Bilionário Revelado: Marcus
Capítulo 9
— Ele não me deu um soco. Bateu com as costas da mão.
— Só o fato de ele ter tocado em você é um bom motivo para que eu o encontre. Ele não pode machucar você desse jeito, Dani. Pelo amor de Deus! Ele sabe pelo que você passou? Ele se importa?
— Não — respondi em tom suave. — Não para tudo. Ele não me conhece nem um pouco.
Um soluço escapou da minha boca. E outro. E mais um. As lágrimas começaram a correr livremente pelo meu rosto. — Não me deixe agora.
Não vá atrás dele — implorei.
— Dê-me um bom motivo para que eu não faça isso — resmungou ele.
Ele estava hesitante, correndo a mão pelas minhas costas em carícias reconfortantes.
— Porque eu preciso mais de você — respondi em tom impotente, passando os braços em volta do pescoço dele, sabendo que tinha que ceder e dividir meus segredos.
Dani
Eu não estava acostumada a chorar sem parar, mas parecia muito fácil só deixar acontecer quando Marcus me segurava contra ele. O corpo sólido fazia eu me sentir segura.
Ele ergueu meu corpo com facilidade e sentou-se no sofá, segurando-me no colo enquanto eu botava para fora todo o pesar, a frustração e o medo.
Ele não fez perguntas.
Não tentou me fazer parar de chorar.
Só o que fez foi me segurar, confortar-me, dar-me algo que eu nunca tivera antes.
— Odeio chorar — admiti finalmente com um soluço.
Com a boca perto do meu ouvido, ele disse em tom provocante: — Para algo que odeia, você parece estar chorando muito.
Sorri de leve, pensando que aquele era um comentário típico de Marcus.
Mas havia um toque de bondade no tom provocante que fez eu me sentir protegida.
Sinceramente, Marcus me fazia sentir segura em ser eu mesma, algo de que precisava muito naquele momento. — Acho que acabei por enquanto.
— Pode continuar o tanto que quiser — respondeu ele secamente. — Ter seu traseiro maravilhoso sobre o meu pau não me incomoda nem um pouco.
— Você é um pervertido — acusei enquanto limpava os olhos.
— Não, Dani. Estou preocupado com você.
Aquelas palavras simples deixaram meu coração apertado. Eu estava acostumada a viajar, a cuidar de mim mesma. Eu estava sozinha. Sempre sozinha. Eu tivera um relacionamento na universidade e tentara uma conexão com um correspondente, mas que não terminara bem. Nós dois viajávamos tanto que raramente nos encontrávamos e parecera mais um tipo de amizade colorida. Finalmente terminamos e eu nunca mais tentei de novo. De que adiantava? Eu estava sempre em movimento e nenhum relacionamento teria uma chance quando viajava tanto.
Na maior parte do tempo, eu não me importava de depender apenas de mim mesma. Estava acostumada a ser solitária. Mas, desde que Harper encontrara Blake e depois de ficar prisioneira nas mãos de um grupo de rebeldes implacáveis, eu reconhecera o vazio na minha alma. O problema é que não podia preenchê-lo estando com alguém. Muitas vezes, eu estivera em um aposento cheio, mas ainda me sentia sozinha. Eu nunca percebera o quanto queria aquela pessoa que me faria sentir que não estava sozinha. As experiências da vida tinham me mudado e eu não conseguia voltar completamente ao jeito como fora antes do sequestro.
Minhas prioridades tinham mudado juntamente com a minha personalidade.
— Você não precisa se preocupar comigo — argumentei.
Eu sabia que poderia mudar de lugar agora que parara de chorar, mas o cheiro e a sensação de Marcus eram tão bons que não queria nem tentar.
Ele apertou os braços à minha volta. — Pelo amor de Deus, Dani, você está namorando um sociopata que acabou de bater em você, deixando seu rosto roxo. — Ele passou a mão pelos meus cabelos antes de acrescentar:
— O que me lembra que precisamos cuidar dessa bochecha.
— Tenho gelo — informei a ele, estendendo a mão para pegar o saco de gelo.
— Dê-me o saco — resmungou ele, gentilmente colocando o saco no meu rosto. Em seguida, ele me deslizou lentamente para o sofá para que pudesse se levantar.
— Aonde você vai? — Odiei o fato de minha voz demonstrar um ligeiro pânico.
— Você precisa tomar algo para a dor e a inflamação. Tem alguma coisa?
Eu colocara a mão sobre o saco de gelo para mantê-lo no rosto e, ao me mexer para levantar, ele protestou. — Fique aí — exigiu ele. — Vou
encontrar.
Tentei não notar que a proteção mal-humorada de Marcus era uma das melhores coisas que eu vivera desde o sequestro. Talvez eu não devesse achar aquilo tão doce como achava. Ele não estava derramando charme, pois não era tão charmoso. Ou talvez não fosse para a maioria das pessoas.
Porém, eu o achava quase irresistível. Palavras e ações sem sentido não eram o estilo de Marcus, o que tornava seus instintos protetores absurdamente adoráveis.
Indiquei a ele o balcão da cozinha. Não consegui ver seu rosto depois que ele abriu a porta, mas ouvi quando vasculhou os itens impacientemente até encontrar o que queria.
Ele me entregou dois comprimidos e um copo de água gelada.
— Ninguém cuida de mim há muito tempo — mencionei ao pegar os dois itens, engolindo obedientemente os comprimidos.
— Estou começando a achar que você precisa de um guarda-costas —
disse ele em tom desgostoso ao se sentar novamente no sofá ao meu lado.
Ele afastou minha mão, segurou o saco de gelo contra o meu rosto e pegou-me nos braços.
Suspirei ao colocar os pés sob o corpo e recostar-me nele. — Você vai se candidatar?
— Claro que não. Eu provavelmente mataria qualquer cara que chegasse a três metros de distância de você. Não consigo ver isso, Danica. Não consigo ver alguém machucando você de novo — respondeu ele com a voz irritada.
— Quase morri ao ver o que os rebeldes tinham feito com você e não consigo tirar as imagens dos abusos deles da cabeça. Sei que você cometeu um erro ao cruzar a fronteira, mas salvou alguns adolescentes burros. Eu entendo. Mas por que diabos deixa Becker fazer isso com você? Por quê?
Respirei fundo e soltei o ar lentamente antes de responder. — Demorei um tempo para endireitar a cabeça depois que voltamos para os Estados Unidos. Fiz terapia intensiva, mas eu estava sofrendo de ansiedade e de síndrome pós-traumática. Foi tão ruim que eu tinha medo de quase tudo e de todos no começo.
— Compreensível — comentou Marcus. — Qualquer um teria se sentido da mesma forma.
— Mas odiei aquilo. Eu nunca tive medo de nada. Viajei o mundo inteiro sozinha.
— Você é mesmo destemida — concordou ele.
— Não, eu era destemida, Marcus — retruquei. — Agora, preciso atravessar o medo que nunca senti antes. A terapia me ajudou muito e, depois de ficar um pouco mais estável com ela, lembrei de algo que ouvi enquanto estava no cativeiro. Eu me lembrei depois de superar o trauma inicial.
— O quê?
— Eu lhe disse que falo e entendo árabe, certo?
— Sim.
— Os terroristas mencionaram o nome de Gregory Becker. Marcus, ele está ajudando a custear os rebeldes. Está lavando dinheiro para mandar a eles. E estou falando de muito dinheiro. Eles o consideram o líder na guerra para tomar território porque é o dinheiro por trás da operação. Os negócios horrorosos dele, como tráfico de pessoas e de drogas, ajudam os rebeldes a tomar cada vez mais áreas.
Ele não questionou meu conhecimento. — Meu Deus! Por quê? Ouvi dizer que ele custeava terroristas, mas nunca entendi. O que diabos ele tem a ganhar? — perguntou ele.
— Dinheiro e poder — respondi. — Greg acha que os rebeldes tomarão o controle, o que dará a ele o controle do petróleo e dos recursos. Ele não se importa com a motivação deles. Só o que quer é ser o rei dos recursos que o tornarão o homem mais rico do planeta. É loucura, mas é assim que ele pensa.
— Então por que está com ele, Dani? Se ouviu isso tudo, o que está fazendo aqui? Por que quer ficar com um escroto como ele?
Suspirei, sabendo que chegara a hora de ser sincera com Marcus. — Eu não consegui voltar ao meu ritmo no Oriente Médio, portanto, decidi conseguir uma história exclusiva no meu país. Ele precisa ser detido. E
ninguém consegue as provas para indiciá-lo. Ouvi dizer que ele mantém registro das transações ilegais para que saiba quanto dinheiro foi desviado para os terroristas, bem como o método ou a empresa de fachada. Se eu conseguir encontrar esse diário, terei as informações para que ele fique preso para o resto da vida. O dinheiro para os terroristas pararia e ele não conseguiria mais atrair mulheres para a prostituição ou o tráfico de pessoas.
— Caralho! Você estava planejando expô-lo sozinha? — explodiu Marcus.
— Não exatamente. Eu ia levar as informações para as autoridades e fazer com que minha reportagem exclusiva saísse no mesmo dia em que o prendessem. Obviamente, eles precisariam de tempo para rastrear as provas até uma forma mais substancial do que apenas um diário. Mas esses registros dariam a eles as informações de que precisam para isso.
— Então você não ama Becker?
Tentei balançar a cabeça contra o ombro dele. — Não.
— Por que disse que precisava dele?
— Eu preciso dele. Tenho que ganhar a confiança dele. Ele finalmente me convidou a ir à casa dele, portanto, poderei ter acesso ao escritório e pegar o que preciso.
— Você não gosta de estar com ele?
— Gosto tanto de estar com ele como gostaria de estar em uma sala trancada com cobras venenosas — respondi com um tremor. — Mal aguento ficar perto dele. Não aguento quando ele encosta em mim e tenho que conter meu ódio quando me beija.
— O filho da puta beijou você? — perguntou Marcus em um tom furioso.
— Que opção eu tinha além de fingir que o acho atraente? Mas cada momento tem sido tortura pura. No entanto, se eu conseguir ajudar a derrubá-lo, terá valido a pena.
— As roupas?
— Ele escolhe exatamente que aparência quer que eu tenha. Becker é muito controlador. Infelizmente, ele gosta de trajes de puta. Ele é um imbecil que acha que é dono de todas as mulheres com quem namora ou trepa. Não há um pingo de decência nele, Marcus. E, acredite, eu procurei.
Ele é puro mal.
Foi bom finalmente contar a alguém por que eu estava tentando me aproximar de Becker, mas sabia que isso causaria complicações.
— Fico feliz por não ter perdido completamente seu senso comum e que vê Becker pelo que ele é. Mas não pode fazer isso sozinha. E não pode vê-lo de novo, Danica. O abuso só piorará de agora em diante e você está se colocando em perigo... de novo.
— Não vou desistir. Já cheguei perto dele, o suficiente para conseguir as informações de que precisamos para prendê-lo.
Eu sabia que teria que contar a verdade a Marcus. Ele merecia. Marcus salvara minha vida e não queria que ele continuasse a pensar que eu estava submetendo-me a um lunático. Eu esperava que, se contasse a verdade, ele pararia de insistir para que não encontrasse mais Becker. Pelo jeito... não.
— Você vai desistir. Se precisar, eu mesmo a sequestrarei — disse ele em tom exigente.
Eu me sentei e encarei-o nos olhos. — Tente. Não vou desistir. Há vidas demais em jogo. Greg precisa ser detido. Ele tem sede de poder e as coisas podem ficar ainda piores do que já estão. E se ele decidir que precisa ganhar mais território, mais guerras? Ele é mestre em cobrir seus rastros. Ele é insanamente desconfiado, paranoico e desonesto. Obviamente, é suspeito há muito tempo, mas ninguém conseguiu prendê-lo. As autoridades precisam de mais informações, dados que posso dar a elas. Só preciso chegar a essas informações.
— Então você vai simplesmente entrar na casa dele, trepar com ele e, depois, procurar as informações?
Balancei a cabeça lentamente. — Não acho que consigo deixar que ele me toque desse jeito. Acho que vou vomitar. Preciso pensar em outra forma.
— Você me deixa louco, mulher. Primeiro, resgato você das mãos de gente que, em algum momento, a mataria. E, agora, você está se metendo em uma grande encrenca em casa. Isso é arriscado e perigoso.
— Consigo lidar com isso, Marcus. Sei que consigo. Tenho que fazer isso para provar que ainda consigo fazer alguma coisa importante. Quando não consegui voltar para o Oriente Médio, perdi isso. Lá, eu me sentia contando histórias importantes. Eu queria que as pessoas entendessem o sofrimento humano que acontecia naquela região. O que eu fazia tinha um significado e, apesar de ter sido um tanto arriscado, levar informações para fora daquelas áreas era vital. Eu perdi isso. Agora, quero fazer algo que ajudará as pessoas de novo. Quero parar de sentir medo. Quero fazer algo útil.
— Você não vai fazer isso sozinha — insistiu ele ao puxar meu corpo contra o dele de novo. — Não posso ver você correndo esse tipo de risco.
— Não tenho escolha. Até eu pegar as informações, ninguém conseguirá encostar nele. — Eu suspirei. — Tenho uma amiga que conheci aqui em Miami, uma mulher que era sem-teto e foi levada pelo que acredito ser uma das equipes de tráfico de pessoas de Greg. Eles a atraíram com uma história de ajudá-la com um emprego, abrigo e comida. Agora, estão dizendo que ela lhes deve e que não pode ir embora até que pague. Esses idiotas procuram as pessoas mais miseráveis. Ruby era jovem. Ela nem fez vinte e
três anos ainda e eles querem leiloá-la para que um homem rico possa usar o corpo dela. Isso torna as coisas ainda mais pessoais para mim. E a pior parte é que não posso acolhê-la. Não posso ajudá-la e trair a confiança de Greg no momento. Mas alguma coisa precisa acontecer em breve. Tenho que resgatar Ruby e todo o dinheiro só deixará os rebeldes mais fortes.
— Jesus! Você é tão teimosa. Por que não consegue entender que nunca deixarei que faça isso sozinha? Entendo por que quer fazer, mas é um risco que não pode correr sozinha. E você não pode encontrar Becker de novo. Se eu perceber um arranhado que seja em você, vou perder o controle.
— Vou lutar contra ele. Não vou me segurar e deixar que ele me machuque de novo. Não é bom para a minha cabeça.
— Não é suficiente. Vou ajudar você, Dani, mas será nos meus termos.
Fiquei alarmada. — Marcus, você não pode. É perigoso o suficiente para mim. Porém, para um homem que está atrás dele, é suicídio. Ele mataria qualquer um que achasse que estivesse procurando alguma sujeira dele.
— Ele não vai suspeitar de mim — disse ele em tom direto.
— O que o faz pensar isso?
— Porque há coisas que você também não sabe sobre mim, Dani, coisas que ninguém sabe, exceto minha família.
— O quê? — perguntei sem fôlego, pois a voz dele ficara subitamente muito sombria.