A Manilha e o Libambo
10. No reino do Congo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
na ilha de Luanda82 — e tam bém o songo, um a outra conchinha que as m ulheres
retiravam das praias, m ais ao norte 83 — afluía obrigatoriam ente para o tesouro do m anicongo. Este detinha, portanto, o controle absoluto da m oeda tradicional, e só dele podiam os portugueses obter, por troca de suas m ercadorias, os búzios
com que pagavam os escravos nos pum bos de Malebo.84 Além disso, a escravaria tinha de atravessar os territórios congos e pagava taxas de trânsito e em barque a D. Afonso. Era das plantações do rei e do m ani-sônio que se abasteciam as em barcações portuguesas. Delas tam bém com iam os cativos, enquanto, à espera de navio, se acum ulavam dentro de cercas em Pinda e em Banza Congo. A fim de evitar essa despesa, os traficantes passaram a pôr os seus próprios escravos a cuidar da terra, nas roças em que, além dos inham es e outras plantas locais, com eçaram a cultivar o m ilho e a m andioca, cuj a farinha resistia, sem estragar-se, às longas viagens. Esses m andiocais e m ilharais iriam reproduzir-se nos pontos de repouso das trilhas que conduziam aos pum bos de Malebo.
Na capital e em Pinda m oravam de preferência os portugueses e são-tom enses que serviam de agentes para os pom beiros, quando deles não eram os
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patrões. Conform e registraram , entre 1525 e 1535, em seus apontam entos, os
capitães de vários barcos, era desses residentes que adquiriam o grosso de suas
cargas. 86 Alguns, com o um certo Manuel Varela, tinha funções oficiais no reino
africano e gozavam de favor do m anicongo ou do m ani-sônio.87
A política de D. Afonso I para regular o tráfico de escravos deu certo; o proj eto europeizador, não. Quando aquele rei faleceu em 1543, j á era evidente o m alogro. Portugal não fizera a sua parte a contento nem cum pria suas prom essas. Esta, porque carecia de m eios. Aquela, porque colidia com seus interesses. As outras, porque traído pela torpeza e as am bições hum anas. Além de contar com pouca gente para o tam anho de suas em presas, o país estava fascinado pela aventura no Índico e nela com prom etido. O Congo não tinha o ouro da Mina e seus escravos não apresentavam o m esm o atrativo que as especiarias, a laca, a porcelana, a seda, os rubis e as esm eraldas asiáticas. Era em Goa que se faziam as fortunas; não em Banza Congo, ou São Salvador, com o passara a cham ar-se. Para a Índia voltavam -se as prioridades da Coroa Lusitana e as am bições de seus súditos inclinados à aventura. Para lá desej avam ir os m ais em preendedores e os m ais capazes.
Sabem os que os artesãos portugueses ergueram no Congo igrej as e casas de pedra, com cobertura de telhas. Não tem os notícia, porém , de que tenham construído m oinhos, nem de que se tenham feito acom panhar pelo carro de roda. Não substituíram por outros, m ais eficientes, os teares e fornos m etalúrgicos tradicionais. Nem alteraram as ferram entas e as práticas agrícolas. Introduziram , é certo, em algum m om ento da segunda m etade do século XVI, o m ilho, a
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batata-doce e, por essa época ou logo no início do Seiscentos, a m andioca, porém estas e outras plantas eram am ericanas, e as técnicas de seu plantio e de seu em prego tinham sido aprendidas dos tupis. Era à m aneira dos am eríndios que
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da m andioca se faziam , no que hoj e é Angola, a farinha, o beij u e o pirão.
Os que deviam ser agentes do desenvolvim ento, inclusive os padres e frades, m ostraram -se m ais interessados em m ercadej ar com escravos do que em ensinar. E, a contraditar a política de persuadir ou educar pelo exem plo, a conduta de quase todos os portugueses era a pior possível. O próprio m anicongo não se cansou de queixar-se disso m esm o a D. Manuel I. De alguns sacerdotes, escreveu que só cuidavam de com prar e vender e de que haviam enchido “as suas casas de putas, em tal m aneira” que um dos padres (de que dá o nom e) “em prenhou um a m ulher em sua casa e pariu um m ulato, pelo qual os m oços que ensinava e tinha em sua casa lhe fugiram ” e foram “contar a seus pais e m ais e parentes, pelo [que] todos com eçaram a zom bar e escarnecer” dele, D.
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Afonso, dizendo ser m entira tudo o que apregoava.
Os portugueses não ensinaram os congos a construir grandes barcos a vela. Nem atenderam ao pedido de D. Afonso para que lhe fornecessem um navio, a
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fim de que pudesse rom per o isolam ento que lhe im punha a ilha de São Tom é. D. Manuel I deve ter com entado quão ingênuo era o m anicongo, quando este, cansado da oposição que os colonos de São Tom é lhe faziam , solicitou que a ilha
fosse posta sob a suserania dele, D. Afonso. 92 Os são-tom enses, ao finar-se o soberano conguês, assistiriam à vitória de sua política: o rei de Portugal desinteressar-se-ia da m odernização do Congo, no qual passara a ver apenas um m ercado a m ais.
Do lado conguês, as m udanças encontraram resistências. As estruturas e os costum es sociais construídos ao longo de m uitas gerações dem oravam a ceder, e nem sem pre cediam , ao im pacto da nova ordem que o palácio procurava im por. Os chefes de candas esforçavam -se por preservar o m atrim ônio polígam o, no qual se fundava a fam ília conguesa, e com os quitom es e os gangas opunham -se, de aldeia em aldeia, à europeização. Quanto aos grandes da terra, com o os governadores provinciais, m ostravam -se interessados sobretudo em estabelecer contatos diretos com os portugueses, para, por m eio do com ércio, obter arm as e artigos de luxo e, assim , se robustecer política e m ilitarm ente, visando a independentizar-se ou a m elhorar suas candidaturas a m anicongo, num futuro processo sucessório. Por isso, m uitos deles fizeram o j ogo de São Tom é.
A ânsia por escravos viciou todo o diálogo entre o Congo e os portugueses. Ao exportar gente, aquele país perdia m ão de obra. E cada vez m ais, pois, se na terceira década do século XVI, saía pelo porto de Pinda, entre dois m il e três m il escravos por ano, na quarta, o núm ero aum entara para entre quatro m il e cinco
m il, e em 1548, atingia os seis ou sete m il.93 Pelos escravos que deixava de pôr a cultivar as terras, e a fiar, e a tecer, e a m oldar o barro, e a fazer cestos e esteiras, e a produzir enxadas, canoas, redes, fornos, arcos, flechas, m aças e lanças, o Congo não recebia bens de capital, m as produtos supérfluos ou de consum o im ediato. O tráfico tornara-se um óbice à am pliação dos investim entos dom ésticos e, consequentem ente, à expansão da econom ia.
Se agricultores, caçadores, pescadores, poteiros, tecelões, fazedores de sal, ferreiros e m ineradores de cobre continuaram a trabalhar com o dantes e a levar, com o sem pre tinham feito, suas produções aos m ercados, o tráfico com os portugueses criara ou fortalecera um a classe de com erciantes especializados, que transacionavam com produtos estrangeiros e com escravos. Essa nova classe form ara-se possivelm ente nas fendas que se abriam nas bordas da nobreza e nos interstícios entre ela e seus servidores plebeus. Por outro lado, num a sociedade j á fortem ente estratificada, a europeização da aristocracia acentuou a separação entre o fidalgo e o hom em com um . Este passou a ser cada vez m ais explorado por um a nobreza que em boa parte se convertera ao catolicism o, aprendera a ler e se vestia, da porta de casa para fora, à portuguesa.
A essa aristocracia desagradara, e m uito, a regulam entação real do tráfico de escravos. Mais ainda, claro, aos m oradores de São Tom é. Estes, para escapar à vigilância do m anicongo, j á deviam , desde provavelm ente os prim eiros anos do século XVI, m andar alguns de seus barcos ao litoral que se estende desde o sul da foz do Zaire até além da em bocadura do Cuanza. Em bora a planície costeira até Luanda fosse habitada predom inantem ente por congueses e estivesse sob a suserania do m anicongo, as distâncias a protegiam do controle prevalecente em Pinda. Ao alcance, quando m uito, da ponta dos dedos do m anicongo e não sofrendo m ais do que as advertências e ralhos do m onarca português, os navios são-tom enses se foram tornando m ais frequentes naquela parte da costa a partir do final da segunda década do Quinhentos.
O ponto de atracação m ais procurado era um a baía atrás da ilha de Luanda. Não só estava ela bem abrigada dos ventos fortes e do m ar agitado, m as tinha por hinterlândia, no planalto, a partir da forquilha entre os rios Lucala e Cuanza, um reino em expansão, de cuj as ações arm adas defluía um grande núm ero de
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cativos. O soberano desse reino andongo — os andongos são um subgrupo dos
am bundos95 — tornou-se rapidam ente um bom fornecedor dos barcos de São Tom é. O angola a quiluanj e — este, ngola a kiluanj e, era o título daquele soberano — vendia-lhes, além de escravos, cobre e m arfim . Para isso, talvez se prevalecesse de ter com o m anicongo um vínculo de vassalagem — pagava-lhe anualm ente tributo — e contasse com a interm ediação ou a cum plicidade dos dignitários congos locais, que não ignoravam ser esse com ércio ilegal. Com o quer que tenha sido, o angola fez das trocas com o Atlântico um instrum ento para
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fortalecer o seu com ando sobre os cabeças de linhagem andongos. Depois, talvez para desm anchar am eaças de com petidores, quis que se reproduzisse no Dongo (Andongo ou Ndongo) o que se passava no Congo. Por isso, em 1519, usando os bons ofícios do conguês D. Afonso I, solicitou a Portugal sacerdotes,
artesãos e com erciantes.97
D. Manuel I aquiesceu. E m andou ao Dongo Manuel Pacheco e Baltasar de Castro, com ordens de que antes passassem por São Tom é, para ali recolher os padres que se encarregariam da catequese. Os em issários portugueses chegaram à em bocadura do Cuanza em 1520. Baltasar de Castro desem barcou e dirigiu-se à capital do angola, que ficava no planalto, a uns 160km do litoral. Encontrou um a cidade que j á deveria ser sem elhante àquela descrita, cinco décadas m ais tarde,
por um j esuíta, o padre Francisco de Gouveia, com o do tam anho de Évora.98 O rei atendeu-o num a das num erosas casas cobertas de palha que form avam o seu palácio e num recinto cuj as paredes estavam cobertas por tapeçarias de ráfia.
O angola a quiluanj e não recebeu o batism o. Talvez intrigas dos são-tom enses o tenham feito desistir de seu desej o, m as o m ais provável é que não acom panhasse Baltasar de Castro quem pudesse m inistrar os sacram entos. Ignorando, com o de costum e, as ordens do m onarca português, as autoridades de
São Tom é negaram -lhe os sacerdotes.99 A ausência de padres e tam bém de com erciantes decididos a fixar-se no Dongo deve ter decepcionado o angola. E talvez explique parcialm ente o não ter ele perm itido a partida de Baltasar de Castro. Guardou-o com o penhor. A m enos que o português tenha decidido perm anecer por m ais tem po no país, a fim de dar cum prim ento a um a das
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m issões de que fora incum bido: a de obter inform ações sobre m inas de prata.
Ignoro com o surgiu na m ente dos portugueses a quim era das m inas de prata no Matam ba, no Dongo e em outras terras do que hoj e é Angola. Em 1520, o m anicongo encam inhou a D. Manuel I, da parte do angola a quiluanj e, algum as
m anilhas de prata, 101 e, em 1530, fez chegar ao soberano português duas outras,
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com o m im o seu, dando por origem a Matam ba. Esses presentes devem ter despertado em D. Manuel a am bição de pôr as m ãos nas j azidas de onde o m etal havia saído. As suspeitas de que houvesse depósitos argentíferos no Congo ou nas terras vizinhas foram , depois, aum entando de ano para ano, em grande parte por causa da reserva e da desconfiança com que os congueses reagiam à curiosidade portuguesa pelas m inas existentes no país. Justificava-se a cautela: o cobre e o ferro que delas retiravam eram produtos de alta valia. As m anilhas e as barras de cobre tinham sido, desde o início, os principais artigos com que se pagavam os portugueses. E eram m ais im portantes ainda no com ércio intra-africano, j untam ente com o ferro, ainda que este cham asse m enos a atenção do olhar estrangeiro. Por isso, quando os portugueses tentaram ter acesso às m inas de cobre, foram delas barrados por D. Afonso. Deu-se isto em fins de 1535 ou início de 1536, quando desem barcou no Congo, acom panhado por alguns fundidores, certo Rui Mendes, que D. João III nom eara feitor das m inas de cobre. O m anicongo não perm itiu sequer que com eçassem os seus trabalhos, e todos,
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m enos um , regressaram quase que im ediatam ente a Portugal.
No seu afã para saber das m inas, Baltasar de Castro levantou suspeitas entre os andongos. Não é de afastar-se que o português tenha andado a bisbilhotar as m inas de ferro do rio Nzongej i (um afluente do Lucala) e as de sal de Ndem ba, na Quiçam a, nas quais se assentava a econom ia do reino do Dongo. O angola, pressentindo nele um inform ante, teria um m otivo adicional para o não soltar: im pedir que fosse difundir entre estranhos as suas riquezas ou revelar as debilidades de seu sistem a defensivo. Manteve-o na Corte por seis anos — tem po durante o qual Baltasar de Castro se convenceu da inexistência das j azidas de
prata — e só o deixou partir graças à intervenção do m anicongo.104 Este, ao que parece, teria acedido a que se fixassem com erciantes portugueses no Dongo e
enviado um padre, para batizar o angola. 105
O angola ficou cristão por pouco tem po. E teve de contentar-se com o m ercadej o que fazia com os são-tom enses na baía de Luanda. Pois a Coroa portuguesa desinteressou-se, durante uns bons 30 anos, por aquela parte da África. Dali só queria escravos. Sem m aiores esforços ou investim entos. Até m esm o em relação ao Congo houve um refluxo do interesse, que m elhor se definiria com o descaso. A persistência e a expansão do cristianism o pouco ou nada deveu, nesses anos, à ação do Estado português, m as, sim , ao zelo de um reduzido clero nativo — durante o seu reinado, D. Afonso I m andara ordenar em Portugal entre 30 e 40 rapazes, escolhidos entre seus filhos, sobrinhos e m em bros
de seu clã106 —, de vários diáconos e num erosos catequistas congueses, recrutados sobretudo entre os m uissicongos que sabiam ler e escrever. Do abandono a que o governo lusitano votou o Congo, patente sobretudo na carência de sacerdotes europeus, resultou que o catolicism o com eçou a deixar de ser visto com o um a religião de estrangeiros. E reforçou o controle da Igrej a pelo Estado conguês ou, se assim se preferir, pelo m anicongo, que, ao sustentar
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financeiram ente o clero, procurou pô-lo politicam ente a seu serviço.
A quarta década do século XVI foi de grande instabilidade política. D. Afonso I envelhecia, e a perspectiva de sua sucessão agitava os pretendentes. Em bora ele, para a Igrej a e para os portugueses, fosse casado com um a só m ulher, tinha
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num erosas concubinas. Essas am ásias eram , na realidade, esposas segundo as
tradições conguesas, pois havia para o m anicongo a necessidade de vincular-se a m ulheres de diferentes linhagens aristocráticas, para delas ter filhos. Tão num erosos foram os seus rebentos e os dos reis que o sucederam , que se form ou no Congo um a nova classe de nobres, a dos infantes.
Para com plicar as cousas, D. Afonso adquirira o hábito de designar portugueses para alguns dos altos cargos do estado. Trouxera, assim , para dentro do palácio as disputas que se travavam , no bairro dos europeus (porque esses ocupavam um bairro próprio em Banza Congo), entre os partidários e os inim igos de São Tom é, e as invej as, as intrigas e os ódios que se iam entranhando naqueles que eram , em sua m aioria, aventureiros sem escrúpulos. Esses indivíduos, vinculando-se pelo com ércio ou pelo casam ento à gente da terra, envolviam -se tam bém , j untam ente com seus filhos m ulatos (e pertencentes à linhagem das m ães), na com plexa política local, com a agravante de que nem sem pre entendiam os seus delicados j ogos de equilíbrio entre rei e nobreza, entre as províncias e a corte, entre m uissicongos e outras candas, entre estas e os
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quitom es ou “senhores da terra”.
As contendas entre portugueses desem bocavam m uitas vezes na violência. Na luta corporal. No assassinato. O m anicongo, sendo para os seus um ser sagrado, um inquice vivo, estava até certo ponto a salvo de agressões físicas. Atentar contra sua vida seria um a abom inação, um sacrilégio. Os portugueses não o viam assim , não faltando os que o consideravam com o um chefete de bárbaros. Form ara-se até m esm o um a facção de adversários do rei. E foi dela que partiu a
tentativa de regicídio, em 1540. 110 Dentro da igrej a e durante a m issa do Dom ingo Pascal, oito portugueses, aliciados por um frade, lançaram um petardo
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contra D. Afonso. Erraram o alvo, ferindo alguns fiéis.
Três anos m ais tarde, m orria o rei. Tem eroso de desagradar os m uissicongos, recusara-se ele, apesar da insistência portuguesa, a designar com o sucessor o seu filho m ais velho. Nkanga Mbem be (Nkanga-a-Mem ba), o prim ogênito, Pedro para os cristãos, pertencia provavelm ente à m esm a canda do pai, um a vez que a
principal esposa do m anicongo era escolhida no seu clã. 112 Esse requisito, que rom pia a regra da exogam ia, reguladora dos m atrim ônios entre os congueses, destinava-se provavelm ente a sublinhar que o rei, ao ser ritualm ente entronizado, se desligava de sua linhagem e se punha fora e acim a de seus laços de fam ília. Mas os príncipes que nasciam desse casam ento, não. Porque se rom peria a circulação do poder entre as candas, os m uissicongos não podiam aceitar que D. Pedro sucedesse ao pai. O novo m anicongo tinha, necessariam ente, de ser filho de um a das outras m ulheres de D. Afonso, que não a sua esposa principal. Para os portugueses, isto era um absurdo; significava preterir o filho legítim o por um bastardo.
Aberta a disputa sucessória, Nkanga Mbem be, apoiado por boa parte dos portugueses, sentou-se no trono por um brevíssim o tem po. Contestado pela m aioria dos m uissicongos e por um a outra facção portuguesa, foi vencido m ilitarm ente por Nkum bi Mpudi ou D. Diogo, um neto de D. Afonso por sua filha Nzinga ou Jinga. D. Pedro refugiou-se, então, num a igrej a, onde ficaria, sob o
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privilégio do couto, até 1566, quando m orreu. Mais efêm ero ainda teria sido o
reinado de seu irm ão, Mpudi Nzinga ou D. Francisco I, que tam bém tentara opor-se a D. Diogo.
D. Diogo I foi investido m anicongo em fins de 1544 ou inícios de 1545 e reinou até 1561. Durante todo esse tem po, teve de dar com bate a um a nem sem pre dissim ulada oposição dos fidalgos que haviam apoiado D. Pedro e continuavam a tê-lo com o o verdadeiro rei. A presença de D. Pedro, hom iziado num a igrej a em plena Banza Congo (cidade que tom ara o nom e de São Salvador), alim entava esse antagonism o. Da sacristia, o m anicongo deposto não cessava de conspirar, aj udado por seu irm ão, D. Rodrigo, que fugira para São Tom é e ali trabalhava incansavelm ente pela causa da restauração, buscando apoio na ilha, na corte de Lisboa e no próprio Vaticano. Por m uito tem po, aliás, ficou ele à espera de um a bula papal que ratificasse D. Pedro com o o legítim o
rei do Congo. 114 Contra D. Diogo assanhavam -se tam bém os com erciantes de São Tom é e seus sócios e partidários no continente, os cham ados tom istas, inconform ados com o controle que o m anicongo detinha sobre o com ércio de escravos. E igualm ente os m issionários j esuítas que o rei de Portugal enviara ao Congo em 1548, e que se alinharam contra D. Diogo, tão pronto com preenderam que este, ao lhes garantir o sustento e ao subsidiar as atividades da Igrej a, delas não cederia o governo. Do seu lado, D. Diogo contava com a m aioria dos grandes da terra, com o clero nativo, que resistia a obedecer ao bispo de São Tom é, com os padres e os frades europeus que desconfiavam dos j esuítas, e com os portugueses que viviam no Congo e tinham interesses com erciais contrários aos dos tom istas.
A hostilidade dos j esuítas — alguns deles, entre os quais o próprio superior, o padre Jorge Vaz, cederam às tentações e se fizeram com erciantes de
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escravos — é responsável pela im agem que nos ficou de D. Diogo I: a de um rei j anota, que não repetia m uitas vezes a m esm a roupa, cortada à
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portuguesa; a de um violento, que m andou trucidar todos os que pôde do clã
de D. Pedro; e a de um herege à beira da apostasia ou, quando m enos, um insubm isso e im penitente polígam o. De que não se afastou da fé e era considerado pelos portugueses de Pinda e São Salvador com o um bom católico, ainda que à sua m aneira (ou m elhor, à m aneira conguesa), a evidência m ais clara e concludente é o respeito com que tratou o hom izio de seu arqui-inim igo
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D. Pedro num a igrej a, na própria capital do reino. D. Diogo podia facilm ente arrancá-lo de lá, m as preferiu pagar o alto preço de não ferir a santidade do asilo.
Ao que tudo indica, D. Diogo era um político hábil, paciente e m atreiro. Com o o avô, ele via no rei de Portugal um aliado im portante e útil, e não um suserano. E, com o o pai, não ignorava que o controle das transações m ercantis com o interior, sobretudo o do tráfico de escravos, era um dos principais suportes de seu poder. Graças a esse com ércio, que lhe perm itira retribuir com bens de prestígio os presentes e os tributos dos reis vizinhos e am pliar a sua própria força m ilitar, o m anicongo estendera os lim ites dos territórios sobre os quais m andava ou que m antinha em sua órbita. Um a espécie de Grande Congo passara a incluir, ao norte do rio Zaire, as terras dos panzualum bos (ou do pangu a lungu) e os reinos de Angoio (Ngoy o), Cacongo (Kakongo), Vungu e Macoco; a leste de São Salvador, as chefias sossos e sucus; e, na direção do sul, os reinos am bundos de
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Matam ba e do angola a quiluanj e. Em m uitos desses territórios a hegem onia
do m anicongo viria a m ostrar-se passageira.
Para m anter o dom ínio sobre o fluxo das trocas, D. Diogo teve de enfrentar sérios desafios. O prim eiro veio dos pum bos do Malebo. O m acoco não m ais aceitava que os pom beiros lhe pagassem som ente em zim bos; queria receber tam bém tecidos e outras m ercadorias asiáticas e europeias, pois passara a utilizá-las da m esm a form a que o m anicongo, para trazer à vassalagem os pequenos estados vizinhos. O rei do Congo, vendo-se am eaçado de perder o governo dos bens de prestígio e o com ando do com ércio, apressou-se em adotar m edidas que com pensassem suas perdas e assegurassem o controle sobre os negócios: fixou as razões de troca entre cortes de fazenda, zim bos e escravos, im pôs taxas de saída e chegada aos pom beiros e determ inou as rotas que deviam seguir as caravanas, expulsando do país, em 1555, vários dos m ercadores que teve por
recalcitrantes. 120 Ao adotar essas decisões, ele tinha de estar atento, a fim de
im pedir que os vilis121 122 do reino de Loango ou outros povos ao norte do rio Zaire abrissem novas rotas para o lago Malebo. D. Afonso I j á tivera de fazer face a um a am eaça sem elhante e concreta: na segunda década do século, a gente do pangu a lungu, que vivia em ilhas do Zaire e em parte de sua m argem direita, tentara estabelecer um tráfico próprio de escravos com os portugueses. O
m anicongo teve de dar-lhes guerra e os colocou sob seu governo. 123
O repto m aior não vinha, porém , do norte, m as, sim , da região am bunda. Em bora a Coroa portuguesa os tivesse proibido de ali negociar, os navios são-tom enses frequentavam não só a baía de Luanda, m as tam bém outros pontos da costa. A audácia dos ilhéus era tam anha, que chegaram alguns deles, em 1548, a
pilhar os lugares de onde se retiravam os zim bos para o m anicongo. 124 A este não escapava tam pouco que o angola a quiluanj e lhe desobedecia rotineiram ente, ao m ercadej ar com os portugueses. Na realidade, a vassalagem , ainda que frouxa, incom odava o rei do Dongo, a cuj a am bição o com ércio com o Atlântico dava asas. E tinha ele aliados na classe m ercantil de São Tom é, cada vez m ais com bativa em sua obj eção a qualquer m onopólio com ercial, fosse do soberano português ou do rei do Congo. Explica-se o ativism o do governador da ilha: de Pinda j á se exportavam anualm ente cerca de oito m il escravos; e, em 1548, só não tinham saído ainda m ais por falta de navios, do que resultara a m orte de num erosíssim os cativos, durante m eses de espera, nas piores condições
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de alim entação e higiene, por um em barque que não se dava. Eram cifras, aquelas, que o tráfico até então não conhecera. E a elas teríam os que som ar as pessoas em barcadas de contrabando, no próprio Congo, e sobretudo em outros pontos da costa do que hoj e é Angola.
Oito anos m ais tarde, cansado da renitente insubordinação do angola a quiluanj e, o m anicongo decidiu puni-lo. O seu exército foi, porém , derrotado pelos andongos às m argens do rio Dande, num a batalha onde houve portugueses a lutar dos dois lados.
A vitória consolidou a independência do reino do Dongo. O angola não dem orou em enviar um a em baixada a Lisboa, a solicitar religiosos e a liberação do com ércio. Sob pressão dos j esuítas, a rainha regente do trono português, Dona Catarina, atendeu ao rei andongo e lhe m andou um a m issão sob o com ando de um neto do navegador Bartolom eu Dias, Paulo Dias de Novais, e integrada por quatro padres da Com panhia de Jesus. Surpreendentem ente, os portugueses foram recebidos com indecisão e frieza. O angola a quiluanj e que havia feito o pedido estava m orto, e o seu sucessor, que tinha o título de ndem bi a angola, não pensava com o ele. Talvez o ndem bi a angola pertencesse a um a outra linhagem
que sucedera à do angola a quiluanj e no poder 126 e quisesse distanciar-se das iniciativas de seu antecessor. Tem eroso da instalação de m ais europeus em suas terras — j á vários viviam nelas, à m aneira dos lançados —, e de europeus que se com portassem com o os do Congo, só após vários m eses perm itiu que Paulo Dias de Novais subisse o rio Cuanza e chegasse à sua capital.
O rei aceitou os presentes, m as recusou a conversão. E proibiu o regresso de Dias de Novais e alguns de seus com panheiros ao litoral. Manteve-os, de 1560 a 1565, no que se pode cham ar de cativeiro. Só libertou-os depois de um grande incêndio ter destruído a cidade. Por sentir a necessidade de refazer o estoque dos
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bens europeus consum idos pelo fogo ou por precisar de aj uda para reprim ir
um chefe rebelde, cham ado Quiluanj e Cucacoango (provavelm ente o detentor
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do título de quiluanj e kia hango), ele perm itiu a partida do enviado português,
guardando, entretanto, em suas cubatas o padre Francisco de Gouveia, que perm aneceu prisioneiro até a m orte, em 1575.
Entrem entes, a situação no reino do Congo se deteriorara. As regras tradicionais de eleição do m anicongo, que perm itiam que qualquer filho do rei por m ulher m uissiconga pudesse ascender ao poder, fazendo com que este circulasse entre as várias m atrilinhagens, criavam espaço para o conflito arm ado. Num a sociedade polígam a com o a conguesa, em que várias m ulheres podiam engravidar quase ao m esm o tem po, não seria m enos conflituosa a norm a europeia da prim ogenitura, pois nem sem pre se podia garantir qual dos filhos nascera prim eiro. Talvez por isso, D. Afonso I resistira às pressões dos padres portugueses e não só para poupar-se de novas hostilidades da fidalguia. As regras antigas, estritam ente m atrilineares, sofreram , porém , m udanças, com a introdução de critérios patrilineares, e, nas sucessões que se seguiram , som ente se tiveram por candidatos os descendentes de D. Afonso por um a de suas três
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principais filhas. Essa nova norm a não im pedia, porém , tão num erosos eram
aqueles, que a cada m orte de rei se seguissem dias de incerteza e violência.
Assim foi após o passam ento, em 1561, de Diogo I. Os colonos portugueses aj udaram a pôr no trono o candidato escolhido pelo falecido rei, o seu filho Afonso ou Mpem ba Nzinga. D. Afonso II ficou no poder por pouquíssim o tem po, pois foi assassinado, durante um a m issa, por um de seus irm ãos, o preferido da m aioria dos m uissicongos, D. Bernardo. Este, ao tornar-se m anicongo, desatou um a perseguição feroz contra os partidários de D. Afonso, m atando m uitos portugueses e luso-africanos e expulsando outros. Por falta de segurança, o com ércio estancou-se. Os navios deixaram de ancorar em Pinda ou ali só
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chegavam esporadicam ente.
Os pom beiros com eçaram , por isso, a rarear nos m ercados de Malebo e, quando apareciam , com pravam um a pequena quantidade de cativos, para serem incorporados à guarda real criada pelo m anicongo e para serem revendidos, dentro do próprio Congo, aos aristocratas que necessitavam de serviçais dom ésticos e de trabalhadores para as suas roças. Os pum bos ficaram abarrotados de pessoas escravizadas.
A constância da expansão da dem anda havia criado o seu ritm o de oferta. Ao reduzir-se drástica e inesperadam ente a procura, havia que encontrar destino para os cativos que continuavam a ser trazidos para as m argens do Malebo. As paliçadas tiveram de ser am pliadas ou os infelizes nelas se apertaram ainda m ais. Cresceram as despesas com alim entação, as condições sanitárias pioraram , o núm ero de m ortes aum entou e, consequentem ente, os lucros dos m ercadores se voltaram em prej uízo. Não eram só eles que sentiam as perdas com a contração do com ércio, m as tam bém o m acoco ou rei. Já que Pinda deixara de ser o escoadouro da produção de escravos, havia que encontrar m eios para levá-los até outros pontos da costa onde pudessem fundear sem sobressaltos os barcos portugueses.
O que, em últim a análise, desej avam os angicos, tequês ou tios era deixar de ter, no com ércio com o Atlântico, um papel restrito ao de produtor e coletor de escravos e participar ativam ente em todas as fases do negócio, sobretudo daquelas, j unto ao litoral, onde os lucros eram m aiores. Não via o m acoco, com o, de resto, o angola e outros reis e os régulos de grandes e pequenos estados ao norte, a leste ou ao sul do Congo, por que ao m anicongo se deviam reservar o controle e os vultosos ganhos das trocas com os europeus. Para os tios, com estoques, que não paravam de crescer, de um a m ercadoria altam ente perecível, tornara-se urgente um a saída.
Terá sido esta a razão da guerra: os tios tentaram rom per os vínculos de vassalagem com o m anicongo e abrir novas rotas ao tráfico de escravos. Contra isso, Bernardo I reagiu com as arm as, tendo m orrido em cam panha, em 1566 ou
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1567, se é que não foi assassinado, j á de regresso à capital, por alguns
portugueses.132 Tam bém a lutar contra os tios, faleceu, um ano depois, o seu sucessor, Henrique I ou Nerika a Mpudi.
O m anicongo seguinte foi Nim i Lukeni, com o nom e cristão de D. Álvaro I. Buscou ele consertar os estragos causados ao com ércio com as perseguições aos portugueses, reagrupá-los em São Salvador e em Pinda e retom ar os contatos com a corte de Lisboa. Mal iniciara essa nova política, viu-se a braços, porém , com um flagelo: a invasão dos j agas.
A im agem que guardam os desses j agas é a m esm a que Duarte Lopes passou
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a Filippo Pigafetta: a de um a horda feroz, nôm ade, antropófaga, destruidora,
que vivia da guerra e do saque. Deles dizia-se que, j ungidos por disciplina férrea, m atavam as crianças que lhes davam suas m ulheres, a fim de que não perturbassem a rapidez da m archa, preferindo aum entar os seus núm eros com os m eninos e rapazolas que aprisionavam e dos quais faziam novos j agas, m ediante cerim ônias iniciatórias e intenso treinam ento.
Ainda que os j agas tenham sido soldados terríveis, talvez esse retrato não corresponda de todo à realidade. Ele é o m esm o que, possivelm ente por influxo da propaganda aterrorizadora que guerreiros predatórios difundiam de si próprios, os europeus desenharam de outros grupos invasores, a percorrerem em passo rápido m ilhares de quilôm etros, m atando, devorando e escravizando pelo cam inho, com o os m anes da Serra Leoa, os galas da Etiópia e os zim bas de Moçam bique, e talvez corresponda à ideia que se fazia de novas estruturas políticas que se iam conform ando a partir do poder cru e da violência das arm as. É possível, com o j á se sugeriu, que essa transform ação de com unidades agrícolas em hordas m óveis de guerreiros predadores tenha sido desatada pela
aflição persistente da fom e e pela desesperança diante das grandes secas. 134 A falência repetida das colheitas teria em purrado essa gente a trocar de vida e a invadir aquelas áreas m enos sofridas. No caso dos j agas, o seu desabar violento sobre o reino do Congo, em 1568, coincidiu com as grandes secas da segunda m etade do século XVI.
Esse novo tipo de organização social, que identificam os nos j agas, m anes, zim bas e im bangalas, desm anchava clãs e linhagens, opunha-se à gerontocracia nelas desenvolvida, abria os cam inhos da liderança aos m ais bravos, audazes e truculentos. É possível que tenha surgido das sociedades secretas dos caçadores ou dos acam pam entos de iniciação de j ovens, entre cam aradas que se sentiam m ais ligados uns aos outros por aqueles ritos, e pelos j uram entos de sangue que então faziam , do que às respectivas estirpes, no seio das quais quase tudo do que lhes pediam suas m ocidades lhes era adiado, e adiado, e adiado. Os velhos e os chefes de linhagem tinham num erosas m ulheres; por isso aos j ovens não sobrava nenhum a. E naqueles concentravam -se a riqueza e o poder. Já na nova estrutura m ilitarizada, dissolvia-se propositadam ente a fam ília. Ao grupo pertencia-se, não por nascim ento, m as por adesão, voluntária ou forçada. Eram os ritos iniciatórios que tornavam um estranho num m em bro pleno da grei.
Escreve Pigafetta que os j agas entraram no Congo por Bata ou Mbata, a província m ais oriental do reino. Sobre quem eram , discute-se desde então. Houve quem sustentasse que vieram do leste do rio Cuango e seriam a m esm a gente que os im bangalas ou bângalas, com quem os portugueses lidariam , em Angola, poucas décadas m ais tarde. E houve quem sugerisse que nunca existiram com o invasores, que eram gente da terra, congos sublevados contra o rei, que
contaram com o apoio dos vizinhos do lago Malebo e de Matam ba.135 As suas devastações não seriam , assim , m ais do que o prosseguim ento dos conflitos da década anterior. Ou sequela das lutas sucessórias que resultaram na ascensão ao trono de Álvaro I. Ou, ainda, a enérgica resposta das populações periféricas às repetidas razias dos caçadores de escravos. Nesse últim o caso, poderíam os considerá-las com o um a violenta rebelião contra a autoridade, a riqueza e os privilégios, um levantam ento geral contra os m ercadores, os chefes e os nobres,
e contra os portugueses, e contra o rei. 136
De que o tráfico de corpos — não esqueçam os que era assim que os gregos cham avam aos escravos — estava na raiz da arrem etida j aga, não duvidam os que sobre ela escreveram . E a m aioria concorda em que houve conquista por gente de fora, ainda que não falte quem proponha ter havido um a aliança de
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invasores estrangeiros com rebeldes locais. Anne Hilton, após relem brar que
a palavra “j aga”, em quicongo antigo, significava o “outro”, o “estrangeiro”, o “bárbaro” e, m ais tarde, j á no século XVII, tam bém “bandido”, avança a hipótese de que essa gente fosse o resultado do deslocam ento de populações angicas e congas, que, a fugir de um quotidiano de sequestros e razias, se
instalaram no m édio Cuango. 138 É possível que, ali, não pudessem ou não quisessem reconstituir as linhagens fragm entadas e se reorganizassem em torno de sociedades secretas de guerreiros, adotando um a nova identidade. De pasto das razias angicas e congas, eles passaram a dedicar-se a capturar gente para o m anicongo ou o m acoco. Até que com preenderam que os interm ediários lhes negavam a m elhor parte do negócio e buscaram rom per as barreiras que os im pediam de estabelecer ligações com erciais diretas com os portugueses. Abriram cam inho à força e chegaram até o m ar.
Com o quer que tenha sido, os j agas não encontraram m aior resistência. O Congo estava profunda e am argam ente dividido entre os católicos e os adeptos da religião tradicional, entre o rei, a nobreza e a plebe, entre os m uissicongos e as dem ais candas, entre Álvaro I e os partidários dos outros candidatos a m anicongo por ele vencidos. Pior que tudo, o soberano conguês não dispunha de exército regular, dependendo das tropas que os governadores das províncias lhe recrutavam , as quais, por sua vez, lhes eram a estes fornecidas pelos chefes de distrito, de linhagens e de aldeias. Isso tornava extrem am ente lenta a arregim entação de um exército e quase im possível a organização rápida da defesa contra um a grande revolta ou um inesperado invasor.
Pigafetta arm a os j agas de escudos, azagaias e punhais, e os faz deslocarem -se com pressa. A queim ar e a destruir tudo. A m atar aqueles que não conseguiam esconder-se a tem po nas m ontanhas, nas m atas e nos pântanos. D. Álvaro tentou fazer-lhes frente. Derrotado, refugiou-se num a ilha do rio Zaire, de difícil acesso e onde portugueses se haviam fortificado. E dali pediu aj uda a D. Sebastião de Portugal. Este atendeu-o e enviou ao Congo um contingente de 600 hom ens, sob o com ando de um ex-governador de São Tom é, Francisco de Gouveia, hom ônim o do sacerdote, com panheiro de Paulo Dias de Novais, que ficara prisioneiro do angola.
Enquanto isso, a fom e m altratava os congos. Viram -se eles forçados a trocar por com ida com os navios são-tom enses, prim eiro, os seus escravos e dependentes, e depois, os fam iliares. Escravizaram -se até m esm o filhos de
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nobres. Mas, se os congos vendiam os seus, m aior era ainda o núm ero
daqueles com erciados pelos j agas.
Francisco de Gouveia chegou ao Congo em 1571. Juntou os seus soldados aos contingentes congos que Álvaro I conseguira reunir. E foi vencendo os j agas, encontro após encontro, graças ao enquadram ento disciplinar das tropas congas pelos portugueses e às arm as de fogo destes, ou, m elhor, ao pavor que o estrondo
delas causava.140 141 A reconquista durou cinco anos. Os invasores recuaram para além dos lim ites de Bata e foram instalar-se no m édio Cuango, se é que não
retornaram aos seus antigos dom ínios. 142 143 Seus descendentes seriam os iacas.
Quando Francisco de Gouveia regressou a Lisboa em 1577, m uitos de seus cam aradas preferiram ficar no Congo. Lá, engrossaram a com unidade portuguesa, ligaram -se a m ulheres da terra, em geral da nobreza, e nelas fizeram filhos m ulatos, que se foram tornando m ais num erosos do que, ao que parece, desej ava o m anicongo. D. Álvaro teve, em relação a esses m estiços, o m esm o tipo de reserva que os m onarcas portugueses. Não gostava deles. E assim com o os reis de Portugal insistiam em m andar m ulheres brancas para Cabo Verde, a fim de im pedir a proliferação da “raça de m ulatos”, o m anicongo solicitou a Lisboa que lhe enviasse raparigas europeias para que se casassem com os colonos portugueses. Desconfiava D. Álvaro da fidelidade dos m estiços. Oscilavam perm anentem ente entre as suas linhagens m aternas, às quais pelas leis da terra pertenciam , e as confrarias dos portugueses — confrarias no plural, porque os portugueses estavam sem pre em disputa uns com os outros, conform e vinculassem seus interesses próprios aos do m anicongo, aos de Lisboa, aos de São Tom é ou aos do novo estabelecim ento de Angola. D. Álvaro talvez pressentisse que os m ulatos tornariam ainda m ais difíceis e delicadas as relações com os colonos europeus. Estes últim os não só haviam aum entado de núm ero, com o
com eçaram a cobrar ao m anicongo um a dívida de gratidão.144 Afinal, fora graças às arm as deles que D. Álvaro recuperara o reino e se sentava no trono em São Salvador.
De soldados, os novos colonos cedo se fizeram m ercadores, em bora sem abandonar de todo as arm as. Form aram um forte núcleo de defensores do
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reino. Cada qual construiu o seu com pound — um a cerca envolvendo sua
casa e as de suas m ulheres, filhos, noras, agregados e escravos. Com essa gente organizavam expedições com erciais ao interior, sem cuidar m uitas vezes de obter autorização real. Com puseram um a verdadeira classe. E envolveram -se na política, em favor das candas de suas m ulheres e form ando facções que com petiam pelo com ércio e pelo favor do soberano.
Esses arranhões cada vez m ais fundos nos controles m ercantis e nas hierarquias políticas do Congo inquietavam D. Álvaro I. Talvez ele j á lam entasse o costum e adotado por seus predecessores de colocar alguns portugueses em altos cargos do governo. Sentia crescer um a indesej ada m as inevitável dependência dos colonos e de suas fam ílias luso-africanas, e não ignorava que se punham crescentem ente fora da obediência ao rei de Portugal.
Logo após a restauração, D. Álvaro havia proposto a D. Sebastião que o tom asse por vassalo, dispondo-se a pagar “os quintos do zim bo que na sua ilha de
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Luanda se pescasse em cada ano”. Não há vestígio de que o rei português tenha aceito e recolhido o tributo. D. Sebastião, ou não se dignou a responder, ou preferiu deixar as coisas com o estavam , para não ter os ônus de suserano. Interessou-se, isto sim , pelas m inas do Congo, sobretudo pelas fam osas m inas de prata. Recom endou a Francisco de Gouveia que as procurasse; o que este fez,
sem êxito.147 E insistiu j unto a D. Álvaro para que revelasse onde ficavam .
Dos fundidores m andados por D. João III em 1536, um deles, um alem ão que ficara a viver de seu ofício entre os congueses, espalhou a notícia de que tinha encontrado j azidas de cobre, chum bo e prata, estas últim as m ais ricas do que as
encontradas pelos espanhóis nas Am éricas, 148 revigorando, assim , um a quim era. Em m ais de um a ocasião, a Corte portuguesa tinha tentado saber dos congos onde ficavam as m inas de prata. E por m ais de um a vez, tinha insistido em que esses lhe perm itissem a exploração das j azidas de cobre. Sobre as de prata, o m anicongo nada podia dizer porque delas nada sabia. Revelaram -se, aliás, criações do desej o. Quanto às de cobre, tanto Álvaro I quanto seus antecessores sem pre tem eram que o controle delas pelos portugueses poderia ser o início de um processo de conquista.
À m edida que o tem po o distanciava da vitória sobre os j agas, D. Álvaro foi retom ando o controle do reino. Fortaleceu o seu partido entre os luso-africanos. Converteu em aliados boa parte de seus adversários e neutralizou os renitentes. E tentou libertar-se da tutela externa de Portugal e entrar em contato direto com o papa. Logrou até m esm o anular m uitas das ações dirigidas contra sua soberania pela colônia que os portugueses haviam criado em sua fronteira m eridional, a partir da baía de Luanda. E viu até reverter-se, por algum tem po, em favor da econom ia conguesa essa indesej ável presença.
O tráfico de escravos voltou a prosperar. Não só os pom beiros dirigiam -se de novo ao lago Malebo, m as com eçaram a frequentar os novos m ercados do reino tio de Okango, no baixo Cuango. A região tornara-se, por causa dos contínuos em bates entre os congos da província de Bata e os j agas que viviam na outra m argem do rio, um a excelente fonte de cativos. O governador de Bata — o único dos fidalgos a quem o m anicongo consentia que com prasse e possuísse arm as de fogo —, acom panhado por aventureiros portugueses e por luso-africanos, não dava sossego aos j agas. Nem a outros povos vizinhos, contra os quais alongava as suas razias. Essa situação de guerra perm anente gerava um núm ero tão considerável de prisioneiros, que os m ercados de Okango forneciam escravos não apenas a São Salvador, m as tam bém , passando pela capital conguesa, ao porto de Luanda. Todas as caravanas que para lá se dirigiam e de lá regressavam
tinham de pagar direitos de trânsito ao m anicongo. 149
Pelas rotas que ligavam os pum bos de Malebo e os m ercados de Okango a São Salvador, não se levavam apenas cativos a em barcar em Pinda. Boa parte da escravaria ficava no Congo. Pois tanto o rei quanto a nobreza e os m ercadores se haviam transform ado em grandes proprietários de escravos. Um relato da época deixa claro que a m aior parte da população de São Salvador e do Sônio se
constituía de escravos.150 Eram eles que faziam todo o trabalho. Pois se alterara inteiram ente, ao m enos no centro do reino, o que ainda restava da m aneira tradicional de usar o escravo. Não m ais era ele visto a cuidar das roças ao lado das m ulheres do dono, j á que nenhum a pessoa livre cultivava a terra. E era o escravo quem ia até m esm o, no lugar do am o, com prar e vender no m ercado.
Num a econom ia que tinha na terra o fator produtivo abundante, a m aior ou m enor riqueza dependia do volum e de m ão de obra que se pudesse pôr a trabalhá-la. Com a m ultiplicação dos escravos, as roças dos notáveis se foram transform ando em verdadeiras plantações, nas quais se cultivavam o sorgo e as novas espécies trazidas do Brasil pelos portugueses, com o o m ilho, que dava duas vezes por ano, e a m andioca, que, passado o ano necessário ao desenvolvim ento dos tubérculos, ficava no solo por tem po indeterm inado à disposição de quem a plantava. O m ilho teve um a aceitação quase im ediata. A m andioca dissem inou-se m ais lentam ente, porque não bastava plantá-la; havia que aprender a retirar dela a m anipueira, para fazer a caçava.
Os escravos não ficavam apenas no cam po. Enchiam as casas, a cum prir todo tipo de tarefas dom ésticas. Encarregavam -se da adm inistração dos palácios do rei e dos governadores. Form avam o grosso da soldadesca e a quase totalidade das tropas pessoais do m anicongo: entre 16 m il e 20 m il angicos, na época de
Álvaro I, 151 ainda que este não prescindisse de m ercenários portugueses. Eram rem eiros, carregadores, m ensageiros. Com erciavam em nom e dos am os e até dirigiam as suas caravanas para o Macoco e Okango. Estavam por toda a parte, m ais visíveis do que os hom ens livres. O tráfico de corpos contam inara toda a sociedade. O Congo passara a girar em torno da escravidão.