A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 13 de 30 · parte 2/2

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A Manilha e o Libambo

11. Angola

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Ao chegar a Hango-Aqui-Coito, resolveu m udar a praça-forte, das cercanias do rio, para Am baca, nas vizinhanças das paliçadas do Kulashingo e a cam inho da capital do Dongo. A transferência do presídio para Am baca era um a evidente declaração de guerra ao angola, e este a deve ter tom ado com o tal. Todavia, quando Vasconcelos avançou sobre Cabaça, o rei andongo não o enfrentou em com bate. Preferiu retirar-se, abandonando a sua banza. Vasconcelos m andou pôr fogo no grande palácio de palha, cuj as paredes interiores estavam lindam ente

decoradas de penas de pavão e de outras aves. 68

A operação rendeu m uitos prisioneiros. Mas com ela não se logrou capturar nem subm eter o angola. Com o com eçassem as chuvas e os brancos a adoecer, o governador convidou o rei a negociarem a paz. O angola foi categórico: prim eiro saísse das terras dele; depois, conversariam . Frustrado, Vasconcelos retornou a Luanda, a arrastar um m agote de escravos e m uitos aborrecim entos causados pelos abusos dos im bangalas do kasange (ou caçanj e) Kulashingo.

Estes últim os, se acom panhavam os portugueses, tinham interesses próprios. Tanto políticos quanto com erciais. Assim , se careciam de escravos para atender a um freguês que o governador considerava contrabandista, fosse reinol, são-tom ense ou holandês, não hesitavam em atacar e capturar aliados de Luanda. Com o eram partícipes cada vez m ais ativos do tráfico ilegal de escravos, Vasconcelos tentou enquadrá-los na disciplina da Coroa. Perdeu-os. Kulashingo, que, a essa altura, talvez j á tivesse recuperado os sím bolos sagrados do quingúri e restaurado na sua pessoa o antigo e grande título, abandonou a incôm oda vizinhança do presídio de Am baca, ganhou os sertões e acabou por instalar-se na forquilha form ada a partir da confluência do Lui com o Cuango, nas terras que tom ariam o nom e de Baixa do Caçanj e.

Nem todos os vassalos de Kulashingo o acom panharam na descida do planalto. Alguns, descontentes com a ressurreição do quingúri, perm aneceram nas im ediações do Estado português de Angola, a se som arem a vários grupos im bangalas de outras obediências. Form aram pequenos estados de populações am bundas enquadradas por títulos lundas de nobreza e m ando. Tendo em vista os sistem as de recrutam ento do quingúri e do quilom bo, havia entre esses titulados quem não possuísse um a só gota de sangue lunda. Mas todos eram lundas sim bolicam ente, e os seus títulos não deixavam de ser exóticos para os súditos am bundos, que os viam com o estrangeiros. Um ou outro opôs-se aos portugueses, m as a m aioria a eles se associou, até por coincidência de interesses, j á que eram tam bém invasores, a criar novas estruturas políticas por cim a das linhagens am bundas.

Não escassearam im bangalas aos portugueses, após a deserção de Kulashingo. Não se estranhe, por isso, que Luís Mendes de Vasconcelos, em bora tivesse perdido quem alguns de seus contem porâneos qualificavam com o “o

m elhor dos capitães” dos “j agas”, “valoroso e poderoso”, 69 se tenha sentido com força para retom ar a guerra contra os andongos. Em 1619 e 1620, ele voltou à carga.

Fiel à política que tão bem funcionara com seus antecessores, o angola, na im inência de um a batalha, batia em retirada e punha os seus a desgastar os invasores com tocaias, escaram uças, incêndios e ataques de surpresa. Com o, porém , nessa cam panha, o governador perseverasse na perseguição, o Dongo se foi esvaziando de gente. O angola refugiou-se, com o m elhor de suas tropas, num as ilhas do rio Cuanza. E os que não conseguiram escapar para fora da região foram preados.

A guerra não estava de todo perdida para o africano. Nem fora ainda ganha pelos portugueses. Estes, além disso, não haviam previsto um a grave consequência de tam anha devastação: estancara-se o com ércio. Só Vasconcelos, seus soldados e os im bangalas dispunham de cativos para em barcar. Os negociantes viram -se dependentes deles para obter as peças. Tinham que suj eitar-se a suas condições e a seus preços.

Entrem entes, um novo estabelecim ento português tom ava fôlego m ais ao sul, em Benguela. O sonho de riqueza fácil havia posto na região im ensas m inas de cobre. E, para procurá-las, a Coroa nom eou governador daquelas terras aquele capitão que havia conquistado a serra de Cam bam be, Manuel Cerveira Pereira. Mais um a vez, porém , ele se decepcionaria, pois as am ostras que colheu no que j ulgava ser um a grande j azida cuprífera, ao serem fundidas, não revelaram a presença do m etal. O cobre que chegava àquela parte do litoral vinha de longe, de Tsum ed, do outro lado do m édio Cunene, no Calaári, ou de m ais longe ainda, do Catanga. A aldeota fundada por Cerveira, em 1617, num a am pla enseada, com boa água, de bons solos e rica em m adeira, m as em área pantanosa e infestada de m osquitos, estava destinada, porém , a tornar-se, quase um século m ais tarde, o desaguadouro da escravaria produzida no planalto de Benguela.

Em outubro de 1621, Luís Mendes de Vasconcelos foi substituído na governança por João Correia de Sousa e enviado em desgraça, prim eiro, para Massangano e, depois, para o Brasil, de onde logrou fugir e retornar a Portugal. O novo governador apressou-se em buscar a paz com Angola Mbandi. Para negociá-la, o angola enviou a Luanda um a em baixadora, aquela sua irm ã Jinga, a m esm a Jinga cuj o filho se dizia que m andara m atar.

Durante as conversações, a princesa, recebida com toda a pom pa, procurou desfazer em seus interlocutores a ideia de que ali estava para declarar o rei do Dongo vassalo dos Felipes. Ao contrário, ali estava para tratar de igual para igual com os portugueses, na qualidade de representante de um estado soberano. Deixou isto claro desde o prim eiro encontro com o governador. Com o este a recebesse sentado e não lhe oferecesse cadeira, Jinga fez um sinal para um a de suas acom panhantes, possivelm ente um a escrava. A m ulher aj oelhou-se, pôs-se de bruços com as duas m ãos no chão, para que a princesa sobre ela se sentasse. Ao sair, a em baixadora abandonou a m oça, deixando-a na sala, na m esm a posição, com o se fosse um banco. E porque o governador a avisasse disto, Jinga lhe respondeu que não pretendia voltar a sentar-se sobre aquele m esm o tipo de

banco e, com o dele tinha m uitos, não o queria m ais. 70 Regressou à sua terra batizada, com o nom e de Ana de Sousa, e com um acordo de paz, tendo por base a retirada do presídio de Am baca das proxim idades de Cabaça, o livre trânsito dos portugueses nas terras do Dondo, a reabertura das feiras do interior, a aj uda m ilitar contra inim igos com uns (com o aquele Kulashingo, a quem os portugueses cham avam Jaga Caçanj e), a libertação de todos os sobas que haviam sido capturados por Vasconcelos e a restituição recíproca de escravos foragidos.

As pazes tinham sido feitas com o angola, m as não com aquele cassanze que dom inava a região entre os baixos rios Bengo e Cuanza. De sua capital fortificada, ou ensaca (nsaka), a apenas uns 32km de Luanda, m as protegida por densa m ata espinhenta, o cassanze m andava os seus com erciar no litoral com os são-tom enses e possivelm ente franceses, ingleses e holandeses. Nela abrigava aqueles, fossem brancos, negros ou m estiços, escravos ou livres, que fugiam dos

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rigores das autoridades de Luanda. E dela saíam os guerrilheiros que não

davam descanso aos portugueses e m altratavam os colonos que se haviam instalado nos vales férteis próxim os aos estuários do Bengo e do Dande, de onde

provinha boa parte dos alim entos de que se abastecia Luanda.72

Nessas áreas, os colonos e os j esuítas procuravam cultivar os vegetais a que estavam acostum ados, com o o arroz, as couves, as cebolas, as cenouras, as laranj eiras e os lim oeiros, bem com o os produtos da terra, quais os inham es, o sorgo e o quiabo, e os trazidos de longe, a exem plo da cana-de-açúcar, do am endoim , da batata-doce, do m ilho e da m andioca. Esta últim a foi-se fazendo indispensável, até porque o tubérculo, podendo perm anecer na terra por longo tem po, era aquele de que m ais se dispunha durante a estiagem entre m aio e

setem bro, e que, nos m aus anos, podia estender-se por vários m eses m ais.73 Inham es, quiabos, m ilho e m andioca eram cultivados sobretudo para alim entar

os agregados africanos e os escravos. Tal qual sucedia no Brasil,74 os colonos não se resignavam a abandonar o regim e trazido de Portugal, e os barcos vindos da Europa costum avam trazer-lhes o trigo, o vinho, o azeite de oliva, o queij o e a m anteiga. Som ente na falta desses alim entos, é que com iam à m aneira de pretos

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ou de bugres.

Luís Mendes de Vasconcelos m alograra em seus intentos de subm eter o cassanze. O desafio ficou para João Correia de Sousa, que resolveu enfrentá-lo. Em vez de tentar um ataque direto à ensaca, ele resolveu cortar-lhe os acessos ao Cuanza e à foz do Bengo e dispor tam bém tropas no espaço que ficava a leste da capital do soba, a fechar o espaço entre aqueles dois rios. Após um ano e m eio desse relativo cerco, as tropas portuguesas com eçaram a cortar o carrascal, para abrir cam inho para a ensaca. Acossado pela artilharia, o cassanze teve de abandonar a tranqueira. Procurou fugir para o norte, para as terras do m ani de Bam ba, de quem era vassalo, m as caiu nas m ãos dos portugueses, que o levaram

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para Luanda, em m aio de 1622. Lá, o régulo foi degolado em praça pública,

j untam ente com seu irm ão e m ais dois chefes. Outros régulos e altos dignitários, em núm ero de 26, vários dos quais se tinham aliado aos portugueses, foram

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m andados para o Brasil, ou com o escravos do governador, ou com o

desterrados políticos, caso em que teriam recebido terras, a fim de delas se

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m anterem . Antes de chegar-se a 1640, alguns foram devolvidos a Angola, e

um deles, com o título de panj i a ndona, recriou a ensaca e o reino. 79 Ao exilar os líderes dos m icroestados existentes entre o Bengo e o Cuanza, sem distinguir os am igos dos adversários, Correia de Sousa tivera por obj etivo, com o escreveu um

contem porâneo, “tirar tão suspeitosos vizinhos” das portas da cidade. 80

Na perseguição à gente do cassanze, os portugueses, acom panhados por seus aliados, sobretudo im bangalas, invadiram as terras dos dem bos e, em seguida, as do m ani de Bum be (ou Mbum be), vassalo do m ani de Bam ba, a queim ar aldeias e a atacar os congos. Estes vieram em m ultidão, agachados atrás de seus escudos e a gritar “Santiago!”. Era tam bém sob o sinal da cruz e a invocar o m esm o apóstolo que avançavam os portugueses. Mas, com o explicou um conguês, o prim eiro era um Santiago negro, e o segundo, um branco. Na grande batalha que se travou, as bom bardas e os cavalos deram a vitória aos portugueses, enquanto que os congos deixavam no cam po de luta um pouco do que havia de m elhor na sua nobreza: o novo m ani de Bam ba, o m ani de Pem ba (ou Mpem ba) e 90

m uissicongos. 81

É esta a ideia que m e fica de repetidas leituras de Cadornega: a de que a invasão de Bum be, com seus num erosos com bates e, pelo m enos, um a im portante batalha, à qual se seguiu a destruição pela espada e pelo fogo de num erosas “povoações, banzas e libatas”, foi a continuação do ataque à ensaca do cassanze. Penso que não houve pausa entre um e outra, exceto para receber os reforços que a relativa proxim idade dos cam pos de operação perm itia. Distinto é o parecer dos que têm escrito sobre o assunto, desde Ralph Delgado: o de que estam os diante de duas cam panhas m ilitares diferentes, em bora um a

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decorra da outra, a poucos m eses de distância. E é tam bém possível que se

considere a tom ada da ensaca do cassanze com o um sim ples episódio de um a

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guerra contra o Congo ou contra o m ani de Bam ba.

Quando do cerco ao cassanze, o m ani de Bam ba era o príncipe Nkanga-a-Mbiki, Nkanga Mbem ba ou Pedro Afonso. É possível que ele tenha aj udado o vassalo e que isto tenha provocado a ira de Correia de Sousa. Com o quer que tenha sido, andava a cam panha a m eio e j á o m esm o Pedro Afonso, apesar da oposição de Luanda, se sentara na cadeira do m anicongo. Foi, portanto, contra o novo rei do Congo que o governador de Luanda, na perseguição aos partidários do cassanze, m oveu as suas tropas. Contra um novo rei, D. Pedro II, que se revelaria um aliado da Coroa filipina, pois, durante os dois anos e 42 dias em que esteve no poder (entre 1622 e 1624), não desam parou um só instante os interesses

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lusitanos. Para agravar as coisas, Correia de Sousa, no correr das operações,

arrastou com o cativos para o porto de Luanda m uitos cristãos. Com um bom apoio dos j esuítas, D. Pedro endereçou suas queixas a Felipe III de Portugal e IV de Espanha. E terão sido as reclam ações do m anicongo, m ais do que as represálias conguesas — em bora D. Pedro tenha conseguido proteger da cólera dos seus a m aioria dos portugueses e “portugueses” que m oravam e m ercadej avam em seus dom ínios, a gente de Bum be (ou Mbum be) m atou quase todos os que lá viviam —, a causa da destituição de Correia de Sousa.

A substituição das personagens podia acalm ar as tensões por algum tem po, m as não im pedia que continuasse a se deteriorar o relacionam ento entre o Congo e Portugal. O enclave de Luanda não se expandia territorialm ente apenas às custas do angola, m as tam bém , e cada vez m ais, às expensas do que era a grande zona de suserania e influência do rei do Congo. Os portugueses procuravam atrair

para sua órbita os pequenos estados dos dem bos,85 tributários do m anicongo, m ercadej avam diretam ente com Bum be e com Bam ba e atravessavam o Matam ba. Mostrava-se, além disso, cada vez m ais difícil o diálogo entre, de um lado, o m anicongo e, de outro, as autoridades civis, m ilitares e eclesiásticas lusitanas. Com o se não bastasse, acentuavam -se os desentendim entos e os conflitos, não só nas bordas m as tam bém no centro do reino do Congo, entre as candas, os m uissicongos, os luso-africanos e os m oradores portugueses. Das grandes províncias, com o Sônio, Bam ba ou Bata, certas estirpes buscavam a independência, pelo enfraquecim ento do poder central. E um a j á se transform ara em fazedora de reis.

Refiro-m e aos Silvas. Ao que parece, j á no fim do século XV, eles com eçaram a acum ular força em Sônio, quando o então m ani da província

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tom ou o nom e português de Manuel da Silva. Ligando-se por casam ento ou concubinato às m ulheres das candas locais, os Silvas foram -se m ultiplicando e ocupando a m aioria das posições de poder, sucedendo-se, ao que parece, na posição de governador de Sônio. A partir de 1600, eles viram -se tam bém fortalecidos pelo aum ento da presença em Pinda dos holandeses, de início apenas com navios, m as, logo depois, com entrepostos para os quais o governador fazia vista grossa. Dos holandeses, o m ani de Sônio recebia não só bens de prestígio, m as tam bém arm as de fogo. Ao m esm o tem po que quebrava o m onopólio português, assegurando com isso m elhores preços para o seu cobre, o seu m arfim , as suas m adeiras tintórias, as suas peles de leopardo, os seus rabos de elefante e, logo em seguida, os seus escravos, o m ani de Sônio consolidava as bases de um poder próprio, que deixava de em anar do m anicongo. E não dem oraria m uito para se tornar politicam ente tão forte, que sua voz passaria a ser decisiva nos grandes assuntos do reino. A com eçar pela eleição de um novo antitola.

Ao m orrer em 1568, D. Álvaro I fora sucedido por seu filho, Mpanzu Nim i ou D. Álvaro II. Este revelou-se um rei hábil e poderoso. Apoiando-se num exército pessoal de entre 16 m il e 20 m il escravos tios, dos quais entre quatro m il e cinco m il constituíam sua guarda de elite, ele continuou as políticas de seu antecessor. Tentou libertar-se do controle português sobre suas relações externas e ter um a Igrej a católica que não fosse inteiram ente caudatária dos interesses de São Tom é e Luanda. Nisto obteve m ais êxito, ainda que um êxito m uito relativo, do que seu pai, que tanto se esforçara por obter um bispo para São Salvador, pois, em 1596, o papa Clem ente VII separou o Congo do bispado de São Tom é. A vitória voltou-se, contudo, em desalento, por ter sido indicado para ocupar a nova sé episcopal um português, e não um sacerdote da terra, com o desej ava. O novo bispo, do m esm o m odo que seus sucessores, não dem orou para afastar-se de São Salvador e ir viver em Luanda, j unto de seus patrícios, só de raro em raro passando alguns dias no Congo. Quase nada deveu, aliás, o cristianism o conguês a esses bispos absenteístas e preconceituosos, m as sim à constância na fé do clero negro e m ulato e do trabalho dos catequistas nativos.

D. Álvaro II procurou explorar em seu favor a presença de navios franceses, ingleses e principalm ente holandeses na foz do Zaire, para rom per a dependência de Portugal. Im pediu, por isso, com toda a astúcia de que era capaz, que os portugueses construíssem um a fortaleza nas m argens do rio. Ao m esm o tem po que com batia o m onopólio lusitano, procurava, porém , m anter o seu, incom odado com as liberdades que tom ava o m ani de Sônio, D. Miguel da Silva. Este, por sua vez, aspirava a am pliar a sua autonom ia — a transform á-la, quando possível, em independência. E levantou-se em arm as. A rebelião, ao que parece, esgotou-se em si m esm a, pois nem o Sônio se separou então do resto do Congo, nem D. Álvaro, j á velho e cansado, encontrou forças para ir castigar o insurreto. A m orte de am bos diluiria o conflito.

Na sucessão de D. Álvaro, em 1614, os Silvas m ostrariam a sua força. Um deles, D. Antônio, era o m ani de Bam ba e dali praticam ente im pôs a escolha de um irm ão do falecido rei, Nanza Mbem ba ou Bernardo, com o m anicongo. Talvez porque Bernardo II não se conform asse em ser um títere seu, o depôs no ano seguinte, para entronizar um filho do antigo soberano, Nim i Mpanzu, Mbiki-a-Mpanzu ou Álvaro III. Em bora viesse a tornar-se genro de D. Antônio da Silva, o novo rei a ele tam pouco se subordinou. Tanto assim que fez um m em bro de um a outra patrilinhagem , a dos Sousas, m ani de Sônio, posição que, havia m ais de cem anos, era apanágio dos Silvas. D. Antônio da Silva rebelou-se em 1616, m as foi obrigado a com por-se com o m anicongo. E o enredo repetiu-se três anos depois, quando, na tentativa de pôr sob seu controle todas as províncias do reino, Álvaro III nom eou um de seus irm ãos e um infante para governadores,

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respectivam ente, de Pem ba e Sunde, preterindo os candidatos da fam ília Silva. A vitória na contenda entre essas duas fortes personalidades acabaria por ficar com o rei, pois, ao falecer D. Antônio em 1620, o m anicongo não perm itiu que perm anecesse à frente de Bam ba o filho que aquele designara e o substituiu, prim eiro, por um infante real e, depois, por um m em bro de um segm ento da patrilinhagem Afonso que não tinha o direito de reinar. A esse aristocrata, D. Pedro Afonso, filho de m ãe Silva e casado com um a Sousa, foi entregue a difícil tarefa de adm inistrar as terras que lindavam com os portugueses de Luanda. Em bora contra as regras, ele viria a ser rei em 1622 e seria substituído, dois anos depois, por seu filho Mbem ba Nkanga ou Garcia I. Um e outro não entregaram Bam ba a um Silva, m as, sim , a um Afonso. D. Garcia pagou caro por isso: os Silvas com andaram um a grande rebelião, depuseram -no em 1626 e devolveram Banza Congo à linha dinástica tradicional de Mpanzu Afonso, na pessoa de Nim i Nkanga Cany ancala ou Am brósio I. Em bora este fizesse de um filho de D. Miguel da Silva, Daniel, o m ani de Bam ba, não aquietou a fam ília, que voltou a rebelar-se, desta vez contra o sucessor de Am brósio I, Álvaro IV, que assum ira o poder em 1631. Derrotado, D. Daniel foi despido de suas honras e funções, m as

continuou em Bam ba, a desfrutar de prestígio e com ando entre os seus.88

Ao desposar a filha de D. Antônio da Silva, Álvaro III rom pera a regra que passara a ser seguida pela estirpe real: só casar-se com escravas, a fim de im pedir que seus filhos pertencessem por parte m aterna a outras linhagens e de assegurar que estavam acim a das rivalidades entre elas. Ao contrair m atrim ônio com um a aristocrata e designar o filho que com ela teve herdeiro do trono, Álvaro III introduziu um novo com plicador nas j á tum ultuadas sucessões reais. Em busca de apoios, pretendentes passaram a vincular-se pelo m atrim ônio a candas e patrilinhagens poderosas, sobretudo àquelas com forte im plantação nas províncias. As elites locais fortaleceram -se e com eçaram a escolher elas próprias os seus m anis, suj eitos, quando m uito, à aprovação real. Tal se deu, por exem plo, com Bata, cuj o m ani, fortalecido pelo com ércio direto com Luanda, se recusava, j á na segunda década do século, a ir a Banza Congo apresentar suas

hom enagens ao soberano. 89

Conto um quarto de século a partir de 1614, data da m orte de D. Álvaro II, e vej o que, nesse prazo, se sucederam oito m anicongos. Deles, Álvaro III reinou cerca de sete anos, e Am brósio I, Álvaro IV e Álvaro VI, cerca de cinco. Os dem ais ficaram no poder entre um e dois anos. Três foram depostos, e de um

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outro se suspeita que tenha sido envenenado. Todo o período foi m arcado por

conspirações, sublevações e guerras civis, a revelar um a constante luta pelo poder entre aspirantes a m anicongo, entre facções políticas e entre as províncias e o centro.

Mas não só isso enferm ava o reino do Congo. Durante o século XVII, agudizaram -se as tensões, as fraturas e as contradições na sociedade conguesa. As elites, de chapéus de aba, traj es de veludo com golas e punhos rendados, sapatos de fivela e correntes de ouro, afastavam -se cada vez m ais do hom em com um , a cobrir ou descobrir o corpo com os panos costum eiros. Duques, condes e m arqueses conviviam , confundiam -se e com petiam com os chefes das candas e antigos dignitários africanos. Era-se indistintam ente m ani e duque de Bam ba, m ani e m arquês de Bum be ou conde e m ani de Sônio. Os inquices cristãos, dos quais o principal era a cruz, m isturavam -se aos da religião tradicional, e o clero católico, j á dividido na m aneira de ver a fé entre os padres europeus e os congueses, em ulava com os gangas e quitom es, ou com eles se baralhavam na m ente do vulgo. Os escravos eram quase tão num erosos quanto

as pessoas livres, 91 ou talvez m ais num erosos, e sobre eles se assentava o poder das classes m andantes. Até m esm o o do antitola. A caça ao hom em , para fazê-lo cativo, tornara-se generalizada e voltara a não poupar o conguês. Para im pedir que os reduzissem à servidão, m uitos pais m andavam m arcar a ferro as costas

dos filhos, para indicar que j á tinham senhor.92 Se grande era o m edo de ser feito escravo de um outro conguês, o pânico tom ava conta de quem se sentia am eaçado de ser vendido aos europeus. Frei Cavazzi de Montecúccolo deixou-nos um desenho desse pânico. Aterrorizados com a ideia de atravessar o oceano para o país dos m ortos, ou de serem transform ados em pólvora e azeite, os m ais felizes fugiam , alguns se autom utilavam , outros se suicidavam , outros partiam

ocultam ente as tábuas da quilha dos barcos e com eles afundavam .93

Na realidade, ninguém , do m anicongo ao recém -escravizado, se sentia seguro. O próprio poder dos grandes dependia dos caprichos do com ércio. Aum entava ou dim inuía conform e os barcos parassem em seus portos e os pom beiros passassem ou não por seus territórios. Quanto a estes, m udavam de itinerário de acordo não só com a segurança das rotas, m as sobretudo com o peso dos tributos a que estavam suj eitos. Muito do com ércio que se fazia com o exterior estava nas m ãos dos portugueses e dos luso-africanos. E parte da adm inistração pública. E os ritos cristãos que davam legitim idade à realeza, tal qual ela passara a ser concebida. O reino do Congo tinha Portugal dentro dele. Com o um a espécie de doença. Pois Portugal se desinteressara pelo que fora um proj eto cristianizador, m odernizador e europeizador daquele estado africano e só se preocupava em lhe explorar o com ércio, tanto a partir da ilha de São Tom é quanto da cidade de Luanda.

Aquilo a que os portugueses cham avam Estado ou Reino de Angola passara a ser o m aior perigo à integridade e à estabilidade do Congo. As vinculações com erciais estabelecidas a partir de Luanda com o interior causavam enorm es prej uízos à fazenda do Congo. Não só deixou o seu rei de receber os im postos de passagem e as taxas de serviços, com o m uitos dos pequenos ou grandes estados que, além de suas fronteiras, lhe prestavam respeito e tributo, deixaram de fazê-lo. Isso ocorreu com os reinos dem bos, um dos quais, Am buíla (ou Mbwila), se enricou e engrandeceu, chegando a ter, na m etade do século XVII, m ais de um a dúzia de chefias vassalas. E ocorreu tam bém com Matam ba (nas terras baixas ao norte do Caçanj e, banhadas por dois afluentes do Cuango, o Wam ba e o Cam bo), cuj a rainha, a m uhongo, não só deixou de considerar o m anicongo com o suserano, m as se engaj ou, com quem era o seu m arido e chefe m ilitar, o kam bole, num a série de guerras de conquista em áreas de influência conguesa.

As am eaças aos interesses do Congo tornaram -se ainda m aiores, depois que Matam ba caiu sob o dom ínio daquela m esm a Jinga que visitara Luanda em 1622 e de lá saíra com o Dona Ana de Sousa. Mal se tinham passado dois anos dessa em baixada e ela reapareceu com o senhora do poder no Dongo, após — disto suspeitavam os contem porâneos — ter m inistrado veneno ao irm ão, se é que este

não se suicidou, por decisão dos grandes chefes. Para Joseph C. Miller, 94 Jinga teria com andado um golpe de estado, pois não era a sucessora natural do rei falecido, não só por ser m ulher, m as tam bém porque o título e as grandezas do angola estavam abertos, se não à rotatividade, à com petição entre diferentes linhagens. Contra Jinga, argum enta Miller, trabalhava o fato de ser filha de escrava e de, portanto, não se incluir em nenhum a m atrilinhagem , ficando, assim , fora do tecido norm al da sociedade andonga. Ao contrário do que ela própria deve ter dito, na parte final de sua vida, ao seu confessor, o capuchinho

Giovanni Antonio Cavazzi de Montecúccolo 95 — e foi aceito por quase todos os

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que recontaram a sua história — Jinga não se tornara, com a m orte de Angola

Mbandi, a titular legítim a do poder. Tanto assim , que fora feita regente do garoto escolhido pelas linhagens com o novo angola e que os portugueses tom aram por seu sobrinho e filho do antigo rei. Dessa posição de poder, Jinga m andou afogar o m eninote no Cuanza e se dedicou a elim inar um após outro todos os dem ais

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pretendentes.

Num estado cuj a chefia estava aberta à com petição de várias estirpes e no qual o rei, a fim de poder arbitrar os conflitos entre elas, era despido ritualm ente de seus laços de sangue, um novo soberano procurava, ao assum ir, organizar um a estrutura de poder própria, desvinculada das linhagens, j untando ao seu redor não só estrangeiros que dele se faziam clientes e pessoas que haviam perdido os vínculos de fam ília, m as tam bém escravos. Deve ter sido com o apoio desses escravos reais, os quizicos (ou kij iko), que Jinga ascendeu a angola, tendo de enfrentar possivelm ente a oposição das linhagens, as quais, se a custo aceitavam ter um rei que não fosse m ais do que um prim us inter pares, não se resignariam com facilidade em ter um soberano que fosse, contra as norm as tradicionais, um a m ulher, um a arrivista sem m atrilinhagem . Por lhe faltar legitim idade, Jinga deve ter tido, por isso, desde o início, de sustentar-se sobre

elem entos de fora ou da periferia do m undo andongo. 98 Daí suas relações, tantas vezes interrom pidas e reatadas, com os portugueses. Daí a sua conversão aos im bangalas.

A tese da ilegitim idade de Jinga j á foi contestada. Olhando de outra perspectiva para o que sabem os da sociedade am bunda no século XVII, Adriano Parreira duvida de que nela houvesse im pedim ento a que um a m ulher

ascendesse a angola. 99 Jinga detinha um a posição social que lhe perm itia aspirar a esse posto. E nele foi aceita pela m aior parte dos andongos, e devidam ente sagrada, tanto assim que era tida por intocável, e o seu próprio principal rival, o angola a ari (ngola hari, Angola Ari ou Aiiri), que a guerreou a vida toda, se

considerava seu súdito.100 O fato de ser filha de escrava não a incapacitava para o poder: entre os congos, todos os reis o eram . E nada nos diz que ela fosse filha carnal do m esm o pai que Angola Mbandi — a irm andade entre eles podia ser de títulos, sendo am bos cabeças de linhagens com igual direito a ser o angola.

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Mas — atalha John K. Thornton — talvez não houvesse entre os andongos

de então regras sucessórias claras e indiscutíveis. Possivelm ente, o angola ainda procurava im por-se sobre um conj unto de chefes poderosos e cabeças de linhagens, os m acotas, que tentavam a todo custo preservar a autonom ia e as prerrogativas de com ando. A ascensão de Jinga ter-se-ia dado, assim , dentro de um conflito m aior, no qual cada grupo usava as tradições para fundam entar o que tinha por direito. De um lado, os m acotas, a insistirem em que lhes cabia eleger ou, quando m enos, confirm ar o angola. Do outro, o rei, a querer libertar-se do controle dos aristocratas e fazer o sucessor em sua descendência. Para isso, contava com a fidelidade dos quizicos, alguns dos quais o rei colava aos m acotas, para controlá-los e recolher im postos. É possível que, na época de Angola Mbandi, j á se tivesse consagrado o princípio da sucessão hereditária, e que esta, na fam ília real, se fizesse pela linha patrilinear, a contrapelo da norm a que regia o resto da sociedade. É tam bém possível que os escravos reais j á tivessem então adquirido a noção do poder que detinham na corte e passado a ter voz e voto na escolha de quem devia ser o novo soberano. E seriam eles que teriam escolhido Jinga.

Jinga representava, assim , a centralização do m ando. E seus adversários, Ari Quiluanj e (Aiiri, Aüdi ou hari a kiluanj i) e Angola Ari, o partido dos que desej avam que o poder continuasse com os m acotas, os sobas ou chefes locais, voltando o angola à condição antiga de rei ritual, de cabeça de um a confederação, a quem se devia respeito, m as não obrigatoriam ente obediência. No processo sucessório, am bas as facções recolhiam do passado precedentes em seu favor, pois havia reis eleitos pelos m acotas, reis escolhidos pelos altos funcionários da corte (ou sej a, pelos quizicos) e reis que tinham sucedido a seus pais. Tanto Jinga quanto seus contendores podiam , portanto, reclam ar legitim idade. Jinga possuía, porém , um ponto fraco e, em bora não faltassem na história tradicional rainhas que exerceram provisoriam ente o poder, era difícil convencer os am bundos de que um a m ulher pudesse ser o angola. Por isso que

ela recusava o título de rainha e fazia questão de ser cham ada rei.102 Por isso que decidiu tornar-se socialm ente hom em e ter um harém , com os concubinos

vestidos de m ulher.103 Por isso que lutava com o um soldado, à frente do exército. Na realidade, Jinga estava a criar a sua tradição, a sua legitim idade, os precedentes que perm itiriam a suas netas e bisnetas ascenderem , sem a

contestação do sexo, ao poder.104

Apesar da forte im pressão que Jinga causou, em 1622, nos dirigentes luandenses, que lhe louvaram a altanaria, a inteligência, o poder verbal, a força de argum entação e a astúcia, esses não m udaram de local o presídio de Am baca nem lhe devolveram os sobas aprisionados por Luís Mendes de Vasconcelos. Os portugueses não estavam ali para desistir da conquista. Não só necessitavam de escravos, com o não seriam poucos os que queriam terra. Vinham de um continente onde o solo era a base da riqueza, e sua posse a m arca de status e o fundam ento do poder. Para os portugueses, acostum ados à pequenez de suas leivas, aquela era a oportunidade de se tornarem grandes proprietários rurais. Nisso não se distinguiriam dos colonos europeus que chegaram à Virgínia, a Pernam buco ou a Piratininga. E, com o a região onde ficava a cidade de Luanda possuía solos sáfaros, sobre os quais caíam chuvas ralas e irregulares, era no interior que punham a am bição de seus olhos: nos vales do Bengo e do Dande e nos grandes planaltos cortados pelo Cuanza.

Jinga, por sua vez, sentia-se defraudada. Se no seu proj eto político se incluíam , com o j á se aventou, o térm ino das guerras no Dongo, a obtenção da parte dos portugueses de um reconhecim ento diplom ático sem elhante ao acordado ao Congo e o estabelecim ento de relações com erciais regulares e privilegiadas entre seu reino e Luanda, com o tráfico de escravos se realizando

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exclusivam ente na periferia de seu território, nada avançara nessas direções. O batism o não lhe trouxera o am paro do Deus dos cristãos, nem estes tinham passado a facilitar-lhe as arm as de fogo que desej ava. Além disso, em vez de aj udá-la, com o correligionária, os portugueses não hesitavam em procurar debilitá-la, ao exigir que lhes devolvessem os clientes e os escravos, sobretudo os

soldados ou quim bares, 106 que, insatisfeitos com suas condições de vida, iam j unto a ela buscar refúgio. Jinga não queria e nem podia m andá-los de volta a Luanda, pois era em boa parte com esses foragidos que engrossava a m assa de seus seguidores e o seu exército.

Nenhum a das partes estava, assim , em condições de cum prir o acordado em 1622. E, com o cada um a delas via na outra o grande óbice à realização de suas am bições de riqueza ou poder, era inevitável a reabertura das hostilidades. Jinga preparara-se para isso, ao coligar-se com os im bangalas que viviam na m argem sul do m édio Cuanza. Teria desposado um chefe deles, o kaza (o Jaga Caza ou Cassa, dos portugueses), ou com ele som ente se aliado (isto é, se casado

m etafórica e politicam ente107), e assum ido um a im portantíssim a função que os im bangalas reservavam às m ulheres, a de tem banza, que era quem preparava e m inistrava o m aj i a sam ba. Jinga im bangalizou, a partir de então, os seus exércitos, no recrutam ento e nas técnicas de com bate, ao m esm o tem po que buscava libertar-se das estruturas linhageiras que com andavam a vida entre os am bundos.

Com a chegada, em j unho de 1624, do novo governador de Angola, Fernão de Sousa, as escaram uças entre Jinga e os portugueses transform aram -se em guerra. Ao continuar a não ser atendida em suas reivindicações, Jinga, que saíra de Cabaça e se entrincheirara nas ilhas de Quindonga, no Cuanza, enviou em issários (ou m acunzes) à gente negra de Luanda, para convencê-la a

abandonar a cidade e os seus arredores.108 A todos oferecia proteção e asilo. De um m om ento para outro, os portugueses viram -se sem boa parte da m ão de obra e da tropa com que contavam : não só escravos e quim bares, m as tam bém negros livres os desertaram . Seguiu-se o inevitável ultim ato: ou Jinga os m andava de volta ou as forças lusitanas m archariam contra ela.

A essa altura, os portugueses tom aram conhecim ento de um pretendente a rei dos andongos, se é que j á não fora eleito pelos m acotas. Descendia ele de um filho m ais j ovem do prim eiro angola e detinha o título de hari a kiluanj e. Os portugueses convidaram -no a Am baca, onde o reconheceram com o rei, ainda que avassalado ao soberano ibérico. Esse Ari Quiluanj e contava seguram ente com um bom apoio entre os m acotas e, pronto, de sua capital, em Pungo Andongo, Pungu-a-Ndongo ou Pedras de Mapungo, levantou em seu favor um grande exército. A Jinga, que devia ter espiões por toda parte, nada disso passou despercebido. Antecipou-se aos portugueses e ao rival e atacou-os. Num a investida noturna, as tropas de Jinga m ataram um capitão e dois soldados brancos, dos 34 que os luandenses haviam enviado para reforçar a defesa de Pungo Andongo, e aprisionaram outros seis. Não tendo conseguido tom ar a

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capital de Ari, ela derram ou a guerra por toda parte.

Entrem entes, chegara a Luanda, com reforços de Lisboa, aquele Bento Banha Cardoso que, um a década antes, fizera a aliança com Kulashingo e rom pera o cerco andongo, em bora às custas de um olho e três dedos da m ão. Ao

experim entado conquistador deu-se o encargo de derrotar Jinga e capturá-la. 110 Jinga, que se revelaria m estre da sobrevivência política e proteica em sua atuação, podendo ser, sucessivam ente ou a um só tem po, rei andongo, convertida cristã, tem banza j aga e o que m ais lhe conviesse, apressou-se em vestir-se de Dona Ana de Sousa e m andou um a em baixada a Luanda, em 1626, a queixar-se da hostilidade portuguesa, a dar notícias dos soldados que tinha prisioneiros e a

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propor a troca deles por Ari Quiluanj e. O governador fez-se, porém , de

m ouco e ordenou que se apressassem as operações m ilitares contra a rainha.

Jinga saía de um a vitória para um a derrota e vice-versa, m as sentia-se cada vez m ais pressionada pelas tropas lusitanas. Para agravar os desastres da guerra, um a epidem ia de varíola atacara ferozm ente am bos os adversários. Apesar disso, o obstinado Bento Cardoso não afrouxou a ofensiva. E foi ocupando, um a após outra, as ilhas do Cuanza onde Jinga se fortificara. Quando esta sentiu-se à beira da derrota, abandonou o refúgio que tinha por sua capital e foi buscar am paro no Jaga Caza. De lugar seguro, enviou, então, os seus m acunzes ao com andante lusitano. Propôs-lhe a entrega dos seis soldados, e os colocou em suas m ãos. Recusou-se, contudo, a devolver os quim bares e os escravos fugitivos, e, com o a recuperação dos soldados negros e da m ão de obra era, para os

portugueses, a razão da guerra, as hostilidades prosseguiram . 112

Um a das vítim as das bexigas fora Ari Quiluanj e. Os m acotas elegeram rei a um outro hari a quiluanj e, o Angola Ari dos portugueses, que o reconheceram em outubro de 1626 e o batizaram com o nom e de Filipe. Para Cadornega,

Angola Ari devia exclusivam ente aos portugueses o ter-se tornado rei. 113 O m ais provável, contudo, é que tanto ele quanto seu antecessor não fossem m eros

títeres, m as reis reconhecidos com o legítim os por grande parte dos andongos. 114 Com o tantas vezes fariam no futuro os colonialistas europeus, os portugueses se encostavam a líderes de prestígio, os apoiavam e os tornavam seus. De que Angola Ari não era um qualquer, em bora o tivessem , com o Jinga, por filho de escrava, ficou-nos o testem unho de Cavazzi, que viveu em sua banza, antes de se tornar o confessor do fim da vida da rainha Jinga. Ele o tinha com o “valoroso na

guerra” e “de estirpe real”.115

Um m ês depois do reconhecim ento de Angola Ari com o rei, aparecia em Luanda um novo em baixador da rainha, que de novo se traj ara de Dona Ana de Sousa. Sob o pretexto de que não trazia consigo um salvo-conduto, foi o em issário preso com o espião, torturado e decapitado. Apesar dessa afronta, a rainha não desistiu da diplom acia, com o obj etivo de ganhar, se não a paz, ao m enos tem po, para refazer-se das perdas m ilitares. Os 11 m acundes que foram ter a Luanda, em 1627, ouviram , porém , dos portugueses palavras claras: queriam a rendição incondicional de Jinga. Que ela se entregasse em Cam bam be ou em

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Am baca.

Inesperadam ente, Jinga teve a sua trégua. Bento Cardoso foi obrigado a regressar a Luanda, no início de 1628, diante de boatos de que se preparava um a esquadra na Holanda para atacar a cidade. Verificada a falsidade dos rum ores, o conquistador, após requisitar todos os cavalos existentes na colônia, voltou a Am baca, para continuar o com bate contra Jinga. Ali adoeceu, m orrendo na viagem de regresso. Substituiu-o Paio de Araúj o Azevedo, que retom ou, com suas tropas form adas por uns poucos portugueses e grande núm ero de soldados-escravos e de aliados africanos (a cham ada “guerra preta”), as hostilidades contra a rainha. Num dos vários encontros, os portugueses capturaram as duas irm ãs de Jinga, Cam bo (Kam bo ou Mucam bo) e Funj i (Quifunge ou Kifunge) e as levaram para Luanda, onde o governador as recebeu com toda a consideração e cortesia. Novam ente em retirada, Jinga aturdiu os perseguidores, ao descer por cipós, com o seu exército, do alto e íngrem e penhasco da Quina Grande dos

Ganguelas para o vale entre os rios Lui e Cuango. 117 Não encontrando ali a segurança que esperava, regressou às ilhas do Cuanza, tão logo delas se afastaram os portugueses. Talvez por reconhecer a im possibilidade de capturar a rainha, Paio de Azevedo retornara a Luanda, em novem bro de 1629.

Nos anos seguintes, os portugueses viram -se ocupados com a am eaça holandesa e com quase três anos de guerra (de 1633 a 1635) contra Am buíla e outros estados dem bos, pelas razões de sem pre: a recusa em aceitar que os reis, régulos e chefes locais controlassem os cam inhos e os m ercados e a exigência de que estes devolvessem os escravos fugidos. De sua parte, Jinga sentia-se cada vez m ais insegura em terras andongas e desam parada pelo Jaga Caza e outros chefes im bangalas, que se iam passando para os portugueses. Não desperdiçou, por isso, a oportunidade que lhe ofereceram o falecim ento de um kam bole e um a crise

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política no reino de Matam ba. Dom ou-o com seus exércitos, capturando

quem dele era rainha, a m uhongo, e a m andando m arcar a ferro em brasa com o escrava. Depois, talvez para m elhor com por-se com as estruturas de poder locais, trouxe-a de volta à vida política e a fez governadora de um a das

províncias do reino, com o título de sua irm ã. 119 Ao tornar-se rainha de Matam ba, um estado tradicionalm ente governado por um a m ulher, Jinga não deve ter encontrado as m esm as oposições que no Dongo, m as, sim , outras, com o a de ser um a estrangeira, fora do sistem a am bundo de parentesco. A contestação das linhagens e das aldeias não chegava, porém , a abalá-la. O seu reino, ela o carregava consigo, e com a sua corte, e os seus hom ens fortes, e os seus cabos de guerra, e os seus soldados. Mais do que sobre um território, o seu poder se exercia sobre as gentes. De onde quer que estivessem as suas tropas, enquadradas pela disciplina do quilom bo, ela recolhia tributo. E onde pusesse a sua banza, ali m andava.

Em pouco tem po, Jinga transform aria Matam ba num estado poderoso, graças

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às m udanças que im pôs nas rotas do tráfico de escravos. Para isso, teve não

só de continuar a com bater os portugueses, m as tam bém de enfrentar os ataques de um rei vizinho, que tam bém se fazia cada dia m ais poderoso, o kulashingo ou j aga do Caçanj e. Viu-se obrigada ainda a guerrear os dem bos, a fim de forçar a livre passagem das fieiras de escravos que, saindo de Matam ba, iam ter, seguindo o Dande, até a foz daquele rio, onde os recolhiam os barcos dos holandeses, j á então senhores de Luanda. Ao abrir ou dar novo im pulso a esse cam inho, procurou tornar insegura a rota preferida pelos portugueses. Esta ligava a Baixa do Caçanj e ao litoral, cruzando os territórios de Angola Ari, antes de acom panhar o curso do Cuanza. As tropas da rainha passaram a aterrorizar as caravanas dos pom beiros que percorriam esse traj eto e a prear escravos por toda a redondeza. Em pouco tem po, Jinga concentrou em suas m ãos a escravaria que se produzia no am plo espaço que ia desde o norte do Matam ba até o alto Cuanza e se tornou a m ais im portante vendedora de escravos da região. E tam bém a m aior detentora de escravaria, reforçando com ela os seus exércitos, pois, ao que parece, ela e seus chefes guardavam para eles m uito m ais cativos do que vendiam . Foi assim que se criou, no vale banhado pelo Wam ba e o Cam bo, com descendentes de gente desenraizada e de escravos, um novo povo, que seria

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conhecido, no século XVIII, com o j ingas.

Desde havia m uito, as tropas de Jinga contavam com espingardeiros, m as com o aum ento do com ércio com os holandeses, nelas se m ultiplicaram as arm as de fogo. Ao conter, por volta de 1640, as pretensões de Angola Ari de am pliar os territórios sob seu dom ínio a oeste de Pungo Andongo e ao frustrar os esforços do j aga do Caçanj e para rom per o bloqueio de acesso aos portugueses, ela consolidou o seu predom ínio político na área que ia do Cuango até a m etade do cam inho na direção da costa.

Mais de 15 anos de guerra não tinham produzido os resultados pretendidos pelos portugueses. Jinga tornara-se não só a rainha de Matam ba, um estado m ilitarm ente forte, agressivo e quase fora do alcance dos exércitos lusitanos, m as continuara a se ter, e a ser tida por m uitos, com o o verdadeiro angola, o verdadeiro rei do Dongo. Se por duas vezes fora obrigada a abandonar as ilhas de Quindonga, a elas sem pre retornou com suas tropas, por considerá-las a sua

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capital sim bólica, pois lá ficavam os túm ulos dos antigos reis. Ao seu reino cham ava Dongo e Matam ba. E nele se tornara um a adversária ainda m ais tem ível para os portugueses. Para estes, talvez tivesse valido a pena concordar com suas exigências. Pois o presídio de Am baca não se revelara estrategicam ente essencial à segurança da colônia de Luanda e ao seu com ércio. Adquiridos na periferia de seus dom ínios, com o queria a rainha, o m arfim e o escravo teriam continuado a afluir para a costa, um a vez que, se Jinga se opunha a que se cativassem os seus súditos, não obj etava a que se preassem os estranhos, que existiam para isso. E, se tinha havido, em Luanda, um a escolha entre o tributo e o com ércio — definida em favor do tributo, por não contarem os portugueses com m ercadorias de produção própria que pudessem com petir com

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as dos holandeses e outros europeus —, a opção se revelara, pelo m enos para

aqueles que não am bicionavam sesm arias, equivocada. O próprio governo de Lisboa adm itiria o erro e recom endaria, em outubro e novem bro de 1641, que fosse corrigido, devolvendo-se à rainha Jinga o reino do Dongo, que dela havia

sido “inj ustam ente retirado”.124 Era tarde. Em agosto daquele ano, Luanda j á tinha sido tom ada pelos holandeses.