Uma prova do céu
Capítulo 7
A MELODIA GIRATÓRIA E O MUNDO NOVO
Alguma coisa apareceu no escuro. Movendo-se lentamente, ela irradiava uma luz dourada e, à medida que avançava, a escuridão à minha volta começava a se fragmentar e dissipar.
Então escutei um novo som: um som vivo, como a mais rica e complexa melodia que já tinha ouvido. Aumentando de volume enquanto uma diáfana luz branca descia, esse som anulou as batidas mecânicas e maçantes que, aparentemente, haviam sido a minha única companhia até então.
A luz foi chegando cada vez mais perto, girando em torno de mim, produzindo filamentos de pura luz branca com raias douradas.
Então, no centro da luz, apareceu outra coisa. Eu me concentrei ao máximo para descobrir o que era.
Uma abertura. Eu não estava mais olhando para a luz giratória, mas através dela.
No instante que compreendi isso, comecei a me mover. Eu ouvia um som sibilante. Quando atravessei a abertura, me vi em um mundo inteiramente novo. O mundo mais belo e estranho que eu já tinha visto.
Brilhante, vibrante, arrebatador, maravilhoso... Eu poderia amontoar adjetivos, um após outro, para tentar descrever esse mundo, mas nada do que dissesse poderia traduzir o que eu via e sentia. Era como se eu tivesse acabado de nascer. Não renascer, ou nascer de novo. Apenas... nascer.
Embaixo de mim havia uma campina. Ela era verde, exuberante e parecia feita de terra. Era de terra... mas ao mesmo tempo não era. Minha sensação era a mesma que se tem ao visitar algum lugar a que costumávamos ir quando crianças. Nós não o reconhecemos, mas ao olharmos em volta, alguma coisa nos atrai, e percebemos que uma parte de nós – uma parte bem lá no fundo – se lembra do lugar e se alegra por ter voltado ali.
Eu estava voando. Passei por árvores e campos, rios e cachoeiras, e avistei pessoas aqui e ali. Também havia crianças rindo e brincando. Todos cantavam e dançavam em círculos, e vi até cachorros correndo e saltando entre elas, igualmente tomados de alegria. As pessoas vestiam roupas simples, mas bonitas, e tive a impressão de que as cores dessas vestimentas tinham o mesmo tom vívido das árvores e das flores que desabrochavam e encantavam todo o campo ao redor.
Um mundo de sonhos belo e incrível...
Só que não era um sonho. Embora não soubesse onde me encontrava e nem mesmo o que era aquilo tudo, eu estava convicto de uma coisa: esse lugar em que de repente me vi era completamente real.
A palavra real expressa algo abstrato e é totalmente ineficaz para transmitir o que estou tentando descrever. Imagine que você é uma criança e vai ao cinema em uma tarde de verão. Talvez o filme seja bom e prenda sua atenção enquanto você lhe está assistindo. Mas, quando a sessão termina, você sai do cinema e volta para a paisagem agradável daquela bela tarde. Logo, o ar fresco e a luz do sol o envolvem e, então, você pensa por que razão gastou duas horas daquele dia magnífico sentado numa sala escura.
Multiplique esse sentimento por mil e ainda não estará perto de entender como eu me senti naquele lugar.
Não sei exatamente por quanto tempo sobrevoei aqueles campos (o tempo ali era diferente do tempo linear que vivemos na Terra, e é impossível descrevê-lo, assim como todos os outros detalhes da experiência), mas em algum momento percebi que não estava sozinho.
Alguém se encontrava bem próximo a mim: uma bela menina com as maçãs do rosto salientes e olhos de um azul profundo. Ela vestia o mesmo tipo de roupa camponesa que as pessoas usavam lá embaixo. Seus longos cachos castanhos emolduravam um rosto encantador. Cavalgávamos juntos sobre uma superfície intrincada, adornada por cores vivas indescritíveis – como as asas de uma borboleta. Na verdade, milhões de borboletas nos rodeavam. Havia ondas delas, descendo até a relva verde e voltando até nós no espaço. Não foi apenas uma única e discreta borboleta que apareceu, mas um enxame, como se um rio de vida e cores bailasse no ar. Voávamos em círculo, despreocupadamente, atravessando campos floridos e sobrevoando árvores cujas flores desabrochavam à medida que passávamos.
O traje da menina era modesto, mas seu colorido – azul-anil e laranja – tinha a mesma energia deslumbrante de todo o resto. Ela olhou para mim de um jeito arrebatador. Não era um olhar romântico. Tampouco um olhar de amizade. Era um olhar que estava muito além disso... além de qualquer tipo de amor que temos aqui na Terra. Era algo mais elevado, que trazia em si todos esses amores, porém mais verdadeiro e puro que qualquer um deles.
Sem usar palavras, ela falou comigo. Sua mensagem me atingiu como um vento, e compreendi imediatamente que ela era verdadeira. Eu soube disso da mesma maneira que sabia que o mundo à minha volta era real – e não uma fantasia fugaz e delirante.
A mensagem tinha três partes, e se tivesse que traduzi-la em linguagem terrena, eu diria que era mais ou menos isto:
“Você é amado e valorizado imensamente, para sempre.”
“Não há nada a temer.”
“Não há nada que você possa fazer de errado.”
A mensagem me proporcionou uma imensa sensação de alívio. Era como se eu passasse a conhecer as regras de um jogo que havia jogado a vida inteira sem nunca tê-lo compreendido de todo.
“Nós lhe mostraremos muitas coisas aqui”, a menina me disse, de novo sem usar palavras, apenas projetando a essência do significado delas em mim. “Mas, no fim, você irá voltar.”
Eu tinha uma única pergunta sobre isso.
Voltar para onde?
Lembre-se de quem está contando tudo isso. Não sou um sentimentalista. Sei muito bem com que a morte se parece. Sei o que é ver uma pessoa viva, com quem você conversou e brincou durante um bom tempo, de repente se tornar uma massa inerte em uma mesa de operação depois de lutarmos durante horas para manter seu corpo funcionando. Conheço o sofrimento e o pesar profundo das pessoas que perderam alguém que nunca acharam que poderiam perder. Conheço a minha biologia, e, ainda que não seja um especialista em física, não sou um ignorante total nessa matéria: sei a diferença entre a fantasia e a realidade, e posso assegurar que a experiência que estou tentando transmitir aqui, ainda que de forma vaga e insatisfatória, foi de longe a experiência mais real da minha vida.
Na verdade, a única coisa que poderia competir com ela em termos de realidade foi a que veio a seguir.