – retrucou Betsy.

– Você acha que ele passaria todos os minutos conosco, acampado numa UTI?

Betsy respondeu da forma mais simples e linda, devolvendo a pergunta:

– Há algum outro lugar do mundo onde você estaria agora?

Ambas concordaram que, embora eu certamente estivesse presente quando necessário, seria difícil me imaginar sentado no mesmo lugar por horas a fio. Phyllis me falou sobre isso mais tarde:

– Nós nunca sentimos aquilo como um fardo ou uma obrigação. Aquele era o nosso lugar.

O que mais preocupava Sylvia era que minhas mãos e meus pés estavam se curvando, como plantas sem água. Isso é normal nas vítimas de derrame e coma, pois os músculos que comandam as extremidades começam a se contrair. Mas nunca é fácil para a família e os amigos presenciarem isso. Ao me ver naquele estado, Sylvia lutava para se manter otimista, mas mesmo para ela isso estava ficando difícil.

Holley se culpava cada vez mais (se tivesse me socorrido mais cedo, se isso, se aquilo...) e todos faziam o possível para tirar essas coisas da cabeça dela.

Àquela altura, todos sabiam que, mesmo que eu me recuperasse, recuperação não era uma palavra muito adequada naquele contexto. Eu precisaria de pelo menos três meses de reabilitação, teria problemas crônicos de fala (se tivesse capacidade cerebral suficiente para falar alguma coisa) e precisaria de cuidados de enfermeiras pelo resto da vida. Este era o melhor dos cenários, e por mais triste e pessimista que parecesse, ainda assim todos sonhavam com ele. As chances de eu voltar a ter uma boa condição física, se sobrevivesse, eram praticamente nulas.

Todos tentavam preservar Bond para que ele não ouvisse os detalhes de minha situação. Mas, na sexta-feira, ele presenciou um dos médicos confirmando as suspeitas de Holley a respeito da gravidade do quadro.

Estava na hora de encarar a realidade. Havia pouco espaço para a esperança.

Naquela noite, quando chegou a hora de ir para casa, Bond se recusou a deixar meu quarto. A regra era permitir apenas duas pessoas de cada vez para que os profissionais pudessem trabalhar. Por volta de seis da tarde, Holley sugeriu delicadamente que estava na hora de ir para casa jantar. Mas Bond não se levantou da cadeira, que estava ao lado do seu desenho da batalha entre os glóbulos brancos defensores e as tropas de bactérias invasoras.

– De qualquer forma, papai não sabe que estou aqui. Por que não posso ficar? – argumentou Bond, em um tom meio amargo e meio suplicante.

Então todos se revezaram pelo resto da noite, mas respeitando o desejo de Bond de permanecer firme em seu lugar.

Porém, no dia seguinte, Bond mudou de postura. Pela primeira vez naquela semana, quando Holley entrou no seu quarto para acordá-lo, ele disse que não queria ir ao hospital.

– Por que não, filho?

– Porque estou com medo.

Foi uma confissão que parece ter falado por todos.

Holley voltou para a cozinha e ficou lá por alguns minutos. Depois tentou de novo, perguntando se ele tinha certeza de que não queria ir ver seu papai.

Houve uma longa pausa enquanto fitava a mãe.

– Tudo bem, eu vou – concordou ele, finalmente.

O sábado passou com a vigília em torno do meu leito e conversas entre a família e a equipe médica. Tudo aquilo parecia uma tentativa de manter viva a esperança. As reservas de todos estavam ainda mais esgotadas que no dia anterior.

À noite, depois de levar a nossa mãe para o hotel, Phyllis foi até minha casa. Estava um breu, sem nenhuma luz na janela, e ela avançou pela calçada enlameada com dificuldade para se manter de pé. Chovia sem parar havia cinco dias, desde a tarde de minha entrada na UTI. Chuvas ininterruptas como aquela não eram comuns na região montanhosa da Virgínia, onde o mês de novembro costuma ser claro e ensolarado, como no domingo anterior à minha crise. Agora, aquele domingo parecia tão distante que a impressão era que o céu sempre tinha mandado aquela chuva teimosa. Algum dia ela cessaria?

Phyllis abriu a porta e acendeu as luzes. Desde o começo da semana as pessoas entravam e deixavam comida, e embora a comida ainda estivesse chegando, a atmosfera se tornara sombria e desesperadora. Nossos amigos, assim como nossa família, sabiam que o tempo de qualquer esperança de sobrevivência para mim estava chegando ao fim.

Por um segundo, Phyllis pensou em acender a lareira, mas logo esse pensamento deu lugar a outro, nem um pouco bem-vindo. Por que me preocupar? De repente, ela se sentiu mais exausta e deprimida do que nunca. Deixou-se cair no sofá, recostou-se e mergulhou em sono profundo.

Cerca de meia hora depois, Sylvia e Peggy voltaram para casa. Andando na ponta dos pés pela sala para não acordar ninguém, depararam com Phyllis estirada no sofá. Sylvia foi até o porão e descobriu que alguém tinha deixado a porta do freezer aberta. A água já formava poças no chão e a comida começava a descongelar.

Quando Sylvia contou para Peggy, elas decidiram agir. Ligaram para o restante da família e alguns amigos e puseram mãos à obra. Peggy pegou pratos e talheres e improvisaram um banquete com a comida que estivera na geladeira. A filha de Betsy, Kate, e o marido dela, Robbie, aderiram à reunião de família, junto com Bond. Houve muita conversa nervosa e muita especulação sobre o assunto que preocupava a todos naquele momento: que eu provavelmente nunca voltaria àquela casa.

Holley ainda estava no hospital para continuar a interminável vigília. Sentada junto ao meu leito, ela segurava minha mão e ficava repetindo os mantras sugeridos por Susan Reintjes, obrigando-se a pensar no significado das palavras enquanto as pronunciava e a acreditar de coração que elas expressavam a verdade.

“Receba as orações.

Você curou outras pessoas. Agora é a sua vez de ser curado.

Você é amado por muita gente.

Seu corpo sabe o que fazer. Ainda não é a sua hora de morrer.”