Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 4 de 45

Páginas do PDF

Uma prova do céu

Capítulo 3

FORA DO AR

 

ADra. Potter ligou para o Dr. Robert Brennan, um de seus colegas na emergência do hospital e especialista em doenças infectocontagiosas. Enquanto eles aguardavam o resultado dos exames, que foram mandados para laboratórios próximos, passaram a considerar todas as possibilidades de diagnóstico e de tratamentos.

À medida que os resultados dos exames ficavam prontos – e eu continuava a gemer e a me contorcer embaixo das correias que me prendiam à cama –, um quadro ainda mais confuso se configurava. A técnica de coloração de Gram (um teste químico que permite classificar uma bactéria como gram-negativa ou gram-positiva, de acordo com a composição de sua parede celular) indicou que a bactéria que me atacava era gram-negativa, o que é bastante ruim, pois essas são bem mais difíceis de combater.

Além disso, uma tomografia computadorizada revelou que o revestimento meníngeo do meu cérebro estava perigosamente inchado e inflamado. Um tubo para respiração foi colocado na minha traqueia, para que um ventilador assumisse a tarefa de respirar por mim – doze respirações por minuto, para ser exato –, e uma série de monitores foi colocada em torno da cama para registrar todas as alterações no corpo e no meu cérebro quase destruído.

Entre os pouquíssimos adultos que contraem a meningite bacteriana por infecção com E. coli espontaneamente (ou seja, sem passar por cirurgia no cérebro nem sofrer trauma cerebral profundo), a maioria apresenta alguma causa tangível, tal como uma deficiência no sistema imunológico (muitas vezes como consequência da aids). Mas não havia qualquer fator que me tornasse suscetível à doença. Outras bactérias podem causar meningite pela invasão da cavidade nasal ou do ouvido, mas não a E. coli. O espaço cerebroespinhal é muito bem protegido do resto do corpo para que isso aconteça. A não ser que a medula espinhal ou o crânio sejam perfurados (por um estimulador cerebral contaminado ou pela colocação de um shunt por algum neurocirurgião, por exemplo), uma bactéria como a E. coli, que normalmente vive no intestino, não tem acesso a essa área.

Eu, que já havia instalado centenas de shunts e estimuladores cerebrais em vários pacientes e que discutira muito o assunto, concordaria com meus médicos sobre o fato de que era praticamente impossível eu ter contraído a doença para a qual meus sintomas apontavam.

Os dois médicos, ainda sem conseguir aceitar a evidência mostrada nos exames, consultaram infectologistas de outros hospitais da cidade. Todos disseram que os resultados indicavam somente um diagnóstico.

Mas contrair um quadro grave de meningite do nada não foi a única proeza que realizei naquele primeiro dia no hospital. Momentos antes de deixar a emergência, e depois de duas horas de urros e grunhidos, finalmente me acalmei. Então, mesmo fora do ar, disse três palavras. Elas foram claras e ouvidas por todos os médicos e enfermeiros presentes, assim como por Holley, que estava do outro lado da cortina, a uma curta distância da cena de agonia:

Deus, me ajude!

Todos correram para a cama. Quando chegaram perto de mim, eu estava completamente apagado.

Não me lembro de nada do período em que passei na emergência, muito menos o que disse enquanto estava fora do ar. Mas aquelas foram as últimas palavras que eu falaria nos sete dias que se seguiram.