Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 11 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 10

QUEM SE IMPORTA?

 

Holley percebeu que os médicos ficaram muito interessados quando ela mencionou a viagem a Israel. Mas é claro que ela não entendeu por que isso era tão importante. Na verdade, foi uma bênção que ela não tivesse entendido. Lidar com a minha morte iminente já era uma provação dura o suficiente; imagine ter que admitir a possibilidade de eu vir a me tornar o caso principal de uma desgraça equivalente à peste bubônica.

Enquanto isso, mais ligações eram feitas para amigos e familiares.

Inclusive para minha família biológica.

Quando era garoto, eu adorava meu pai, que foi chefe de equipe durante 20 anos no Hospital Batista Wake Forest em Winston-Salem. Escolhi a neurocirurgia como profissão para seguir os passos de meu pai, embora tivesse a convicção de que não chegaria tão longe quanto ele.

Meu pai era um homem profundamente espiritualizado. Ele serviu como cirurgião na Força Aérea dos Estados Unidos nas florestas da Nova Guiné e nas Filipinas durante a Segunda Guerra Mundial. Ele testemunhou e experimentou muita brutalidade e sofrimento. Ele me contava sobre as noites que passara operando os feridos em batalha em barracas que mal protegiam os corpos das chuvas das monções que assolavam o acampamento militar. Fora o calor e a umidade opressivos que obrigavam os cirurgiões a trabalharem de cuecas e sem camisa para poder suportar o clima hostil.

Papai se casou com o amor de sua vida (e filha de seu oficial-comandante), Beth, em outubro de 1942. No final da guerra, ele fez parte do primeiro grupo das forças aliadas que ocuparam o Japão depois que os Estados Unidos lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki. Como o único neurocirurgião militar em Tóquio, meu pai se tornou indispensável. Ele também estava habilitado a operar ouvido, nariz e garganta.

Todas essas qualificações garantiam que ele não iria a parte alguma por um bom tempo. Seu novo comandante não lhe permitiria voltar aos Estados Unidos antes que a situação no Oriente se estabilizasse. Somente vários meses depois que os japoneses se renderam formalmente a bordo do navio de guerra Missouri, na Baía de Tóquio, papai recebeu do comando geral licença para voltar para casa. Entretanto, ele sabia que se o comandante no Japão o visse partindo suspenderia a ordem. Então aguardou o fim de semana, quando aquele oficial estivesse fora da base, e referendou sua dispensa por meio do comandante de plantão. Ele conseguiu embarcar no primeiro navio que partiria de Tóquio para os Estados Unidos, em dezembro de 1945, muito tempo depois de a maioria dos militares de seu grupo ter retornado para suas famílias.

Depois de chegar, no início de 1946, papai deu prosseguimento à sua residência em neurocirurgia junto com seu amigo Donald Matson, que servira na Europa durante a guerra. Eles completaram sua residência médica no Peter Bent Brigham e no Hospital Infantil de Boston com a supervisão do Dr. Franc D. Ingraham, um dos últimos residentes treinados pelo Dr. Harvey Cushing, reconhecido mundialmente como o pai da neurocirurgia moderna.

Nas décadas de 1950 e 1960, todo o grupo de neurocirurgiões de seu regimento que havia honrado a sua classe nos campos de batalha da Europa e do Pacífico seguiu em frente e se estabeleceu como a mais importante geração de neurocirurgiões modernos.

Meus pais cresceram durante a Grande Depressão e experimentaram o trabalho duro desde cedo. Papai costumava chegar em casa para jantar às sete horas, geralmente de terno e gravata, mas às vezes usando seu jaleco. Então ele voltava para o hospital, quase sempre levando consigo um de seus filhos, para fazermos o dever de casa em seu gabinete, enquanto ele examinava os pacientes.

Papai enxergava vida e trabalho como sinônimos e nos criou com essa mesma visão. Ele geralmente mandava que minhas irmãs e eu limpássemos o quintal aos domingos. Se pedíssemos para ir ao cinema, ele respondia: “Se vocês forem ao cinema alguém vai ter que fazer esse trabalho.” Ele também era altamente competitivo: considerava qualquer jogo “uma batalha de vida ou morte”, e mesmo quando já estava na casa dos oitenta anos ele andava à procura de novos oponentes, em geral décadas mais jovens.

Era um pai exigente, mas também um pai maravilhoso. Tratava a todos com respeito e carregava uma chave de fenda no bolso do jaleco para apertar qualquer parafuso que encontrasse frouxo durante suas rondas no hospital. Seus pacientes, colegas médicos, enfermeiras e toda a equipe gostavam muito dele. Não importa se estivesse operando, colaborando em pesquisas, treinando neurocirurgiões ou editando a revista Surgical Neurology (o que fez por vários anos), papai imprimia a sua filosofia de vida em tudo. Mesmo depois de envelhecer e abandonar os centros cirúrgicos, aos 71 anos, ele continuou acompanhando os avanços de sua área. Após a morte dele, em 2004, o Dr. David L. Kelly Jr., seu parceiro de longa data, escreveu: “Dr. Alexander sempre será lembrado por seu entusiasmo e suas qualidades médicas, por sua perseverança e atenção aos detalhes, por sua compaixão, honestidade e pela excelência em tudo o que fazia.” Não era de admirar que eu, assim como tantos outros, o adorasse.

Muito cedo – tão cedo que nem me lembro de quando foi – mamãe e papai me revelaram que eu era adotado (ou “escolhido”, como eles diziam, uma vez que me garantiram que souberam que eu era filho deles no exato momento em que me viram). Eles não eram meus pais biológicos, mas me amavam como se eu fosse a sua própria carne e sangue.

Cresci sabendo que fui adotado em abril de 1954, com apenas quatro meses de vida. Quando me deu à luz, em dezembro de 1953, minha mãe biológica tinha apenas 16 anos, era estudante secundária e solteira. O namorado dela era mais velho, porém não tinha condições de sustentar um filho, então concordou em dar o bebê para a adoção, já que nenhum dos dois me queria. O conhecimento de tudo isso veio tão cedo que se tornou simplesmente uma parte do que eu era, uma parte tão aceita e inquestionável quanto a cor dos meus cabelos e o fato de eu gostar de hambúrgueres e detestar couve-flor. Eu amava meus pais adotivos tanto quanto amaria se tivéssemos alguma relação de sangue, e claramente eles sentiam o mesmo por mim.

Minha irmã mais velha, Jean, também havia sido adotada, mas, cinco meses depois que me juntei a eles, minha mãe conseguiu engravidar. Ela deu à luz uma menininha – Betsy – e cinco anos mais tarde nasceu Phyllis, a caçula da família. Nós éramos irmãos de verdade para todos os efeitos. Eu sabia que, não importava de onde tivesse vindo, eu era o irmão delas e elas eram minhas irmãs. Cresci no seio de uma família que não somente me amava, mas que acreditava em mim e apoiava os meus sonhos. Inclusive o sonho que ganhou corpo no ensino médio e que eu nunca deixei escapar até que conseguisse realizá-lo: ser um neurocirurgião como papai.

Não pensei sobre minha adoção durante os anos de faculdade e de residência médica – ao menos não profundamente. Eu me lembro de ter procurado diversas vezes a Sociedade Lar das Crianças da Carolina do Norte para saber se minha mãe tinha algum interesse em se aproximar de mim. Mas meu estado tinha uma das leis mais rígidas do país para proteger o anonimato dos adotados e de seus pais biológicos, mesmo que eles quisessem desesperadamente se reencontrar. Ao me aproximar dos 30 anos, eu pensava cada vez menos nisso. E quando conheci Holley e formamos nossa própria família, a questão praticamente desapareceu.

Ou ficou escondida mais lá no fundo.

Em 1999, quando Eben IV tinha 12 anos e morávamos em Massachusetts, ele se envolveu em um projeto escolar sobre a herança familiar. Eben sabia que eu havia sido adotado e que, por isso, ele tinha parentes diretos que não conhecia pessoalmente e dos quais nem mesmo sabia o nome. O projeto acendeu alguma coisa nele – uma curiosidade profunda que até aquele momento ele não sabia que existia.

Ele me perguntou se poderíamos tentar encontrar meus pais biológicos. Eu lhe contei, então, que por muitos anos eu me empenhara nisso, até procurando o orfanato para saber se havia alguma notícia de minha mãe. Se ela ou meu pai quisesse me ver, a administração do orfanato saberia. Mas que nunca houvera retorno algum.

Não que isso me angustiasse. Eu disse a Eben que era algo “perfeitamente natural, o que não significa que minha mãe biológica não me ame ou que não vá amá-lo se puser os olhos em você. Mas ela não quer me conhecer, provavelmente porque, assim como nós, ela já tem outra família e não deseja complicar as coisas”.

Eben não se deu por vencido. Ele insistiu tanto que, para não frustrá-lo, resolvi escrever para uma assistente social do Lar das Crianças chamada Betty, que tinha atendido as minhas solicitações anteriores. Algumas semanas depois, em uma sexta-feira gelada de fevereiro de 2000, Eben e eu estávamos indo para o Maine esquiar, quando lembrei que deveria ter ligado para Betty a fim de saber se havia alguma novidade. Liguei do celular mesmo.

– Bem... dessa vez eu tenho notícias. O senhor está sentado?

Eu não só estava sentado como dirigindo no meio de uma tempestade de neve, mas omiti esse detalhe.

– Acontece, Dr. Alexander, que seus pais acabaram se casando. Um com o outro.

Meu coração disparou dentro do peito e a estrada na minha frente de repente assumiu contornos vagos e irreais. Embora eu soubesse que meus pais tinham se apaixonado, sempre presumi que, após terem me abandonado, suas vidas tomariam rumos opostos. Instantaneamente uma imagem surgiu em minha cabeça. Um retrato de meus pais biológicos e do lar que eles construíram em algum lugar. Um lar que eu nunca conheci. Um lar ao qual eu não pertencia.

Betty interrompeu meus devaneios:

– Dr. Alexander?

– Sim – respondi lentamente. – Estou aqui.

– Tem mais uma coisa.

Para espanto de Eben, joguei o carro para o acostamento e pedi que ela prosseguisse.

– Seus pais tiveram outros três filhos: duas meninas e um rapaz. Estive com a filha mais velha e ela me contou que sua irmã mais nova faleceu há dois anos. Seus pais ainda estão muito abalados com a perda.

– Então isso quer dizer...? – perguntei depois de uma longa pausa, ainda anestesiado, sem conseguir processar direito tudo aquilo.

– Sinto muito, Dr. Alexander, mas ela recusou o seu pedido de contato.

Eben se agitava no banco atrás de mim, ciente de que uma coisa muito importante tinha acabado de acontecer.

– E aí, pai? – perguntou ele quando, enfim, desliguei.

– Nada demais. A agência não sabe muita coisa, mas estão trabalhando no caso. Talvez algum dia. Quem sabe...

Mas minha voz me traiu. Lá fora, a tempestade aumentava. Eu só conseguia enxergar poucos metros adiante no nevoeiro que nos envolvia. Engatei a marcha do carro, olhei com cuidado pelo retrovisor e retornei à estrada.

Em alguns minutos, a visão que eu tinha de mim mesmo havia mudado inteiramente. Depois daquele telefonema, eu continuava sendo, claro, tudo o que era antes: um cientista, um médico, um pai, um marido. Mas pela primeira vez na vida me senti um órfão. Alguém que havia sido abandonado. Alguém que não era aceito nem desejado.

Antes daquela conversa, eu nunca me sentira daquele jeito. Jamais tinha pensado nos meus pais biológicos como pessoas que eu tivesse perdido e que nunca pudesse recuperar. Mas, de repente, essa era a única coisa que eu conseguia enxergar sobre mim mesmo.

Nos meses seguintes um oceano de desolação se apossou de mim: era uma tristeza que ameaçava me afundar e afogar tudo pelo que eu tinha trabalhado tão diligentemente para construir até então em minha vida.

Isso piorou ainda mais por causa da minha incapacidade de encarar o que estava provocando a situação. Enfrentei problemas pessoais antes e os superei. Na faculdade de medicina, por exemplo, fiz parte de um grupinho que valorizava bastante a bebida alcoólica. Mas em 1991 comecei a reparar que ficava exageradamente ansioso pelos dias livres e pelas bebidas que viriam com eles. Decidi então que estava na hora de parar de beber. Isso não foi nada fácil – precisei de ajuda profissional e do apoio da família.

Então, aqui estava outro problema, e a culpa era toda minha. Teria conseguido lidar com ele se pedisse ajuda. Mas por que eu não poderia arrancar o mal pela raiz? Simplesmente não parecia correto que uma parte esquecida do meu passado – uma parte que, afinal de contas, eu não podia controlar – pudesse me desestruturar tanto emocional quanto profissionalmente.

Então decidi lutar. Percebi, incrédulo, que meus papéis como médico, pai e marido se tornavam cada vez mais difíceis de cumprir. Vendo que eu não atravessava um bom momento, Holley nos inscreveu em uma terapia de casais. Embora compreendesse apenas em parte o que estava causando aquilo, ela me perdoou por cair no abismo do desespero e fez o que estava ao seu alcance para me tirar dele.

A depressão teve ramificações também em meu trabalho. Evidentemente, meus pais ficaram sabendo da minha mudança de comportamento, e também me compreenderam. Porém o que mais doeu foi constatar que minha carreira também estava em perigo – e que não havia nada nem ninguém que pudesse me ajudar.

Finalmente, depois de ter minha tristeza exposta aos olhos de todos, vi desabar minha última esperança de que houvesse algum elemento pessoal no Universo – alguma força que estivesse além do âmbito científico ao qual eu me dedicara tantos anos. Vi desabar minha última crença de que pudesse haver um Ser que de fato me amasse e se importasse comigo. Depois daquele telefonema na nevasca, a ideia de um Deus amoroso e pessoal desapareceu por completo.

Haveria uma força ou inteligência olhando por nós? Quem se importava com os humanos de um modo verdadeiramente amoroso? Foi uma surpresa ter de admitir que, apesar de todo o meu conhecimento científico e minha experiência médica, eu ainda estava secretamente interessado nessa questão – assim como estava envolvido até a alma na questão da minha família biológica.

Infelizmente, a resposta para a pergunta sobre a existência de um Ser amoroso era a mesma para a que indagava sobre a possibilidade de meus pais biológicos abrirem suas vidas e seus corações para mim algum dia.

E a resposta era não.