Uma prova do céu
Capítulo 25
CHEGANDO AOS POUCOS
Bond não foi o único a ter dificuldade de aceitar minha maluquice naqueles primeiros dias. Na segunda-feira, um dia depois de eu acordar, Phyllis chamou Eben IV no Skype.
– Eben, aqui está seu pai – disse ela, virando a câmera do computador para mim.
– Oi, pai! Como está se sentindo? – saudou-me ele com carinho.
Durante um minuto eu apenas sorri e olhei para a tela do computador. Quando finalmente resolvi falar, Eben ficou desconcertado. Minha voz estava arrastada e as palavras quase não faziam sentido.
Eben me disse mais tarde que eu parecia um zumbi. Infelizmente ele não fora prevenido da possibilidade de uma psicose da UTI.
Aos poucos, a paranoia diminuiu e o raciocínio e a fala ficaram mais lúcidos. Dois dias depois de sair do coma, fui transferido para a Unidade Intermediária de Neurociência. As enfermeiras de lá forneceram camas para Phyllis e Betsy dormirem ao meu lado. Eu só confiava nelas duas – com elas eu me sentia seguro, acorrentado à minha nova realidade.
O maior problema é que eu não dormia. Então eu as mantinha acordadas a noite inteira, tagarelando sobre internet, estações espaciais, agentes duplos russos e todo tipo de fantasia sem sentido. Phyllis tentou convencer as enfermeiras de que eu estava com tosse, na expectativa de que um xarope sedativo me fizesse dormir por pelo menos uma hora seguida. Eu era como um recém-nascido ainda sem rotina de sono.
Nos meus momentos mais tranquilos, Phyllis e Betsy tentavam me puxar lentamente de volta à Terra. Elas rememoravam episódios da nossa infância e eu ficava fascinado, mas como se estivesse ouvindo essas histórias pela primeira vez. Quanto mais elas falavam, mais acendia dentro de mim uma percepção importante – de que eu tinha feito parte daqueles acontecimentos.
Em pouco tempo, o irmão que elas conheciam se tornou visível de novo através do nevoeiro do discurso paranoico.
– Foi incrível – disse-me Betsy mais tarde. – Você tinha acabado de sair do coma, não tinha noção de onde se encontrava ou do que estava acontecendo, falava maluquices a maior parte do tempo, e ainda assim seu senso de humor era notável. Deu para ver que era você quem estava ali. Você estava de volta!
Já Phyllis me contou que uma das primeiras evidências de que eu estava melhorando foi que comecei a me alimentar sozinho.
À medida que os comandos do meu cérebro voltavam a entrar em sintonia, me surpreendia com as coisas que eu mesmo dizia ou fazia. Certo dia, uma amiga chamada Jackie apareceu para me visitar. Holley e eu conhecíamos bem Jackie e seu marido Ron, tendo inclusive comprado deles a casa em que morávamos. De repente, minha sociabilidade emergiu e perguntei-lhe imediatamente por Ron.
Depois de mais alguns dias, comecei a ter conversas mais lúcidas com meus visitantes, e foi fascinante ver como essas conexões aconteciam automaticamente e não exigiam muito esforço de minha parte. Assim como um avião no piloto automático, meu cérebro logo se readaptou à experiência humana. Eu estava tendo uma amostra em primeira mão de uma realidade que eu conhecia muito bem como neurocirurgião: o cérebro é um mecanismo verdadeiramente maravilhoso.
A pergunta óbvia que pairava na cabeça de todos (inclusive na minha nos momentos de maior lucidez) era: até que ponto eu ficaria bem? Será que eu estava cem por cento ou a bactéria E. Coli tinha feito algum estrago irreversível em mim como todos os médicos haviam previsto? Essa espera diária mexia com todo mundo, sobretudo com Holley, que temia que o progresso miraculoso cessasse de repente e ela ficasse com apenas uma parte do marido que conhecia.
Porém, um pouco mais de mim aparecia a cada dia. Linguagem. Memória. Reconhecimento. Uma certa gaiatice, que sempre foi típica da minha personalidade, também reapareceu. Enquanto todos se alegravam por ver meu senso de humor de volta, minhas irmãs nem sempre gostavam das ocasiões em que eu resolvia usá-lo. Certa tarde, Phyllis tocou na minha testa e eu me encolhi, com um grito de dor.
– Ai, isso dói!
Em seguida, depois de curtir a expressão de horror no rosto de quem estava por perto, emendei:
– Brincadeirinha!
Todos estavam surpresos com a rapidez da minha recuperação, menos eu. Na verdade, eu ainda não tinha ideia de quão perto estive da morte. Quando, um por um, meus amigos e familiares voltavam para suas vidas cotidianas, eu lhes agradecia pelo apoio, mas continuava inocentemente ignorante da tragédia que por pouco não se instalara. Eu estava tão entusiasmado com tudo a ponto de um dos neurologistas responsáveis por minha avaliação para a reabilitação afirmar que eu estava “eufórico demais” e que provavelmente tinha sido vítima de alguma lesão cerebral.
Mesmo assim, eu tinha certeza de algo com que todas as pessoas em volta viriam também a concordar. Independentemente do que os profissionais dissessem, eu sabia que não estava mais doente nem com qualquer lesão no cérebro. Eu estava completamente curado.
Na verdade – embora neste ponto só eu soubesse –, estava realmente bem pela primeira vez na vida.