A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 7 de 30 · parte 2/2

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A Manilha e o Libambo

5. As caravelas na Senegâmbia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Vej a-se o caso dos escravos. Não tenho dúvida de que, j á antes de estabelecer-se o tráfico entre as duas m argens do Saara, escravos capturados no baixo Senegal seriam rem etidos para o delta interior do Níger. E vice-versa. Dois, quatro, cinco, um a dúzia de cada vez. Os prisioneiros que a com unidade sabia não ter condições de absorver ou de transportar em segurança para onde houvesse quem os adquirisse, eram sacrificados aos deuses ou prontam ente abatidos. A dem anda tinha o seu tam anho, e esse tam anho, num sistem a de escravatura dom éstica, era reduzido. As caravanas transaarianas m udaram inteiram ente a situação. Transportavam em cada viagem m uitas centenas de escravos. Seus pontos de partida tornaram -se escoadouros seguros para os cativos que se produzissem em qualquer parte, até m esm o ali, na vizinhança. E o que se obtinha por eles pagava o trabalho de conduzi-los até a beira do deserto. Valia a pena até m esm o correr o custo e o risco de arm azená-los nos entrepostos à m argem dos cam inhos e de com eles na canga em preender longas viagens, durante as quais, um a e outra vez, se rebelavam e m atavam os condutores.

Ao m esm o tem po que desenvolviam m aneiras m enos inseguras de transportar escravos, os traficantes foram aprim orando os m étodos de com ercialização dos dem ais produtos. Tornaram -se, se é que j á não o eram , m ercadores habilíssim os. Que conheciam as preferências dos clientes. Que dificilm ente se enganavam quanto à qualidade e ao valor dos bens com que trabalhavam . Que escolhiam quando era m elhor estocar do que vender. Que desenvolveram técnicas para lidar com cada tipo de produto e até m esm o para transportar a enorm es distâncias m ercancias perecíveis, com o a noz-de-cola, que, j á no século XII, chegava perfeita ao Magrebe, ou com o a m alagueta, que, desde o Trezentos, saía do sul da Libéria e, após passar por várias m ãos,

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term inava em Portugal e na Espanha.

Pelos territórios j alofos passavam a cola e o ouro, a m alagueta e o ouro, as plum as e o ouro, as peles e o ouro, o alm íscar e o ouro, os escravos e o ouro. Na borda do Sael, acrescentavam -se a gom a-laca e o âm bar-cinzento a esses e outros produtos, que, depois, atravessavam o deserto, sobretudo na direção do Marrocos, m as tam bém na de Ifríquia e de Barca. Os portugueses, ao conquistar Ceuta em 1415, apoderaram -se de um a das pontas do percurso e procuraram puxá-lo para si. Não o lograram de todo, porque as cáfilas, que não queriam traficar com quem identificavam com o inim igo, passaram a evitar aquele porto.

Ceuta era um a im portantíssim a cidade com ercial e m anufatureira. Ali, m ercadej avam -se o açúcar — nos seus arredores estendiam -se os canaviais —, o trigo, de que o Marrocos era grande produtor, a cevada, o anil, o cobre, o vidro, o coral, os tecidos de lã, a seda, os perfum es, o escravo, o ouro e tudo o m ais que os árabes e os italianos traziam do leste do Mediterrâneo e do Oriente, e os m ouros e negros, do além -Saara. Os seus com erciantes m andavam prepostos atravessar o deserto e tratar diretam ente com os fregueses do Sael. E a eles se som avam , num erosos, instalados na cidade, os estrangeiros: saracolês,

m andingas, tucolores, canúris, 80 songais e hauçás, a adquirir cavalos, arm as e produtos de luxo, e egípcios, iraquianos, genoveses, venezianos, pisanos, florentinos, catalães e m arselheses, querendo trocar suas m ercadorias por ouro. Pelo ouro que era abundante, com o tam bém o cobre. Não faltava tam pouco, em bora m uito m ais escassa, a prata. Na casa da m oeda que ali havia, e que teve fam a, cunhavam -se dobras de ouro e uns dinheiros de cobre, que tom aram o nom e da cidade, ceitis.

Os italianos, catalães e franceses reagiram ao intento português de m onopolizar o com ércio do ouro. Se os portugueses, após vencer Ceuta, passaram a ocupar vários outros portos do Marrocos, os seus com petidores europeus (alguns deles, com o os de Gênova e Florença, favorecidos pelos m uçulm anos) deslocaram os seus navios para outros ancoradouros e os seus negócios para outras praças, com o Fez, Marraquexe, Safim , Massa, Túnis,

Hunain, Orã e Barca. 81 Depois, m andaram agentes entrar deserto adentro, num esforço para entender com o se processava o tráfico transaariano. Em 1447, o genovês Antonio Malfante foi ter ao Tuate. E diz-se que Benedetto Dei visitou Tom buctu em 1469.

Portugal, que com eçava a descer a costa africana, procurou, então, cortar o fio de um dos percursos — o que saindo de Uadam (ou Uadém ), no Adrar m auritano, ia ter ao uédi Dara e às cidades m arroquinas do Atlântico frequentadas pelos italianos. Esse itinerário, dos m ais antigos que atravessavam o Saara, se reavivara, graças à m ina de sal de Idj il, na Mauritânia. Os m ercadores de Uadam levavam o sal para Tichit, de onde ele seguia para Tom buctu. De volta, vinham o ouro e os escravos, que eram m andados para o norte.

No início, todo o com ércio ao longo dos litorais m auritanos se fazia do próprio navio. Dele desciam os portugueses, em batéis, até as praias. Mas o que se recolhia desse deserto que term inava no m ar, com um a gente que era pouca, dispersa e pobre, quase nada som ava. Não se cum priam as esperanças despertadas em 1442, quando Antão Gonçalves obtivera dos azenegues, em troca de dois m oços que levara um ano antes em cativeiro, dez negros de diferentes origens, um escudo de couro, vários ovos de avestruz e um pouco de pó de ouro, além da notícia de que havia naquelas partes m ercadores que tratavam com o

m etal am arelo.82

A notícia era verdadeira. Só que o ouro passava a boa distância do litoral e para ele as cáfilas não se desviariam , em busca de um possível negócio com uns barcos que não se sabia quando chegavam nem quando partiam . Era, assim , pouco o que os portugueses obtinham nas praias: com m uita sorte, de vez em quando, um punhado de ouro e um , dois, três, cinco ou 12 negros. Todas as tentativas de cham ar o com ércio até a costa fracassavam — com o deixa claro o relato que de um desses intentos fez Zurara no capítulo LXXXIX de sua

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Crônica. E não teriam sido alvissareiras as palavras que disse o escudeiro João

Gonçalves, conhecedor do idiom a árabe, após sete m eses entre os azenegues.84 Trouxe de sua estada no deserto m uitas inform ações (até sobre a existência do reino do Mali) e, entre elas, é possível que constasse a de que caravanas com m ilhares de cam elos não iriam m udar de rum o, a fim de ir traficar com alguns poucos batéis. Nem sequer parte de um a delas, pois o proveito a ser obtido com as trocas não j ustificaria o risco de abandonar a proteção que a cáfila dava a seus m em bros contra os rigores do deserto e os que nele pirateavam .

Não adiantava acender fogueiras na praia para avisar a gente da terra de que chegara um barco e se abria o escam bo. Força era criar-se um local onde não se interrom pesse o com ércio e cuj os depósitos fossem sistem aticam ente reabastecidos pelas caravelas e pelas naus. Um local que representasse um a alternativa — um a alternativa m ais próxim a e m enos perigosa para quem partia do Sael — às praças do sul do Marrocos. Foi escolhida para esse entreposto um a das ilhotas, Arguim , de um arquipélago à entrada de um golfo, pouco depois do cabo Branco. Na ilhota havia água doce em abundância e nela se estabeleceu a prim eira feitoria portuguesa, na m esm a linha de Uadam , que ficava, para o

interior, a seis dias de viagem na corcova de um cam elo. 85 Quando Cadam osto passou por Arguim , em 1445, o entreposto, arrendado a um grupo de burgueses, j á operava havia algum tem po, e se construía, para protegê-lo, um a fortaleza.

O litoral defronte não era estranho aos azenegues que com erciavam com o sal. E não tardou para que ocorresse o desej ado. Certos m ercadores de Uadam passaram a trazer a Arguim algum ouro, e escravos, e peles de antílope, alm íscar, gom a-laca, m arfim e ovos de avestruz, além de gatos-de-algália, cabras, vacas e cam elos. O que os portugueses davam em troca eram roupas (albornozes, alquicés, alam béis) e tecidos de lã, seda e linho, de alto e baixo preço (panos da Irlanda, panos franceses, sedas de Granada, m antas do Alentej o), arreios e selins, bacias de latão e cobre, obj etos de prata, coral, pedras de cornalina, açafrão, gengibre, cravo e pim enta. Mas a principal m ercadoria era o trigo, de procura certa entre os nôm ades. Sem esse cereal, a dieta deles

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reduzir-se-ia a leite e carne de cam elo e a algum a cevada.

Ao acom panhar em Cadam osto, 87 88 Valentim Fernandes e Duarte Pacheco

Pereira89 a com posição do com ércio, vem os que sua estrutura pouco se altera, desde o segundo terço do século XV até o início do Quinhentos. Do que não sabem os — e eles sobre isto ficam perto do silêncio — é qual o seu volum e. Deve ter sido sem pre m enos do que sonhavam os portugueses.

Por algum as poucas décadas, Arguim representou um a forte esperança de desviar-se para o Atlântico parte do tráfico transaariano. O com ércio que ali com eçou a dar-se foi o bastante para incentivar, durante o reinado de D. João II, um a outra iniciativa: a instalação de um entreposto em Uadam , no próprio ponto de saída das caravanas. O novo estabelecim ento teve curta duração. O feitor e seus dois auxiliares não aguentaram o clim a do deserto e enfrentaram tam anha hostilidade da parte dos azenegues, que tiveram de voltar para Portugal, com

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grande trabalho, risco e despesa. Não valia a pena o sofrim ento, pois os que

buscavam tratar com eles em Uadam eram os m esm os, acrescenta um cronista,

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que iam ter a Arguim . À gente de Uadam podia convir m ercadej ar em

Arguim , enviando para ali algum ouro (não m ais de 26kg a cada 12 m eses92) e

um bom núm ero de escravos (entre 800 e m il por ano, segundo Cadam osto 93), m as não estava disposta a abandonar as praças m arroquinas e os m ercados de Túnis, Orã e Barca e, m uito m enos, entregar aos portugueses o m onopólio de um com ércio de que eram m estres. Mais alguns anos e a feitoria perderá toda a im portância. Principalm ente porque os portugueses deixaram de necessitar da interm ediação dos berberes, ao estabelecer um bom trato com os reis j alofos, o prim eiro dos quais deve ter sido o de Caior.

Mal soube que se encontrava ancorado defronte de suas costas um daqueles grandes barcos portugueses, o dam el (o budom el do Encalhor, dos europeus) saiu

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até a praia, acom panhado por uns 15 cavaleiros e 150 soldados a pé. Não era a

prim eira nem a segunda vez que lidava com aquele tipo de forasteiros. E deles tivera notícias, m uito antes de que os visse, por alguns azenegues, que lhe contaram com o vinham pelo m ar com suas enorm es asas e o que traficavam em Arguim e em algum as enseadas ao norte do rio Nder. Esperava que eles trouxessem , dessa vez, m ercadorias de seu desej o e de seu agrado — as m ercadorias a que se acostum ara no com ércio com o deserto: os tecidos, os cobres e outras m anufaturas do Marrocos e do Egito, as contas de vidro de Veneza, os cavalos e os arreios da Barbaria, os corais, os cauris, o âm bar. Queria alquicés e bedéns, traj es m arroquinos que os seus usavam com gosto, e outras lãs do Magrebe. E as espadas com em punhadura sarracena. E o vasilham e de latão e cobre com as form as e os desenhos habituais. Para atender a essa dem anda, construída por séculos de tráfico transaariano, os portugueses tinham forçosam ente de, prim eiro, com erciar com os m arroquinos, de com prar dos m uçulm anos os m esm os artigos com que estes obtinham dos j alofos, sereres,

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m andingas e tucolores o ouro, a noz-de-cola e os escravos. Não podiam aspirar

a que as gentes ao sul do rio Senegal aceitassem de saída os linhos de Flandres, as m antas do Alentej o ou a cutelaria germ ânica. Esses novos produtos iriam entrar na pauta do com ércio, m as lentam ente e, por algum tem po, apenas com o com plem ento da oferta de bens que respondiam a um a oferta e a um a procura tradicionais.

Esperava m ais, o dam el. Esperava que os portugueses, do m esm o m odo que os caravaneiros do Saara e os m ercadores cuj as alm adias frequentavam as costas e percorriam os rios, reconhecessem com o dever rotineiro a entrega dos presentes de agradecim ento pela perm issão para vender e com prar, a paga em espécie do que eram taxas de estada e trânsito. E m ais ainda, pois recebera o recado de que na caravela, além de outras m ercadorias, vinham alguns cavalos da Ibéria, iguais ou sem elhantes aos do Magrebe. Tinha necessidade deles. Pois, nas savanas planas e secas do país j alofo, um a boa cavalaria podia decidir as batalhas, sobretudo naquela época, quando as tropas de m uitos dos seus adversários e a m aior parte das suas lutavam a pé, pela falta de m ontadas de

qualidade.96 Sobretudo de cavalos altos, distintos dos locais, petiços de cernelha tão baixa que pareciam pôneis. Tinham os corcéis de guerra de ser trazidos de longe, do Magrebe e das pastagens do deserto. E os seus plantéis necessitavam de constante renovação, pois dificilm ente esses corcéis im portados procriavam ao

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sul do rio. Não só os árabes e sanhaj as evitavam vender éguas aos j alofos, com o os potros m orriam facilm ente. E os cavalos adultos tinham em geral vida

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curta, pois os vitim avam várias enferm idades, entre as quais a m ais m ortífera

era a tripanossom íase transm itida pela m osca tsé-tsé. 99

Era tão grande o em penho em aum entar o núm ero de equinos de qualidade, que Valentim Fernandes e Duarte Pacheco Pereira, escrevendo na prim eira década do século XVI, ou sej a, cinquenta anos m ais tarde, estim avam que o rei

(presum o que o burba ou grão-j alofo) podia pôr em cam po oito m il 100 ou dez

m il cavaleiros.101 E um a centúria e m eia depois, Francisco de Lem os Coelho escreveria que qualquer dos cinco reis j alofos possuía em seus exércitos m ais de

quatro m il cavalos. 102 Nesses núm eros podiam , contudo, estar incluídos pôneis locais e os resultados de cruzam entos bem -sucedidos entre as fêm eas desses cavalinhos baixos e os equinos im portados.

Nem o dam el nem os seus súditos iriam perder aquela oportunidade de adquirir novas m ontadas. Até porque a posse de cavalos dava prestígio e renom e. Já haveria então, com o cinco décadas adiante, quem não se recusas-se a com prar nem m esm o um cavalo enferm o, pois, se m orresse, cortavam -lhe o rabo e o penduravam , vaidosam ente, em suas casas, com o prova de que tinham

sido donos do anim al.103 O sim ples indício de que tivera um cavalo realçava socialm ente um a pessoa, não só porque se considerava a cavalaria com o a arm a nobre, m as tam bém porque os j alofos eram adm iráveis cavaleiros. Dom avam os anim ais com o ninguém . Se um deles dizia à sua m ontaria que se deitasse, ela deitava-se. E se pedia que se levantasse, levantava-se. Se o dono se punha a correr, o cavalo o seguia, qual um cão. E se aquele, num encontro arm ado, m orria, o anim al não saía de seu lado. Pelo m enos é o que nos conta André

Álvares d’Alm ada, no fim do Quinhentos. 104 E devia ser verdade, diante das acrobacias que fizeram em Lisboa, em cavalos que não eram os deles, os acom panhantes de Bem oí, durante a festa de batizado desse príncipe j alofo, em

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1489. Quase duzentos anos m ais tarde cabrioladas sem elhantes seriam

registradas entre os j alofos por Olfert Dapper e, logo em seguida, por Jean

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Barbot.

O dam el fez negócio com o capitão da caravela, que se cham ava Alvise Ca’ da Mosto. Este não nos diz quantos cavalos trazia e vendeu ao rei de Caior. Fala em “alguns”. Seriam entre seis e oito, pois conta que o dam el lhe ofereceu cem escravos em troca dos cavalos arreados e de algum as coisas m ais, m encionando adiante que o preço de um equino com sela, cabeção e freio oscilava entre nove e 14 escravos, conform e a qualidade e a beleza do anim al. Acrescenta que vendeu fiado, que entregou as m ontadas e as dem ais m ercadorias em confiança,

indo depois até a capital, a convite do rei, receber o pagam ento. 107 Atuou, sem que disso soubesse, com o um uângara ou diula. E não se decepcionou. Não se decepcionou, m as tam pouco saiu de todo contente dessa transação e de quase todas as outras que fez no país j alofo. Esperava ouro pelas suas m ercadorias. Do rei, recebeu escravos. E se, nas feiras, conseguiu algum ouro, foi pouco, um

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quase nada. Pelo m enos, assim deixou dito, antes de partir para o rio Gâm bia,

com grandes esperanças.

Estas se frustraram . Quando subiam o rio, foram atacados por um a flotilha de 17 canoas. Ou porque a gente da terra quis im pedir que nela entrassem os antropófagos vindos do m ar, ou porque algum de seus reis — talvez o do Estado banhum de Jagra — tem esse que os estranhos afetassem os seus interesses

m ercantis ao longo do Gâm bia.109 A recepção hostil forçou Cadam osto a um retorno antecipado a Portugal, levando, de sua estada entre os j alofos, um pouquinho de ouro e os seus escravos. Com ercialm ente, a viagem não deixara de ser um êxito, pois os escravos, com certeza, venderam a bom preço. E tam bém encontraram com pradores os papagaios, os couros de boi e as peles de outros anim ais, a gom a, a cera, o m arfim e as plum as. Mas ficou no coração do navegador, naquele ano europeu de 1445, um travo de m alogro. Era o ouro o que buscava. Pois era com o ouro que se identificava, na Europa, a riqueza.

Nas décadas e no século seguintes, seria quase sem pre a m esm a história. Os portugueses a pedir ouro; os j alofos e sereres a oferecerem escravos. Não o faziam por m alícia, m as porque não dispunham de ouro, a não ser em pequena quantidade, apartados que estavam das fontes do m etal am arelo. Entre eles e as m inas de Bam buk (no alto rio Senegal e no rio Falem é) ou de Buré (no alto

Níger), 110 m ais que a distância geográfica e o obstáculo das cataratas de Felu — estas im pediriam , isto sim , que os navios portugueses subissem até a região

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aurífera ou suas proxim idades —, estendiam -se o reino do Tacrur e as

províncias e vassalagens do im pério do Mali, um Mali cuj o centro de poder se deslocava cada vez m ais para oeste, pela pressão m ilitar de Songai e pela atração

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do ouro do Gabu e do sal do Atlântico. E as dificuldades que tinham os

portugueses de chegar às zonas m ineiras só tendiam a aum entar, com a

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expansão, a partir do Futa Jalom , dos fulas de Dulo Dem ba.

É bem verdade que o ouro m uitas vezes atravessava ou tangenciava o Jalofo, a cam inho de Uadam . Mas vinha nas sacolas dos m ercadores m andingas e azenegues, ou cosidos às suas roupas, e esses não tinham por que ceder espaço aos novos com petidores de além -m ar. Nem eles nem os dirigentes j alofos, sereres ou tucolores (interessados em interm ediar o com ércio entre os recém -vindos e o interior) estavam dispostos a facilitar-lhes os cam inhos até Tom buctu e Jené, onde — nisto acreditavam os portugueses — se reunia o ouro sudanês antes de cruzar o Saara.

É possível, e até provável, que uângaras tenham levado notícias tranquilizadoras aos m andingas que viviam no baixo Gâm bia e aos seus parceiros

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banhuns sobre aqueles que vinham nos grandes barcos com asas. Por isso,

talvez, um ano depois, quando Cadam osto retornou ao rio, os negros, em vez de hostilizar as caravelas, acom panharam -nas, curiosos, em suas alm adias. Um deles subiu num dos barcos e se entendeu com um turgim ão. Levou, depois, os navios rio acim a, até a terra do potentado local, o batim ansa. Quem sabe se j á não tinha instruções para isso? Creio que sim . A m enos que ele desej asse o encontro, não se chegava a um grande da terra com o o batim ansa (talvez o rei de

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Badibu ) sem cum prir um com plicado ritual.

Um a faixa ao norte do rio Gâm bia e todo o sul até o rio Grande fazia parte do

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im pério m andinga do Mali. O rei dos reis ou m andim ansa tinha ali prepostos,

os farins, que governavam as províncias em seu nom e, e era o soberano de vários reis vassalos, os m ansas, com o os de Braço (ou Brasu), Sangoli, Cantorá, Nium i e Uli (ou Wuli), sob os quais se alinhavam diversos régulos ou chefes m enores. Com o tem po, uns e outros fortaleceram -se no poder, m antendo em relação ao m andim ansa um a subordinação m ais form al e ritual do que de fato. Um desses senhores, o m ansa do Gabu, Caabu, Cabo, Cabul, Guabu, Kabu ou

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Kaabu (o caabu-m ansa-ba), tornou-se o centro de um sistem a subim perial, que se estendeu, no fim do século XVI, por boa parte da Senegâm bia, da Guiné-Bissau e da Guiné-Conacri. Em bora se considerassem vassalos do m andim ansa, a quem prestavam hom enagem e por quem eram ungidos, sucessivos m ansas do Gabu acabaram por transform ar o que era um farim , ou província do Mali, na

cabeça de um a fam ília de estados,118 cuj os reis m antinham am pla autonom ia e possivelm ente só lhe pagavam tributo form al e lhe forneciam aj uda m ilitar, quando solicitada.

É possível que a iniciativa de perm itir a Cadam osto subir o rio tenha partido do batim ansa, que seria um vassalo do Gabu e, consequentem ente, do Mali. Não leio no veneziano que ele tenha sido recebido pelo batim ansa. Diz-nos apenas que foi tratado com am izade, tendo adquirido do rei alguns escravos e algum ouro, bem m enos do que esperava. Durante dois dias, a gente da terra com erciou com as caravelas. Trouxe panos de algodão, “m uito bem -feitos” em tear estreito (brancos, listrados de azul e branco ou de branco, azul e encarnado), e gatos-de-algália, e m acacos, e frutas, e um que outro anelzinho de ouro. E levou, em troca, “ninharias”, coisas que, na Europa, valiam entre dez e cinquenta m oedas de

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cobre. Ali, porém , eram novidades. E havia que agradar os forasteiros, para

que voltassem , abrindo, assim , um a nova via de com ércio.

Cadam osto estranhou que m uitas das transações se fizessem com pessoas que falavam outros idiom as que não o do lugar. E que essas pessoas ficassem com suas alm adias a subir e a descer constantem ente o rio. Mercadej avam nas canoas, parando onde sentissem que havia oportunidade de trocar pelos produtos daqui os dali e os de acolá. Podiam vir de m uito longe, pois a Gâm bia fazia parte de um extenso sistem a de redes m ercantis que se estendia do Sael à Serra Leoa e à Libéria, do Atlântico a Gaô e ao lago Chade, e, ao longo da costa, do Senegal

até, pelo m enos, o cabo Palm as.120 As m argens do rio funcionavam com o cais de em barque, desem barque e reem barque de toda a sorte de bens — sal, ouro, ferro, cobre, latão, tecidos, contas de vidro, cauris, m arfim , âm bar, cabaças, esteiras, cestaria, tam boretes, pilões, cerâm ica, sandálias, noz-de-cola, m alagueta, m anteiga de carité, m el, peixe e m oluscos secos, tâm aras, sorgo, arroz, m ilhetes, gado m iúdo, aves, bois, asnos e tam bém escravos. Era um com ércio em que alguns produtos chegavam em pequena quantidade, m as de pequenas quantidades com punha-se tam bém , em geral, boa parte da carga das caravelas.

Num a delas, Diogo Gom es percorreu 400km do Gâm bia, até próxim o às cataratas de Barracunda, onde se interrom pia a navegação. Naquele m esm o ano de 1446. A viagem não deve ter sido fácil. Das m argens, a gente da terra acom panhava o traj eto dos três barcos m uito altos com que entrou no rio e, depois, o daquele que prosseguiu, sozinho, o percurso até Cantorá (Cantor, Kantora ou Kuntaur). Os m oradores dos m ercados que pontuavam as barrancas do rio esperavam que neles parasse, para um com ércio do qual j á tinham notícia. E estes e aqueles viam , perplexos, em certas m anhãs ou fins de tarde, um grupelho reunir-se à beira do convés de um dos barcos, fazer sinais estranhos e lançar às águas um com panheiro m orto. Pois o Gâm bia, dom inado pela febre am arela e pela m alária do tipo m ais feroz, a Plasm odium falciparum , era um rio

doentio. Com o se anotou em Valentim Fernandes. 121 E letal, sobretudo para os estrangeiros. Com o aprendera, na prim eira viagem , Cadam osto e, ainda m ais na segunda, quando foi obrigado a sair do rio, porque m uitos dos seus “com eçaram

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a adoecer de febre quente, aguda e contínua”. Estava a m eio a viagem de

Diogo Gom es e, num só barco dos que o acom panhavam , j á tinham falecido

nove hom ens; noutro, cinco.123

Passados poucos quilôm etros da foz do Gâm bia, um chefe local, tam bém vassalo do Mali e, possivelm ente, parte do sistem a de reis-clientes do m ansa do Gabu, trocou com Diogo Gom es um a quantidade razoável de ouro por tecidos e

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m anilhas de cobre. E cedeu-lhe um guia (a quem o português dá o nom e de

Bucker, m as provavelm ente se cham ava Bocar ou Bacar, 125 ou ainda Abubacar). Esse guia não só aj udou Diogo Gom es a tratar com outros governantes m andingas e a deles obter licença para que os barcos pudessem atravessar seus territórios e neles fazer com ércio, m as tam bém conduziu a caravela até Cantorá. Ali, Diogo Gom es foi cercado por m uita gente. Vinda dos m ais variados lugares. Do Níger, de Tom buctu, de Cuquia ou Gaô e do Futa

Jalom . 126 Gente acostum ada a frequentar aquele grande m ercado. E gente que fora atraída pela novidade da caravela e pela perspectiva de — quem sabe? — um novo tipo de trocas. Pois pelas alm adias j á deviam ter chegado os rum ores de que uns novos uângaras, de pele descolorida com o a dos m ortos, estavam com erciando pelo rio e para ali se dirigiam .

Ao descer de volta o rio, Diogo Gom es foi tratando com m ansas e farins. E tam bém , provavelm ente, com alguns chefes m enores. Falou cara a cara com o batim ansa, que veio vê-lo, acom panhado, com o convinha a um rei, de grande tropa arm ada, e, após receber o tributo de praxe, presenteou-o com três escravos, duas m ulheres e um hom em . Esteve com o m ansa de Nium i e com o rei de Alcuzet, que, além de seis peles de leopardo, lhe m andou quatro negros

com sua carga de dentes de elefantes. 127

Já velho, ao descrever as suas viagens a Martin Behaim (ou Martinho da Boêm ia), Diogo Gom es não lhe disse o que com erciou em Cantorá. Se o disse, o alem ão não tom ou nota dessas suas palavras. Ou porque a inform ação era desnecessária ou porque era im prudente. Gom es adquirira de tudo o seu pouco. Tecidos de algodão, escravos e ouro, com certeza. E, m ais que o ouro em pó, em barras, argolas e j oias, talvez tenha obtido algum a notícia de com o se processava o com ércio do m etal am arelo, desde as distintas m inas até os vários portos caravaneiros do Sael.

Para Vitorino Magalhães Godinho, a ida de Diogo Gom es a Cantorá

“representa verdadeiram ente um a viragem na história do ouro sudanês”.128 Na história da im portação do ouro sudanês pela Europa, com certeza. Mas não na história do com ércio do ouro no Sudão Ocidental. Para os uângaras, diulas e diacanquês, para os reis e altos dignitários de Tacrur, Mali, Songai, Galam , Futa Jalom , Bigu e Bono, a chegada dos portugueses ao alto Gâm bia tinha o valor equivalente à abertura de um a nova rota caravaneira. Não m ais do que isso, duas ou três caravelas correspondendo a um a pequena cáfila. Havia que explorar, claro, esse novo cam inho e tirar o m aior proveito possível da presença dos novos com petidores. Para obter-se m ais em troca do ouro, das peles, do m arfim e do escravo.

Por volta de 1460, o com ércio entre os africanos do rio Gâm bia e os

portugueses tornara-se corriqueiro. 129 Já se ensaiava até m esm o um tráfico ilícito, com barcos a oferecerem aos negros arm as proibidas. Navios de 50 a 60

tonéis percorriam o rio, m ercadej ando. 130 E chegaram a descer, no início do

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século XVI, 23 a 28kg de ouro por ano. Mas, tanto em Cantorá quanto, a

j usante, noutra grande feira africana, a de Sutucó, e em Jalancó, Dobangó, Janansura (ou Jam nam Sura) e Uli, os portugueses punham a m ão tão som ente na ponta dos fios de um novelo, um a vez que o controle do com ércio, continente adentro, perm anecia ciosam ente guardado pelos ágeis e espertíssim os m ercadores soninquês, m andingas, beafadas e banhuns.

Não m ais se adquiriam panos listrados, gatos-de-algália, m onos, frutos e aneizinhos de ouro com “ninharias”, com o o fizera — e disso se vangloriara — Cadam osto. Agora era necessário pagar com cobre, tecidos de lã e linho, roupas, chapéus, contas de Veneza e conchas raras. No correr do século XVI, não só as exigências se foram fazendo m aiores, com o, em alguns casos, as relações de troca evoluíram em favor de quem trazia ao m ercado o ouro e o escravo. Escrevendo em 1594, André Álvares d’Alm ada m encionava, entre os artigos que os portugueses tinham de trazer para o com ércio na Senegâm bia, cavalos, bretanhas, lãs tingidas de verm elho, panos de algodão indiano, contas de Veneza e da Índia, estas de tipos especiais (as cham adas “fêm eas”, “do tam anho e feição dos bagos de rom ã”, as denom inadas “cano-de-pata”, de form a cilíndrica, e um a outra, redonda, do tam anho de um a avelã ou m esm o m aior), m oedas de prata (que eram derretidas para fazer j oias), vinhos, coral, pérolas, cauris e outros búzios, papel (para uso dos bixirins ou ulem ás m uçulm anos) e cobre em

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m anilhas, caldeirões e bacias de barbear. Era toda um a lista de bens que os

portugueses não com pravam barato ou, se não lhes saía caro, tinham o valor m ultiplicado pelo custo e o perigo do transporte. Se traziam de sua terra os cavalos, os vinhos e alguns panos (com o as m antas do Alentej o), tinham de ir buscar os cauris nas Maldivas, certas conchas grandes e verm elhas nas Canárias, cobre alem ão em Antuérpia ou Bruges, vidros na Itália, espadas na Alem anha, algodões no golfo de Cam baia, linho nos Países Baixos, traj es e tecidos de lã no Marrocos, contas em Veneza e na Índia.

Em Valentim Fernandes e Duarte Pacheco Pereira, tem os isto claro: j á não se obtém por um bom cavalo o m esm o núm ero de escravos que dantes: de nove a

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14 ou de dez a 12, baixaram para seis ou sete. É possível que o m esm o tenha ocorrido com outros produtos em relação ao ouro, pois ouvim os repetir-se nos testem unhos portugueses que o resgate, aqui, ali e acolá, se perdera ou j á não era o m esm o. Isto porque os m ercadores negros, m uitos dos quais tinham longa experiência em lidar com as caravanas do deserto, e quase todos dom inavam as práticas da recolha e da distribuição em grosso e a retalho de bens, bem com o as rotas, os segredos e as artim anhas do com ércio inter-regional, pronto aprenderam a tratar com os portugueses. E tam bém com os outros europeus que com eçavam a desm anchar o que se pretendia um m onopólio. Fizeram -se m ais exigentes. Regateavam sem cansaço, para conseguir deles m ais do que pretendiam dar. Jogavam com a com petição de europeus com europeus, de europeus com árabes e azenegues e de árabes e azenegues entre si. Exam inavam , m ediam , pesavam cada m ercadoria. Eram “m uito entendidos” — vai-nos dizendo André Álvares d’Alm ada — “assim nos pesos com o no m ais”. E continua: “Trazem balanças m ui sutis, m archetadas de prata, e cordões de retrós. Trazem uns escritórios pequenos de couro cru, sem fechos, e nas gavetas trazem os pesos, que são de latão da feição de dados; e o m arco é com o um a m açã de espada. Trazem esse ouro em canos de penas grossas de aves, e em ossos de gatos, escondido tudo em atilhos m etidos pelos vestidos. Trazem -no desta m aneira, porque passam por m uitos reinos, e são roubados m uitas vezes, sem em bargo de trazerem as cáfilas capitães e gente de guarda; e há cáfila que traz

m ais de m il frecheiros.”136

É preciso não iludir-se. Quando um negociante africano dava alm íscar por búzios ou por contas de vidro, não estava sendo enganado; obtinha o produto que queria; trocava algo para ele de m enor valor pelo que considerava de m aior preço. Na perm uta de ouro por cobre, atuava com o o chinês e o indiano, que ao ouro preferiam a prata. Não que o ouro tivesse pouco valor para os habitantes da larga faixa ao sul do Saara. Tinha m uito, m as, na m aioria dos lugares, m enos do que o cobre e suas ligas, com o o latão. Ao trocar por ouro m anilhas de cobre, Álvares d’Alm ada perguntou aos m andingas o que iam fazer com elas. Iam levá-las para longe — responderam —, para o país dos cafres (isto é, dos não m uçulm anos, dos pagãos, dos infiéis), onde as venderiam com lucro, pois aqueles, que as usavam com o ornam ento nos braços e nas pernas, as tinham em m aior estim a do que o ouro, a cuj a abundância estavam acostum ados. Iam

gastar m uitos dias, e até m eses, no cam inho e passar por terras inseguras. 137 Mas levariam as m anilhas para onde a relação entre o cobre e o ouro fosse àquele o m ais favorável possível.

Na m aior parte da África Ocidental, o cobre era extrem am ente precioso, por sua escassez e caráter m ágico. Usava-se nos ritos religiosos e nos adornos dos reis e potentados. Para num erosos povos, era (j untam ente com suas ligas) um poderoso am uleto, destinado a assegurar a boa saúde, a favorecer a fertilidade e

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a conj urar perigos. Acreditava-se, por exem plo, que prevenia o reum atism o

e im unizava contra as m ordidas de insetos e de cobras. Por isso, valia m uito. Muito m ais do que o ouro. Mas na região do Gâm bia não era exatam ente assim . A gente da terra tinha o ouro em alto apreço, ainda m ais do que os próprios

europeus, com o anotou Cadam osto. 139 Pois o ouro, ali, tam bém abrigava um a intensa força sobrenatural. Com petia com o cobre, sendo usado com o enfeite e am uleto. Apesar disso, perm utavam -no por cobre e latão, em bora quase peso a peso. O que talvez se devesse não só à necessidade de contar, para fins práticos,

com m etais duros de que eram carentes,140 m as tam bém ao fato de serem o cobre e o latão m atérias m ágicas m ais raras e essenciais em certos ritos religiosos. Era, por exem plo, em bacias de latão ou cobre, e só nelas, que se recolhia, em m uitos lugares, o sangue dos sacrifícios.

O ouro viaj ava para onde desse m ais lucro, m edidos tam bém a distância e os riscos. Algum de Zam fara e de Kangom a (no norte da Nigéria), de Lobi (no Volta Negro) ou do país acã chegaria até o Gâm bia, m as pouco; o seu destino seria o de atravessar o Saara. O de Bam buk e de Buré estava m ais próxim o daquele rio do que dos portos caravaneiros do deserto, m as, com o esses tinham a tradição do com ércio, provavelm ente se dividiria entre vários escoadouros. Já o

das m inas de Geba e de Corubal, caso ainda continuassem a ser exploradas, 141 saía ali do lado e não tinha por que fazer m aior percurso, a não ser que no Gâm bia não conseguisse bom preço.

Quanto aos escravos, continuaram a ser em purrados, em sua m aioria, para o Saara. Não que os portugueses não os adquirissem na Senegâm bia e os enviassem aos trabalhos dom ésticos, à drenagem dos pântanos e a outras labutas na península Ibérica, e às lides agrícolas nas ilhas de Cabo Verde e da Madeira. Em barcavam quantos lhes caíssem nas m ãos e coubessem nos navios, m as os consideravam com o um subproduto da busca do ouro. Enquanto isso, não cedia a dem anda das cáfilas transaarianas por cativos — a estender-se do Atlântico ao Nilo — e era m ais alentada a sua oferta de sal e de cavalos.

Sugere Robin Law que a venda de cavalos pelos portugueses, no fim do século XV e nos com eços do XVI, afastou do negócio, na Senegâm bia, os traficantes transaarianos. Os m ouros teriam sido deslocados do m ercado por falta de condições para com petir com os baixos preços dos anim ais que desciam das caravelas. Teriam tido, assim , os portugueses um papel fundam ental no extraordinário increm ento que tom ou a cavalaria na região, no período que vai

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de 1450 à prim eira década do século XVI. Tenho m inhas dúvidas. É verdade

que Cadam osto afirm a, em determ inado m om ento, que os árabes trocavam com os negros um cavalo por dez, 12 ou 15 escravos, e, algum as páginas depois, que se vendia um cavalo arreado por entre nove e 14 escravos, do que se pode

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deduzir ter sido por esse preço que fechou negócio com o dam el de Caior. O

que leio, porém , em outros textos portugueses do início do século XVI, são repetidas frases de desalento pela queda na relação entre escravos e cavalo. A im pressão que m e fica é a de que a baixa nos preços à beira-m ar (e talvez tam bém no Sael m ais ocidental) se tenha devido a um aum ento repentino da oferta, resultante da presença portuguesa. A um aum ento, repito, e não a um a substituição da oferta. É até possível que esse declínio nos preços tenha resultado de um a reação dos caravaneiros à entrada no m ercado dos navegadores. Ou da astúcia dos j alofos e m andingas que rapidam ente com preenderam que aos portugueses resultaria difícil levar os cavalos de torna-viagem e que prefeririam colocá-los m ais barato do que ter o prej uízo do regresso. Com o quer que tenha sido, retiro isto dos textos: se caiu o valor dos anim ais, foi porque os africanos souberam barganhar a redução do núm ero de escravos que davam por cavalo.

O declínio no valor relativo dos equinos parece colidir com as reiteradas afirm ações de que os africanos da Senegâm bia desej avam tanto os cavalos, que

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com pravam qualquer um , ainda que doente. Se a dem anda fosse assim tão forte, o valor dos cavalos não dim inuiria. Mas dim inuiu. O que m e leva a supor que talvez só se adquirisse um anim al enferm o — e, quase certam ente, pelo m ais baixo preço — para ficar com o seu rabo. Um rabo de cavalo preso a um cabo de cobre, prata ou m adeira esculpida, e usado com o espanta-m oscas, dava lustre a quem o portava. Só os grandes podiam tê-lo. Em alguns casos, com prar-se-ia, portanto, o rabo (e não o cavalo que vinha com ele) — o rabo que era um bem conspícuo, cuj a posse se exibia e adm irava, e daí o seu alto valor. Só encontro essa explicação para o fato de grandes cavaleiros, que conheciam a fundo as suas m ontadas, quererem ficar, num a transação com ercial, com anim ais doentes.

Aceitem os, porém , o enredo de que a baixa no valor dos equinos tenha resultado, na Senegâm bia, da ação voluntária ou involuntária dos portugueses para assegurar o dom ínio do m ercado. Ainda assim , encontro dificuldade em adm itir um a retirada dos m ouros. O com ércio de cavalos por escravos envolvia dois artigos de alta dem anda e dava lucro nas duas pontas: ganhava-se com o cavalo e ganhava-se com o escravo. Não seriam três ou quatro escravos a m enos em cada transação que iriam reduzir substancialm ente ou desfazer um tráfico antigo, no qual eram am plas as m argens de benefício.

Creio que os cavalos trazidos nas caravelas não substituíram os que vinham nas cáfilas do Magrebe, do Egito, das estepes do sul do deserto e, tam bém , de regiões do Sael e das savanas subsaarianas onde boas pastagens e a ausência da tsé-tsé perm itiram que se procriassem equídeos de qualidade. De outro m odo, com o explicar o extraordinário aum ento de cavalos nos exércitos j alofos? Se os

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500 ou 700 escravos exportados em m édia, por ano, entre 1450 e 1500, da Guiné para a Europa, e m ais os 200 ou 300 postos nas ilhas de Cabo Verde e na Costa da Mina tivessem sido todos adquiridos com cavalos na Senegâm bia, à razão de nove por um , teríam os entre 78 e 110 equinos anuais. Considerando-se a alta m ortalidade dos anim ais e sua inexpressiva reprodução, é difícil entender com o, no início do Quinhentos, o burba podia pôr em cam po entre oito m il e dez m il cavaleiros, e aquele a quem Duarte Pacheco Pereira cham a rei dos

m andingas, o dobro disso, 147 se tivessem de contar apenas com os anim ais que traziam as caravelas — poucos, aliás, em cada um a delas.

O próprio Robin Law deixa, aliás, claro, que o com ércio transatlântico de

cavalos só foi im portante na Senegâm bia. 148 Todo o resto da savana sudanesa continuou a ser abastecido de equinos pelas cáfilas transaarianas. E a levar para o norte da África a m aior parte da escravaria e do ouro. Este, m ais do que por cobre, se trocava por sal. E o sal que se consum ia na savana e na floresta, em bora fosse produzido, na costa, pela evaporação da água do m ar, e retirado das águas de fontes salinas e da queim a de folhas e raízes de algum as árvores, provinha sobretudo das m inas do deserto. Pela lixiviação dos solos salinos, em Aulil e Bilm a. Pelo corte do sal encontrado em estado sólido, em Idj il, Taoudeni, Tagaza e Manga. Talhava-se o sal sólido em grandes blocos retangulares: os que saíam de Taoudeni tinham cerca de um m etro de com prim ento por 40cm de

largura e três de espessura.149 Pouco dele se perdia ao sol e à chuva e era m ais fácil de transportar do que o granulado, que viaj ava com prim ido em cestos cobertos de esteira. O sal era, por assim dizer, a m ola das trocas transaarianas. Sem ele não se obtinha ouro nem em Bam buk nem em Buré. E os portugueses não se apossaram de suas fontes nem de seu com ércio.

Tam pouco chegaram às m inas ou aos aluviões de ouro. Sobre de onde vinha o m etal am arelo, sem pre se fez segredo. Os próprios m ansas souberam , no apogeu de seu im pério, que o controle m ilitar das regiões das m inas podia significar a redução ou o estancam ento da oferta. Por isso e no interesse do afluxo de ouro para o m undo m uçulm ano, evitaram fazer contra os pagãos de Bam buk e Buré a guerra santa, não os incluindo no Dar al-Harb, m as num a outra categoria, aceita por alguns j uristas, o Dar as-Suhl (a casa da paz) ou Dar al-Ahd (a casa da aliança), na qual se incluíam certos povos que podiam tem porariam ente

continuar sem se converter, desde que pagassem um bom tributo.150 As trocas de sal por ouro eram feitas por m eio dos uângaras e, se a alguns deles se perm itia o acesso às áreas produtoras, não lhes eram revelados os m istérios e o ritual que envolviam a sua cata. Esses uângaras procuravam naturalm ente m anter os com petidores ignorantes de com o obtinham o ouro e proteger o seu m onopólio até m esm o com a ressurreição de antigas balelas com o a do “com ércio

silencioso” ou “escam bo m udo”151 e o recurso a histórias fantasiosas em que os m ineiros figuravam com cabeça de cachorro ou eram dados à antropofagia.

Os portugueses, ao frequentar as costas do Senegal e da Gâm bia, fizeram com que essas deixassem de ser áreas periféricas ou lindeiras dos im périos do Grão-Jalofo e do Mali. Ao colocar nas m ãos dos reis, régulos e chefes locais cavalos e bens de prestígio, com os quais se atraíam novas fidelidades e se fortaleciam as antigas (aum entando, assim , o núm ero de hom ens que podiam eles pôr nos cam pos de batalha), os portugueses contribuíram (até m esm o ao atuar com o aliados m ilitares) para alterar a correlação de forças políticas na Senegâm bia. O com ércio transatlântico apressou o deslocam ento do centro de poder do Mali para o oeste, fortaleceu o Gabu e estim ulou o desm em bram ento do im pério do Grão-Jalofo, com a am pliação da independência e da autoridade do braque de Ualo, do dam el do Caior, do bur do Sine e do tenhe do Baol. O que as caravelas portuguesas não fizeram foi desarrum ar o tráfico transaariano. Até m esm o porque os seus tripulantes dependiam dos uângaras ou diulas para se abastecer de ouro, de couros, de panos, de gom a, de cera, de m arfim e de escravos.