A Manilha e o Libambo
17. A Costa do Índico e os seus sertões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
desses com erciantes, tido por m uito rico, levaram -se m ais de 500 escravos. 65
Apesar de ver as suas tropas reduzidas e debilitadas pelas enferm idades, Francisco Barreto resolveu desim pedir o cam inho para Tete. À sua frente, encontravam -se os m ongas ou m ongazes, que ele tinha por vassalos sublevados contra o m onom otapa. Na realidade, eram opositores deste e pertenciam a um a
outra nação. Ou eram um grupo tonga,66 67 os tongas de Sam ungazi, que não se haviam subm etido aos xonas carangas, ou eram um a das vanguardas da
68
expansão m ilitar dos m araves, que, sob um chefe cham ado Mongas ou
Mongazi, avançara para leste, pelas terras ao norte do Zam beze, e se infiltrara
69
pela m argem direita do rio.
Tongas ou m araves, não podiam eles deixar de ver os portugueses com o intrusos e com petidores. Entravam estes em pé de guerra pelos m esm os territórios sobre os quais os tongas queriam m anter o dom ínio e os m araves estender-se. Eram 650 soldados e m ais dois m il escravos a carregarem m unições e suprim entos, os que cam inhavam por terra, acom panhados, ao longo do rio, por
70
carros de bois, e pelos que velej avam e rem avam Zam beze acim a. Após várias escaram uças, o grande confronto deu-se em Lupata. Os africanos avançavam aos m ilhares, a form ar um a grande m eia-lua, ou antes, os cornos de um búfalo, que se iria fechando sobre o adversário, até envolvê-lo com pletam ente. No centro da m eia-lua, dispunha-se, com pacto, o m elhor do exército. Cada unidade tinha com o estandarte, no alto de um a haste, um a arm ação de varas, recheada de palha e recoberta de pano, com a im agem de um bicho, um leão, um boi, um elefante. A zoada que faziam era im ensa, a tocar tam bores e trom betas, a cantar e a bater com os pés no chão e com as lanças curtas ou as cacham orras nos grandes escudos de m adeira ou de couro. Pois assim vinham arm ados: com arcos e flechas, azagaias, m achadinhas, adagas e
71
m aças de cabeça redonda. Desde o prim eiro m om ento da prim eira batalha, as bom bardas, os m osquetes e os arcabuzes fizeram um grande estrago entre os m ongas. Os guerreiros caíam aos m ontões, sem ter ideia do que os m atava. Se eram m araves, vinham de terras onde ainda não haviam chegado as arm as de fogo.
Após um a segunda e um a terceira batalhas, os m ongas pediram a paz. Barreto, contudo, não continuou para Tete. A diarreia e a febre tinham causado entre os seus m ais m ortes do que as flechas e as azagaias. E continuavam a m altratá-los. Cada dia, enterravam -se dois ou três, que se iam de desidratação. Com as tropas em frangalhos, ele viu-se forçado a recuar para Sena, onde deixou os hom ens que lhe restavam e seguiu para a ilha de Moçam bique, com o padre Monclaro e alguns poucos m ais, a fim de aparar intrigas e conseguir reforços.
A tropa que regressou a Sena parecia derrotada, em vez de vitoriosa. O padre Monclaro fala-nos de soldados que m al se podiam pôr de pé, “m ais com cores de m ortos que de hom ens vivos”, e sem forças para tom arem nos braços os arcabuzes.
Antes de seguir para Sena, Barreto recebera um a em baixada do m onom otapa. E pôs com o condições para um pacto de am izade que Negom o Mupunzagutu expulsasse os m uçulm anos, assegurasse a liberdade de catequese católica e cedesse aos portugueses algum as das m inas de ouro e tam bém as de prata, que não se exploravam . O m onom opata aquiesceu, talvez esperançoso de que com o tem po fossem m orrendo todos os portugueses. Pois a ele, com o aos xeques do litoral e aos africanos por quase todo o continente, não deixava de parecer estranha a fragilidade dos brancos, que enferm avam à toa e, na m aioria dos casos, não reagiam às febres nem delas se curavam .
Barreto voltou da costa, com reforços e novas provisões, no início de 1573.
Mas m orreu de febre e diarreia, poucos dias depois. Seu sucessor, Vasco Fernandes Hom em , levou as tropas para a ilha de Moçam bique e dali, após
algum repouso, para Sofala, de onde subiu para o planalto.72 O quiteve, saquiteve, sachiteve ou rei de Teve tentou im pedir-lhe a m archa: só adm itia que passasse por seu território com o m ercador, isto é, sem arm as. E deu-lhe duro com bate. Vencido pelas arm as de fogo, o quiteve passou a adotar a tática da terra arrasada. Os africanos queim avam as roças, entupiam os poços de água, desertavam as povoações. Vasco Fernandes conseguiu, contudo, chegar à capital do reino e lhe pôs fogo. O rei e sua gente viram o incêndio de longe, refugiados no alto dos penhascos.
Os portugueses chegaram finalm ente a Manica. O rei ou chicanga acolheu-os com satisfação e lhes franqueou o acesso às m inas. Nelas, o que viu Vasco Fernandes deixou-o desanim ado. Só se obtinham quatro ou cinco grãos de ouro, após grandes trabalhos e cheios de perigo. Ali, tudo, nas palavras do cronista, era
“pouquidade e pobreza”.73 Não vivia a gente de Manica da m ineração, m as do com ércio e de um a agricultura difícil. Na estação seca, quando cessavam as labutas do cam po, as pessoas iam para as áreas onde se supunha haver ouro, cavavam buracos no chão e por eles se m etiam , em busca dos filões auríferos, com risco de m orrer sob os desabam entos. Enchiam do que cortavam as gam elas e as iam lavar no rio. E ficavam satisfeitas com um nadinha de ouro, com o qual com pravam panos, contas e alim entos. Era som ando lenta e pacientem ente pequeninas porções de ouro trazidas por num erosas pessoas que os m ussam bazes iam enchendo os seus alforj es. Nada m ais contrastante com a visão portuguesa de fazer a Índia ou a África. Manica talvez fosse rica do m etal, m as para explorá-lo — disto teve certeza Vasco Fernandes Hom em — seria necessário cavar galerias profundas, m ontar m áquinas para m oer a pedra e dispor de um enorm e núm ero de trabalhadores. Desiludido, voltou para o litoral, tendo, no cam inho, a satisfação de receber do quiteve sinais de paz e a segurança de que os portugueses não seriam doravante incom odados na passagem para Manica.
De retorno a Sofala, em setem bro de 1575, ali pouco ficou. Foi-se, prim eiro, para Sena e, depois, para Tete, onde ergueu um forte, para de lá ir tom ar posse das m inas argentíferas de Chicoa (ou Chicova). Principal m oeda para o com ércio com a Índia e o Extrem o Oriente, a prata tornara-se um a obsessão dos portugueses, e não só na África Índica, m as tam bém em Angola e no Brasil, sobretudo depois que os castelhanos a encontraram em grandíssim a quantidade em Potosí. Cansado de cavar em Chicoa sem pôr as m ãos em outra prata que não a talvez enterrada de propósito pelos nativos para enganá-lo, Vasco Fernandes resolveu regressar à ilha de Moçam bique, deixando no local 200 portugueses, encarregados de continuar a busca, sob o com ando de Antônio Cardoso de Alm eida. A gente da terra lhes negou com ida. A sofrer fom e e sem esperanças, boa parte deles foi m orta num a em boscada. Os que dela se safaram e conseguiram abrigar-se num forte feito às pressas foram tam bém , dias depois, liquidados. A tragédia não diluiu, contudo, a quim era da prata: os portugueses continuariam a afanar-se pelo que não havia na região ou não se encontrou até
74
hoj e.
O m onom otapa não tivera de fazer o m enor esforço para deter o avanço português. Os seus adversários tinham cuidado disso. No caso de Chicoa, não precisara sequer estender a m ão. O que talvez não percebesse é que, em bora as expedições de Francisco Barreto e Vasco Fernandes Hom em tivessem term inado em fiasco e tragédia, os portugueses haviam entrado no Zam beze para ficar. Não m ais abandonariam suas fortificações em Sena e em Tete. E com eçavam a quebrar o controle suaíli sobre o com ércio entre a costa e o interior e a não deixar aos m ussam bazes outra saída que não a de se pôr a seu serviço.
Matanças com o as efetuadas pelos hom ens de Francisco Barreto em Sena e as que se repetiam em cada ataque às cidades do litoral não só elim inavam m uitos dos m ercadores m uçulm anos m ais capazes e m ais prósperos, com o tam bém rom piam e danavam toda um a teia de interesses com erciais que se tinha form ado, naquela parte do Índico, ao longo de vários séculos. Se, com o desaparecim ento dos negociantes suaílis de Sena, se desm anchavam ou enfraqueciam as conexões entre o interior e Angoche, isso não representava necessariam ente um aum ento dos negócios por Sofala ou Quelim ane, onde m andavam os portugueses. Nem sem pre, quando alguém perde, um outro ganha. Algum as vezes, am bos perdem ou ninguém ganha.
Não há indícios, aliás, de que o com ércio m arítim o a distância haj a crescido consideravelm ente na Contracosta, durante o século XVI, com a presença lusitana. Ainda que o volum e das transações tivesse porventura aum entado, dim inuiu provavelm ente a parcela que cabia a cada um a das cidades da Azânia, porque tinham de partilhar o m ercadej o, e até os im postos sobre ele, com um novo e exigente parceiro. Os sultões e os xeques foram os que m ais sofreram . Todos eram sócios do com ércio no Índico. E dele, além dos lucros nas transações que faziam diretam ente ou por terceiros, auferiam grandes ganhos com im postos de im portação e exportação e com taxas sobre os serviços de pilotagem , canoagem , reparação, calafetagem , aguada, desem barque, arm azenagem e em barque, que se prestavam nos seus portos. Num a carta de 1506, Diogo de Alcáçova, que serviu em Sofala, nos inform a de que um barco vindo da Índia ou do m ar Verm elho pagava ao sultão de Quíloa um m itical de ouro (4,25g) por 500
peças de tecidos, fossem de boa ou de m á qualidade, e m ais 2/3 de todo o pano que trouxesse, e ainda m ais 30 m iticais sobre cada m il do valor que tivesse o terço restante. O xeque de Mom baça cobrava bastante m enos: além de um m itical de ouro por m il peças de pano, a m etade das que desem barcassem . Se de Quíloa a m ercadoria viesse para Sofala, a taxa era de um por sete panos. Ao retornar com ouro de Sofala, o m ercador tinha de deixar ao sultão de Quíloa 50
m iticais de cada m ilhar que carregasse.75 Pode-se dizer que a parte do leão ficava sem pre com o soberano da cidade.
A com petição portuguesa fez com que a m aior parte das urbes suaílis entrasse em declínio durante o século XVI. Não só pela redução de seus ganhos com erciais e pelo pagam ento de tributo aos europeus, m as tam bém por causa das repetidas rebeliões contra os títeres dos intrusos cristãos e das represálias das frotas lusitanas. Em reconstruí-las dos bom bardeios, dos saques e dos incêndios, consum ia-se a m aior parte dos recursos de seus habitantes. Houve exceções, decerto. Melinde, aliada dos caraveleiros. Pate, por causa da abundância de m arfim , de que tam bém eram im portantes fornecedores Vum a e Lam u. E, de certo m odo, Mom baça, em bora não desistisse de sua oposição aos portugueses. E Sofala, e Moçam bique, graças aos estabelecim entos lusitanos.
Os lugares onde estes se instalavam e onde paravam sistem aticam ente os seus navios, disso recolhiam benefícios. Crescia a dem anda de alim entos, tanto para as guarnições em terra quanto para abastecer os barcos de passagem , estim ulando, na vizinhança im ediata dos entrepostos e em áreas próxim as ao continente e ao litoral, a produção e o com ércio de arroz, carne bovina, pescado, aves, sorgo, m ilhete, inham e, taro, grão-de-bico, óleos vegetais e frutas. Aum entava tam bém a procura de vasos de barro, de cestas e esteiras. E de canoas, alm adias e pangaios, para a navegação a curta distância. E de cordas de cairo. E de têxteis de algodão, sobretudo os fabricados localm ente e sem tintura, para uso dos serviçais dos portugueses, pois, para a venda aos sertões, de freguesia m ais exigente, se desm anchavam panos de Cam baia, a fim de com por, com seus fios coloridos, novos listrados, m ais ao gosto da terra.
Tam bém o Egito, desde 1517 em poder dos otom anos, sofreu prej uízos com a presença lusitana na Contracosta. Deve ter-se reduzido a entrada em seus cofres do ouro da Azânia, boa parte do qual passara a seguir para a Índia, nas caravelas e naus portuguesas. A fim de dar reparo a essa situação, os turcos, que se assenhoreavam do m ar Verm elho, puseram os seus barcos a percorrer os litorais hoj e pertencentes à Som ália e ao Quênia. Não seriam , portanto, as prim eiras aquelas fustas que andaram , em 1541, pela costa de Melinde, a esperançar os suaílis com a prom essa de um a grande frota turca, que pronto viria expulsar os portugueses. Inform ado da presença delas, o capitão de Sofala, João de Sepúlveda, dirigiu-se para o norte, onde capturou duas de quatro fustas que se encontravam em Melinde. Em bora descresse dos boatos sobre a im inência de um ataque, o com andante português não o descartava no futuro e procurou
preparar-se.76
Só voltam os a ter novas de turcos em 1565, quando um certo capitão Joffar, tido pelos portugueses com o “prático naquelas partes”, saiu de Suez para exercer
77
o corso em Melinde e Moçam bique, m as m orreu a cam inho. Depois, em 1585,
Mir Ali Bei desceu o litoral num a galera, com apenas 80 hom ens. Nas várias cidades que ficavam entre Mogadixo e Lam u, ele anunciou que o sultão otom ano o havia enviado para libertá-las dos cristãos e instou os seus habitantes a se rebelarem . Foi ouvido e, ao que parece, com tal entusiasm o, que, ao regressar ao m ar Verm elho, levava com ele 20 barcos, entre dhows suaílis e presas lusitanas, com um excelente butim e cerca de 50 prisioneiros portugueses, neles se incluindo o capitão-m or do m ar de Melinde, que acabara de cessar suas
funções.78
Não tardou que de Goa se m andasse um a frota para proteger Melinde, a única cidade da costa que não se aliara a Ali Bei, e para castigar as dem ais. Os portugueses atuaram ferozm ente contra Faza e Mom baça, após o quê todas as outras pareceram novam ente subm eter-se. Mas ficaram à espera do retorno otom ano. Este deu-se em fins de 1588. Ali Bei regressou à Azânia com cinco navios e levantou várias cidades. Em Pem ba, o xeque, que pagava tributo a Goa e era com placente com os desm andos e as violências que ali com etiam os soldados portugueses — estes, para não ter de cozinhar, chegavam a entrar nas
casas dos nativos e arrancar a com ida dos fogões 79 —, viu-se obrigado a fugir dos súditos am otinados, que m assacraram a m aioria dos lusitanos.
Em Mom baça instalara-se, a convite, um a guarnição turca. Os soldados otom anos não im pediram , porém , que a tom asse, em 15 de m arço de 1589, um a nova frota punitiva, com andada por Tom é de Sousa Coutinho e engrossada com barcos de Melinde. Ali Bei foi aprisionado, conduzido a Goa e depois a Lisboa,
onde se converteu ao catolicism o. 80 Para o golpe final contra os turcos e m om baçanos, que se haviam retirado para dentro da cidade am uralhada, os portugueses contaram , adem ais, com um aliado im previsto, os zim bas.
Segundo o dom inicano frei João dos Santos, os zim bas teriam origem em povos agrícolas das proxim idades de Sena, que se m ilitarizaram e se fizeram
predadores. 81 Um de seus bandos deu com bate aos portugueses de Tete e Sena. Um outro subiu ao longo do litoral, pilhando e devastando o que encontrava pela frente, “m atando e com endo toda cousa viva, assim hom ens, m ulheres e m eninos, com o gado, cães, gatos, ratos, cobras, lagartos, sem perdoarem a ninguém ”. Em 1587, aproveitando-se da m aré baixa, eles passaram da costa à ilha de Quíloa e saquearam a cidade, trucidando quase todos os seus habitantes.
Esses zim bas haviam chegado ao litoral defronte a Mom baça, quando do cerco de Tom é de Sousa Coutinho. Ofereceram -se com o aliados aos portugueses e, com o beneplácito destes, m assacraram os resistentes. Seguiram , depois, para Melinde, onde não contavam , porém , com um outro tipo de adversário, os segej us (ou m osseguej os), um povo banto que se expandia costa abaixo. Os segej us lograram um a vitória com pleta sobre os zim bas, m atando-os quase todos.
A im agem que os portugueses nos deixaram desses zim bas é a de um a horda canibal e sanguinária, capaz de todas as atrocidades, e que tinha na guerra e na pilhagem o seu m eio de vida. Não difere, portanto, dos desenhos estereotipados que o m edo lhes pôs na im aginação, ao se defrontarem , nos casos dos m anes da Guiné e dos j agas do Congo, com o aparecim ento, para eles inexplicável, de exércitos agressivos e destem idos. Talvez lhes fosse difícil com preender com o os cam poneses da vizinhança, indignados com os excessos das elites que os exploravam ou com as abom inações de intrusos, podiam trocar de um dia para outro a enxada de cabo curto pelas azagaias e se transform ar em soldados, m udando de tal form a de aparência e de m odo de traj ar que pareciam vir de longe. Ou com o, castigados pelas secas, pelas nuvens de gafanhotos ou por outras calam idades da natureza, que lhes destruíam as colheitas e m atavam os rebanhos, se viam obrigados a sair aos m agotes de seus pagos, recorrendo ao saque pelo cam inho. Talvez os portugueses interpretassem erroneam ente a reação violenta de grupos que se sentiam prej udicados pela interrupção por estranhos de suas rotas tradicionais de com ércio ou por um novo tipo de concorrência contra a qual não conheciam outro rem édio que não o de elim inar quem por ela respondia. E talvez não percebessem estar diante de processos de form ação de novas estruturas políticas e de expansão de novos estados, que se fortaleciam com o butim e im punham pelas arm as o tributo e a corveia.
Todas essas e outras hipóteses j á foram apresentadas, em nossos dias, para definir e explicar os zim bas, nom e que os portugueses aplicavam provavelm ente a distintos grupos guerreiros que assolavam a região ao norte do Zam beze. Há quem diga que os que atacaram Quíloa e se aliaram aos portugueses contra os turcos em Mom baça não teriam vindo de longe, m as seriam gente das redondezas, inteiram ente distinta, portanto, dos zim bas que enfrentaram os lusos de Sena e Tete. Esse autor os identifica com tropas do lundu (ou rundo), um chefe
m arave do vale do baixo Chire (ou Shire), 82 que, pela ação arm ada, procurava dom inar os itinerários até a costa, para assim proteger o seu com ércio de m arfim , abalado pela ruptura da rede m ercantil suaíli no m édio Zam beze, após o
m assacre dos m ouros de Sena. 83 Esse outro recusa o m otivo m ercantil à aventura zim ba e, em bora continue a vinculá-la ao lundu, prefere tê-la com o parte da form ação de um novo Estado m arave, que se expandia sobre territórios
dos quais podia recolher novos tributos.84 Não falta quem considere que os zim bas eram os habitantes da região antes da chegada dos m araves e que teriam
sido por estes expulsos e forçados a se derram arem para leste. 85 Nem tam pouco quem os tenha por carangas que atravessaram o Zam beze e se puseram , com o
m ercenários, sob as ordens do lundu. 86 Ou por escravos fugidos, que se
87
organizaram m ilitarm ente e passaram ao serviço daquele chefe m arave. Finalm ente, um historiador, ao reexam inar a sua e as outras hipóteses, reclam ou para as grandes secas da sétim a e nona décadas do século XVI, secas seguidas por pragas de gafanhotos e, inevitavelm ente, por fom e, o principal m otivo para o
deslocam ento guerreiro dos zim bas. 88 E seria a fom e, a necessidade de proteínas num a terra devastada, o que os obrigava a com er carne hum ana, se é que algum dia a com eram .
Nunca se saberá a verdade. Certeza só tem os de que as violências atribuídas a esses zim bas são contem porâneas do avanço dos portugueses Zam beze acim a e
da expansão m arave ao norte do rio. 89
As tradições atribuem ao clã Fíri (Píri ou Phiri) a criação dos vários estados m araves, na região lim itada, a oeste, pelo rio Luangua, a leste, pelo lago Maláui e pelo rio Chire, e ao sul, pelo Zam beze. Esse grupo de nobres, liderado por Calonga (Caronga ou Kalonga) Chidzonzi, teria vindo do Chaba (ou Catanga), trazendo consigo as insígnias e as teorias de poder lubas. Talvez j á no século
90 91 92
XIV, no XV ou só no decorrer do XVI, os Fíris se teriam im posto com o
senhores sobre os cheuas93 do sudoeste do grande lago que j á se cham ou Niassa e hoj e figura nos m apas com o Maláui. Ali, ao redor de Manthim ba, a uns três quilôm etros do lago, eles criaram o prim eiro dos seus reinos, tendo o cuidado, no processo, de acom odar nas novas estruturas de poder as gentes entre as quais se instalaram , ao garantir-lhes, por exem plo, a posição de “donos” ou “senhores da terra” e lhes dando funções im portantes no estado.
Desse núcleo, os m araves, por interm édio das linhagens m enos im portantes dos Fíris, com eçaram a se expandir, form ando novos centros de poder entre não
94
só os cheuas, m as tam bém os m anganj as, os tum bucas e outros povos que viviam na região. Cada líder procurava estabelecer-se com o um régulo autônom o, ainda que guardassem todos um a posição de vassalagem em relação ao calonga (ou kalonga), que era um a espécie de im perador — prim eiro, de fato e, depois, apenas nom inal, no ápice do que se poderia cham ar de confederação m arave.
Conta a história oral que o calonga, talvez para livrar-se de com petidores incôm odos, ordenou a dois cabeças de linhagens reais, Cafuiti (ou Kaphwiti) e Lundu, que se fossem estabelecer no vale do baixo Chire. Dos dois novos estados, seria o do segundo, não obstante ter Cafuiti a precedência sobre Lundu, aquele que ganharia força e iniciaria um am plo processo de expansão ao norte do rio Zam beze. Para isso, teriam contribuído vários fatores. De início, o fato de perm itirem as terras do baixo Chire a prática de dois tipos de agricultura: um a, nos solos úm idos, e outra, nas terras secas. Se nas áreas úm idas se cultivava arroz, nas secas plantava-se algodão, e com esse algodão centenas e centenas de teares m anganj as produziam um pano grosso, a m achira, que era o principal item que dali saía pelas rotas do com ércio e um a das m oedas que as lubrificavam . Da área extraía-se sal e ferro. E pelos seus m ercados devia passar m uito cobre. E tam bém bastante m arfim , produto sobre o qual alguns assentam o poderio do lundu e de seu reino.
Segundo os que assim pensam , os estados do Calonga e do Lundu j á estariam
95
consolidados no fim do século XVI, e o últim o, que controlaria o com ércio de
m arfim com Angoche e outros pontos do litoral, j á teria iniciado, para proteger-se da intervenção portuguesa, a sua aventura expansionista nas terras dos lolos,
96 97
lom ués e m acuas, ocupantes dos territórios ao norte do Zam beze e a leste do Chire. É possível, no entanto — e este é outro entrecho —, que esses estados m araves ainda estivessem em form ação, na passagem do Quinhentos para o
98
Seiscentos. Nesse caso, os chefes m araves, entre os quais o lundu, estariam
procurando im por-se sobre povos com os quais pretendiam am pliar seus exércitos e dos quais alm ej avam cobrar tributo e exigir corveia.
Se a segunda for a tram a correta, ao com ércio do m arfim não corresponderia a im portância política que lhe dá a prim eira hipótese. Em bora os reis, que recebiam um a das presas, a m aior, de cada anim al que se abatia, se dedicassem ao m ercadej o do m arfim e graças a ele conseguissem os bens de luxo e prestígio com que robusteciam o poder, ainda não deviam experim entar grandes pressões da dem anda no litoral. Não que fosse pequena a procura de presas de elefante fora da África. Já em 1506, o capitão de Quíloa, Pero Ferreira Fogaça, com unicava ao rei de Portugal que se podia recolher entre aquela cidade e Sofala um a grande quantidade de m arfim e que esse m arfim alcançaria alto
preço no golfo de Cam baia. 99 Não m enor, acrescento eu, do que na China e na própria Europa. Era, por sinal, naqueles litorais africanos que as nações do Índico, havia m uitos séculos, se abasteciam de boa parte dos dentes de elefante e de hipopótam o que tanto prezavam .
O com ércio de presas de elefante era, pois, antigo, em bora sem o prestígio e a im portância do de ouro. Estava vivo, quando os portugueses chegaram à
Azânia, e não foi por eles descuidado. 100 Pelo contrário. Tanto assim que o m arfim figura com relevo nos inventários e nos assentam entos de com pra e venda da feitoria de Sofala, desde o seu com eço. Fogaça, por exem plo, na m esm a carta ao rei português, m enciona um zam buco com 570 dentes e dois bergantins com 129. Onze anos m ais tarde, era o m arfim que pagava os tecidos
im portados da Índia para alim entar o com ércio de Sofala. 101 E, três décadas
depois, as exportações daquele porto som avam 26 toneladas. 102 Mas ainda havia m uito elefante nas proxim idades do litoral — os m acuas eram os principais fornecedores dos portugueses — e não se iniciara a prática das grandes m atanças para a retirada das presas. Os súditos do calonga e do lundu não se dedicariam , portanto, à caça do elefante com o obj etivo prim ordial de lhe retirar os dentes, m as, sim , para lhe consum ir a carne e para m anter sob controle as m anadas que lhes invadiam e pisavam as hortas, as roças e as plantações. O abate dos anim ais para a obtenção de carne ainda era suficiente, em bora a dem anda estivesse a aum entar, para atender às necessidades de m arfim dos portos suaílis, para os quais, por sinal, os dentes convergiam dos m ais longínquos lugares.
Nem os m ercadores m uçulm anos nem os portugueses ficavam , contudo, à espera do m arfim nos seus entrepostos litorâneos. Iam coletá-lo no interior. Por m uito tem po, porém , foi o ouro o principal obj etivo de seu m ascatear. Era pelo ouro que os portugueses, a im itar os suaílis, subiam o Zam beze e adentravam os dom ínios do m onom otapa.
Francisco Barreto m alograra em seu intento de conquista, m as deixara atrás os entrepostos de Sena e Tete num a situação inteiram ente nova. Sobre esses e vários outros estabelecim entos cessava a tutelagem de chefes africanos, fossem tongas ou carangas, e os portugueses se despiam da condição nem sem pre côm oda de hóspedes. As suas feitorias com eçaram a cercar-se de tranqueiras e m uros de terra, sobre os quais se assentavam canhões, e seus com andantes passaram a ser não apenas designados pelo governador de Moçam bique, m as tam bém a ser confirm ados pelo m onom otapa e a ser por ele tidos com o “esposas” ou altos dignitários da corte. No m ercado de Massapa, um dos m ais im portantes da região, o feitor português foi nom eado “governador das portas”
do reino, 103 um lugar que dantes cabia ao m ukom ohasha, o com andante dos
exércitos. 104
Os portugueses foram estabelecendo, assim , ao logo das rotas m ercantis, m ais do que um a fieira de entrepostos: um a série de enclaves, nos quais atuavam , ao m esm o tem po, com o funcionários ou representantes inform ais da Coroa lusitana — e podia-se passar, de um m om ento para outro e quase sem se notar a diferença, da iniciativa privada ao serviço do soberano de Portugal, e vice-versa — e com o chefes dos reis africanos. Em suas sedes am uralhadas, os portugueses m antinham exércitos privados, com postos em grande parte por tongas, e ao redor delas iam construindo os seus sistem as de vassalagem .
Algum as dessas feitorias voltaram -se em verdadeiros núcleos de fixação colonial, com plantações e currais, a cargo de um a escravaria que se ia tornando num erosa. Quando o padre Gonçalo da Silveira chegou, em 1560, a Sena, ali viviam entre dez e 15 portugueses e alguns cristãos indianos, uns e outros, na m aior parte, am ancebados com m ulheres da terra. O j esuíta casou os que pôde e deu o batism o a seus filhos e a seus escravos. Todos som ados não ultrapassavam
500 pessoas.105 Doze anos m ais tarde, cada chefe de fam ília j á possuía várias
106
centenas de escravos. Com a m ilitarização do povoado, sua necessidade de
autoabastecer-se e o aum ento dos portugueses que ali se instalavam , a quantidade de cativos cresceu substancialm ente. E não só em Sena, m as em todos os estabelecim entos portugueses, que iam aum entando de núm ero, sobretudo no baixo e no m édio Zam beze e ao longo de seus afluentes da m argem direita.
Não terá sido por acaso que os m araves, se é que eram m araves aqueles a
que os portugueses cham aram m ongas, am bios, cabires e zim bas, 107 concentraram a hostilidade de suas tropas frente a Tete e a Sena, na outra banda do Zam beze. Os dois lugares eram antigos e im portantes m ercados, que os m araves, em seu processo expansionista, não podiam deixar de cobiçar. Pois a im pressão que se guarda é a de que tam bém os m araves aspiravam a conquistar o planalto fértil do Monom otapa, rico em gado, cereais, panos, m arfim e ouro. Os m ongas ou m ongazes cruzaram aquela parte do rio, antes de 1571, e só não avançaram altiplano acim a porque, após as batalhas com as tropas de Barreto, os exércitos carangas os devolveram à outra m argem . Pela m esm a época, os am bios ou cabires não lograram cruzar o Zam beze, em virtude da oposição dos portugueses, aliados, na m argem norte do rio, aos lolos, e, na m eridional, aos tongas. Juntos, eles os obrigaram a desviar-se para leste, onde foram fundar várias chefias entre os m acuas. Um a dessas, Maurusa, ficou nas crônicas por seus ataques, por volta de 1585, às povoações portuguesas no continente, defronte
à ilha de Moçam bique.108
Datam de então as agressões zim bas ao litoral defronte às ilhas Querim bas, seguidas pelo saque de Quíloa e pela aliança aos portugueses contra Ali Bei, em Mom baça. E tam bém as novas pressões m araves sobre o Zam beze. Em algum m om ento, antes ou logo depois de 1590, os portugueses tiveram de atravessar o rio, para fazer frente a Quizura, um chefe m um bo que se havia instalado diante de Tete. E, em 1592 e 1593, viram -se obrigados a enviar duas expedições contra um líder zim ba cham ado Tondo. Em am bas os portugueses foram m ilitarm ente derrotados, m as lograram fazer a paz com os vencedores, em virtude da qual
109
estes sustaram o avanço para o sul.
Os m araves continuaram , porém , a am bicionar as terras carangas. Um de seus régulos, um certo Chunzo, ordenou, em 1597, que dois chefes, Capam po e Chicanda, cruzassem o Zam beze. O prim eiro, Capam po, após saquear a região aurífera a leste de Massapa, foi obrigado a retirar-se, diante da am eaça de um a ação com binada de carangas e portugueses. O segundo conseguiu avançar com suas tropas até as proxim idades da capital do Mo-nom otapa. De seu acam pam ento, ele enviou ao grande rei um a em baixada com ricos presentes e o pedido de ser aceito com o vassalo. Foi-lhe perm itido instalar-se onde estava. Mas ficou em paz por pouco tem po, pois, em 1599, ergueu-se em arm as contra o m onom otapa Gatsi Rusere. Atrás de suas m uralhas, ou chuam bo, Chicanda aguentou, com apenas 600 hom ens, todo um dia de cerco, dele logrando escapar durante a noite. Os sitiantes som avam 30 m il carangas e 75 portugueses, estes
com artilharia e acom panhados por dois m il auxiliares africanos.110
A resistência de Chicanda só se explica pela excelência das fortificações m araves: um a alta parede feita de troncos de árvore fincados no solo e reforçada com um a grande quantidade de terra, tirada dos fossos largos e fundos que rodeavam a m uralha. Nos grossos m uros — e tão resistentes que os canhonaços portugueses pouco dano lhes causavam — abriam -se estreitas fendas, atrás das quais se postavam os arqueiros.
Com a aj uda dos m araves, se eram os zim bas realm ente m araves, os portugueses haviam vencido os turcos e seus aliados suaílis. Mal term inaram as incursões punitivas contra as cidades que se haviam j untado a Ali Bei, os portugueses deram -se a tarefa, em 1593, de construir em Mom baça a até hoj e
im pressionante fortaleza de Jesus. 111 Não só para se protegerem dos otom anos, das outras cidades-estados do continente, m as tam bém dos navios holandeses e ingleses, que com eçavam a entrar no Índico. Para fabricar o forte, utilizaram os serviços de um arquiteto italiano, Giovanni Baptista Cairati, que ostentava um excelente currículo de construtor de fortificações em Milão, em Malta e na Índia, de um m estre de obras português, Gaspar Rodrigues, de canteiros e pedreiros
indianos112 e de m ão de obra m elinde.
Finda a construção, guarneceram -na com cem hom ens, sob um com andante cuj a j urisdição se estendia de Brava, ao norte, ao cabo Delgado, ao sul. E, com o o sultão xiraze de Mom baça m orrera havia pouco, trouxeram de Melinde, para ocupar o seu lugar, por ordem expressa de Felipe II de Espanha e I de Portugal, o
113
soberano daquela cidade, Ahm ad. Via este, assim , m ais do que satisfeita a
antiga am bição. Não só tirara do cam inho o com petidor, m as deste assum ira o posto e colocara na cabeça o seu turbante.
Durou pouco o contentam ento. Pois cedo com preendeu Ahm ad que os portugueses lhe davam o título, m as não o m ando. E com eles com eçou a ter repetidos problem as. Por causa do terço dos im postos sobre o com ércio exterior, que lhe cabia. E porque os interesses m ercantis dos lusitanos conflitavam com os dele, com os da cidade-estado que governava e com os de Melinde, de que continuava senhor — a Melinde que, ao perder a m orada real e a residência do capitão português, se votava ao declínio. Um dos principais m otivos de descontentam ento do xeque era, porém , político. Ele havia conquistado Pem ba, sem , ao que parece, auxílio dos portugueses, m as estes atuavam com o se lhes pertencesse o feito e negavam a Ahm ad o dom ínio da ilha, insistindo em colocá-la sob um títere da escolha deles.
Os desentendim entos continuaram a acum ular-se e a agravar-se, após a m orte de Ahm ad, em 1609. O seu filho e sucessor, Hassan, dirigiu várias queixas a Goa, sem obter as reparações e garantias desej adas. Ao sentir-se sob a am eaça de ter de ir à Índia portuguesa j ustificar-se, preferiu a fuga para o continente. Ali refugiou-se entre os m usungulos, que, após um a boa acolhida, o traíram , em troca de um a recom pensa portuguesa, e o m ataram .
O filho de Hassan, um m enino de nove anos, Yusuf, foi levado para Goa, a fim de preparar-se para ser o sultão de Mom baça, Melinde e Pem ba. Voltou à
114
Azânia em 1626 ou 1630, cristão, com o nom e de Jerônim o Chingulia, e casado com um a indo-portuguesa. Esperava Lisboa ter nele um preposto de toda a confiança e um soberano que prom ovesse a cristianização de seus súditos. Mas a gente de Mom baça o rej eitou à socapa. Para os islam itas — e toda Mom baça era m oslim , não tendo sido cristianizadas m ais do que duas ou três centenas de pessoas, na m aioria pagãs ou escravas —, era inadm íssivel que fossem governados por um infiel, por um católico. Pior ainda, por um apóstata — e aos apóstatas m andava a lei que se desse m orte.
De regresso aos seus, logo Yusuf ibn Hassan se reconverteria ao islam e. Sem que disso, a princípio, os portugueses, que j am ais o trataram com o um superior ou sequer um igual, se precatassem . Quando tiveram sinais de que o sultão havia voltado à antiga fé e sobre isso apresentaram denúncia, não im aginaram que ele desconfiasse de que se achava sob suspeita e sob a am eaça de ser m andado a Goa, para ser j ulgado pela Inquisição com o m oslem ita. Estavam tão desprevenidos, que, em 15 de agosto de 1631, durante a festa da Assunção de Nossa Senhora, Yusuf entrou com sua gente, com o se fosse participar das celebrações, e m assacrou os portugueses. Destes, só cinco conseguiram escapar para Pate. Os cristãos da terra que não abj uraram foram m ortos, e 400 deles, vendidos com o escravos a Meca.
No início do ano seguinte, um a frota que pretendia castigar o sultão encontrou-o protegido pelo castelo que os próprios portugueses haviam levantado. Com apenas uns 400 hom ens dentro da fortaleza e m ais uns 500 ou 600
guerreiros bantos niicas 115 nas m atas ao derredor, ele resistiu por dois m eses a um cerco de m ais de m il hom ens, cuj os canhões, por serem de pequeno calibre, de pouco serviam contra as altas e grossas m uralhas. Os portugueses, desanim ados, voltaram a Goa. Mas Yusuf não se m anteve na fortaleza de Jesus. Desiludido com a falta de resposta das outras cidades-estados à sua convocação de guerra santa — os xeques de Zanzibar e das ilhas Baj un continuaram aliados dos portugueses, e o de Pate a estes ofereceu aj uda para recuperar o forte —, Yusuf abandonou Mom baça. E bastaram dois pequenos navios lusitanos e 75 hom ens para retom ar a cidade.
O sultão apóstata não desistiu, contudo, de dar com bate aos portugueses. Vergastou-os, com seus barcos, ao longo do litoral, até 1637 ou 1638, quando faleceu em Jeddah ou em outro ponto do m ar Verm elho, onde fora talvez em busca de auxílio otom ano — um auxílio que não se deu. Pois os turcos não voltaram a atuar m ilitarm ente na Azânia. Seria um outro poder m uçulm ano o que ali acabaria por im por-se: o dos Yarubis, a dinastia que reinava em Om ã.
Eram antigas as relações entre o sul da Arábia e as cidades-estados suaílis, onde m uitos reclam avam antepassados om anis — entre eles, os Nabahanis, a fam ília real de Pate. Natural, portanto, que Mom baça se alvoroçasse com as notícias de que o im am e om ani, o sultão Ibn Saif, lograra expulsar, em 1650, os portugueses de seu bastião em Mascate, e se atrevesse a lhe pedir socorro contra o inim igo com um .
Os om anis, m arinheiros de longuíssim a data, haviam capturado na baía de Mascate vários navios portugueses. A partir de seus m odelos, passaram a construir barcos m ais sólidos do que aqueles a que estavam acostum ados. Os dhows, de fundo chato e proa aguda, eram eficientes, velozes e seguros, porém frágeis, porque feitos de pranchas de m adeira leve, am arradas com cordas de coco e calafetadas com m assa de algodão e gordura, sem , portanto, qualquer pregadura m etálica. Com velas de esteira ou em preita de palm a, essas em barcações não podiam fazer frente aos navios portugueses de bordo alto, construídos de m adeira dura e arm ados de canhão. Os portugueses haviam descoberto que o canhão, por m ais pesado que fosse, quando m ontado num
barco, tornava-se m óvel e podia m udar facilm ente de alvo. 116 Os om anis copiaram essa inovação lusitana, que havia dado aos europeus a suprem acia nos encontros navais e nos bom bardeios das cidades, e, em pouco tem po, dispunham de um a esquadra capaz de enfrentar os portugueses em igualdade de condições.
O pedido de aj uda de Mom baça não caiu em ouvidos m oucos. Em 1652, alguns navios om anis atacaram os portugueses em Zanzibar e Pate. E oito anos depois, Ibn Saif, cham ado dessa vez por Pate, atacaria Faza e Mom baça, não conseguindo, porém , tom ar a fortaleza de Jesus. Sua frota desceu, em 1669, até a ilha de Moçam bique e só por pouco deixou de capturá-la.
Em 1678, o vice-rei da Índia, Pedro d’Alm eida, com andou em pessoa um a nova expedição punitiva portuguesa. Após subm eter Pate, Lam u, Siu e Manda e decapitar os seus dirigentes, o vice-rei teve de recolher-se a Moçam bique, a fim de evitar o confronto com um a esquadra om ani, que chegara para acudir aos agredidos. Não se passaram oito anos e novam ente Pate rebelou-se. Os portugueses capturaram o sultão, levaram -no para a Índia e o m ataram , j untam ente com doze de seus conselheiros, no Natal de 1688.
Os reveses anotavam -se para am bos os lados. Na aparência, havia um
em pate,117 m as é evidente que os om anis haviam abalado o predom ínio lusitano nas costas africanas do Índico. E em m arço de 1696, um a frota com sete navios árabes, num erosos zam bucos e pangaios suaílis e cerca de três m il hom ens, atacou a fortaleza de Jesus. Seguiu-se um longuíssim o sítio, de dois anos e dez m eses, durante o qual m agros e esporádicos reforços m al conseguiam refazer os núm eros de portugueses e de seus aliados de Melinde, de Faza e de grupos niicas que viviam no continente, defronte à ilha. A m ortandade era enorm e, não só pela carência de víveres, m as sobretudo pelas doenças. Ao iniciar-se o cerco, contavam -se, dentro do forte, 2.500 pessoas capazes de pegar em arm as. No final, em 13 de dezem bro de 1698, não havia m ais do que oito portugueses, três
indianos e duas m ulheres africanas. 118
Os portugueses recolheram -se a Moçam bique. Ainda tentaram , no final da terceira década do século XVIII, reinstalar-se em Mafia, Zanzibar, Pem ba, Mom baça e Pate, ao abrigo de um a aliança com a nobreza dessa últim a cidade. O sultão de Pate, Abubakar Bwana Tam u Mkuu, descontente com os om anis, m andou elim inar a guarnição árabe estacionada na ilha. Tem eroso de represálias, recorreu aos portugueses de Goa, confidenciando-lhes que encontrariam apoios não só entre os seus, m as tam bém em Mom baça e em outros lugares da costa. Diante dessas notícias, o vice-rei deu ordens para que se aparelhassem seis navios, que seguiram , na véspera de Natal de 1727, para Pate. Ao chegar, os portugueses souberam que j á não havia árabes na fortaleza de Jesus. Esta encontrava-se em poder de escravos revoltados, que se tinham posto sob a proteção de Bwana Tam u. Acom panhados por barcos e tropas suaílis de Pate, os portugueses dirigiram -se a Mom baça, renderam os 500 om anis que guardavam a cidade e receberam de seus ocupantes a fortaleza. Nela aloj ou-se o novo governador, enquanto que feitores se estabeleciam nos outros portos.
Com o se não bastasse a oposição islam ita, haviam entrado no Índico, com força e determ inação, os holandeses e os ingleses. Os prim eiros j á agrediam , em 1607, a ilha de Moçam bique, e os segundos desem barcavam , em 1591, em Zanzibar e, em 1608, em Pem ba. Uns e outros em penhavam -se em destruir as bases portuguesas no Índico, m as não pareciam , entretanto, im portar-se com a Azânia, a não ser com o lugar de refresco para os navios que dem andavam o Oriente. Era do golfo de Aden para leste, nas águas da Ásia, que se travava a luta entre europeus pelo controle de um com ércio que o vencedor ainda teria de arrancar dos m uçulm anos. E tam bém dos banianes.
Os portugueses haviam tentado dom inar esse tráfico, com êxitos efêm eros. Para m ercadej ar com a Índia e com a China, que não tinham m aior interesse pelos artigos europeus, necessitavam de ouro e prata. Pois eram ouro e prata o que, no Extrem o Oriente, se desej ava em paga das especiarias, das sedas, dos algodões finos, das porcelanas e das lacas. Aceitavam -se tam bém o m arfim e outros bens que se podiam obter no próprio Índico, sobretudo nas costas da África, com o as pérolas, o coral, o âm bar, a tam iça de coco, o alm íscar, as plum as de avestruz, os chifres de rinoceronte e as carapaças de tartaruga. Mas, para obter na Azânia essas m ercadorias e levá-las a trocar no outro lado do Índico, os portugueses tinham de oferecer prioritariam ente aqueles produtos com os quais os suaílis e os povos do interior estavam acostum ados e que eram asiáticos, dos algodões e contas de Cam baia à celadona chinesa. Quando m ontaram a feitoria em Sofala, levaram para lá o m esm o tipo de m ercadorias que com erciavam em São Jorge da Mina. O resultado foi péssim o, pois esses artigos não tiveram aceitação. O ouro só afluiu para o entreposto quando este
119
recebeu produtos indianos, obtidos nos saques a Quíloa e a Mom baça.
Os portugueses viram -se, assim , num a espécie de círculo fechado: para adquirir especiarias necessitavam de ouro, e pagavam em ouro na Índia os tecidos e a contaria com que o obtinham em Sofala. O ouro desta não tinha, aliás,
outro destino que o trato da pim enta.120 É verdade que tam bém entrava no circuito parte do m etal am arelo que conseguiam na Mina, no Gâm bia e em outros pontos da África Atlântica. Se ali o com pravam com tecidos indianos e do Magrebe e com cauris das Maldivas, outras m oedas não deixavam de ter na costa atlântica excelente curso: as m anilhas e o vasilham e de latão e cobre, as m antas do Alentej o e as barras de ferro. Além do escravo, cuj a dem anda entre os acãs não esm aecia. Era, aliás, sobretudo contra escravos que os portugueses perm utavam ouro em São Jorge da Mina.