Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 35 de 45

Páginas do PDF

Uma prova do céu

Capítulo 34

UM ÚLTIMO DILEMA

 

Eu preciso estar disposto a desistir do que sou

para me tornar o que serei.

– Albert Einstein (1879-1955)

 

Einstein foi um dos meus primeiros ídolos do meio científico e a citação acima sempre foi uma das minhas favoritas. Mas só agora eu entendi o que essas palavras realmente significam. Por mais louco que soasse cada vez que eu contava minha história para meus colegas – e não era difícil perceber suas expressões de espanto e inquietação diante do relato –, eu sabia que estava contando uma coisa que tinha valor científico genuíno, algo que abria as portas da percepção para um novo mundo de compreensão científica. Uma reflexão que elevava a consciência à condição de maior entidade de toda a existência.

Mas uma ocorrência comum às experiências de quase morte não tinha acontecido comigo. Melhor dizendo, havia um pequeno grupo de experiências pelas quais eu não havia passado, e tudo por causa de um único fato: eu não me lembrava da minha identidade terrena.

Embora nenhuma EQM seja igual a outra, eu descobrira nas minhas leituras pós-coma que há uma lista de características que muitas compartilham. Uma delas é o encontro em espírito com uma ou mais pessoas falecidas que os pacientes conheceram em vida. Não encontrei por lá nenhum conhecido. Mas esse aspecto da viagem não me incomodou muito, pois eu já havia descoberto que o esquecimento da minha identidade era o que me possibilitara “ir mais longe” do que muitos outros. Portanto, não tenho nada a reclamar quanto a isso.

O que me incomodava era que havia uma pessoa que eu adoraria ter encontrado. Meu pai morrera quatro anos antes de eu entrar em coma. Ele sabia como eu lamentava não ter conseguido chegar aos seus pés, então por que ele não estava lá para me consolar e me dizer que estava tudo bem? Sem dúvida, conforto era o que os familiares e amigos dos pacientes em coma mais tentavam transmitir. Eu ansiava por isso. E mais uma vez não o tinha recebido.

Não que eu não tivesse recebido palavras de consolo durante minha experiência. Recebi, e muito, da menina nas asas de borboleta. No entanto, por mais maravilhosa e angelical que ela fosse, não era alguém que eu conhecia. Por tê-la visto todas as vezes em que entrava naquele vale idílico, eu me lembro perfeitamente do rosto dela – a ponto de ter certeza de nunca tê-la visto antes. E, para a maioria das pessoas que vive uma EQM, o encontro com algum amigo ou familiar da Terra é o que mais deixa marcas após a experiência.

Por mais que eu tentasse minimizar essa frustração, esse detalhe colocou um elemento de dúvida nas minhas reflexões sobre o significado de tudo aquilo. Não que eu duvidasse do que havia acontecido comigo. Isso era tão impossível quanto duvidar de que eu estava casado com Holley e que amava meus filhos. Mas o fato de ter viajado para o além sem encontrar meu pai, mas encontrar, em vez disso, uma garota desconhecida, ainda me perturbava.

Devido aos fortes laços emocionais que me ligavam à minha família, minha baixa autoestima por ter sido abandonado ainda bebê sempre aflorava. Por que, então, aquela mensagem tão importante – de que eu era amado, que nunca seria desprezado – não podia ser transmitida por alguém que eu conhecia? Alguém como... meu pai?

Sim, porque, no fundo, o sentimento de ter sido “jogado fora” foi o meu estado de espírito durante toda a vida – apesar do empenho da minha família adotiva para curar essa tristeza com amor. Meu pai sempre me aconselhou a não ficar pensando no que acontecera comigo antes de ser “escolhido” por eles. Papai afirmava que eu não conseguiria me lembrar de nada, porque era muito pequeno. Mas ele estava errado. A experiência de quase morte tinha me convencido de que existe em nós uma parte secreta que grava todos os instantes da vida terrena, e que esse processo começa no momento em que chegamos a este mundo. Portanto, em um nível precognitivo eu sempre soube que havia sido abandonado – e lutava intensamente para perdoar isso.

Por causa desse fato, uma voz inquietante ficava ecoando dentro de mim. Uma voz que insistia em me dizer que, apesar de toda a perfeição e encanto, alguma coisa tinha faltado na minha EQM, que alguma coisa havia ficado “de fora” da experiência.

Em resumo, uma parte de mim ainda duvidava da autenticidade da minha viagem durante o coma, e, por conseguinte, da existência daquela dimensão. Para esta parte de mim, a experiência continuava a “não fazer sentido” do ponto de vista científico. E essa dúvida começou a ameaçar todo o novo paradigma que, aos poucos, eu estava construindo.