Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 3 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 2

O HOSPITAL

 

Osetor de emergência do Hospital Geral de Lynchburg é o segundo mais cheio do estado da Virgínia e costuma estar em pleno vapor por volta das nove e meia da manhã de um dia de semana. Naquela segunda-feira não foi diferente. Embora passasse a maior parte dos dias úteis em Charlottesville, eu realizava muitas cirurgias no hospital de Lynchburg e conhecia praticamente todo mundo por lá.

Laura Potter, uma plantonista de emergência com quem trabalhei por quase dois anos, recebeu um aviso da ambulância de que um homem branco de 55 anos, em estado convulsivo, estava prestes a chegar ao hospital. Depois de tomar as providências para receber o paciente, ela foi verificar a lista das possíveis causas deste quadro: síndrome de abstinência alcoólica, overdose de drogas, hiponatremia (baixa anormal do nível de sódio no sangue), acidente vascular cerebral, metástase ou tumor no cérebro, hemorragia intraparenquimatosa (ruptura dos vasos sanguíneos intercerebrais), abscesso cerebral e meningite.

Quando os enfermeiros me transportaram de maca para a sala de atendimento da emergência, eu apresentava convulsões violentas, com braços e pernas descontrolados, e gemia incessantemente.

Pela maneira como eu delirava e me debatia, ficou claro para a Dra. Potter que o meu cérebro havia sofrido um ataque bem grave. Uma enfermeira trouxe um carrinho com equipamento de reanimação, outra colheu meu sangue, e uma terceira repôs o frasco de solução intravenosa que os paramédicos haviam me aplicado lá em casa antes de me transportarem para a ambulância. Quando começaram a trabalhar em mim, eu me contorcia como um enorme peixe fora d’água. Eu emitia grunhidos incompreensíveis e gania como um animal. Os movimentos descontrolados do meu corpo eram tão preocupantes quanto a convulsão. Isso poderia significar não apenas que o meu cérebro estava sofrendo um ataque como também que uma lesão cerebral possivelmente irreversível estava a caminho.

A visão de qualquer paciente nesse estado assusta a maioria dos profissionais, mas Laura já tinha visto quadros semelhantes em seus muitos anos na emergência. O que ela nunca tinha visto, no entanto, era um de seus colegas médicos chegar ao hospital nessas condições. Quando observou mais de perto o paciente se contorcendo naquela maca, ela sussurrou quase para si mesma:

– Eben.

Depois, em alto e bom som, alertando os outros médicos e enfermeiras do setor, ela exclamou, apreensiva:

– Este é Eben Alexander!

Os profissionais que a ouviram se aproximaram rapidamente da maca. Holley, que seguiu a ambulância, se juntou esbaforida, e Laura aproveitou para fazer as perguntas de praxe sobre as causas prováveis para alguém chegar àquele estado. Estaria eu em abstinência alcoólica? Teria usado alguma droga alucinógena? Então, ela pôs mãos à obra tentando reverter aquele quadro.

Nos meses anteriores a esse episódio, meu filho Eben IV me incluíra em um rigoroso programa de condicionamento físico para um projeto de “escalada pai e filho” ao monte Cotopaxi, um pico de quase 6 mil metros de altitude no Equador, que ele havia escalado em fevereiro. O treinamento aumentou consideravelmente minha massa muscular, o que dificultou bastante o trabalho dos médicos e enfermeiros para me segurar. Cinco minutos e 15 miligramas de diazepan intravenoso mais tarde, eu ainda estava delirando e tentando lutar contra quem quisesse me conter, mas, para alívio da Dra. Potter, pelo menos agora eu estava lutando com os dois lados do corpo.

Holley contou a Laura sobre a dor de cabeça que senti antes de ter a crise, o que levou a médica a realizar uma punção lombar – procedimento no qual uma pequena quantidade de líquido cefalorraquidiano é extraída da base da coluna.

O líquido cefalorraquidiano ou liquor é uma substância clara e aquosa que existe no canal medular e que reveste o cérebro, protegendo-o contra impactos. Um corpo humano normal e saudável produz cerca de 470 ml de liquor por dia, e qualquer alteração em sua claridade indica a existência de uma infecção ou hemorragia.

Essa infecção é chamada de meningite: a inflamação das meninges, as membranas que revestem o encéfalo e a medula espinhal e que estão em contato direto com o liquor. De cada cinco casos, quatro são causados por vírus. A meningite viral pode deixar um paciente em estado grave, mas é fatal em apenas 1% dos casos. Em um de cada cinco casos, portanto, o agente causador da doença é uma bactéria, não um vírus. Por serem mais primitivas do que os vírus, as bactérias podem ser um inimigo mais perigoso. Casos de meningite bacteriana, se não forem tratados a tempo, geralmente são fatais. E mesmo quando tratados de imediato com os antibióticos certos, a taxa de mortalidade oscila entre 15% e 40%.

Uma das bactérias que mais raramente provocam meningite em adultos é a muito antiga e agressiva Escherichia coli – conhecida também como E. coli. Ninguém sabe precisamente quão antiga ela é, mas as estimativas apontam para entre 3 e 4 bilhões de anos. Trata-se de um microorganismo anucleado que se reproduz pelo processo primitivo, porém muito eficiente, conhecido como fissão binária (em outras palavras, pela divisão em dois). Imagine uma célula preenchida com DNA que pode receber nutrientes (em geral de outras células que ela ataca e absorve) diretamente por meio de sua parede celular. Agora, imagine que ela pode, ao mesmo tempo, copiar seu DNA e dividi-lo em duas células-filhas a cada 20 minutos. Em uma hora haveria 8 delas. Em 12 horas, 69 bilhões. Por volta da 15a hora, seriam 35 trilhões. Esse crescimento explosivo só desacelera quando seu alimento começa a se esgotar.

As bactérias E. coli também são altamente promíscuas. Elas podem trocar genes com outras espécies de bactérias por meio de um processo chamado conjugação bacteriana, que permite que uma E. coli assuma rapidamente novas características (como resistência a um antibiótico) quando necessário. Tal fórmula básica de sucesso tem mantido essa bactéria no planeta desde os primórdios da vida unicelular. Todos nós temos bactérias E. coli vivendo em nosso corpo, geralmente no trato gastrointestinal. Sob circunstâncias normais, isso não nos ameaça. Porém, quando variedades de E. coli que adquiriram moléculas de DNA que as tornam particularmente agressivas invadem o liquor em torno da medula espinhal e do cérebro, essas bactérias começam de imediato a devorar a glicose no liquor e em tudo o mais que estiver disponível para consumo, inclusive o próprio cérebro.

Ninguém naquela sala de emergência pensou que eu tivesse contraído meningite E. coli. Não havia razão para suspeitar disso. A doença é raríssima em adultos. Os recém-nascidos são as vítimas mais comuns, mas casos de bebês com mais de três meses de vida contraindo esse tipo de meningite são muito poucos. Menos de um em cada 10 milhões de adultos é afetado pela doença por ano.

Nos casos de meningite bacteriana, a bactéria ataca primeiro a camada externa do cérebro, o córtex. Esta palavra deriva do termo latino cortex, que significa “casca” ou “coberta”. A laranja é um bom exemplo de como o córtex envolve os elementos mais primitivos do cérebro. O córtex é responsável pela memória, linguagem, emoção, consciência visual e auditiva, e pela lógica. Logo, quando um organismo como a E. coli ataca o cérebro, o dano inicial acontece nas áreas que executam as funções mais cruciais para a manutenção de nossas faculdades humanas.

Muitas vítimas de meningite bacteriana morrem nos primeiros dias da infecção. Daqueles que chegam numa emergência de hospital com uma rápida espiral descendente da função neurológica – como aconteceu comigo –, somente 10% têm a sorte de escapar com vida. Entretanto é uma sorte limitada, porque muitos deles passarão o resto de seus dias em estado vegetativo.

Ainda que não tenha suspeitado de meningite bacteriana, a Dra. Potter intuiu que eu tivesse algum tipo de infecção cerebral, e foi por isso que decidiu fazer uma punção lombar. No momento em que ela pedia a uma das enfermeiras que lhe trouxesse o material e me preparava para o procedimento, meu corpo se agitou como se a maca tivesse sido eletrificada. Com um novo sopro de energia, soltei um longo e agonizante gemido, arqueei as costas e meus braços se debateram no ar. Meu rosto estava vermelho e as veias do pescoço ficaram incrivelmente dilatadas. A Dra. Potter gritou pedindo ajuda e logo dois, depois quatro e, finalmente, seis atendentes lutavam para me imobilizar a fim de que ela pudesse realizar o procedimento. Eles forçaram meu corpo até uma posição fetal enquanto ela administrava mais sedativos. Por fim, conseguiram que eu ficasse quieto o suficiente para que a agulha penetrasse na base de minha espinha.

Quando uma bactéria ataca, o corpo entra imediatamente em posição de defesa, mandando suas tropas de choque de glóbulos brancos dos quartéis, localizados no baço e na medula óssea, para combater os invasores. Eles são as primeiras baixas na grandiosa guerra celular que acontece sempre que um agente biológico estranho invade o corpo, e a Dra. Potter sabia que qualquer alteração na aparência do liquor seria causada por meus glóbulos brancos mortos.

A Dra. Potter se curvou e ficou de olho no manômetro, o tubo vertical transparente no qual o liquor surgiria. A primeira surpresa dela foi ver que o liquor não pingou, mas jorrou – por causa da pressão alta perigosíssima.

A segunda surpresa foi por causa da aparência do líquido. A grande opacidade indicava que a situação era crítica. O que jorrou no manômetro era viscoso com tom esverdeado.

O meu liquor estava cheio de pus.