A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 20 de 30 · parte 2/2

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A Manilha e o Libambo

18. Na Zambézia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

É possível que o principal óbice ao êxito com ercial dos súditos do m aurusa tenha sido não a resistência dos portugueses e dos indianos da ilha de

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Moçam bique, m as a habilidade m ercantil dos iaôs, um povo que vivia a

noroeste dos reinos m araves e das populações m acuas, e a oriente do lago Maláui. Os iaôs, que principiaram com o com erciantes de produtos agrícolas, peles e utensílios de ferro, tornaram -se em pouco tem po os m ais bem -dotados m ercadores da área, capazes de fornecer quantidades cada vez m aiores de dentes de elefante não só aos portugueses da ilha de Moçam bique (que deslocara Sofala com o o principal em pório lusitano na África Índica), m as tam bém aos suaílis, sobretudo os de Quíloa e Mossuril. É provável que, desde o início, os iaôs j á traficassem escravos — um com ércio que aum entaria consideravelm ente, depois que os om anis se tornaram senhores dos em pórios litorâneos ao norte do cabo Delgado. Os árabes de Mascate e Om ã redescobririam a Azânia com o fornecedora de m ão de obra cativa e dela recom eçariam a retirar escravos.

No interior, ao sul do Zam beze, o m onarca português arrogava-se o m ando sobre os sertanej os que lá viviam . O m onom otapa, o quiteve, o m acom be, o chicanga e outros reis africanos os tinham por hóspedes ou, se lhes faziam doações de gente e terra, por vassalos. Quando, porém , algum desses aventureiros se com portava com o um súdito obediente do rei português ou com o um vassalo leal do africano, estava-se diante de um a exceção. Podia um deles, em caso de guerra, acorrer em auxílio do capitão de Sena ou do m onom otapa, m as isto só se dava quando constrangido ou de seu interesse. Longe ficavam Goa e Lisboa — a presença do Estado português reduzia-se quase sem pre a um com andante m ilitar, ao feitor, ao escrivão e a m eia centena de soldados

espalhados pelos Rios 67 —, e as tropas dos reis africanos lhes pareciam incapazes de rom per por seus chuam bos artilhados.

A Coroa portuguesa tinha poucos que de fato a servissem . Era nos exércitos dos prazeiros que os contados funcionários reinóis se viam obrigados a apoiar-se. Com o inevitável consequência, a m aior parte dos capitães das feitorias e das feiras passou, a partir da m etade do século XVII, a ser escolhida entre os sertanej os m ais ricos e poderosos, o que pôs nas m ãos destes os representantes do soberano português. Só se acatavam ou cum priam as ordens da Coroa quando aceitas pelos donos do sertão.

Entre estes quase nunca havia consenso. No início, por exem plo, m uitos dos portugueses que viviam em Sena, Tete, Quelim ane e Moçam bique olhavam com desgosto para o increm ento da extensão de terras postas sob o regim e dos prazos. Com erciantes, preferiam que as terras perm anecessem em m ãos africanas, para delas adquirirem o ouro, o m arfim , os panos, a cera, o m el e o ferro. Se entravam sertão adentro, era para m ercadej ar pessoalm ente, em vez de por interm édio de m ussam bazes. Já os que se fixavam no interior ou, em bora tivessem casa em Sena, nele punham sua am bição, queriam terras para explorar por conta própria, com áreas auríferas e m uitas aldeias a lhes pagarem

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tributos.

Se, nos Rios de Sena, a autoridade da Coroa sobre os sertanej os era m ais form al do que real, nas terras altas de Manica, do Mocaranga e da Butua era

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nenhum a. No altiplano, os portugueses só se interessavam pelas feiras, das

quais as m ais frequentadas eram as de Dam barari, Ongoé, Mocanga e Maram uca. Lá não se em penharam em ter terras nem em ser chefes, porque lá o poder se assentava no gado bovino e esta não era a espécie de riqueza a que aspiravam . Ninguém vinha fazer a África para ser criador de bois. Mas, sem

gado, não se tinha influência nem prestígio no planalto.70

Fora de Manica, do Mocaranga e da Butua, os m ais audazes desses sertanej os aspiravam a que não houvesse outro poder sobre as terras que haviam ganho com o arcabuz e a espada. Aquela era a conquista deles — e dentro de seus territórios faziam a lei e se com portavam com o senhores absolutos. Para os tongas e os que viriam a cham ar-se senas, não seriam os prazeiros diferentes dos nobres carangas que substituíram no m ando. E para os reis que lhes haviam cedido as terras, assem elhavam -se a outros de seus vassalos aristocratas, sem pre propensos a governar em proveito próprio e a se inclinarem à independência, só que m ais bem -arm ados e, portanto, m ais perigosos.

Aqui e agora, os prazeiros som avam esforços. Mas logo depois ou m ais adiante, entravam em conflito uns com os outros. Sem pre que não se encontravam sob am eaça dos africanos, prevalecia entre eles um clim a de invej a, em ulação, intriga e discórdia. Até m esm o em Sena, onde havia a presença da Coroa portuguesa, sucediam -se as brigas e as m ortes por com petição com ercial, precedência e arroto de im portância. Dos 60 casais lusitanos que lá viviam na segunda m etade do século XVII, m uitos eram ricos e poderosos, e cada qual de seus cabeças, à frente de pequenos exércitos particulares, pretendia “ser o galo”, para usar a expressão do padre Manuel

Barreto.71 Sobre todos pairava, porém , Antônio Lobo da Silva (o “Nhem a”, para os africanos), tido com o o m ais poderoso dos m oradores do que viria a cham ar-se Zam bézia. Foi a contragosto que ele aceitou tornar-se capitão-m or e foi viver no zim babué do m onom otapa, onde sua principal função era a de “enfrear o

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rei”.

Esse Antônio Lobo da Silva recebera as terras e o poder de seu sogro, um outro sertanej o fam oso, Sisnando (ou Fernando) Dias Baião, o “Mossuam paca” (ou “Massuam paca”), que, por sua vez, tivera m uito de seus dom ínios de

Lourenço de Matos, o “Maponda”, com cuj a filha se casara. 73

Lourenço de Matos j á era um hom em poderoso, nas prim eiras décadas do século XVII, quando atacou e deu m orte a um rei dos tongas que havia retom ado pelas arm as terras em poder de portugueses. Finda a cam panha, não as devolveu, contudo, aos que delas se tinham por enfiteutas. Apesar de seus reclam os indignados, guardou-as para si próprio, dizendo que as “ganhara com seu

arco”. 74

Era com o arco, a m aça, o arcabuz e a bom barda que se obtinham e conservavam os senhorios sobre terras e gentes. Para consegui-los, os sertanej os envolviam -se na política africana, sobretudo nas crises sucessórias, e aliavam -se a chefes que desej avam independentizar-se de seus suseranos, ou aos grandes reis que tinham a integridade de seus dom ínios am eaçada por secessionistas ou estavam em guerra uns contra os outros. Assim sucedeu, m ais de um a vez, com

Sisnando Dias Baião, tido com o o paradigm a do prazeiro conquistador. 75

Baião controlava m uitas terras, recebidas de seu sogro, e tinha sob suas ordens um grande exército de africanos — o que explica ter sido ele escolhido para capitão de Sena e dos rios do Cuam a. Por volta de 1640, o rei de Teve, Berenha (ou Peranhe), que fora retirado do poder por dissidentes da fam ília real e enfrentava concom itantem ente um a série de levantes entre seus vassalos tongas, pediu-lhe socorro e foi atendido. Com o recom pensa e a firm ar um a aliança perm anente, o quiteve doou ao sertanej o um a enorm e extensão de terra, toda a região norte do reino, a Gobira, que iria form ar o fam oso prazo de Cheringom a.

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Logo depois, eclodiu um conflito arm ado no reino de Butua, considerado pelos portugueses com o a principal área de produção aurífera do planalto e por isso cham ado a “Mãe do Ouro”. Boa parte do m inério que ali se extraía provavelm ente continuava, com o desde a época do Grande Zim babué, a descer o Save e a ser em barcado pelos islam itas de Sofala e Chiluane. Pois a presença portuguesa não apagara a m uçulm ana. Sofala decaíra com o entreposto lusitano, m as não com o centro com ercial suaíli, cuj as operações procuravam furtar-se à atenção portuguesa. Durante todo o século XVII, lá não viviam , colados a um a igrej a e a um forte que literalm ente desm oronava, m ais do que alguns pouquíssim os reinóis e goeses, além de um grupo m aior de m ulatos, m uzungos ou “filhos da terra”, que iam escavando dom ínios senhoriais nas terras vizinhas, sem qualquer com prom isso com Lisboa. Mas os bairros m oslins da cidade, com seu xeque, continuavam ativos, e seus m ercadores aproveitavam a im potência ou o descaso de Lisboa para dar nova vida às rotas com erciais que ligavam o interior

do atual Zim babué ao m ar Verm elho, ao golfo Pérsico e à Índia.77

Do m assacre dos m ouros de Sena por Francisco Barreto pode datar-se o desfiar da presença m ercantil dos m uçulm anos no baixo e m édio Zam beze. Muitos dos m ascates m ouros só sobreviviam naquelas regiões atuando com o m ussam bazes dos portugueses. Já na profundidade do sertão, em Maungué e em Butua, por exem plo, os suaílis e os xonas islam itas (os m weny e) não perderam a im portância com o m ercadores. No próprio Monom otapa, ainda havia alguns m ouros com prestígio e força. Tanto assim que Muvura, ao ver-se firm e no poder, não recom pensou com terras apenas os portugueses, m as tam bém um xerife que o aj udara, para quem transferiu a posse de um a área aurífera, Entom boé, que talvez ficasse na m argem sul do Mazoé. E o fez, apesar de seu

com prom isso de expulsar de seus territórios todos os m uçulm anos.78

A um sertanej o com o Sisnando Dias Baião não passariam despercebidas as notícias das atividades dos m ouros nos m ercados de Butua. Nem os boatos de que ali exerciam certa influência política, form ando no partido de um irm ão m ais j ovem do rei, ligado pelo m atrim ônio à fam ília de um poderoso xerife (que podia ser, ou não, aquele que ganhara as terras de Entom boé). O príncipe revoltoso, talvez com o apoio dos m oslins, acabou por im por-se e por expulsar o irm ão do trono e de Butua. O rei deposto refugiou-se em Manica, onde se encontrava, em cam panha m ilitar, Dias Baião, e lhe pediu aj uda. O Mossuam paca não hesitou em ir lutar contra os m ouros. Dirigiu-se im ediatam ente a Butua, derrotou os insurretos, repôs o seu protegido no poder e ali construiu um forte, no qual deixou um a guarnição.

Durante os 18 anos em que foi a m ais poderosa personagem portuguesa da Zam bézia, Baião acum ulou, entre os seus patrícios, m uitos inim igos. Estes o m andaram envenenar, em 1644, quando, de regresso a Sena, parou na feira de Luanze. Ao saber de sua m orte, os hom ens que deixara em Butua abandonaram a tranqueira, perdendo-se, assim , o prêm io do feito m ilitar do Mossuam paca.

Os m oganos outorgados a europeus ou a m estiços pelos reis africanos tinham lim ites que os seus m oradores conheciam . Mas esses lindes, que estavam na m ente de todos, ainda que não se m arcassem com precisão no terreno, podiam ser am pliados. Pela ação das arm as, dom ando, por ordem ou pedido do rei, insubordinações e revoltas. Por com pra a quem era o senhor da terra. Ou pela adesão de chefes vizinhos, que desej avam m udar de suserano, por com este se terem indisposto ou por considerá-lo m enos poderoso do que o estrangeiro. A um chefe tonga, cansado de sofrer o dom ínio caranga, m udar para o senhorio de um prazeiro podia ser um a boa opção, sobretudo quando este se dispunha a lhe entregar quase todas as m ulheres que se cativassem nas cam panhas m ilitares. Era, aliás, a perspectiva desse tipo de butim o que fazia com que m uitos tongas engrossassem as tropas privadas dos sertanej os.

Nos casos de adesão de um chefe, ganhava-se não só território, m as tam bém gente. Para os que viviam num m ogano cedido a um branco ou a um m estiço, era essencial que o m am bo, com o senhor da terra, o aceitasse com o chefe superior. E que o aceitassem tam bém os fum os. O prazeiro se inseria no ápice de um a estrutura j á existente, e era de boa política não alterá-la. Caso o fizesse (substituindo, por exem plo, chefes por pessoas que não tinham títulos para tal), arriscava-se a assistir ao abandono de suas terras por aldeias inteiras. É certo que podia tentar evitar o êxodo pela força, m as repetidas ações m ilitares contra os que tinha sob seu m ando e, portanto, sob sua proteção, acabariam por desm oralizá-lo com o líder. Era, aliás, a recrutar fum os e sam uchas descontentes, e chefes derrotados em lutas políticas ou perseguidos por seus superiores, que um prazeiro aum entava o núm ero de seus vassalos livres. Em troca do asilo e de um trecho de terra, ganhava a obediência não só do chefe, m as tam bém dos que o acom panhavam .

Esse processo de acom odação a um a estrutura preexistente não se fazia sem dificuldade. E nem sem pre se verificava. Aos sertanej os, na m aioria voluntariosos, m andões, soberbos e violentos, repugnava ter de negociar o que tinham por direito. Mas os prazos eram extensos — alguns, enorm es —, com aldeias distantes um as das outras, e não era realista pensar em controlá-los som ente pela força. Im itaram , por isso, em bora provavelm ente a contragosto, a aristocracia caranga, nas suas relações com seus súditos tongas, e procuraram governar por interm édio do m am bo ou chefe da terra e dos chefes m enores a este subordinados. Para aprofundar a aliança com esses chefes e m elhor fundar a legitim idade do m ando, alguns tom avam por m ulheres filhas ou irm ãs do m am bo e dos fum os. Com o grandes chefes, m antinham -se quase sem pre distantes daqueles a quem cham avam “colonos” (os m ussenges ou cam pônios que encontraram no prazo), sem se im iscuir nos ritos com que os chefes tradicionais convocavam as chuvas, invocavam os espíritos dos antepassados ou propiciavam a fertilidade do solo, dos anim ais e das m ulheres. Procuravam ter o m ínim o de ingerência na alocação dos lotes de terra que deviam caber a cada linhagem , a não ser para reservar os que seriam atribuídos a seus escravos. Muitos evitavam introm eter-se nos j ulgam entos de delitos e crim es ocorridos dentro das aldeias e nos litígios entre os vilarej os: só um a ou outra causa chegava até ele, na sua qualidade de suserano do m am bo, para decisão em últim a instância. Não faltaram , contudo, alguns poucos prazeiros tão africanizados, que se converteram à religião da terra e dela cum priam as obrigações que cabiam aos grandes chefes, entre as quais as cerim ônias propiciatórias da sem eadura e da colheita.

Esse sistem a de m ando indireto não devia dar segurança ao prazeiro. Ele se sentiria sem pre à m ercê dos que m oravam no que considerava as suas terras. Um a relativa tranquilidade, achou-a na construção de um a estrutura de poder paralela à dos m am bos e baseada na escravaria, num a escravaria que som ente a ele estava obrigada.

Variava o núm ero de escravos que podiam ter um prazo. Nos m aiores, contar-se-iam por centenas, m esm o sem incluir os escravos dom ésticos, ou caporos (akaporo), das fam ílias africanas. Havia casos excepcionalíssim os, com o o de Antônio Lobo da Silva, com entre quatro m il e cinco m il, e o de um outro

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sertanej o, com cerca de 15 m il, quase todos hom ens em arm as.

Alguns senhores de prazos não tiveram m ais do que um a trintena de soldados-escravos, que atuavam com o se fossem polícia. Nem precisavam de m ais, pois as áreas onde ficavam os prazos possuíam em geral população reduzida. Não conheço dados sobre o século XVII, m as, na m etade do seguinte, os sete prazos dos j esuítas dependentes da sua casa de Tete abrigavam pouco m ais de 250

colonos,80 cada um deles com suas várias m ulheres, fam ílias e caporos, o que devia dar m enos de cinco m il pessoas. Outros senhores, porém , aqueles que tinham gosto pelo poder ou controlavam prazos enorm es, com um núm ero incontável de colonos, dispuseram de verdadeiros exércitos de m ercenários ou escravos, enquadrados, vigiados ou, ao m enos, supervisionados por seus filhos m ulatos, os m uzungos (ou m uanam uzungos), ou por indianos de Goa, os

m ocoques.81

Desde que com eçaram , na prim eira m etade do século XVI, a entrar sertão adentro, os portugueses se apoiaram em tropas africanas. Aliadas. Mercenárias. E form adas por escravos. Quando ergueram seus entrepostos fortificados no interior, arrim aram -se em escravos arm ados, nos quais podem os reconhecer os prim eiros daqueles que tom ariam o nom e de chicunda.

É provável que esses exércitos de soldados-escravos j á se dividissem , com o se observaria cem anos m ais tarde, no que podem os cham ar de batalhões sob o com ando direto de um escravo de confiança, o m ocazam bo (m ukazam bo) ou cazem be (kazem be), e que cada batalhão fosse form ado por com panhias ou ensacas, chefiados por um outro escravo, o sachicunda (tsachikunda). Esses soldados-escravos talvez j á vivessem , com o sucederia na m etade do século XVIII, em aldeias próprias, com suas fam ílias. Cada aldeia era dirigida por um sachicunda, com o se fosse um chefe tradicional, e um grupo de vilarej os, que correspondia a um batalhão, tinha por líder um m ocazam bo, e este atuava à m aneira de um fum o.

Os prazeiros colocavam escravos de confiança, os chuangas (ou achuanga), a viver ao lado das aldeias. Para vigiá-las e a seus chefes. Para estarem atentos à m enor suspeita de rebeldia. Para calcularem o m issongo a ser pago. Para garantirem que, de cada elefante abatido, o dente m aior fosse m andado ao prazeiro. Para atuarem , quando necessário, com o j uiz. Com punha-se assim um sistem a de poder lateral ao do m am bo e que com o deste inevitavelm ente

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com petia. Era com o se o território estivesse sob um a tropa de ocupação. E

com o tropa de ocupação os chicundas frequentem ente se com portavam , atuan-do com prepotência, im iscuindo-se em assuntos que eram da alçada das autoridades tradicionais, cobrando dos habitantes do prazo serviços e bens a que não tinham direito, abusando de suas m ulheres, afligindo-os e os aterrorizando. Havia m ocazam bos que, com o incentivo ou o consentim ento do prazeiro, ou à revelia deste, em pregavam os hom ens que tinham sob suas ordens para pilhar as terras vizinhas e escravizar as m ulheres que nelas viviam , atuando com o chefes de bandoleiros e espalhando o m edo.

Esses soldados-escravos e escravos adm inistradores, bem com o aqueles que os am os utilizavam com o m ussam bazes, isto é, com o m ascates e caravaneiros (e que podiam , no com ércio do ouro, do m arfim e da m achira, ausentar-se, em

terras distantes, por m eses e até anos 83), form avam , nos prazos, um grupo especial e privilegiado. Por isso, j á se propôs que não fossem considerados escravos, m as um a espécie de clientes, ligados por toda a vida aos que tinham por senhores. Alguns deles assentavam -se em aldeias e possuíam por sua vez escravos. E não faltava entre eles quem não havia sido aprisionado em guerra, nem adquirido de terceiros pelo sertanej o, m as que se tinha autoescravizado, autovendido, ligando-se ao senhor por um a espécie de contrato de obrigações recíprocas, form alizado por ritos conhecidos e aceitos, ou para fugir da fom e, de perseguições ou da guerra, ou para am parar-se num senhor poderoso, ou até, atraído pela perspectiva dos butins, com o propósito específico de tornar-se um

chicunda. 84 Esse escravo ou “escravo” não discrepava, porém , no estado, no com portam ento e no destino, de outros escravos m ilitares e adm inistradores que a história conheceu, dentro e fora da África. O escravo policial tem , aliás, um a longa história: basta lem brar que a m anutenção da ordem e a proteção da propriedade estiveram confiadas, na Atenas do século IV a.C., a um corpo de escravos citas.

Os chicundas com punham a m aioria dos escravos de um prazeiro. Se assim era na m etade do século XVIII, não há razão para que não fosse cem anos antes, quando m uitos dos prazos ainda estavam a ser conquistados. Em Cheringom a, dos 946 escravos, 761 eram hom ens, e destes, 734 chicundas. Em Gorongoza, havia 895 escravos: 605 hom ens, dos quais 543 chicundas. Os dem ais, do sexo m asculino, eram pescadores, ourives, cozinheiros, m úsicos, ferreiros e tendeiros. As m ulheres distribuíam -se entre am as, cozinheiras, lavadeiras, doceiras, ceram istas e concubinas, m as é provável que m uitas delas tam bém cultivassem hortas e roças e, na época da seca, buscassem ouro, pois em toda a região essas eram tarefas prioritariam ente fem ininas. Já os prazos dos j esuítas em Tete e Marangue, talvez por dependerem m enos da força arm ada, apresentavam um outro quadro: possuíam som ente 52 soldados. Do total de 314 escravos existentes, em 1759, na residência de Tete, 88 eram em pregados na m ineração do ouro, 75 nas roças, 11 com o cozinheiros, sete com o barbeiros, seis com o ourives, seis com o alfaiates, dois com o ferreiros, dois com o pescadores e dois com o m ascates. Nas terras de Marangue, dos 396 escravos, 185 catavam ouro. Havia escravos que construíam e rem avam barcos, e tecelões, e carpinteiros, e

pedreiros. Os soldados eram tam bém caçadores. 85

Os escravos do senhor do prazo viriam a dividir-se em dois grandes grupos: os “da porta”, m abandazis ou “bichos”, que trabalhavam na casa-grande (ou luane) e na quinta que a cercava; e os “fora da porta”, com o os chicundas, os fabricantes de barcos e as garim peiras. Estas últim as, durante a época da seca, reuniam -se em aldeias provisórias, próxim as aos cam pos auríferos. Cada grupo tinha um a chefe, a m ucate, subordinada a um a outra, a m ungaba, que controlava todo o cam po. No resto do ano, elas voltavam aos vilarej os onde residiam com os

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m aridos, provavelm ente soldados-escravos.

Com o de norm a onde houve escravidão, os cativos eram estrangeiros e vinham de longe. Da outra banda do rio — cheuas, m anganj as, m araves, m acuas, lom ués — ou de terras ainda m ais distantes. Trazidos m uitas vezes à noite, para que não pudessem reconhecer os cam inhos e tentar o regresso. Quando aprisionados em guerras locais, escravizados por decisão j udicial ou recebidos com o im posto ou com o com pensação ou m ulta por delitos, eram em geral vendidos — e, de pulsos atados e presos dois a dois por forquilhas de pau ao pescoço, seguiam por terra ou pelo rio para a costa, onde ficavam a servir ou em barcavam nos navios que os levavam para fora da África. Eram os cham ados “escravos de negócio”.

Os filhos e netos dos escravos de um senhor de prazo herdavam o cativeiro. O m esm o não sucedia com os caporos dos colonos africanos. Estes m antinham , contrastando com o sistem a de base europeia dos prazeiros, as regras de escravidão dom éstica a que estavam acostum ados, sobre as quais não dispom os de inform ações da época, m as que possivelm ente não eram m uito distintas das que m ais tarde conheceríam os. Entre tongas, cheuas e tavaras, os filhos dos escravizados j á se integravam , com o pessoas livres, na linhagem do dono, ainda que fazendo parte de um ram o espúrio, que, m esm o com o passar do tem po, não se livrava de ter origem escrava. Ainda que incorporados à fam ília do am o — e há quem sustente que, no caso, não havia propriam ente escravidão, m as um a

form a de dependência que conduzia à paulatina adoção do estrangeiro87 —, os seus descendentes continuavam a ser discrim inados pelos que não possuíam antepassados escravos. Entre os tongas e os cheuas, a absorção podia ser ainda m ais rápida: ficavam autom aticam ente m anum issos a cativa que fosse tom ada com o esposa pelo dono ou um de seus parentes e o varão que se casasse com

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um a m ulher da m atrilinhagem do senhor, em am bos os casos para lhe aum entar a fam ília com pessoas que só deste dependiam e só a ele deviam obediência. O m arido escravo tendia a ser prestativo e obediente; a cativa tornava-se esposa do dono, sem que este tivesse de pagar o preço da noiva; ficava ele, além disso, livre da interferência da m atrilinhagem da m ulher, e os

filhos que dela tivesse só a ele pertenciam . 89 Tam bém entre os senas, o caporo, ao desposar um a pessoa livre, tornava-se autom aticam ente m anum isso, ainda que sua posição dentro da sociedade continuasse dúbia: não era j am ais

considerado um m em bro pleno do grupo. 90

A riqueza, entre os africanos dos prazos ao sul do Zam beze, calculava-se pelo núm ero de m ulheres e de escravos. Os chefes tinham m ais escravos dos que os hom ens com uns. E um destes últim os podia considerar-se rico, se possuísse dez

caporos.91 Em geral não tinha m ais que dois ou três. Um escravo ou “dependente adotado” custava caro. Podia ser obtido, de fora, por com pra, com o tributo, com o butim de guerra ou por sequestro — a região viria a conhecer um a personagem sinistra, o m upanga, que cruzava o Zam beze para roubar as crianças

dos m anganj as92 —, ou no interior do prazo, com o m ulta paga ao chefe, com o penalidade j udicial, com o com pensação à fam ília ofendida por delito grave, com o pagam ento de dívida e, ainda, pela autoalienação do próprio corpo e de um fam iliar próxim o, geralm ente um m enor, em época de fom e causada por seca, nuvem de gafanhotos ou péssim a colheita. Os que eram escravizados dentro das fronteiras dos prazos não eram , está claro, estrangeiros, m as se haviam excluído ou tinham sido excluídos do corpo social. A escravização poderia ser um a form a de reingresso nele, em outra linhagem e em posição hum ilhante e subalterna. A esse novo escravo não era necessário aliená-lo para longe, pois não tinha para onde, nem , nos casos de corpo vendido, por que fugir.

Um escravo, depois de incorporado à casa de um dono, só era, aliás, passado adiante em tem po de crise. Quando o cabeça de um a fam ília não sabia m ais com o m antê-la, vendia, prim eiro, os escravos e, depois, os filhos e netos. Essa relutância a desfazer-se dos caporos deve ter influenciado os prazeiros. Em bora estes considerassem perfeitam ente lícito vender a escravaria — e a vendiam —, não tinham isto por usual. Ao contrário. Muitas vezes, eles assum iam com o escravo o com prom isso de não cedê-lo a outrem . E, ao que parece, as vendas só se davam em casos de extrem a necessidade. Para pagar dívidas, à véspera de bancarrota, ou para satisfazer a herdeiros desinteressados pelo prazo, quando o titular falecia, por exem plo. E será que se vendiam os escravos soldados? Ou só eram eles alienados quando da passagem do prazo a um novo senhor?

Coexistiam , dentro de um prazo, três tipos de escravos, que recebiam tratam ento diferente e tinham distintas vocações: o chicunda, o m abandazi (ao qual se assim ilaria o “fora de porta” que não era soldado) e o caporo. Os “escravos de negócio” não pertenciam ao prazo; estavam nele de passagem , a cam inho do litoral ou de outras terras. Deviam ser poucos, porque, antes de ganhar vulto, j á no fim do século XVIII, a exportação de escravos para as ilhas francesas do Índico e para o Brasil, os prazeiros não tinham por um bom negócio vender os novos escravos que conseguiam , pois rendiam m uito m ais a trabalhar

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nos prazos.

O sistem a escravista português deve ter contagiado o tradicional, e este, condicionado aquele. Infelizm ente, os textos do século XVII pouco espaço abrem para os escravos. Deles apenas sentim os, por trás de algum as frases, a presença silenciosa, m uita vez sob a roupagem do desprezo — não era “bicho” que cham avam a m uitos deles? No entanto, foi graças ao escravo que os portugueses se assentaram na Zam bézia.

Aum entou com eles a dem anda de cativos. Cada português (ou portuguesa, indiano, indiana, m uzungo ou m uzunga) que se firm ava na terra requeria m uito m ais escravos do que estava dantes ao alcance de um cabeça de fam ília africano. E não só “bichos de corredor” (cozinheiros, am as-secas, paj ens, arrum adeiras, barbeiros e servidores de m esa), m as tam bém escravos “fora de porta” (roceiros, cuidadores de anim ais, carregadores de rede, ferreiros e praticantes de todo tipo de ofício, tanto os tradicionais quanto os introduzidos ou m odificados pelos europeus). Com o increm ento do com ércio, cresceu o núm ero dos escravos que cobriam grandes distâncias, levando à cabeça as presas de m arfim e os fardos de m achira, bem com o os dos que transportavam m ercadorias pelos rios. Acim a de tudo, porém , as tropas de chicundas reclam avam incessantem ente novos m em bros.

Os portugueses não alteraram apenas o escravism o zam beziano, m as tam bém , com o era de prever-se, as relações de força em toda a área. Dentro dos prazos, verificava-se um processo de desafricanização das estruturas

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tradicionais, com um exército perm anente de chicundas a pesar sobre o povo,

com o governo paralelo dos chuangas e com o prazeiro assum indo cada vez m ais, na adm inistração da j ustiça, na distribuição das terras e até m esm o na confirm ação ou indicação de fum os e de chefes de aldeia, prerrogativas que eram do m am bo. Além disso, cada prazo constituía-se num centro de poder que se queria independente. E não só do rei africano que havia feito a doação e do soberano português que havia passado o docum ento de enfiteuse, m as tam bém dos outros prazos. A regra era, aliás, que entre si estivessem em conflito.

Os prazos form aram enclaves exóticos nas estruturas de poder africano. E as abalaram . Os prazeiros com petiam com os chefes tradicionais. Tornaram -se verdadeiros tiranetes. Com o um certo Manuel Pais de Pinho, senhor de Lupata, que, no dizer de um contem porâneo, era “m ui grandioso no dar e m ui guerreiro e

ainda cruel no castigar”. 95 Com seus chicundas arm ados de espingardas, os portugueses ora acorriam em favor de um rei contra um chefe rebelde, ora a este apoiavam para que rom pesse a vassalagem com aquele. A violência não m ais necessitava da aprovação do sagrado. O sim ples sinal de que podia haver ouro num a terra desatava a cupidez do sertanej o, que procurava acrescentá-la à que j á tinha, subj ugando o seu chefe tradicional ou o banindo. Nos anos de m á colheita, os chicundas caíam sobre as searas alheias, m atando e pilhando. Rom peu-se assim a segurança que dantes reinara na região, quando os m ercadores viaj avam longas distâncias sem perigo de serem assaltados, e que tanto fora louvada nos prim eiros textos portugueses.

O m onom otapa não só vira encolher os seus dom ínios e esgarçar-se a sua área de influência, com o passara, para governar, a depender do apoio dos portugueses, que não só lhe coibiam a liberdade de ação, m as tam bém lhe vigiavam os passos. Para isso, contavam com a guarda estacionada dentro do

zim baué e com o padre dom inicano que era o secretário obrigatório do rei. 96 Em 1655, os prazeiros não hesitaram em levantar-se em arm as contra o sucessor e filho de Mavura, Siti Kazurukam usapa, Motota ou D. Dom ingos, e, segundo um a

fonte, o queim aram vivo.97

O m onom otapa seguinte seria um irm ão de Mavura, tam bém católico, levado ao poder pelos dom inicanos e por um grupo de sertanej os. Seu nom e de batism o era Afonso. Ao que parece, ele sem pre se sentiu inseguro no m ando, am eaçado pelas pretensões de um sobrinho. Mas seria um a facção de prazeiros que,

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rebelada, causaria sua ruína e m orte, possivelm ente em 1663. Quando as suas

tropas defrontaram as dos insurretos, o m edo tom ou conta de seus súditos, que o

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m ataram , antes de se renderem . O regicídio, “sem precedente” entre os

xonas, 100 indicaria o quanto estavam desm oralizadas as instituições do reino do Monom otapa. Por esse descrédito eram responsáveis não só os exércitos cada vez m ais poderosos dos prazeiros, que não cessavam de interferir na política do reino, m as tam bém a conversão dos m onom otapas ao catolicism o, o que os alienava dos súditos. Estes esperavam do rei que dialogasse com os espíritos de seus antecessores e cum prisse rigorosam ente os ritos religiosos tradicionais.

O substituto de Siti foi um filho de Mavura, talvez o m esm o que lhe havia disputado o poder. Nas tradições xonas, Kam harapasu Mukom bwe. Este Mucom bué foi tido, desde cedo, pelos portugueses — que o respeitaram , porque

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o tem eram — com o um j ovem astuto e hábil e, m ais tarde, com o “o m ais

inteligente e capaz de todos os príncipes que j á haviam subido ao trono”. 102 Durante todo o seu reinado, que durou possivelm ente até 1692, ele procurou podar, com paciência e cautela, o poder dos sertanej os e restaurar o prestígio do Estado. E de calm a, precaução e argúcia devia estar constantem ente arm ado, pois tinha com o interlocutor m ais próxim o o m ais poderoso dos sertanej os, o capitão-m or Antônio Lobo da Silva.

Num determ inado m om ento, Mucom bué com prazia os portugueses; noutro, criava-lhes em baraços. Aqui, contem porizava; ali, im iscuía-se nas disputas entre prazeiros rivais e procurava tirar proveito delas; acolá, instigava revoltas contra os sertanej os ou as apoiava. Em 1667, por exem plo, favoreceu um a rebelião dos tongas, que ressentiam terem sido transform ados pelos portugueses de vassalos em servos, e em 1682, voltou a encoraj á-los a erguerem -se em arm as.

Ao contrário de Mavura e de Siti, Mucom bué parece ter gozado da confiança da aristocracia caranga, após ter esta desertado, ao que parece, a causa de Capararidze e de sua estirpe, que desaparecem da história. Aos portugueses, Mucom bué dizia-se católico. Tudo indica, no entanto, que só era cristão na aparência, tendo retornado às crenças tradicionais, pois cum pria rigorosam ente

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as obrigações que elas lhe im punham com o pessoa e, sobretudo, com o rei. O

apoio dos seus súditos perm itiu-lhe fincar o pé frente aos estrangeiros. E com tam anha firm eza que, pelo m enos num a ocasião, em 1673, entrou em conflito arm ado contra os portugueses, ao m esm o tem po que solicitava ao chicanga de Manica que atuasse m ilitarm ente ao seu lado.

Cinco anos m ais tarde, Mucom bué recusou-se a se reconhecer vassalo do rei

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de Portugal. E em 1679 j á se dirigia aos portugueses “com o o rei

m onom otapa, senhor do Mocaranga, de Mongaz, de Barué, de Chicanga, de

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Inhaxaco, de Xangoé etc.” — com o orgulho que os m onom otapas tinham

perdido com Mavura. Pouco m ais de um a década depois, e Mucom bué devolveria a capital, do vale do Zam beze, onde estava desde Gatsi Rusere, às

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terras frescas e férteis do planalto do Mocaranga.

Várias circunstâncias aj udaram Mucom bué. Prim eiro, um a grande epidem ia de varíola, que, em bora tivesse arrasado aldeias inteiras de africanos, se som ou às sezões e às disenterias, para m atar e afugentar os brancos. E de tal form a, que, ao com eçar a penúltim a década do século, só havia 50 portugueses nos Rios de

Sena,107 e as filhas dos prazeiros viram -se, na falta de reinóis, obrigadas a casar-se com indianos e m ulatos.

Não só as bexigas expulsaram os portugueses. O com ércio do ouro declinara. Tinha-se esgaravatado a terra com ferocidade. Com os m eios de que dispunham , quase não havia m ais ouro por explorar no interior dos prazos. E os africanos escondiam as novas m inas, com m edo de que os sertanej os lhes tom assem à força as terras onde ficavam . Porque era assim que os portugueses tinham passado a atuar: ocupavam a área com seus chicundas e, depois, exigiam do rei

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que as doasse. Em 1683, o m onom otapa m andou fechar as m inas; ou, ao

m enos, tentou fechá-las.109 E, com o abandono, por m orte ou fuga, de m uitas terras que haviam sido cedidas aos portugueses ou por estes tom adas, com eçou a devolvê-las aos m am bos tongas ou as entregar à aristocracia caranga.

O terceiro fator que favoreceu Mucom bué foram os ataques om anis aos estabelecim entos portugueses na costa, pois tornaram im pensável que se desviassem para o Zam beze os recursos j á tão escassos e que im ploravam

Mom baça, Melinde, Faza, Zanzibar e a própria ilha de Moçam bique. 110

Estava, portanto, Mucom bué a sentir-se m ais côm odo no poder, quando com eçou a ouvir que saía da som bra e do silêncio de quase 14 décadas um a personagem antiga, que tanto assom brara os m onom otapas. Refiro-m e ao

changam ira.111 Desde a derrota de 1547, os changam iras haviam -se ocultado da história. Mas devem ter sobrevivido com o título ou estirpe — com o um chefe m enor xona — em algum a parte do planalto. Em terras do sudoeste, na direção de Butua. Ou a nordeste, entre os rios Mazoé e Ny adiri, num a área m ais próxim a

a Manica do que ao Mocaranga. 112 Reaparece com o surgira da prim eira vez: com o pastor de vacas. Talvez a tradição antiga se tenha entranhado nos relatos m ais recentes. Talvez o título changam ira estivesse ligado ao cuidar dos rebanhos do m onom otapa. E talvez se estivesse apenas reafirm ando que sem a posse de gado bovino não se conquistavam obediências nem se construía poder nos pastos do altiplano.

Os portugueses não guardaram o nom e desse changam ira que, aí pelos anos 1570, com eçou a levantar-se da obscuridade. Em algum as tradições xonas, ele se cham a Dom bolakonachingwango (ou Dom bo); em outras, Chikurawady em bewu

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(ou Chikura). Diz-se que recebera do m onom otapa um a grande extensão de

terras, m as o m ais provável é que as tenha ocupado prim eiro e, só depois, requerido o beneplácito do rei. Era, então, um senhor da guerra com o tantos outros xonas e com o os prazeiros. Um senhor da guerra que soube, entretanto, usar sua riqueza em bois e sua fam a de grande feiticeiro, para atrair seguidores e

criar um estado. 114

Enquanto o changam ira consolidava o seu poder frente a um m ono-m otapa inquieto, os portugueses voltaram a interessar-se pela Zam bézia, novam ente encandeados pela suposta prata de Chicoa, da qual se tornara a falar com insistência. Os reinóis continuavam , porém , a ser poucos, pouquíssim os. Apenas três, ao que consta, em Dam barare, ao com eçar a penúltim a década do século XVII. A conquista ia sendo ocupada, na falta de portugueses da Europa, por brancos locais e de Goa, m as sobretudo por indianos aportuguesados e por m ulatos. Quando o novo governador de Moçam bique e dos Rios de Sena chegou da Índia, trouxe consigo 40 soldados e 50 goeses, oito dos quais acom panhados de

m ulher.115 Com eles reforçavam -se os canarins, que j á se viam , ainda que em pequenos núm eros, por toda a parte e a se assenhorearem de m uito do com ércio.

Portugueses e aportuguesados voltaram a cam inhar para o sudoeste. Em busca das terras da “Mãe do Ouro”, onde se sabia que Dias Baião havia estado com suas arm as. Sabia-se tam bém que, uns dez anos depois dele, um certo Gonçalo João erguera um forte em Maram uca, na fronteira da Butua, m as fora

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obrigado a abandoná-lo, por causa da hostilidade de outros sertanej os.

Consta que, para garantir o fluxo e a tranquilidade do com ércio com os territórios a oeste e a sudoeste, os portugueses de Manica com eçaram a m andar os presentes de praxe ao changam ira, que este recebia com o se fosse tributo. Passado pouco tem po, com eçaram , porém , a m ostrar-se relapsos. Dom bo m andou um enviado aos europeus, num a de suas feiras, a cobrar-lhes o im posto. Com o resposta, os sertanej os m andaram açoitá-lo. Um segundo em issário do changam ira teve ainda pior recebim ento: além de espancado, voltou de orelhas

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cortadas. A guerra tornou-se inevitável.

O governador Caetano de Melo e Castro reuniu todas as tropas que pôde e avançou pelo território do reino de Maungué. Ali, topou o exército do changam ira. A luta durou todo um dia, sem vencedor definido, apesar das enorm es baixas dos africanos. Durante a noite, as m ulheres xonas envolveram o acam pam ento de Melo e Castro com achas de lenha e lhes puseram fogo. Diante do incêndio, os soldados negros que acom panhavam os portugueses fugiram em

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disparada. E o governador teve de am argar a derrota. Isto deu-se em 1684.

Dom bo não perseguiu os inim igos em retirada. Ao que parece, porque soube que Mucom bué estava dispondo tropas na área do m édio rio Mazoé, que confinava com território que tinha por seu. O changam ira atacou-as, e estas,

vencidas, teriam deixado m ais de cinco m il m ortos no terreno. 119 O que não se

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sabe é se os seguidores de Dom bo j á então eram conhecidos com o rózuis ou

“destruidores”, nem se o changam ira j á era o senhor da Butua.

Butua ou Gurusuua era um reino do altiplano, a sudoeste do Monom otapa, conhecido tam bém por Tórua, nom e da dinastia xona que nele m andava. Sua capital fora Kham i, fam osa pelos am uralhados de pedra, herdeiros do Grande Zim babué. Quando o changam ira se apossou do reino, a sua sede j á devia estar, contudo, em Danangom be, depois cham ada Dlo-Dlo ou Dhlodhlo. Os portugueses viam Butua com o a “Mãe do Ouro”, m as as riquezas que Dom bo nela am bicionou devem ter sido as suas m anadas de gado bovino e as suas terras de capim alto, que contrastavam com o nordeste do platô e as suas fraldas, em pobrecidos pelo desgaste da presença portuguesa, pela varíola e pelas

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guerras.

Os textos portugueses nos indicam que os Tóruas ainda eram senhores de Butua em 1683. Dois anos m ais tarde, o poder j á passara para o changam ira. Ao m ais tardar, em 1686, a conquista estaria com pleta — afiança David N. Beach. Deve ter sido rápida, quase sem enfrentar resistência. Os invasores, que eram carangas, não tardaram a unir-se por m atrim ônio aos locais e a adotar o dialeto calanga do xixona falado pela gente da terra. Esta, por sua vez, passou a

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identificar-se com o rózui.

Em 1692, m orria Mucom bué. Os principais com petidores para sucedê-lo foram um irm ão, Ny akunem bire, e um filho, Ny am aende Mhande, ou Pedro Mhande. Os portugueses, em bora preferissem o últim o, não puseram todo o peso em seu favor e assistiram , não sem desgosto, à subida de Ny akunem bire ao poder. Pedro e seu irm ão, Manuel Chirim be, exilaram -se em Manica, onde não cessaram um só m om ento de conspirar contra o novo m onom otapa.

Ny akunem bire, possivelm ente suspeitoso de que os prazeiros estivessem a m aquinar com Mhande a sua derrocada, ou por sentir-se inseguro com o renovar da pressão portuguesa, pediu socorro ao changam ira. O chefe rózui, a quem tam bém deviam incom odar os avanços dos sertanej os, não se fez de rogado. Em novem bro de 1693, atacou de surpresa a feira de Dam barare, trucidando os 60 brancos, canarins e m ulatos que lá se encontravam . Os rózuis arrasaram a igrej a, esfolaram alguns portugueses, entre os quais dois padres dom inicanos, e passaram a exibir as suas peles, com o troféus, à frente das tropas. Diz-se que tam bém desenterraram os m ortos, para com seus restos fazer um feitiço que

tornaria os rózuis invencíveis.123 Um outro contingente pôs fogo em Massapa, abandonada pelos portugueses, tão pronto souberam do m assacre de Dam barare. De toda parte, os sertanej os fugiram para Tete, onde ficaram à espera de um ataque que não houve. O m edo esvaziou as feiras, exceto as de Manica. Dois anos m ais tarde, estas seriam , por sua vez, invadidas pelos rózuis, que levaram os portugueses sobreviventes para a Butua, onde o changam ira os pôs a trabalhar na conservação de seu palácio. Todos os esforços feitos pelo capitão de Sena para resgatá-los foram baldados: em vez deles, o senhor dos rózuis m andou-lhe dois

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potes cheios de ouro. O capitão tinha de dar-se por contente, pois, apesar dos

rum ores de que o changam ira pretendia estender os braços até Sena e Sofala, onde se tinham refugiado os sertanej os, não as atacou. Se tinha essa intenção, faleceu antes de realizá-la. E, com sua m orte, desatou-se entre os seus a luta pela sucessão.

A aliança entre Dom bo e Ny akunem bire durara pouco. Após destruir Dam barare e queim ar Massapa, as tropas rózuis retiraram -se, não deixando, ao

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que consta, m ais do que oito soldados com o m onom otapa. Este não conseguiu fazer face aos partidários de Pedro Mhande e Manuel Chirim be, que, em 1693, voltaram de Manica, apoiados pelos prazeiros. Derrotado em com bate, Ny akunem bire refugiou-se com o changam ira, enquanto Mhande se tornava m onom otapa.

A vitória de Pedro Mhande não trouxe os sertanej os de volta às feiras do altiplano. Um ou outro continuou a ir, de vez em quando, m ascatear no planalto, m as os portugueses com o grupo optaram pelas terras baixas do vale do Zam beze. É possível que Pedro Mhande, apesar do apoio recebido, não favorecesse o regresso dos europeus ao seu zim babué. Tam bém os afastavam do planalto a propalada sanha dos rózuis e a sucessão de guerras civis no Monom otapa.

Manuel Chirim be sucedeu a seu irm ão em 1698. Não sem ser contestado por várias outras facções, que praticam ente não abandonaram as pretensões e as arm as até 1711. Um as apoiavam -se nos portugueses; outras no changam ira. E foram -se m udando os m onom otapas, ao sabor de vitórias que não se m ostravam duradouras.

Contra Chirim be, os portugueses tinham um candidato: um filho de Mhande, Mapeze ou Mapeza. Batizado com o nom e de Constantino, esse príncipe, após perder a partida, foi m andado, na com panhia de um seu irm ão, João, para Goa, onde am bos se ordenaram . Não eram os prim eiros filhos de m onom otapas a se fazerem sacerdotes católicos. Um herdeiro de Capararidze, D. Miguel, cum prira

o m esm o percurso e chegara a receber, em 1670, um m estrado em teologia. 126 Mas nenhum dos três exerceu o m inistério na terra natal: rezaram suas m issas em Goa, sendo que Constantino viveu por algum tem po em Macau. Outros xonas, porém , o fizeram . Com o o dom inicano Dam ião do Espírito Santo e o padre Luís

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do Espírito Santo, este últim o, talvez de sangue real. Uns e outros eram

exceção e trabalharam m ais com os portugueses, os goeses e seus filhos m ulatos do que com a gente da terra. Não tem os sinais de um a ação m issionária intensa ou constante na Zam bézia do século XVII. Batizavam -se centenas de pessoas, m as estas provavelm ente não se faziam cristãs. Nem tam pouco quase todos os reis e suas fam ílias, que recebiam o sacram ento apenas para satisfazer aos portugueses. A atividade dos dom inicanos e dos j esuítas dirigia-se prioritariam ente aos portugueses e aportuguesados de Sena, de Tete, das dem ais feiras e dos prazos. Até m esm o nos latifúndios dos padres, era pequeno o núm ero dos convertidos.

As escavações efetuadas por Peter S. Garlake na igrej a de Dam barare e no cam po-santo ao lado m ostraram que devia ser dim inuta a com unidade cristã que vivia na m ais afam ada de todas as feiras: alguns hom ens brancos e suas m ulheres negras ou m estiças. Um a senhora africana usava ao pescoço um a m edalhinha de bronze da Virgem . A outras pertenceriam talvez as duas outras m edalhas que de lá se desencavaram : um a de Santa Isabel e um a de Santo

Antônio com o Menino Jesus. 128 Para um a presença de quase um século e m eio, era quase nada. Os portugueses não haviam logrado difundir a fé cristã, nem povoar com sua gente, com o tantas vezes planej aram , a Zam bézia. Do esforço em preendido, ficavam , contudo, os prazos, ainda que em avançado estágio de africanização.