Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 16 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 15

A DÁDIVA DO ESQUECIMENTO

 

Precisamos crer no livre-arbítrio. Não há escolha.

– Isaac B. Singer (1902-1991)

 

Anoção de consciência humana sustentada hoje pela maioria dos cientistas é a de que ela é composta de informações digitais – ou seja, dados, como os utilizados nos computadores. Embora alguns “bits” possam parecer mais profundos ou especiais para nós – como assistir a um pôr do sol espetacular, ouvir uma bela sinfonia e até se apaixonar – do que os demais dados criados e estocados em nosso cérebro, tudo não passa de ilusão. Todos os dados são iguais. O cérebro molda a realidade externa ao assimilar as informações que chegam por meio de nossos sentidos, transformando-as em uma rica tapeçaria digital. Mas nossas percepções são apenas um molde, não a realidade. São uma ilusão.

Eu também compartilhava essa ideia. Lembro-me de estar na faculdade e ouvir dizer que a consciência nada mais é do que um programa de computador muito complexo. Esse argumento defendia que os 10 bilhões de neurônios em atividade constante em nosso cérebro são capazes de produzir uma vida inteira de consciência e memória.

Para compreender como o cérebro pode bloquear nosso acesso ao conhecimento dos mundos mais elevados, precisamos aceitar – pelo menos hipoteticamente – que o cérebro não produz consciência. Que ele é, na verdade, um tipo de válvula redutora ou um filtro que transforma a consciência não física que possuímos nas dimensões superiores em uma aptidão limitada pelo tempo de nossa existência mortal.

Da perspectiva terrena, há uma grande vantagem nisso. Quando o cérebro trabalha duro para filtrar a enxurrada de informações sensoriais que chega até nós do ambiente que nos rodeia, selecionando o material de que precisamos para sobreviver, é o esquecimento de nossas identidades não terrenas que nos permite estar “aqui e agora” de maneira muito mais eficiente. Como a maior parte de nossa vida contém milhares de informações que precisamos processar, estar excessivamente consciente dos mundos além deste atrapalharia ainda mais o nosso progresso. Na verdade, tomar decisões certas por meio do livre-arbítrio diante da maldade e da injustiça da Terra faria menos sentido se nos lembrássemos da beleza e do esplendor que nos aguardam.

Como posso estar tão seguro do que estou dizendo? Por duas razões. A primeira é que os seres me ensinaram isso quando eu estava no Portal e no Núcleo, e a segunda é porque de fato vivi a experiência. Enquanto estive fora do meu corpo, recebi lições sobre a natureza e a estrutura do Universo que estavam muito além da minha compreensão. Mas pude recebê-las, em grande parte, porque não tinha preocupações mundanas atrapalhando minha concentração. Agora estou de volta à Terra e a semente daquele conhecimento me envolve. Portanto ele ainda está aqui. Posso senti-lo em todos os momentos. No entanto, serão necessários muitos anos para que esse conhecimento frutifique. Ou seja, precisarei de anos para entender, usando meu cérebro material e mortal, o que entendi de forma tão fácil e instantânea no mundo espiritual. Porém estou confiante de que, com esforço de minha parte, muito desse conhecimento continuará a desabrochar.

Dizer que ainda existe um abismo entre a visão científica do Universo e a realidade que vivi não é correto. Eu ainda gosto da física e da cosmologia, ainda adoro estudar o nosso Universo imenso e maravilhoso. Apenas tenho agora uma concepção bem mais ampliada do que “imenso” e “maravilhoso” de fato significam. A parte física do Universo é um grão de areia comparada à parte espiritual e invisível. Antigamente, eu jamais usaria a palavra espiritual no meio de uma conversa científica. Hoje acho que não podemos deixá-la de fora.

Lá no Núcleo, minha compreensão do que chamamos de “energia escura” e “matéria escura” pareceu ter explicações óbvias, só que muito mais avançadas do que o ser humano é capaz de assimilar. Entretanto, isso não significa que eu não possa tentar explicar aqui. O que acontece é que eu mesmo ainda estou em processo de compreendê-los por inteiro. Talvez a melhor maneira de transmitir essa parte da experiência seja dizer que eu tive um antegozo de um tipo mais amplo de conhecimento: um conhecimento que eu acredito que o ser humano poderá acessar no futuro em número muito maior. Mas tentar transmitir esse conhecimento agora me faz pensar num chimpanzé que se torna homem por um dia para experimentar toda a grandiosidade do conhecimento humano, e depois retorna à sua comunidade e tenta transmitir como foi conhecer várias línguas, os cálculos e a imensa escala do Universo.

Lá do outro lado, uma pergunta se insinuou em minha mente e a resposta surgiu no mesmo instante, como uma flor desabrochando. Era como se nenhuma partícula no Universo fosse realmente separada da outra e, sendo assim, não havia pergunta sem resposta. Essas respostas não eram simplesmente “sim” ou “não”. Eram grandes construções conceituais, incríveis estruturas de pensamento vivo tão complexas que eu precisaria da vida inteira para decifrá-las se estivesse confinado ao raciocínio terreno. Mas não estava. Eu havia me livrado dos limites do pensamento terreno como uma borboleta rompe a crisálida.

Eu via a Terra como um ponto azul-pálido na enorme escuridão do espaço. Podia ver que nosso planeta era um lugar onde o bem e o mal se misturavam, e que isso era uma de suas características mais peculiares. Até mesmo ali existe mais bem do que mal, mas a Terra é um lugar onde o mal tem permissão para agir de uma forma que seria totalmente impossível nos níveis superiores. Esse mal que de tempos em tempos poderia se sobressair ao bem era conhecido pelo Criador, e Ele o permitia, pois era como uma consequência necessária do livre-arbítrio.

Pequenas partículas do mal estavam espalhadas por todo o cosmos, mas a soma de todo esse mal é um grão de areia comparado com a bondade, a abundância, a esperança e o amor incondicional dos quais o Universo está inundado. A estrutura essencial da outra dimensão é amor e aceitação, e qualquer coisa que não tenha essas virtudes está imediatamente deslocada por lá.

O livre-arbítrio, porém, se estabelece à custa da perda ou da diminuição do amor e da aceitação. Nós somos livres; mas somos confinados a um ambiente que conspira para nos fazer sentir que não somos livres. O livre-arbítrio é crucial para desempenharmos o nosso papel na vida terrena – o papel que nos permitirá ascender à dimensão atemporal mais elevada, que todos nós descobriremos um dia. A nossa vida aqui pode parecer insignificante, pois é mínima em relação às outras vidas e aos outros mundos que povoam os universos visíveis e invisíveis. Mas ela é também muitíssimo importante, uma vez que o nosso papel é crescer na direção de Deus. Esse crescimento é vigiado pelos seres do mundo espiritual lá em cima: os espíritos e os seres reluzentes (aqueles que encontrei no Portal, e que acredito serem a origem do conceito de anjos da nossa cultura).

Nós, os seres espirituais que habitamos em cérebros e corpos mortais, fazemos escolhas reais. Pensamento verdadeiro não tem a ver com o cérebro. Mas temos sido tão treinados (em parte pelo próprio cérebro) a associar a mente com quem somos e com o que pensamos que perdemos a capacidade de perceber que somos muito mais do que nosso cérebro e nosso corpo físico determinam.

O pensamento verdadeiro é pré-físico. Ele é o pensamento por trás do pensamento, responsável pelas escolhas que trazem consequências para o mundo. É um pensamento que age independentemente do método dedutivo e linear, que se move rápido como um raio, fazendo conexões em diferentes níveis. Diante dessa inteligência autônoma e oculta, o pensamento comum é extremamente lento e vacilante. É o pensamento verdadeiro que decide o jogo nos momentos finais da partida, que leva a uma descoberta científica extraordinária ou inspira uma canção inesquecível. Esse pensamento subliminar está sempre lá quando realmente precisamos dele, embora a maioria das pessoas tenha perdido a capacidade de crer nele e acessá-lo. Desnecessário dizer que foi essa centelha que entrou em ação na noite daquele salto livre quando o paraquedas de Chuck abriu de repente logo abaixo de mim.

Pensar além do cérebro é ingressar em um mundo de conexões instantâneas que faz o pensamento comum (isto é, limitado pelo cérebro físico) parecer sem sentido. O nosso eu mais verdadeiro e profundo é completamente livre. Não está comprometido pelas ações passadas nem preocupado com identidade ou status. Ele faz a pessoa compreender que não há necessidade de temer o mundo terreno e, consequentemente, não precisa perseguir a fama, a riqueza ou o poder.

Esse é o verdadeiro eu espiritual que todos nós estamos destinados a recuperar algum dia. Mas até que esse dia chegue, acho que deveríamos fazer o que estiver ao nosso alcance para entrar em contato com essa parte miraculosa de nós mesmos – para cultivá-la e fazê-la aflorar. Este é o ser que mora dentro de todos nós e que Deus espera que sejamos.

Como se aproximar desse eu espiritual tão autêntico? Manifestando o amor e a compaixão. Por quê? Porque amor e compaixão são muito mais do que as abstrações que as pessoas acreditam que sejam. Eles são reais. São concretos. E formam o tecido do reino espiritual. Para acessar esse reino, precisamos nos assemelhar a ele, mesmo enquanto estivermos no reino terreno.

Um dos maiores equívocos das pessoas quando pensam sobre Deus – ou como você preferir chamar a Fonte de poder absoluto, o Criador que governa o Universo – é imaginar Om como impessoal. Sim, Deus está por trás dos números, da perfeição do Universo que a ciência luta para entender. Mas, paradoxalmente, Om é também “humano”, até mais humano do que você e eu.

Om compreende e se solidariza com a nossa condição humana mais profundamente do que podemos imaginar, pois Ele sabe que nós nos esquecemos disso – e Ele sabe como é terrível viver sem se lembrar da natureza de Deus por um momento que seja.