Bilionário Revelado: Marcus

J. S. Scott · Capítulo 1 de 30

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Bilionário Revelado: Marcus

Prólogo

Capítulo 28

Epílogo

 

Dani

Um Ano Atrás...

E u sabia que morreria.

A única pergunta era por quanto tempo teria que viver antes que o grupo rebelde de terroristas que me sequestrara finalmente me executasse.

Eu sentia tanta dor que ficava grata quando perdia a consciência. Eu não fazia ideia de quanto tempo se passara desde que fora aprisionada. Parecia anos, como se eu tivesse vivido naquele estado perpétuo de dor, privação e humilhação pelo que parecia uma vida inteira. Eu tentara manter a conta dos dias que passavam, mas provavelmente perdera alguns.

Por quanto tempo eu estivera daquele jeito?

Uma semana?

Duas?

Eu perdera mais dias do que achara?

A morte seria uma bênção. Não sei quanto mais da tortura deles consigo aguentar. Não sairei daqui. Os EUA não fariam nenhuma barganha com terroristas e eu nunca conseguiria escapar. Mesmo se tivesse a oportunidade, não tenho forças para fugir.

Não que eu quisesse morrer, mas havia um limite para a agonia que uma pessoa conseguia aguentar antes de torcer para ter um alívio, mesmo que só encontrasse esse alívio com a morte.

Pelo menos, era tarde da noite, uma pequena parte do dia de vinte e quatro horas que eu passara a apreciar, pois todos os terroristas estavam dormindo.

Era o único momento em que eu não me sentia aterrorizada de que decidiriam aparecer para me atormentar.

Eu estava com o corpo enrolado no meio do chão sujo, tentando desesperadamente não pensar em comida, água nem no fato de que cada centímetro do meu corpo parecia indicar que fora usada como saco de pancadas.

Relembrar que meu sacrifício significava que alguns adolescentes tinham conseguido atravessar a fronteira de volta para a segurança era um fato em que tentei me agarrar ao máximo. Provavelmente, eu teria que morrer para que um bando de garotos pudesse viver.

Era uma troca decente, certo? Se fosse para escolher, o que realmente acontecera, era melhor que uma pessoa morresse em vez de um bando de crianças.

Meu problema com esse raciocínio era que eu não queria morrer. A sobrevivente em mim queria que todos nós vivêssemos.

Infelizmente, a minúscula parte que sobrara do meu cérebro racional dizia que isso não era possível.

Tentei respirar fundo, mas doía demais. Soltei o ar devagar, tentando me convencer de que, por enquanto, eu estava sozinha e era improvável que fosse perturbada antes da alvorada.

Assim que eu dissera a mim mesma que estaria segura por algumas horas, uma mão grande cobriu a minha boca, sem aviso nenhum. Lutei contra o adversário, determinada a não me deixar abater sem lutar, apesar de ter muito pouca força.

Eu sempre lutava.

Era assim que eu era.

A noite era minha, a única chance que eu tinha de pensar, se conseguisse ficar consciente. E fiquei furiosa porque as poucas horas que tinha para descansar estavam sendo roubadas.

Eu estava cansada de ser uma fonte de entretenimento para os rebeldes sempre que queriam me atormentar. Queria que eles simplesmente me matassem e acabassem com aquilo. Se fizessem isso, a guerreira em mim permaneceria em silêncio para sempre.

— Danica. É Marcus Colter. Vou tirar você daqui. Fique quieta.

O sussurro ríspido finalmente entrou no meu cérebro amortecido. Marcus Colter? O que diabos ele estava fazendo ali?

Tive que me perguntar se estava ficando louca. Marcus era um homem de negócios internacional, um bilionário que vivia de terno. Sim, ele sempre aparecia em áreas perigosas do mundo. Mas por que estaria naquele acampamento desolado onde eu era mantida prisioneira?

Parei de tentar lutar, percebendo que ele tentava me ajudar — Marcus? —

perguntei com voz fraca quando ele tirou a mão da minha boca.

Ele não disse nada, mas fez um gesto amplo para que eu parasse de fazer barulho, que consegui ver com facilidade na minha prisão mal iluminada.

Normalmente, eu não gostava de Marcus Colter. Quando estávamos em um ambiente civilizado, não fazíamos nada além de antagonizar um ao outro. Mas, naquele momento, a voz dele me deu uma centelha de esperança. Naquele momento, ele era mais amigo do que inimigo.

Apertando os olhos na escuridão, tentei discernir as feições dele. Porém, ele era praticamente uma sombra, um homem vestindo preto da cabeça aos pés.

Ele não encontrou resistência ao me pegar no colo. Passei os braços em volta de seu pescoço com a força que consegui reunir, ficando o mais quieta possível enquanto ele me carregava, passando pelas cabanas e saindo do lugar onde achei que daria meu último suspiro.

Enterrei o rosto no pescoço dele, absorvendo seu cheiro como uma esponja absorve a água. Ele tinha cheiro de segurança e liberdade. Depois de tudo pelo que eu passara nas mãos dos rebeldes, era um cheiro irresistível.

Pareceu que ele andou por horas até chegarmos a um Jeep. Marcus entrou rapidamente, segurando-me no colo, e o veículo começou a se mover no momento em que estávamos sentados.

Eu não conseguia falar. Além de ser algo difícil de fazer por causa da boca seca e dos lábios rachados, tudo o que estava acontecendo parecia... surreal.

Eu estava mesmo sendo resgatada ou estava tendo alucinações?

Meu cérebro estava tão embotado que eu simplesmente não sabia.

Ganhar a liberdade de volta não era algo que eu esperara que acontecesse.

Eu me resignara com o fato de que nunca conseguiria sair do acampamento onde estivera aprisionada.

A única coisa que eu sabia era que queria que aquilo fosse real. Mas não fazia sentido.

E por que Marcus Colter estava ali?

 

Uma vez, ele fizera alguns resgates particulares de prisioneiros internacionais, mas o grupo dele debandara algum tempo antes. Meu irmão, Jett, se ferira na missão fracassada que fora a única de Marcus e da Organização Privada de Resgate. A única forma de meu resgate poder acontecer era se ele reunira a equipe novamente.

Supus que não era impossível que ele tivesse reunido a equipe. Mas meu irmão estava certamente fora de questão, bem como alguns outros que tinham se ferido na queda do helicóptero que acabara com a OPR.

Eu queria agradecer a ele por ter arriscado a vida para salvar a minha, mas não consegui fazer com que as palavras saíssem. Talvez eu sempre o odiara pelo que ele fizera com minha irmã mais velha, Harper. Mas o incidente com a minha irmã acontecera mais de uma década antes e eu estava grata por Marcus Colter ter se esgueirado até o outro lado da fronteira, na Síria, para me resgatar. A missão era quase suicida, mas ele a fizera mesmo assim.

Gemi baixinho por causa da dor quando o Jeep parou subitamente. Marcus mudou meu corpo de lugar para sair do veículo e, em seguida, entregou-me a alguém em um helicóptero.

Consegui sair. Vou viver.

A percepção de que eu não morreria nas mãos dos meus atormentadores de coração sombrio era quase demais para compreender.

Lágrimas de alívio desceram pelo meu rosto, mas meu corpo estava tão fraco que eu não conseguia me mexer. Minha mente estava amortecida devido às privações e à tortura, mas eu sabia tudo de que precisava: Eu estava segura.

Eu me sentia muito melhor alguns dias mais tarde ao terminar a ligação com Harper para avisá-la que ainda estava viva e que me sentia fisicamente mais estável a cada dia.

Talvez eu precisasse ganhar alguns quilos, mas, com o meu amor por todas as porcarias que havia para comer, ganharia o peso que perdera. Eu estava bem hidratada, com a ajuda do soro intravenoso, e meu cérebro finalmente funcionava de novo.

Largando o celular sobre a mesinha de cabeceira, murmurei para mim mesma: — Preciso dar o fora daqui.

Não havia nada que eu odiasse mais do que hospitais e já estivera na instalação médica enorme em Istambul por muito mais tempo do que conseguia tolerar.

A verdade era que eu queria sair do Oriente Médio. Queria voltar ao solo dos EUA.

— Falando sozinha de novo? — perguntou Marcus Colter ao entrar pela porta do meu quarto.

Eu quis poder negar, mas estivera completamente sozinha quando ele entrara e era óbvio que já terminara o telefonema. Sinceramente, eu tendia a falar comigo mesma bastante, pois normalmente estava sozinha. — Estou entediada — disse eu. Era uma desculpa esfarrapada, mas era parcialmente verdade.

Eu não saíra da cama desde que fora internada no hospital, a não ser para usar o banheiro. Eu não estava acostumada a ficar ociosa. Meu trabalho como correspondente internacional me mantinha viajando e extremamente ocupada durante quase todos os minutos do dia.

Olhei para Marcus quando ele parou ao lado da cama, percebendo que ele estava tão bonito como sempre fora, em um terno feito sob medida e uma gravata que quase combinava com o tom cinza de seus olhos.

— Você vai sobreviver — retrucou ele com pouquíssima empatia. —

Precisa ficar até que sua condição melhore. Precisa ficar forte o suficiente para viajar.

Como sempre, quis dar um tapa no rosto dele para tirar aquele olhar.

Infelizmente, eu vira exatamente a mesma expressão vezes demais no passado. Para onde eu ia, parecia que Marcus estava lá. Se algo importante estivesse acontecendo em uma certa área do mundo, não havia dúvidas de que Marcus apareceria. Ele sempre fazia isso, apesar de eu não fazer ideia do motivo pelo qual Marcus sempre parecia estar nos piores lugares do mundo. Sendo jornalista, eu tinha um bom motivo para estar onde houvesse problemas. Mas Marcus era um homem de negócios e não trabalhava mais com a OPR. Portanto, por que ele sempre estava no meio de algo ruim que estivesse acontecendo no planeta?

— Estou melhor — argumentei. — Estou forte o suficiente.

Marcus ergueu a sobrancelha de forma arrogante. — Você não conseguiria passar da porta do hospital sem cair — observou ele. — Ainda está muito fraca.

Eu queria desafiá-lo, levantando e andando para fora do hospital, mas ainda estava com o soro no braço e sabia quanto esforço era necessário só para levantar e andar até o banheiro. Eu fizera isso vezes demais, pois estavam enchendo-me de fluidos. Cruzei os braços sobre o peito. — Quero ir para casa, Marcus. Se for preciso, pedirei a um dos meus irmãos que me busque aqui.

Eu sabia que estava agindo como uma garota mimada e ingrata, mas a verdade era que estava sentindo-me ansiosa e tensa. Naquele momento, o medo estava levando a melhor e eu não conseguia impedir os pesadelos que tinha nem a sensação de que, de alguma forma, os rebeldes me encontrariam.

Ele balançou a cabeça negativamente. — Eles não fariam isso. Já falei com todo mundo na sua família. Ninguém a tirará do hospital até que esteja estável. É uma viagem muito longa de volta aos EUA. Você precisa de mais tempo para ficar mais forte.

Soltei um suspiro irritado porque sabia que ele não estava blefando.

Marcus não era o tipo de não manter cada palavra que dizia. Se ele dissera que tinha falado com a minha família, eu sabia que era verdade.

Sinceramente, eu não sabia exatamente como me sentia em reação a Marcus Colter no momento. Meu telefonema com Harper fora intrigante. E tirara o irmão Colter mais velho da lista negra por ser um escroto com minha irmã, Harper. Era difícil acreditar que fora Blake, irmão gêmeo idêntico de Marcus Colter, quem dormira com minha irmã mais velha e partira o coração dela mais de uma década antes. Aquele fora um dos motivos pelos quais ver Marcus Colter me deixara abalada, mas não o único.

Marcus podia ser o idiota mais teimoso, cínico e irritante que eu conhecia e não mudara absolutamente nada desde a última vez em que o vira.

Porém, ele salvara a minha vida.

Antes, eu sempre tivera um motivo para não gostar dele devido ao que acontecera com Harper. Agora, eu não sabia bem como tratá-lo. Sim, ele ainda era escroto às vezes, mas, além do ego masculino superinflado, eu não tinha nenhum motivo de verdade para continuar odiando-o.

— Então, quando posso ir? — perguntei com a voz irritada. — Vou enlouquecer se ficar aqui por muito mais tempo.

— Você acabou de se hidratar. Demorará pelo menos mais uma semana.

Revirei os olhos. — É só uma viagem de avião para voltar para casa.

De verdade, só o que eu queria era sair do Oriente Médio e voltar para os EUA. Eu me sentiria mais segura, mas não queria dizer a Marcus como me sentia nervosa e tensa. Tecnicamente, eu estava em um lugar seguro e não queria parecer louca nem paranoica.

Nós dois sempre tivéramos um campo de batalha relativamente justo.

Aquele era o meu lugar, onde eu fazia a maioria das matérias.

Agora, era o local do pior dos meus pesadelos.

Ele soltou uma mochila grande sobre a cama, ao lado do meu quadril. —

Eu trouxe algo para combater seu tédio.

Vasculhei a mochila, encontrando alguns livros que eu queria ler, um baralho, algumas das minhas comidas favoritas e um jogo de xadrez pequeno. — Você joga xadrez? — perguntei. — Obviamente, não posso jogar sozinha.

Ele assentiu. — Jogo.

— Como sabia que eu jogava? — perguntei.

Ele deu de ombros. — Talvez Jett tenha comentado sobre o assunto.

Eu sorri. — Nenhum dos meus irmãos consegue mais me desafiar.

— Eu ganho. Sempre ganho — disse Marcus em tom arrogante.

Eu o observei com cuidado enquanto abria um pacote de salgadinhos e começava a mastigá-los avidamente. Deixei o gosto salgado acariciar minhas papilas gustativas e quase gemi de satisfação. Ele abriu o jogo de xadrez e começou a dispor as peças enquanto eu observava. Marcus irradiava poder, controle e uma dose grande de autoconfiança, o que era uma forma simpática de dizer que ele podia ser um escroto arrogante. Mas isso não significava que eu conseguiria me esquecer do fato de que a mera presença dele enchia o quarto de tensão.

Eu fizera pouco mais além de combater Marcus no passado e não sabia exatamente como interagir com ele, agora que sabia que não era responsável por dormir com Harper e magoá-la tanto.

— Salgadinho? — perguntei, oferecendo a ele o saco aberto.

Ele fez uma careta. — Não, obrigado. Evito comidas processadas e excesso de sal. Essa coisa é ruim para você.

Dei de ombros, puxando o saco de volta. Eu só daria a ele uma chance. Eu era gananciosa em se tratando dos meus lanches. — Se eu desistisse de tudo que não é bom para mim, a vida seria um tédio.

Depois de ficar sem comida por tanto tempo, eu planejava devorar cada pedacinho, saudável ou não, que conseguisse.

— Seu irmão, Jett, disse a mesma coisa — retrucou Marcus com tom desgostoso.

— Acho que é de família — brinquei.

— Acho que sim.

— Acha que Harper e Blake ficarão juntos, agora que a confusão de dez anos atrás foi finalmente resolvida? — Eu queria que minha irmã fosse feliz e tinha certeza de que Blake era o único homem no mundo que conseguiria fazer com que Harper assentasse. Na década depois que tinham se afastado, minha irmã se dedicara à carreira de arquiteta e eu nunca a vira interessada em outro homem.

— Não faço ideia — respondeu Marcus ao tirar o casaco do terno e enrolar as mangas da camisa. — Tento não me meter na vida dos outros, especialmente da minha família no que diz respeito à vida amorosa.

Mudei de posição, sentando-me na cama para que conseguisse estudar o tabuleiro. — Ela o ama — disse eu em tom confiante. — Acho que nunca deixou de amá-lo.

— Acho que aconteceu o mesmo com Blake — admitiu Marcus.

Eu assenti. — Então tenho certeza de que resolverão as coisas.

— Espero que sim — disse ele com voz grave. — Caso contrário, ele ficará chorando como um adolescente.

Decidindo que queria as peças pretas, virei o tabuleiro. — Não acredito que você não se importa se seu irmão gêmeo está feliz.

— Eu não disse que não me importo — retrucou ele.

Então, ele se importa, mas tenta não se envolver? Se eu fosse julgar a atitude de Marcus na superfície, ficaria tentada a acreditar que ele realmente não se importava com ninguém além de si mesmo. Mas as ações dele contavam outra história. Ele imediatamente achara Blake quando Harper o procurara para falar sobre o meu sequestro e dissera ao irmão gêmeo que resolveria a confusão. Ele jogara os dois juntos de propósito. Eu tinha certeza disso.

— Então, você ficaria feliz se isso acontecesse? — perguntei.

Ele não respondeu imediatamente. O olhar de Marcus estava no tabuleiro, já que era o primeiro a jogar por causa das peças brancas, uma posição que lhe dava uma ligeira vantagem.

 

— Não importa o que você pensa de mim, quero que meu irmão seja feliz

— respondeu ele com simplicidade.

Logo descobri que tentar arrancar informações de Marcus exigiria mais energia do que eu tinha. Infelizmente para mim, o cara era um jogador de xadrez incrível e lamentei muito tê-lo dado vantagem no início depois de levar uma surra dele.

Por sorte, ele não era do tipo de se vangloriar demais, mas fiquei irritada mesmo assim.

Demorou quase uma semana para eu sair do hospital. Eu ainda não estava totalmente curada, mas fiquei aliviada quando o jatinho de Marcus finalmente decolou para nos levar de volta aos EUA.

Tate Colter, o irmão mais novo de Marcus e piloto da minha missão de resgate, partira na manhã do dia anterior, ansioso para voltar para a esposa.

Portanto, eu não tinha mais a distração da companhia dele. Eu gostava de Tate e estava grata a ele, como estava a Marcus, por ter arriscado a vida para me salvar e fazer-me companhia enquanto me recuperava. Eu não tivera a oportunidade de agradecer ao restante da equipe porque estivera doente demais quando partiram, mas estava muito grata a todos eles.

Eu me recostei na poltrona de couro enquanto o jatinho de Marcus subia para a altitude de cruzeiro. — Obrigada por me tirar de lá — disse eu baixinho.

Nem uma vez eu mencionara minha experiência com os sequestradores.

Respondi a perguntas, mas não quisera falar no assunto. E ainda não queria.

Mas eu agradecera a Tate antes de ele ir embora e sabia que devia isso a Marcus por correr um risco tão grande por alguém que mal conhecia.

— Só tente evitar entrar em outra situação ruim — respondeu ele da poltrona ao meu lado. — Entendo por que fez isso, mas devia ter sabido que provavelmente terminaria morta ao cruzar a fronteira.

Passamos por uma turbulência enquanto o jatinho subia e enterrei as unhas curtas no apoio de braço. Eu nunca ficara nervosa ao voar antes daquela viagem para casa, mas estava rapidamente descobrindo que minhas experiências no cativeiro tinham me mudado. — Eu não pensei antes de ir

— admiti para Marcus. — Meu medo pelas crianças que tinham cruzado a

fronteira antes de mim fez com que eu deixasse o cuidado de lado. Eu queria tirá-los de lá. Não parei para pensar nas consequências.

Sim, talvez minhas ações tivessem sido descuidadas, mas eu salvara os adolescentes.

Se tivesse a opção de vê-los morrer ou arriscar uma distração cruzando a fronteira eu mesma, faria a mesma coisa de novo.

— Pense no perigo na próxima vez... antes de agir — resmungou ele. —

Você deixou sua família inteira com muito medo. Harper estava muito abalada e seus irmãos estavam prontos para cruzar a fronteira para procurar você, o que teria feito com que todos morressem.

— Eu não estava tentando ser sequestrada — disse eu em tom indignado.

— Mais alguns dias de cativeiro provavelmente teriam matado você — respondeu Marcus em tom severo.

— Eles já estavam falando em me matar — confessei em tom nervoso, falando pela primeira vez sobre os sequestradores.

— Você entendia o que eles diziam?

Assenti quando ele virou os olhos para o meu rosto. — Sim. Falo um pouco de árabe, mas nunca demonstrei isso a eles. Como não receberiam nenhum dinheiro, não havia motivo para que me mantivessem viva. Acho que eles nem se divertiam mais comigo. Eu estava muito mal para conseguir lutar.

— Você parece melhor — disse ele com voz rouca e um tom ligeiramente mais gentil. — O que você fez com seus cabelos?

Corri os dedos pelos cabelos curtos. — Nada. O estilista só acertou o corte e pintou-o de volta à minha cor natural.

Sendo uma pessoa detalhista, Marcus me enviara todos os tipos de serviço enquanto eu estava no hospital, incluindo alguém para arrumar meus cabelos e tentar curar todas as rachaduras e feridas que tinha na pele.

— Você é ruiva?

— Sim — admiti. — Mas achei que seria melhor, como correspondente internacional, ficar loira. Pessoas ruivas chamam muita atenção, especialmente em países em que essa cor de cabelo quase nunca é vista. Eu queria me misturar, não me destacar. Não queria que ninguém soubesse quem eu era.

Marcus pareceu satisfeito com a minha resposta, pois ficou em silêncio por alguns minutos. Ele não era o tipo de pessoa que falava apenas para

ouvir a própria voz, o que me deixou grata.

Quando o jatinho chegou à altitude de cruzeiro, eu disse a Marcus: —

Acho que vou tentar dormir um pouco. — Eu estava exausta por causa do exercício leve que tivera que fazer durante o dia. Só o que eu fizera fora receber alta do hospital e ir até o jatinho de Marcus. Ainda assim, parecia que eu tinha passado o dia inteiro fazendo trabalhos pesados.

Ele abriu o notebook e, sem olhar para mim, respondeu: — O quarto fica lá atrás. Durma o quanto quiser, é uma viagem longa.

— Obrigada. — Soltei o cinto de segurança e fui até a parte de trás da aeronave grande.

Todos os meus irmãos tinham jatinhos particulares e não era incomum que eu visse aquele nível de conforto e conveniência. Mas parecia estranho ser a única outra passageira em um avião tão grande.

O quarto tinha uma cama grande, tamanho king, e um banheiro ao lado.

Entrei no banheiro para vestir uma camisola. Ver minha mala ao lado da porta do banheiro não fora surpresa. Marcus obviamente exigia eficiência de sua equipe, o que recebia sem questionamentos.

— Terminou de usar o banheiro? — A voz de Marcus ao meu lado, no quarto, quase me fez dar um pulo de susto. Sim, eu sabia que ele ainda estava a bordo, mas levei um susto mesmo assim.

Naquele momento, não era preciso muito para me assustar.

Eu assenti. O banheiro tinha duas entradas. Uma para o quarto e a outra para fora dele, ao lado da porta do quarto. Um olhar rápido mostrou que a porta do banheiro ao lado da porta do quarto estava fechada e que Marcus só estava conferindo se eu terminara.

Tentei acalmar os nervos, recriminando-me por estar tão tensa. Em seguida, olhei para Marcus para garantir que eu não era louca.

O olhar penetrante dele foi tão intenso que parecia que estava abrindo minha alma.

Sem afastar o olhar de mim, ele disse: — Só quero usar o banheiro. — Ele fez uma pausa e perguntou: — Ei, você está bem? Está muito pálida.

— E-estou bem — menti com facilidade.

Na verdade, eu não estava me sentindo nada bem. Meu corpo lentamente ficava mais forte, mas minha mente não funcionava tão bem como antes.

Obviamente, eu me assustava com facilidade e não conseguia impedir que minha mente voltasse para meu tempo como prisioneira.

Estou segura. Estou segura.

Imaginei que, se repetisse esse mantra por algum tempo, talvez começasse a acreditar que ninguém me machucaria.

— Mentira — xingou Marcus. — Você mal parece conseguir ficar de pé.

Ele chegou mais perto, com o corpo enorme empurrando-me contra a parede como se estivesse pronto para me segurar, caso eu caísse.

— Estou cansada — admiti enquanto continuava a encará-lo, tentando não reagir quando ele colocou uma mão em cada lado do meu corpo, deixando-me aprisionada.

— O que mais, Danica? O que está incomodando você? Conheço essa expressão no seu rosto. Eu já a vi antes em outras situações de resgate.

Marcus era meu único confidente naquele momento, portanto, as opções eram contar a ele qual era o problema ou mantê-lo guardado. Decidi pela primeira opção. — Não consigo parar de pensar no que aconteceu. Eu estava tão certa de que iria morrer, Marcus. Voltar para este mundo, sabendo que ninguém mais vai me machucar, é um tanto surreal. Estou feliz. De verdade. Mas o medo não vai embora. — As palavras saíram da minha boca de forma desajeitada.

— É normal — disse ele. — Você não tem como sobreviver a uma provação dessas sem desenvolver uma grande dose de preocupação e ansiedade. Quer conversar sobre isso?

Sim!

Não!

Ai, meu Deus, eu não sabia o que queria. Talvez eu precisasse falar, mas certamente não queria, especialmente com Marcus. Eu estava acostumada demais a sempre manter a guarda levantada perto dele. No entanto, ele era tudo o que eu tinha naquele momento.

— Na verdade, não — murmurei. — Está no passado. Só quero ser eu mesma de novo.

— Lamento por não termos buscado você mais cedo — murmurou Marcus. — Você ficou à mercê daqueles idiotas por tempo demais.

— Você salvou a minha vida — relembrei a ele. — E foi um risco considerável para você e o restante da equipe de resgate. Só estou grata por ter chegado lá antes que eu morresse.

Marcus ergueu a mão até o meu rosto e encolhi-me de forma automática.

Mas ele simplesmente acariciou minha pele machucada enquanto

respondia: — Aqueles filhos da puta pagarão por todas as vezes em que encostaram em você, Danica. Eu juro.

Balancei a cabeça negativamente. — Duvido que eles sejam encontrados algum dia.

— Eles serão — contradisse Marcus. — Todos eles estão provavelmente mortos agora. Entramos em contato com o exército no momento em que saímos da área para que pudessem fazer um ataque aéreo no complexo. —

Ele fez uma pausa. — Eles estão todos mortos. Isso ajuda?

Ajudava saber que meus atormentadores provavelmente não estavam mais vivos? Eu não sabia ao certo se fazia alguma diferença. — Não sei —

respondi com sinceridade. — Eles ainda não estão mortos na minha mente, Marcus.

O toque dele foi gentil na minha pele machucada, e o cheiro e o calor dele eram inebriantes. Fingir que eu tinha Marcus para me proteger ajudou.

Minha mente estava concentrada nele e na forma como ele fazia eu me sentir normal de novo.

— Você ficará segura, Dani. Ninguém mais vai machucar você — disse ele com um grunhido feroz.

Hesitantemente, passei os braços em volta do pescoço dele, estremecendo com o simples contato casual dos meus dedos na pele de Marcus. —

Obrigada — sussurrei, sentindo meu olhar se perder nos olhos cinzentos dele.

Ele baixou a cabeça lentamente, dando-me tempo suficiente para evitá-lo, se desejasse. Mas eu queria que Marcus me tocasse. Eu queria me sentir viva.

O abraço foi gentil, um encontro persuasivo de bocas, com Marcus tentando tirar algo de mim que não conseguia com palavras.

Ele colocou os braços em volta de mim ao invadir minha boca, com as mãos descendo pelas minhas costas e parando no meu traseiro.

No segundo em que ele me puxou para a frente, com meu corpo seminu, eu me perdi na sensação de proteção, calor e ternura de seu beijo. A ereção dele pressionou minha barriga e entrei em pânico, esquecendo de tudo, exceto minha reação instintiva e visceral.

Minhas mãos foram para o peito dele e comecei a arranhá-lo para tirá-lo de perto de mim. Afastei os lábios dos dele, sem conseguir aguentar os flashes de lembranças que invadiram minha cabeça. — Não. Por favor. Não.

— Dani! — disse Marcus firmemente, sacudindo-me de leve. — O que diabos aconteceu? Abra os olhos.

Os comandos dele finalmente entraram no meu cérebro confuso e abri os olhos. Eu não percebera que os fechara para tentar afastar as lembranças, uma reação espontânea que só piorara a situação.

— Marcus? — O rosto dele estava bem ali, em frente ao meu.— Ai, meu Deus. Desculpe.

— Não se desculpe por algo que não foi culpa sua. Vou perguntar mais uma vez... você está bem?

As lágrimas escorreram pelo meu rosto quando olhei para ele. — Não —

respondi. — Não acho que eu esteja bem. No momento, não tenho certeza se algum dia serei normal de novo. Eu me sinto uma prisioneira no meu corpo. Isso me assusta.

— Eu sei. As coisas vão melhorar. Mas não posso ajudar você se não quiser falar sobre o que aconteceu. — Ele hesitou, estudando meu rosto. —

Você disse que não foi atacada sexualmente, mas acho que está mentindo.

Afastando-me com facilidade de Marcus, limpei as lágrimas do rosto. — É

difícil falar sobre aquele período — respondi com sinceridade. — Fui degradada, surrada até não querer mais lutar. Mas eu não podia não tentar tirá-los de perto de mim. Não quero que ninguém saiba de tudo que aconteceu comigo. Não quero continuar a reviver aquilo.

Todas as emoções que eu tinha pareceram ter subido à superfície.

Continuei a falar, agora de costas para Marcus. — Foi como um pesadelo horrível do qual eu não conseguia escapar, mesmo enquanto estava acordada. Especialmente enquanto eu estava consciente e relativamente alerta. No começo, foram necessários vários homens para me segurar enquanto eu era estuprada. Depois de algum tempo, bastavam uns poucos.

À medida que eu ficava mais fraca, era cada vez mais fácil me usar e torturar.

— Por que não me contou? — perguntou Marcus em tom ríspido, virando-me para que o encarasse novamente.

Minha fúria pareceu ser libertada. — Eu não queria contar a ninguém. Que diferença faria? Eles não vão enfrentar a justiça em um tribunal. Todos os meus irmãos iam querer matar os terroristas.

A expressão de Marcus foi de indignação. — Foda-se isso. Eu quero matá-los só por terem encostado em você. Acredite, se não estivessem mortos, eu

mesmo faria o trabalho.

Abracei meu corpo para tentar me reconfortar. — Consegue guardar os meus segredos? — perguntei com a voz rouca. — Não existe motivo nenhum para que alguém saiba.

— Você precisará fazer terapia, Danica — retrucou Marcus. — Mas sim, consigo guardar os seus segredos. O que você diz às pessoas é decisão sua.

Sentei-me na cama, com os joelhos prontos a ceder por causa do medo. Eu queria conversar com alguém, mas não a minha família. Ele tinha razão. Eu provavelmente precisaria de terapia depois do que acontecera, mas não queria dividir isso com a minha família. Minha sensação de vergonha e humilhação era grande demais. Todos eles achavam que eu era louca por ir para tumultos e zonas de guerra. Eu não queria que eles soubessem de todas as consequências do meu trabalho. Isso só serviria para preocupá-los quando eu quisesse voltar a trabalhar.

Marcus tirou o casaco do terno e jogou-o sobre uma cômoda. Em seguida, sentou-se em uma cadeira perto da cama. — Estou escutando, Danica.

Talvez não ache que eu seja um amigo, mas estou aqui para ajudar se precisar de mim.

Ele estava composto, parecendo pronto para ouvir sobre a minha experiência.

A dor.

O terror.