Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 12 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 11

O FIM DO TORMENTO

 

Nos sete anos que se seguiram, minha profissão e minha vida familiar continuaram a padecer. Por muito tempo, as pessoas à minha volta – até as mais próximas – não tiveram certeza da causa do problema. Mas, aos poucos, pelas observações que eu fazia de vez em quando, Holley e minhas irmãs juntaram as peças do quebra-cabeça.

Até que, em uma caminhada matinal na praia, durante as férias da família em julho de 2007, Betsy e Phyllis trouxeram o assunto à tona.

– Você já pensou em escrever outra carta para sua família biológica? – perguntou Phyllis.

Besty reforçou a sugestão:

– Sim, porque depois de tanto tempo as coisas podem ter mudado. Nunca se sabe...

Como Betsy estava pensando em adotar uma criança, não fiquei inteiramente surpreso quando o assunto surgiu. Ainda assim, minha resposta imediata foi:

– Não! De novo, não!

Eu me lembrei do abismo que se abrira sob os meus pés depois da rejeição que sofrera sete anos antes. Mas, no fundo, eu sabia que a intenção de Betsy e Phyllis era a melhor possível. Minhas irmãs sabiam que eu estava sofrendo e, como finalmente tinham descoberto o motivo, queriam que eu enfrentasse o problema e tentasse resolvê-lo. Elas me asseguraram que permaneceriam ao meu lado nessa empreitada, que eu não estaria sozinho como nas outras vezes: a partir daquele momento seríamos uma equipe.

Então, no início de agosto de 2007, escrevi uma carta anônima para minha irmã biológica e a enviei para Betty na Sociedade Lar das Crianças da Carolina do Norte.

Querida irmã,

Eu gostaria de me comunicar com você, nosso irmão e nossos pais.

Depois de uma longa conversa com a minha família adotiva, eles

apoiaram meu desejo de saber mais sobre a minha família biológica.

Meus dois filhos, de 9 e 19 anos, estão curiosos para saber mais sobre

sua família de sangue. Nós três e minha esposa ficaremos gratos por

qualquer informação que você se sinta à vontade para compartilhar.

Quanto a mim, queria saber sobre a vida de meus pais desde quando eram

jovens até hoje. Que tipo de interesses e personalidades vocês têm?

Como todos nós estamos envelhecendo, minha esperança é encontrá-

los em breve. As providências podem ser tomadas de comum acordo. Por

favor, saiba que eu respeito muito o grau de privacidade que eles querem

manter. Tive uma família adotiva maravilhosa e compreendo a decisão

que meus pais biológicos tomaram na juventude. Meu interesse é sincero

e respeitarei quaisquer limites que eles considerem necessário.

Agradeço profundamente a sua atenção. Atenciosamente,

Seu irmão mais velho

Algumas semanas depois, recebi uma carta da Sociedade Lar das Crianças. Era da minha irmã biológica.

“Sim, nós adoraríamos conhecê-lo”, ela escreveu. A lei estadual da Carolina do Norte lhe proibia de me passar qualquer informação que os identificasse, mas, driblando esse procedimento, ela forneceu as primeiras pistas sobre a família que eu nunca conhecera.

Quando ela relatou que meu pai biológico havia sido um paraquedista no Vietnã, isso me surpreendeu: não era por acaso, então, que sempre gostei de saltar de aviões e voar. Meu pai também fez treinamento para astronauta na Nasa durante as missões Apollo nos anos 1960 (cheguei a pensar em me candidatar às missões dos ônibus espaciais em 1983). Além disso, ele foi piloto comercial, tendo trabalhado na Pan Am e na Delta.

Em outubro de 2007, finalmente encontrei meus pais biológicos, Ann e Richard, e meus irmãos Kathy e David.

Ann me contou a história toda. Em 1953, ela passou três meses em uma instituição para grávidas solteiras que funcionava nas dependências de um hospital. Aos 16 anos, ela era a garota mais nova na instituição.

Seu pai (meu avô) havia tentado de tudo para ajudá-la quando soube de sua situação. Mas ele estava desempregado, e levar um bebê para casa seria uma grande sobrecarga financeira, fora todos os outros problemas. Um amigo dele chegou a mencionar um médico que poderia “dar um jeito nisso”. Mas a mãe de Ann (minha avó) não concordou com o aborto.

Ann me disse que, naquela noite gelada de dezembro, ela olhara para as estrelas brilhando sobre os ventos ruidosos do inverno, atravessara as ruas vazias na companhia apenas das nuvens baixas. Ela só queria estar sozinha com a lua, as estrelas e seu filhinho prestes a nascer: eu.

– A lua crescente se insinuava e o planeta Júpiter, muito brilhante, nos observava do alto. Richard gostava de ciência e astronomia, e ele me disse que Júpiter estava em oposição naquela noite, e que só voltaria a brilhar assim dali a 9 anos. Naquele momento, eu só pensava em como o Rei dos Planetas apareceu de forma tão linda, nos observando lá do alto – disse-me ela.

Quando Ann entrou no corredor do hospital onde ficava sua instituição, um pensamento tomou conta dela. As garotas normalmente permaneciam ali por duas semanas depois do parto, e só então voltavam para casa a fim de recomeçar suas vidas. Se ela de fato desse à luz naquela noite, como tudo indicava, e se realmente a liberassem em duas semanas, ela e eu estaríamos em casa para o Natal. Que milagre seria: levar-me para casa no dia de Natal!

Ann me contou que quando chegou ao hospital, o Dr. Crawford tinha acabado de fazer um parto e parecia muito cansado. Mesmo assim, por causa de suas contrações, ele a conduziu à sala de parto e deu-lhe um sedativo para amenizar as dores. Então, às 2h42 da madrugada, depois de um último e grande movimento de expulsão, ela deu à luz seu primeiro filho.

No seu relato emocionado, minha mãe biológica revelou que tudo o que ela queria era me envolver em seus braços, e que jamais esqueceria o som do meu choro – até que a fadiga e os anestésicos finalmente a apagaram.

Nas quatro horas seguintes, primeiro Marte, depois Saturno e Mercúrio, e por fim o brilhante Vênus apareceram no céu para saudar minha chegada a este mundo. Enquanto isso, Ann dormia mais profundamente do que havia feito durante muitos meses.

A enfermeira a acordou ao nascer do dia:

– Eu tenho alguém para lhe apresentar.

E me levou envolvido em uma manta azul para que minha mãe admirasse.

Continuando seu relato, Ann me disse que as enfermeiras consideravam o seu bebê o mais bonito do berçário, e ela explodia de orgulho.

Por mais que Ann quisesse me manter ao seu lado, a realidade acabou se impondo. Richard sonhava em terminar a faculdade, mas esse sonho não me garantiria comida. Talvez eu tenha percebido o sofrimento de Ann, pois logo parei de me alimentar. Com 11 dias de vida, fui hospitalizado porque “não estava conseguindo crescer”, e meu primeiro Natal e os nove dias seguintes foram passados em uma incubadora no hospital.

Quando fui internado, Ann voltou à sua cidade para passar o Natal com seus pais, irmãs e amigas, a quem não via há três meses.

Minha trajetória longe de minha mãe já estava começando a ser traçada. Voltei a me alimentar. Quando Ann telefonou para o hospital depois do Ano-Novo, disseram-lhe que o bebê havia sido mandado para a Sociedade Lar das Crianças.

– Como? Isso não é justo! – conseguiu protestar, na sua insegurança de adolescente.

Passei os primeiros três meses de 1954 morando num dormitório junto com vários outros bebês cujas mães também não podiam sustentá-los. Meu berço ficava no segundo andar de uma mansão vitoriana que tinha sido doada para a Sociedade.

Nos meses que se seguiram, Ann fez várias viagens de ônibus para me visitar, sempre planejando me levar embora com ela. Uma vez foi até lá com a mãe e outra com Richard (mas as enfermeiras só deixaram que ele me visse através do vidro – não permitiriam que meu pai entrasse em meu quarto e muito menos que me pegasse no colo).

Lá pelo final de março, ficou claro para Ann que as coisas não estavam caminhando como ela queria. Ela teria que desistir de mim. Mesmo assim, foi até lá mais uma vez.

– Eu precisava segurá-lo nos braços, olhar nos seus olhos e tentar explicar tudo – disse ela. – Eu sabia que você não entenderia nada, que apenas me fitaria com aquela inocência infantil, mas senti que lhe devia uma explicação pelo que estava acontecendo. Então eu o abracei pela última vez, beijei seu rosto e o acariciei suavemente. Lembro-me de inalar profundamente seu cheirinho de bebê recém-saído do banho.

Ann fez uma pausa e depois continuou:

– Olhei para você e disse: “Eu te amo muito, meu filho, tanto que você jamais saberá. E vou amá-lo para sempre, até o fim dos meus dias.”

Ela me contou que fez uma oração a Deus, pedindo que eu soubesse que era amado. Mas não tinha como saber se a sua oração seria atendida, pois não voltaria a ter contato comigo. A adoção envolvia sigilo absoluto, e às vezes até o nome e a data de nascimento do bebê eram alterados para que não fosse possível rastrear suas origens.

– Eu lhe dei um último beijo e o coloquei cuidadosamente no berço. Cobri você com sua manta azul e olhei mais uma vez dentro de seus lindos olhos azuis. Sussurrei em seu ouvido “Adeus Richard Michael. Eu te amo”. Essas foram minhas últimas palavras para você, por pelo menos meio século.

Ann e Richard acabaram se casando e tiveram outros filhos. Mas ela foi sendo tomada por um desejo crescente de saber o que teria me acontecido. Meu pai era piloto, mas também se formou em direito, e minha mãe pediu-lhe que descobrisse minha nova identidade. No entanto, ele não quis romper o acordo de adoção e não levou o assunto adiante.

No começo da década de 1970, durante a guerra do Vietnã, Ann não conseguia tirar da cabeça a data do meu nascimento. Eu faria 19 anos em dezembro de 1972. Teria eu ido para a guerra? Em caso positivo, o que teria acontecido comigo lá? De fato, eu até pensei em me alistar nos Fuzileiros Navais para poder voar, mas, em vez disso, continuei estudando. Só que Ann não sabia disso, claro. Na primavera de 1973, meus pais assistiram pela TV aos prisioneiros de guerra desembarcando de aviões militares, e ficaram desolados quando deram falta de mais da metade dos amigos pilotos de Richard. Ann começou a acreditar que eu também tinha sido morto na guerra. Ela certamente se surpreenderia se soubesse que, naquela época, eu estava a apenas alguns quilômetros de sua casa em Chapel Hill.

No verão de 2008, conheci meu pai biológico, seu irmão Bob e um cunhado dele, também chamado Bob. Todos esses encontros marcaram o fim da era que chamei de “Anos do Não Saber” – um tempo marcado por uma dor terrível que, soube mais tarde, era igual à que eles sentiam em relação a mim.

Houve apenas uma ferida que não seria cicatrizada: a morte, em 1998, de minha irmã biológica Betsy (sim, ela tinha o mesmo nome de uma de minhas irmãs na família adotiva, e as duas se casaram com homens chamados Rob, mas isso é outra história). Todos me contaram que ela era uma pessoa com um coração enorme. Quando não estava trabalhando no centro de atendimento a mulheres que sofrem violência sexual, onde passava a maior parte de seu tempo, Betsy cuidava de cães e gatos recolhidos na rua. Ann a definia como um verdadeiro anjo.

Betsy teve problemas com álcool assim como eu, e saber de sua morte me fez perceber como tive sorte por ter conseguido dar a volta por cima. Queria ter conhecido minha irmã, tentado ajudá-la, dito a ela que as feridas podem ser curadas e que tudo terminaria bem.

Estranhamente, ao encontrar minha família de sangue, pela primeira vez na vida senti que as coisas realmente estavam bem. Família é importante, e eu tinha uma parte da minha de volta. Foi quando descobri que o conhecimento de suas origens tem o poder de curar sua vida de maneira inesperada. Saber de onde vim, conhecer minhas origens biológicas, me permitiu enxergar – e aceitar – coisas que nunca imaginei ser capaz de entender. Ao encontrá-los, pude finalmente me livrar da ideia perturbadora de que eu não tinha sido amado pela minha família de sangue. Essa suspeita me levou a acreditar, por muitos anos, que eu não merecia ser amado e nem mesmo existir. Descobrir que eu tinha sido amado desde o comecinho da vida deflagrou um processo de cura interior de proporções inimagináveis. Comecei a experimentar uma sensação de completude que nunca havia vivenciado.

A segunda descoberta que faria tinha a ver com a pergunta que fiz naquela tarde chuvosa no carro, ao lado de Eben – se realmente existia um Deus amoroso que se importava conosco. Na minha cabeça, a resposta ainda era não.

Foi necessário que eu passasse sete dias em coma para rever essa questão. E descobrir uma resposta completamente surpreendente para isso também.