A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 4 de 30 · parte 2/2

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A Manilha e o Libambo

2. Nas terras do Islame

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

escravas havia m uitas —, alcançava o alto preço de 472g de ouro ou até m ais. 70

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No século XI, os azenegues, unificados pelo m ovim ento alm orávida, expandiram -se para fora do deserto. Arm ados de um sunism o m aliquita severo, rigoroso, intransigente e m ilitante, os berberes em buçados derrotaram m ilitarm ente os zanatas, que controlavam os portos caravaneiros da franj a setentrional do Saara, ocuparam o Marrocos, conquistaram Sij ilm essa, voltaram a subm eter Audagoste (que haviam perdido para os ibaditas), tom aram seus vários outros entrepostos do Sael, ocuparam e reunificaram a Espanha m uçulm ana e acabaram por construir um im pério, do Ebro ao Sael, que teve com o um a de suas m olas o ouro do Sudão.

Sob os alm orávidas, aum entaram a frequência e o tam anho das caravanas. Novos roteiros som aram -se aos antigos e se fizeram preferidos. Ia-se direto de Gana à serra Bafor, de onde se continuava até o Dara, com a escala principal em Azogui. Ou se calcava, durante dois m eses, um cam inho em linha reta de Gana a Sij ilm essa, atravessando desertos absolutos, com até quatorze dias de m archa sem um só poço d’água. Dessas novas rotas, a de m aior fortuna teria sido a que passava por Tagaza, onde se trocavam m ercadorias trazidas do Magrebe pelo sal que se ia vender ao Sudão. E não só se expandiu o com ércio do ouro, m as tam bém o do escravo para a África do Norte.

De escravos negros iriam povoar-se os canaviais e as plantações de algodão

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do Suz e dos arredores de Ceuta e Marraquexe. Escravas negras com punham os haréns e faziam os serviços dom ésticos nos palácios e grandes casas do Magrebe e da Espanha. E escravos negros com batiam nos exércitos do alm orávida Yusufe ibn Tashfin.

Enquanto os alm orávidas em preendiam a guerra santa no Marrocos e no Saara Ocidental, outros guerreiros nôm ades, vindos dos desertos do sul do Egito, os beduínos de Banu Hilal e Banu Sulay m , derram avam -se pela Líbia, com seus rebanhos. Não só reduziriam eles a quase nada o poder ziríada, m as tam bém desm ontariam boa parte da rede m ercantil ibadita. Não desceram , porém , no m apa até o Fezzan, que continuou a vender escravos ao Egito, por um roteiro que ligava Zawila ao Cairo, passando por Awdj ila. Os ibaditas só viriam a perder a suprem acia no Fezzan depois que o escravo de um irm ão de Saladino, cham ado Caracuxe (ou Qaraqush), invadiu a área, em 1174, e derrocou a dinastia de Banu Khittab.

Durante todos esses séculos, em pouco se alteraram , e em geral para pior, as relações entre os senhores, os escravos negros e as sociedades para as quais eram levados. Mudaram as norm as de alguns de seus ofícios e certos instrum entos com que trabalhavam . A m aioria das situações continuou, entretanto, a m esm a. Os anos, as décadas e os séculos não m odificavam o ritm o, a frequência e o m odo de rachar lenha, de buscar água, de ceifar m ilhete, de colher azeitonas, de lavar cavalos e lim par cocheiras, de abrir canais, de rem ar barcos, de cortar sal-gem a e cavar nas m inas, para não sair de alguns exem plos.

O escravo vinha cada vez de m ais longe, pois o processo de transferência do ônus da captura reproduzia-se, em sequência, de grupo em grupo: para deixar de ser vítim a, passava-se, prim eiro, a pagar ao predador um tributo em cativos e, depois, a vender-lhe aqueles que, por seu turno, se preavam aos vizinhos. De baraço ao pescoço, os escravos iam , na m aioria das vezes, m udando de dono, ao longo da viagem , e não raro esta durava m eses e até anos, pois podiam ficar a trabalhar pelo cam inho. No porto do Sael, eram , para usar a palavra j usta, estabulados, à espera das caravanas, um a espera que podia ser longa, pois parece que apenas um a, com o regra, saía por ano de cada centro com ercial do sul do Magrebe.

Após a chegada, um a caravana dem orava m eses a aparelhar-se. Muitos eram os m ercadores, e cada um deles necessitava de tem po para concluir os seus negócios, j untar a m ercadoria e dispor-se a partir. Certa m adrugada, tudo aj ustado, saía a cáfila. Com m enos cam elos do que viera, porque a carga que conduziam para o Magrebe ou o Egito era m enor em volum e. O ouro, por natureza, ocupava pouco espaço. E os escravos cam inhavam a pé, ao lado dos drom edários. Estes levavam água e m antim entos para os m ercadores, os cam eleiros e os cativos. E o que tinham obtido no Bilad al-Sudan: alúm en, gom as, cera, m adeiras, couros, peles, plum as de avestruz. Al-Sharishi, um escritor árabe falecido em 1222, afirm a que um com erciante que levasse trinta cam elos de Sij ilm essa a Gana, retornaria com apenas três ou dois. Num levaria água e no outro iria m ontado. A m ercadoria que trouxera em três dezenas de drom edários

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transform ara-se, por troca, em algo que cabia num saco de viagem .

Aos escravos, a travessia do deserto, que durava entre dois e três m eses,74 pareceria interm inável. Exaustiva. Duríssim a. Mais que sofrida, dolorosa. De com o seria, só ficaram alguns poucos relatos coxos. Mas im agino que os escravos, am arrados uns aos outros por um a corda ao pescoço, iriam a pé, provavelm ente descalços, de sandálias ou com os pés protegidos por esteiras ou enrolados em panos, a m archar sobre a areia e as pedras quentes, a nudez interrom pida por um a tanga dim inuta, a cabeça talvez coberta por chapéu ou gorro. Se faltava água, eles seriam os prim eiros a deixar de beber. E o sonho da fuga, que, nas terras ao sul do deserto, sem pre acalentaram , transform ava-se em pesadelo. Escapar da cáfila equivalia à m orte.

Penso que boa parte dos donos procurava, durante a travessia, proteger a sua propriedade e abrandar, em consequência, o sofrim ento dos escravos. Há um testem unho disso — isolado, é certo. Um m ercador ibadita de Wargla queixava-se, no século XI, do m au negócio que era traficar com escravos. Estes o consum iam , antes, durante e após a viagem , de trabalho e preocupação. Um a escrava em agrecera dem ais. Outra adoecera. Aquele fugira. Este estava atacado de verm e-da-guiné. E, quando acam pavam , o m ercador não tinha repouso, a

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cuidar de uns e outros. Eram naturais esses cuidados. Afinal, o escravo, além

de ser obtido do outro lado do Saara, após m uitas dificuldades e repetidos perigos, era um investim ento arriscado, porque podia fugir ou m orrer a qualquer m om ento e deixar o investidor de m ãos abanando. E os escravos m orriam em grande núm ero. No Sael, à espera da partida das caravanas. Durante o traj eto no deserto, de sede, fom e, cansaço, insolação, desidratação, doenças que j á traziam dentro de si ou acabavam por contrair.

Há quem j ulgue que não eram m uito elevadas, nos séculos IX e X, as

m argens de lucro do com ércio negreiro. 76 Tenho m inhas dúvidas. Sabem os que, num determ inado m om ento, um escravo custava, nos m ercados do Magrebe, entre 30 e 60 dinares — ou sej a, entre 141 e 283g de ouro. No Egito, um a

rapariga negra valia uns 40 dinares, e um eunuco, m ais de 65. 77 Creio que esses preços deviam ser bons e dar um excelente ou, ao m enos, um bom ganho, pois, caso contrário, ninguém enfrentaria tantas canseiras e riscos para ir buscar e trazer escravos. Ainda que houvesse m ercadores dispostos a incluí-los nas caravanas, com o um item a m ais, desde que por eles pudessem obter m ais do

que custava m antê-los durante a travessia do deserto. 78

Ralph A. Austen calculou em um m ilhão, 740 m il os escravos negros que chegaram ao m undo islâm ico pelas rotas transaarianas, entre 650 e 1100. E estim ou em três m il a m édia anual, no século IX, e em 8.700, nos séculos X e

XI.79 Estam os diante de núm eros hipotéticos ou, quando m uito, de aproxim ações, a partir de dados escassos e im perfeitos. Talvez tenha sido m ais. Talvez tenha sido m enos. De cada porto transaariano — e j á se propôs que

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fossem , no Sudão, som ente m eia dúzia — sairia, em condições norm ais,

apenas um a grande caravana por ano.

Quantos escravos, nos séculos IX a XI, a com poriam ? Não sabem os. Algum as ou m uitas centenas. Em 1353, Ibn Batuta j untou-se a um a caravana de

Takedda para o norte, com cerca de 600 escravas. 81 O núm ero talvez fosse fora do com um , do contrário não teria m erecido a anotação do grande viaj ante. O que ele não diz é quantos escravos hom ens, se é que os havia, com pletavam a carga. Os m ercados m aom etanos tinham preferência por m ulheres — para os serralhos e para os trabalhos dom ésticos e agrícolas —, m as os hom ens, sobretudo os castrados e os m eninos e rapazolas para serem treinados no ofício das arm as, não deixariam de figurar nas cáfilas. Se os hom ens não tivessem certa expressão num érica em cada caravana, com o explicar os regim entos inteiros de soldados negros m antidos pelos Aglábidas, Tulunidas, Fatím idas e Ziríadas? E de onde vinham os m agotes de eunucos negros nas cortes dos soberanos árabes e nos haréns dos potentados? Só a corte do califa abássida, em Bagdá, tinha, no com eço do século X, sete m il castrados negros, além de quatro

m il brancos.82

Os antigos autores árabes passam por cim a do tráfico negreiro transaariano e da com pra e venda de escravos nos m ercados, por serem coisas tão corriqueiras e tão naturais, que não lhes m ereciam cuidado. A instituição da escravatura só aparece nos escritos dos geógrafos, historiadores, viaj antes e cronistas islâm icos com o um a espécie de vinheta, para ressaltar a im propriedade de certos processos de redução ao cativeiro, descrever alguns usos pouco com uns dados aos escravos, enum erar distinções de aptidão entre eles e destacar um a especial qualidade que este ou aquele pessoalm ente tinha. Em com pensação, desde cedo m anifestou-se o interesse em transm itir conhecim entos sobre com o conseguir m elhores resultados com os escravos. Bernard Lewis lem bra que, j á no século X, se produziam textos com conselhos práticos sobre com o avaliar, na hora da com pra, o estado de saúde, a resistência e o tem peram ento do cativo. E m enciona um m édico cristão de Bagdá, Ibn Butlan, autor de um a espécie de vade m ecum do m ercador de escravos. Para guardas, ele recom endava os núbios e os indianos; para eunucos, dom ésticos e os serviços brutos, os zanj es ou negros; para soldados, os turcos e os eslavos. Das m ulheres zanj es, diz que não serviam para a cam a, porém davam boas dançarinas e aguentavam os trabalhos

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m ais pesados.

Via-se gente das m ais variadas origens nos m ercados de escravos do m undo m uçulm ano. Havia um deles em cada cidade de algum a im portância. A escravaria perm eava a vida urbana e a rural. Escravos podiam ser vários dos m ais im portantes funcionários do estado, até m esm o o próprio vizir. E escravos recolhiam os dej etos das casas. Nas m oradas dos poderosos e dos ricos, os escravos estavam em toda parte, desde o harém , com as concubinas, as serviçais, as am as de leite e os eunucos, até a entrada, com o porteiro. Assim com o se adquiriam rapazes, com o obj etivo de treiná-los para os exércitos, e eunucos, para instruí-los nas tarefas de adm inistração do palácio e do estado, com pravam -se m oças, para ensiná-las a tocar instrum entos de m úsica, a cantar e a dançar. Nas ruas, os escravos m isturavam -se, nas m ais diferentes tarefas, aos hom ens livres e aos libertos. Estes contavam -se em grande núm ero, pois era com um a alforria, concedida com o um gesto de louvor a Deus, um pedido de graça ou de perdão.

A escrava que dava um filho ao senhor e era, por isso, alforriada, a ele se ligava pelo concubinato. Tanto esse filho quanto o de um a escrava com um hom em livre não acom panhavam a condição m aterna, e a m em ória desta apagava-se logo ou no correr de um a ou duas gerações. Os libertos hom ens tinham , tam bém eles, de pertencer a um a fam ília e a um a tribo. Não podiam de form a algum a ficar sem laços no conj unto da sociedade. Com o escravos, a ela não pertenciam . Libertos, eram constrangidos a se vincularem aos ex-senhores, com o clientes (ou m awlas). E continuavam a trabalhar para eles, a prestar-lhes obediência e a sofrer, de m odo m itigado ou não, os preconceitos que cercavam o escravo e contribuíam para dom á-lo e controlá-lo. Os seus descendentes não se desvinculavam dos filhos e netos de seus ex-senhores. E, com o em todas ou quase todas as sociedades em que houve escravidão, o estigm a de desonra persistia no liberto e, por várias gerações, em seus descendentes.

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Com o acentua Orlando Patterson, a alforria não era o fim da m arginalização social (e, acrescento, de hum ilhação pessoal). Sendo o térm ino de um a fase, era o com eço de outra, na qual o ex-escravo e seus descendentes continuavam na borda da com unidade, m as num processo, que podia durar várias gerações, de integração social e de desalienação pessoal. Enquanto isso durava, o liberto, seus filhos, netos e bisnetos continuavam m anchados pela escravidão, a eles aplicando-se geralm ente os estereótipos — de feiura, suj eira, preguiça, deslealdade, estupidez, covardia — em pregados para inferiorizar o escravo. A persistência da nódoa ignom iniosa tornava-se m ais visível quando o ex-escravo pertencia a um grupo de aparência física distinta da predom inante entre os senhores. Com o o franco de cabelos louros e olhos azuis. Ou com o o africano de pele escura e cabelo encarapinhado.

A essas características físicas passara-se a ligar a condição servil. Aqueles que as possuíam , além de escravizáveis por infiéis, pagãos ou idólatras, eram tidos com o escravos por natureza — o conceito estava carregado do prestígio de Aristóteles — e só escravizados podiam ingressar na esfera da civilização. Para essa gente, a m elhor e m ais vantaj osa de todas as condições era, aliás, esta: a de escravos — com o argum entou um filósofo árabe do século X, Al-Farabi. Pouco depois, o grande Avicena, ao declarar ser da boa ordem das coisas haver senhores e escravos, aduziria ter o Todo-Poderoso colocado nas regiões de grandes frios e de grande calor povos incapazes de altos feitos e destinados

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naturalm ente à escravidão, com o os turcos e os negros.

A estranheza, a desconfiança, o tem or, o desconforto e a arrogância diante do outro, do estrangeiro, do pagão, do idólatra, do hom em de pele alva qual um leproso e de olhos azuis com o um cego, ou de pele escura, nariz chato e cabelo encarapinhado, foram -se acentuando em estereótipos negativos. De início, não se distinguia entre os bárbaros, entre os oriundos do Reno, da Grécia, da Itália, do Cáucaso, da Ásia Central ou do Sudão. Pouco a pouco, porém , foi-se estabelecendo um a hierarquia, um a escala de valores entre os incréus e os escravos. E desceu-se o negro para o patam ar m ais baixo.

Um século após Maom é, os árabes pareciam não m ais se lem brar de que o etíope vinha de Axum , o reino que por tantas vezes dom inara o sul da Arábia, e de que era o m esm o abexim tem ido m ilitarm ente e adm irado por sua cultura. Se o punham , num a gradação entre negros, acim a dos dem ais, não o excluíam do retrato que de todos desenhavam e que consta de um texto escrito, em 902, por um iraquiano, Ibn al-Fakih al-Ham adani, no qual eles aparecem com o fedorentos, de m em bros tortos, com inteligência deficiente e paixões depravadas. Pela m esm a época, Al-Masudi recorria a Galeno, o m estre grego da m edicina, para se fortalecer na ideia de que o negro possuía cérebro defeituoso, daí derivando a debilidade de sua inteligência. Um tratado persa, escrito em 982, ia m ais longe: os negros não se afinavam com os padrões hum anos, e os piores deles, os zanj es, possuíam a natureza dos anim ais selvagens.

O processo de desum anização do negro j á andara um bom cam inho. Tanto assim que, no século XI, Said al-Andalusi escreveria, em Toledo, que os pretos careciam de autocontrole e de firm eza de m ente, eram facilm ente dom inados pelos caprichos, pela tolice e pela ignorância, e se assem elhavam m ais aos bichos do que aos hom ens. Duzentos anos m ais tarde, o persa Nasir al-Din dava m ais um passo. Para ele, o zanj e só se distinguia dos anim ais por não andar com as m ãos no solo. E acrescentava, sem ênfase: m uitos j á observaram que os m acacos aprendem com m ais facilidade e são m ais inteligentes do que os

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zanj es. No século XIV, Al-Dim ashki descreveria os negros com o curtos de

inteligência, por terem os cérebros ressequidos, acrescentando que as características m orais da m entalidade deles se aproxim ava das características

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instintivas encontradas naturalm ente nos anim ais. Só nos falta arrem atar o

quadro com o m aior dos historiadores m uçulm anos, Ibn Kaldum . Ditou ele que as nações negras, com o regra, aceitavam m ais facilm ente a escravidão, porque os negros de hum ano tinham pouco, sendo m ais sem elhantes às bestas

irracionais. 88

Esse processo ideológico de afastam ento do negro da espécie hum ana — tão bem descrito por Bernard Lewis em seu livro sobre as relações entre raça e

escravidão no Oriente Médio 89 — acom panhou a m ultiplicação, a partir do século X, dos escravos provenientes da África subsaariana. Foram sendo eles, até por m ais baratos do que os turcos e os eslavos, encam inhados aos trabalhos m enos qualificados, m ais penosos e m ais degradantes — nas m inas, nas plantações, nas pedreiras. Os senhores fizeram deles rem adores de barco, j ardineiros, porteiros, carregadores e serviçais dom ésticos.

Excetuadas as etíopes, tão louvadas pela suavidade e frescor da pele, as núbias, que Al-Idrisi punha acim a de todas, pela doçura da com panhia e

inexcedível graça, 90 e as de Bornu, nas quais se reconhecia um a doce beleza, as m ulheres negras foram -se apoucando nos haréns dos ricos e poderosos, que preferiam as brancas para concubinas. Continuaram , porém , a ser num erosas com o am as-secas e serviçais dos serralhos, e na cozinha, e no lavadouro, e nos pátios de serviço, a carregar água, cortar lenha e cuidar da horta. E não eram desprezadas pelo hom em com um , em toda a África do Norte, nem m uito m enos pelos m ercadores que paravam nos portos do Sael. Num relato do início do século XII, vem os m agrebinos a adquirirem escravas negras, para servir-lhes de concubinas, durante a estada em Gana. Alsharishi, a quem devem os o texto, diz delas que, além de cheirosas, possuíam corpo gracioso, pele brilhante, lindos

olhos, nariz bem -conform ado e dentes alvos.91

O escravo branco podia ser endereçado desde m eninote às carreiras do estado e chegar — com o exceção, claro, pois o grosso da escravaria, fosse branca ou negra, tinha destino duro, am argo e vil — a general, chefe das alfândegas, governador de província e até m esm o vizir. O negro só tinha condições de aspirar a isso, se eunuco. E, m esm o castrado, suas possibilidades de ascensão na adm inistração pública ou na condução de um palácio eram m enores do que as de um turco ou um caucasiano. O fam oso eunuco negro Abul-Misk Kafur, que foi, no século X, regente do Egito, ficou fam oso por isto m esm o — por ser negro e sair da norm a. No próprio m odo de capar-se um m enino, distinguia-se frequentem ente o escravo negro do branco: aquele era am putado

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rente ao abdôm en; ao branco só lhe cortavam , em geral, os testículos. Soldado,

ao escravo preto (ou abd) estava vedado, em quase todo o espaço m uçulm ano, o acesso à cavalaria (prerrogativa do branco, ou m am eluk), contando-se algum as exceções no Magrebe e na Espanha, com o as tropas negras m ontadas a cavalo

que o alm orávida Yusuf ibn Tashfin levou para a Andaluzia.93

Os árabes e berberes, os m am elucos libertos e os soldados escravos, fossem eslavos, gregos, curdos, arm ênios ou italianos, ressentiam , aliás, não apenas o prestígio, os privilégios e o poder de que gozaram , em alguns m om entos, os m ilitares de cor negra, m as a própria presença deles nos exércitos e os hostilizavam . A história está cheia de conflitos entre os dois grupos, o soldado preto e sua fam ília pagando sem pre caro o apoio dado, com o escravo, a um poderoso que caía. Assim , quando os Tulunidas foram derrocados em 905, a cavalaria branca m assacrou os infantes negros, em bora esses j á houvessem baixado as arm as. Em 930, em Bagdá, a cena repetiu-se. E novam ente em 1021, no Egito, onde se prolongou de 1062 a 1069, um a verdadeira guerra pelo poder entre, de um lado, turcos e berberes e, de outro, núbios e sudaneses. Cem anos m ais tarde, quando Saladino m andou decapitar o vizir fatím ida, um eunuco negro, a cavalaria m am eluca gastou dois dias em lutas ferozes para dom inar a revolta das tropas pretas.

Essa discrim inação por raça fazia-se ao arrepio dos ensinam entos do islam ism o. Para este, os hom ens só se distinguem entre fiéis ou infiéis, entre pertencerem à um m a (ou com unidade dos crentes) ou estarem fora dela. O aum ento da escravização dos negros foi acom panhado, no entanto, por um a engenhosa construção ideológica, segundo a qual se fundava a j ustiça do cativeiro não só no fato de serem eles incréus, pagãos ou idólatras, m as tam bém

no anátem a lançado por Noé contra os filhos de Cam .94 Em bora no texto bíblico se expresse claram ente que a m aldição deveria cair sobre Canaã e não sobre

Cuxe,95 de quem descenderiam os negros, ganhou foros de verdade a versão de que a praga de Noé fizera dos filhos de Cam não apenas escravos m as tam bém pretos. Foi em autores árabes que essa adulteração, que j á figurara em alguns escritos j udeus e cristãos e iria ter am pla voga na Am érica escravista, tom ou form a e se tornou o fundam ento de um vínculo estreito entre a cor da pele e a escravidão. Teria sido no m undo islâm ico — escreveu o historiador queniano

Bethwell A. Ogot96 — que a pele negra se tornou sím bolo de inferioridade e a África sinônim o de escravidão.

Ignoram os se havia m ercados especializados em negros. Provavelm ente não. O que haveria, decerto, seriam vendedores dedicados a fornecer certos tipos de escravos, conform e a origem ou os atributos. Assim com o existiram negociantes que adquiriam m eninas para treiná-las com o m úsicas, dançarinas ou cantoras, outros se consagrariam aos garotos castrados, aos adolescentes que instruíam para serem m arceneiros ou cavalariços, aos búlgaros, às abissínias, às circassianas ou aos negros do Sudão — e os teriam em tenda própria no suk al-rakik (ou m ercado de escravos), ou os conduziriam de porta em porta até aos fregueses, destes tam bém recebendo encom endas.

A prática de com prar crianças a baixo preço, educá-las num ofício e vendê-las caro tinha longa tradição. Catão, o Censor, dois séculos antes de Cristo, j á a exercia em Rom a. Quem nos conta isto é Plutarco, em seu elogio ao bom pai, ao excelente m arido e ao cidadão exem plar, que tudo fez para corrigir os m aus costum es dos rom anos de seu tem po. Plutarco diz-nos, sem pej o, pois parece tê-los com o atos norm ais e até louváveis, que o virtuosíssim o Catão cobrava dos seus num erosos escravos hom ens um a taxa para terem acesso sexual às m ulheres de que tam bém era dono e dava m orte diante dos dem ais àquele que

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j ulgasse m erecer tal castigo.

Encam inhavam -se os escravos para onde houvesse procura. Dentro de um a espécie de m ercado único que se estendia da Espanha à Índia m uçulm ana e passara, com os Fatím idas e Aiubidas no Egito, a ter o seu principal traço de união no m ar Verm elho. As transações alongavam -se, contudo, até m uito além das fronteiras do m undo islâm ico. Pois o Egito, com seus portos m arítim os, fluviais e caravaneiros, tornara-se, na segunda m etade do século X, o eixo do com ércio entre o Índico e o Mediterrâneo, envolvendo a China, a Índia hindu e budista, a Indonésia e a África Oriental, Veneza, Am alfi, Gênova, Marselha e Barcelona, o Sudão, os Bálcãs e a Núbia.

Chegavam ao Egito escravos de toda a parte. E, se dali saíam m ulheres, crianças e rapazes escravizados na África para a Índia, o sudeste da Ásia e a China, outros eram adquiridos pelos navios árabes e persas nos portos da Etiópia e do norte da Som ália e levados para o Extrem o Oriente. Deviam tam bém os árabes e os persas, j untam ente com os m alaios de Siri Vij aia e os cholas do Sind, com prar escravos nas costas da África Oriental, se bem que só haj a sinais claros

desse com ércio a partir do século XII ou XIII.98 Antes disso, as notícias que encontram os nos autores árabes e chineses são de captura pelo engodo ou pelas arm as.

Conta-nos Buzurg ibn Chariy ar, um autor árabe do século X, que, em 945 [46], um a flotilha de m il pirogas com balancins atacou Cam balu (na ilha de Pem ba? em Zanzibar? em Lam u?) e outros entrepostos do litoral. Vinham das ilhas de Waq-Waq, em busca de m arfim , carapaça de tartaruga, peles de pantera, âm bar e escravos zanj es, para os quais havia boa procura em suas terras

— supõe-se geralm ente que a Indonésia99 — e na China.

Para atender a essa dem anda — narra Chao Ju-kua, em Descrição dos povos bárbaros, um livro de 1226, m as com posto a partir de fontes m ais antigas—, os árabes desem barcavam num a terra habitada por negros de cabelos encarapinhados, rica em presas de elefante e chifres de rinoceronte. Com ofertas de com ida, atraíam os nativos, agarravam -nos e os levavam m ar afora até a

Arábia, onde obtinham por eles preços elevados. 100 O núm ero dos que eram vendidos atingia os m ilhares — acrescenta um outro escritor chinês, Chou Ch’u-

fei (ou Zhou Qufei).101 Alguns certam ente chegavam à China, e j á no século X, se não antes. Ali, eram conhecidos com o “escravos de Kunlun (ou Cam balu)”,

“escravos diabos” e vários outros nom es.102 Deviam ser artigo raro e de alto preço. Tanto assim , que apareciam escoteiros, ou aos pares, em m ais de um rol

de presentes ou tributos recebidos pelos im peradores chineses. 103 No fim do século XI ou início do XII, j á seriam , entretanto, um pouco m ais num erosos, pois, num livro de 1119, Chu Yu afirm a que a m aioria da gente rica de Kuang-

chou (Guangzhou ou Cantão) possuía escravos negros. 104 É possível que fosse elegante exibi-los, com o criados e porteiros. Chu Yu os define com o m uito fortes, podendo carregar grandes pesos, m as acrescenta que m orriam facilm ente, sobretudo de diarreia, por estranharem a com ida. E Chao Ju-kua acrescenta um a outra inform ação: os chineses os em pregavam para reparar, sob as águas, os

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cascos dos navios.

É difícil acreditar-se que, antes do século XII, os escravos em barcados nas enseadas ao sul do cabo Guardafui fossem , todos ou em sua m aioria, apreendidos em gázuas ou sequestrados. Em pouco tem po, a violência das tripulações dos navios árabes, persas, indonésios ou indianos criaria tam anha atm osfera de incerteza, desconfiança e m edo, que afugentaria o com ércio. Ninguém acudiria às enseadas com o m arfim , o ouro, os toros de m adeira, as plum as de avestruz, as peles de felinos, as carapaças de tartaruga e os cornos de rinoceronte, caso corresse sério risco de ser aprisionado e levado à força para o desconhecido.

Sabem os, aliás, que o com ércio na costa oriental da África não deixou de crescer, e m uito, no passar dos séculos VIII a XII, sendo responsável por um a fieira de cidades m ercantis em suas ilhas e angras. Shanga e Manda (no arquipélago de Lam u), Unguj a Ukuu (em Zanzibar) e Chibuene (em Moçam bique) j á davam sinais de im portância no século IX ou início do X. E entre os séculos X e XII aum entaram as exportações de ouro (proveniente sobretudo de Zim babué) e de presas de elefante, dando resposta à expansão da m oedagem áurea no m undo m uçulm ano e na Cristandade ocidental, e à m ultiplicação dos trabalhos em m arfim na Índia, na China e na Europa, onde a presa do elefante se tornara a m ais nobre m atéria-prim a da escultura religiosa. Daí a prosperidade de Mogadixo e Quíloa.

O m ais provável é que em cada um a dessas cidades se oferecessem escravos trazidos do interior. Que nelas se repetisse o que o chinês Tuan Cheng-shih (ou Duan Chengsi), escrevendo nos m eados do século IX, contou sobre a gente de Bobali ou Po-pa-li (provavelm ente Berbera, no litoral norte da Som ália): sequestravam m ulheres e as vendiam aos estrangeiros por preços m uito

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superiores aos que podiam obter localm ente. E é bem possível que esse com ércio fosse antigo — com o atestariam os zanj es que se revoltaram em Baçorá, nos séculos VII, VIII e IX.

Ainda que parte daqueles escravos pudesse ter vindo das savanas sudanesas, da Etiópia e da Som ália, é provável que predom inassem entre eles os bantos da África Índica. Em tam anha quantidade, os árabes não os poderiam ter obtido som ente pelas arm as das pequenas tripulações de seus navios. Tinham de ter com prado boa parte deles nas cidades costeiras. Não figurava entre os zanj es de Baçorá um a categoria conhecida com o kunbula? E não derivaria kunbula de

Cam balu? 107

A partir do século XII, tem os sinais evidentes do com ércio de escravos nos litorais da África Índica. Só então, possivelm ente, com eçaria ele a alcançar os níveis do tráfico que se processava a partir da Etiópia e da Núbia. Segundo Al-Idrisi, Zeila, o m ais im portante escoadouro da Abissínia no m ar Verm elho, estava

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sem pre cheio de navios, a carregarem sobretudo escravos e prata. Estas m esm as m ercadorias e várias outras saíam tam bém pelos portos das ilhas Dahlak. Sobre esse com ércio de escravos, Ralph Austen fez suas estim ativas: de 650 a 1.500, entre dois m ilhões e dois m ilhões e m eio de escravos teriam saído das costas da África Índica, e entre dois m ilhões e m eio e três m ilhões dos portos

do m ar Verm elho. 109

Maior, bem m aior, seria o núm ero de cativos que atravessavam o Saara. Na parte central do deserto e sobretudo no Fezzan, o escravo continuou a ser a principal razão das caravanas e a ter com o prim eiro produtor o reino de

Canem .110

Talvez j á no fim do século X ou início do XI, Canem exercesse algum a form a de controle sobre o Kawar ou, quando m enos, sobre Bilm a, de onde retirava, para suas transações com os povos m eridionais, o natrão e o sal. Com o fortalecim ento do poder do m aí ou rei de Canem , tornou-se cada vez m aior sua dependência do com ércio de escravos, com os quais obtinha cavalos e espadas. Por isso, quando, após a queda da dinastia Banu Khittab, se esgarçou a estabilidade política em Zawila e no resto do Fezzan, o soberano canúri viu-se pressionado a ali intervir m ilitarm ente, para garantir o trânsito livre e seguro das caravanas. Na m etade do século XIII, o m aí Dunam a Dibalem i m archou sobre o Fezzan, derrotou os berberes que controlavam Zawila e, num a nova capital, Traghen, pôs no m ando um hom em de sua confiança, possivelm ente um tubu,

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que viria a fundar um a dinastia, a de Banu Nasur. O m aí continuou, porém , a

exercer sobre a área algum tipo de tutela, se não a plena soberania, pois um a guarnição subordinada ao rei de Canem e, depois, ao seu sucessor, o rei de

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Bornu, ali estacionava entre 1300 e 1500.

O m onarca de Canem ter-se-ia convertido ao islam e no fim do século XI. O de Gaô, algum as décadas antes. O de Tacrur, pela m esm a época. E entre os m andingas, que dariam origem ao im pério do Mali, o m aom etanism o foi criando raízes no correr do século XII. Não se fique, porém , com a im pressão de que a crença m uçulm ana se im pôs e se espalhou rapidam ente pelo Bilad al-Sudan. O seu avanço foi lentíssim o, pois teve de enfrentar a oposição firm e, constante e

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eficaz das religiões africanas. Em m uitos lugares, prevaleceram por m uito

tem po — em alguns casos, até agora — as estruturas de poder fundadas na fé tradicional, que fazia do rei a encarnação de um deus, ou o descendente de um deus, ou o com panheiro dos deuses, ou o interlocutor privilegiado deles e, por isso, o responsável pela ordem e o equilíbrio do universo. Em outras partes, o soberano e a aristocracia aderiram ao novo credo que os m ercadores haviam trazido do outro lado do deserto, m as o povo continuou a dialogar diretam ente com os seus deuses de sem pre, a sacrificar aos antepassados e a cum prir os ritos essenciais às boas colheitas e à fertilidade das m ulheres e dos rebanhos. E há exem plos, em outros sítios, de adesão com pleta, de nobreza e povo, ao islam ism o.

As prim eiras notícias de sudaneses em peregrinação a Meca referem -se a reis devotos — com o seria de esperar, pois os cronistas tinham com o personagens os poderosos. O m aí de Canem , Dunam a Dibalem i, foi aos lugares santos na prim eira m etade do século XIII. O m ansa Uli e o usurpador Sacura, do Mali, poucas décadas m ais tarde. Mas não só os reis procuravam cum prir essa obrigação e seguiam para o Cairo, a cam inho de Meca, servidos por enorm es caravanas. Tam bém o hom em com um . O pobre, a m endigar piam ente. O rico, com seu saquinho de ouro, para pagar as despesas. Ou com escravos, dinheiro que tinha pés e cam inhava.

As caravanas anuais de peregrinos do Tacrur, Gaô e Canem tornaram -se distribuidoras de escravos, pois com eles os seus donos iam saldando pelo cam inho o que deviam com alim entação e hospedagem . A m aior parte dos escravos ficava no Cairo, em Meca e em Medina, onde os gastos eram m aiores. Assim seria j á no século XII ou XIII e não apenas m uito m ais tarde, no século

XV, quando vivia Al-Macrizi.114 Este anotou, em 1416, a chegada ao Cairo de um a caravana de peregrinos com grande quantidade de ouro em pó e 1.700 escravos, entre hom ens e m ulheres, sendo de supor-se que fossem à partida m uito m ais num erosos. E referiu, em outra página, um a cáfila do Tacrur, cuj os m em bros seguiram para Meca, em 1439, após terem vendido no Cairo os seus escravos. Destes, a m aioria m orreu (possivelm ente com a chegada do frio ou de doenças para as quais não tinha defesas), com prej uízo para os novos proprietários.

Tal com o algum as vezes se passava com os cristãos etíopes que se dirigiam , em grande com panhia, a Jerusalém , na esperança de rezar no Santo Sepulcro e na igrej a da Verdadeira Cruz, os peregrinos m uçulm anos podiam tam bém , ainda na África ou j á na Arábia, transform ar-se em cativos. Eram sequestrados num ponto de paragem ou capturados durante ataques de salteadores, que os vendiam ilegalm ente, com o se fossem infiéis, ou os colocavam nos oásis ou nos m ercados cristãos.

O haj j contribuiu tam bém para introduzir nas cortes do Sudão novos m étodos de governo e táticas de guerra, para alterar hábitos de consum o, para criar novas necessidades e, consequentem ente, exigir que se produzissem , para pagá-las, m ais escravos. São conhecidas as m udanças no Mali, após a fam osa

peregrinação do m ansa Musa, em 1324. 115 Das que prom oveu, em seu retorno de Meca, cem anos antes, o m aí Dunam a Dibalem i, quase nada sabem os. Há indícios, porém , de que teria com eçado a im portar de form a sistem ática corcéis do Egito e da África do Norte. Graças talvez a ele, a sela com estribos, a espora e

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o freio foram acolhidos por Canem . E tam bém — quem sabe? — a cota de

m alha, o lifidi (um a cobertura de pano acolchoado, com que se vestiam os hom ens e os cavalos, para am ortecer o im pacto das flechas) e o capacete de ferro.

Com a adoção, a partir do século XIII, do freio e da sela com estribos pelos reinos sudaneses, transform ou-se a arte da guerra, pois da infantaria m ontada surgiu um a verdadeira cavalaria. Com a m udança, reforçou-se a necessidade de im portar corcéis, pois os anim ais que existiam na África ao sul do Saara, em bora robustos e resistentes, eram pequenos dem ais — m uitos ficavam entre 90 e

110cm de altura na cernelha117 — para um choque de lanças ou um com bate de espadas. Tinham esses petiços um a boa tradição de uso m ilitar e continuaram a ser usados na guerra em pleno século XIX. Quem os m ontasse ficava, contudo, em evidente desvantagem diante de um adversário cavalgando um anim al da Barbaria ou de Dongola, com seus 135 a 165cm de altura.

Para adquirir cavalos grandes no Magrebe e no Egito, a principal m oeda era o escravo. Quanto m ais escravos se fosse capaz de colocar nos m ercados m editerrânicos, m aior o núm ero de equinos a atravessarem o deserto. E com m uitos cavalos, m ais fácil era fazer prisioneiros, pois os fugitivos, após um a batalha, um a escaram uça ou um a razia, dificilm ente conseguiam fugir de um grupo m ontado. Cavalos produziam escravos, e escravos com pravam cavalos. Am bos eram bens frágeis e tinham de ser constantem ente repostos, pois m orriam com facilidade. O negro, por inadaptação ao clim a do Magrebe, do Egito ou da Arábia. O cavalo árabe, berbere ou dongola, por não se aj ustar às novas pastagens, não ter im unidade contra as picadas da tsé-tsé, nem contra as doenças das savanas subsaarianas.

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Al-Um ari escreveu, por volta de 1337, que o rei do Mali despendia

grandes som as na aquisição de cavalos árabes e que em dez m il deles m ontavam os seus soldados. Dos bulalas, causadores, no fim do século XIV, do êxodo para Bornu dos reis de Canem , diz-se que tinham m ais e m elhores cavalos do que os

m aís, seus adversários, 119 cavalos das raças de Dongola, trazidos talvez pelos

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árabes que se deslocavam do Nilo para o lago Chade. Esse com ércio

prolongou-se por m uitos séculos, até quase o fim do Oitocentos. 121 E dele, no início do século XVI, recolhem os em Leão Africano um as poucas inform ações que, excetuada a últim a, bem podiam datar de cem anos antes: Canem (se o Gaoga do escritor granadino for realm ente a Canem dos bulalas) trocava com o Egito cavalos por escravos; Tom buctu, então sob o controle de Songai, os adquiria na África do Norte; e, em Bornu, um corcel da raça berbere valia entre 15 e 20

escravos. 122

Há notícias de que, no fim do século XIV e início do XV, o escam bo de cavalos por escravos estendeu-se entre os povos do Sudão. Conta-se do sarqui Kanaj ej i, que reinou sobre a cidade-estado de Kano, entre 1390 e 1410, que vestiu parte de suas tropas com cotas de m alha e lifidis e cobriu-lhes as cabeças com capacetes de ferro. Possuía tantos equinos, que os perm utava por escravos

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com os cuararafas do vale do rio Benué. De um outro sarqui, Iacubu, diz-se

que, m eio século m ais tarde, trocou com o rei dos nupes dez cavalos por doze

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eunucos. O que as tradições não esclarecem é se esses anim ais eram

reexportados por Kano ou j á produzidos localm ente, a partir de m atrizes berberes ou dongolas.

Por m uito tem po, tam bém se im portavam do Egito e do Magrebe as espadas, as cotas de m alha e os capacetes. E pagavam -se em boa parte com escravos. Estes eram tam bém produzidos para servirem de m oeda para a aquisição de um outro tipo de escravos, pois, a partir, ao que parece, da peregrinação do m ansa Musa, desenvolveu-se no Mali e em outros reinos sudaneses o gosto pelos guardas pessoais m am elucos e por m oças e castrados turcos e etíopes. Segundo Al-Um ari, o rei do Mali, nas horas de audiência, m ostrava atrás dele um a trintena de

turcos e outros soldados brancos com prados no Cairo.125 O com ércio de

escravos passou a dar-se, assim , nas duas direções. 126 Escravos baratos, do Mali para o Egito e, dispendiosos, do Egito para o Mali.

Seriam poucos, e destinados, acim a de tudo, a dem onstrar poder, riqueza e requinte, os escravos brancos e etíopes nas cortes do Mali, de Gaô ou de Bornu. Já nas grandes cidades do m undo m uçulm ano, contavam -se aos m ilhares os escravos provenientes do Sudão Ocidental e do Sudão Central, assim com o os do Sudão Oriental, da Núbia, da Som ália e da Etiópia. Registravam -se tam bém reexportações. Quase constante, por exem plo, era o fluxo de escravos negros da

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África do Norte para o Egito. Podiam chegar a dois m il por ano, entre o fim

do século XIII e o início do XV, quando o com ércio entre o Cairo e o Magrebe atingiu o seu auge.

Por essa época, m as sobretudo durante o reinado, na prim eira m etade do Trezentos, do sultão m am eluco Al-Nasir Muham ed, expandiram -se as atividades dos m ercadores egípcios, não só na África do Norte e na faixa sudanesa, m as tam bém na Núbia, na Abissínia, nos litorais africanos do Índico, na Indonésia e no sul da China. Na Etiópia, eles adquiriam m arfim , especiarias e, m ais que tudo, escravos, que tinham excelente m ercado até na Índia. Entre os cativos que desciam do planalto, m uitos eram eunucos, de que o reino de Hadia, no sudoeste da Etiópia, se transform ara num dos m ais im portantes centros de exportação.

Para alim entar esse extensíssim o m ercado, que ia da ponta da Europa ao fim da Ásia, os m uçulm anos adquiriam escravos aos reis e potentados africanos. Mas não deixavam de recorrer, quando a ocasião se apresentava, à violência direta. Sabem os, por exem plo, por um a carta enviada, em 1391, pelo rei de Bornu ao sultão m am eluco, Barcuque, que tribos árabes vindas do Egito e do Darfur apresavam os súditos do m aí e, em bora esses fossem islam itas, os vendiam aos m ercadores egípcios e sírios. Na m issiva, o m aí solicitava a Barcuque a

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devolução dos indevidam ente escravizados e o castigo dos escravizadores.

A partir de 1169, quando a cavalaria de Saladino deu batalha a 50 m il soldados negros (m uitos dos quais, expulsos do Cairo, se refugiaram na Núbia e ali continuaram a lutar), os regim entos de hom ens de cor desapareceram dos exércitos egípcios. Sob os governos m am elucos, os negros prestavam às tropas os serviços m ais baixos: lavavam cavalos e estrebarias e eram criados dos m ilitares.

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Não chegavam sequer a paj ens ou ordenanças. O negro ficou, portanto, de fora, quando se estruturou, a partir da escravização para produzir soldados, o sistem a de poder m am eluco. Não teve ele lugar nessa aristocracia guerreira, fundada não nos laços de sangue m as na fidelidade do ex-escravo. Do ex-

escravo branco, pois ao negro estava vedado o acesso a essa elite m ilitar. 130

Com prava-se um m eninote nos territórios lim ítrofes do Islam e. No início, quase sem pre entre as tribos cavaleiras da Ásia Central. Do infiel fazia-se um m uçulm ano, ao m esm o tem po em que o subm etiam a um a rigorosa aprendizagem m ilitar. Era, depois, m anum isso e se ligava com o cliente a um cavaleiro m am eluco, que tam bém fora, rapazola, escravo. Com eçava, assim , um a carreira, na qual podia chegar aos m ais altos postos. O negro, não. Levavam -no para o exército com o escravo. E nele continuava escravo, a fazer os trabalhos m ais hum ildes. Podia ser alforriado, m as não ganhava com isso posição m elhor nas tropas.

Em algum m om ento, porém , form aram -se novos pelotões de escravos negros. Pois, no fim do século XV, havia um pequeno corpo de arcabuzeiros no exército dos sultões m am elucos. E talvez pretos fossem tam bém os

artilheiros.131 Isto deveu-se possivelm ente ao desprezo que os m am elucos tinham pelas arm as de fogo. Usá-las estava abaixo da dignidade de um cavaleiro. Este ia à guerra de arnês, na sua m ontaria e com as arm as nobres: o arco, a lança, a espada. Se era de todo necessário usar o canhão e o arcabuz, que ficassem esses nas m ãos de quem não chegava a ser propriam ente um soldado. Mas nada de descuidos: forçoso era m anter sob estrito controle e em pequeno núm ero essa infantaria desprezada.

O soldado negro não podia erguer a cabeça. Por isso, em 1498, quando o sultão quis m ostrar o seu favor ao chefe dos arcabuzeiros da cidadela, dando-lhe por m ulher um a escrava circassiana e presenteando-o com um a túnica de m angas curtas, roupa característica dos m am elucos, estes se rebelaram . Vestiram suas arm aduras e atacaram os soldados negros. Mataram cinquenta deles. Os sobreviventes, pouco m enos de quinhentos, fugiram , e o sultão foi

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obrigado a com prom eter-se a vendê-los aos turcom anos.

Na Espanha, no Magrebe e em outras partes do m undo islam ita, o escravo negro continuou, ao longo dos séculos, a ser soldado. Na Índia, por exem plo,

deixou fam a. No Guzerate, desde o século XIII, se não antes. 133 Em Bengala, onde, no terceiro quartel do século XV, o rei tinha em suas tropas cerca de oito m il escravos africanos, vários deles em posições de com ando. Ali, em 1486, um eunuco negro, com andante da guarda palaciana, m atou o soberano e assum iu o poder. Foi, por sua vez, assassinado por um outro com andante negro, que se fez rei, para logo sofrer igual destino. Quem m atasse o rei, assum ia o seu lugar. O últim o dessa série de usurpadores negros foi m orto em 1493. O exército desse rei contava cinco m il abissínios, e todos os seus oficiais foram expulsos de

Bengala. 134

A frequência com que se m encionam pessoas escravas a exercerem funções de relevo na corte, na adm inistração e no exército, e a serem m ães de califas, sultões, em ires, vizires, cadires e ulem ás, tem distraído o nosso espírito da natureza real da escravidão nos países m uçulm anos. Esses escravos de êxito saíam da norm a e, por isso e por serem um a escassa m inoria, ficaram na m em ória e nas crônicas. Poucas eram as concubinas que gozavam do privilégio, ainda que passageiro, de ser favoritas; a m aioria apagava-se no ram errão dos haréns. Podia-se chegar a general ou chefe dos eunucos, para cair na quinzena seguinte. Pois o poder que o escravo alcançava não era dele, m as de seu senhor. Havia exceções, é claro, pois alguns construíam , à socapa ou abertam ente, com certos setores da corte esquem as de apoio e com unhão de interesses, tornando difícil ao am o despi-los das funções, a não ser pela m ão do carrasco ou do sicário. Alguns foram tão com petentes, que derrocaram o senhor e assum iram o seu lugar.

Com o norm a, um escravo ascendia a posições de m ando no palácio porque era propriedade do soberano. Seus filhos tam bém a este pertenciam . Se eunuco, estava de todo im pedido de criar um a estirpe que pudesse som brear a casa real ou com ela com petir. Por isso, abriam -se para ele os acessos ao poder. Mas podia perdê-lo com a m esm a facilidade, pois, ao m enos teoricam ente, um vizir escravo estava suj eito a ser reduzido a nada, se assim decidisse o seu senhor, que dele era dono, com o era dono do que lhe lavava os cavalos ou carregava à cabeça o esterco para adubar os j ardins.

A im pressão que nos fica dos antigos autores m uçulm anos é a de que o grosso da escravaria se destinava a tarefas urbanas. Nos prim eiros séculos de sua expansão, os árabes e arabizados não se interessaram em se apossar das terras conquistadas para explorá-las diretam ente na produção agrícola. Delas queriam receber os benefícios por m eio de im postos. E as taxavam , e aos que nelas viviam , ferozm ente. No Egito, im itaram os faraós e os Ptolom eus e continuaram m ontados nos felás. Na África do Norte, sustentaram o poder e pom pa com as taxas sobre um a produção agrícola baseada na pequena propriedade.

Seriam poucos, entre os proprietários rurais, os que podiam ter escravos. Estes escravos raram ente passariam da m eia dúzia e trabalhariam no cam po, ao lado do dono e de sua fam ília. O quadro não fica, porém , assim com pleto, pois não deixou de existir no m undo m uçulm ano a grande propriedade agrícola, onde se cultivavam o algodão, o arroz, as tâm aras e a cana-de-açúcar, com sua tropa de escravaria. No século X, era escrava, por exem plo, a m ão de obra que cuidava das tam areiras nas grandes plantações de Al-Ahsa, perto de Bahrain, e dos

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canaviais do Khuzistan, na Pérsia. E nas centúrias seguintes, a presença do

escravo só aum entou. Nós o verem os, no século XV, a cultivar extensivam ente a cana e o algodão na África do Norte (sobretudo no sul do Marrocos) e na Andaluzia. E a trabalhar a terra na Sicília m uçulm ana.

Podia ter ele ainda um destino m ais pesado. Ser conduzido às pedreiras de

Aden, onde, no século XIII, labutavam escravos zanj es. 136 Ou às m inas de ouro de Alaqui, em pleno deserto, exploradas por m ão escrava desde pelo m enos o Novo Im pério egípcio e até o século XIV, quando secaram . Ou, ainda, aos depósitos de sal-gem a do Saara, onde nenhum escravo sobrevivia por m ais de cinco anos.