Certa herança marxista

José Arthur Giannotti · Capítulo 11 de 29

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Certa herança marxista

3.2. A ponderação weberiana

A ideologia alemã somente apareceu em 1932, mas já os textos publicados nos Anais Franco-Alemães lidam com essa ideia de um universal estruturante e alienado, diferente do conceito acabado de capital, responsabilizando-se pela socialização das atividades individuais. Até que ponto esses escritos alimentaram a sociologia dos neokantianos, não saberia dizê-lo, mas é interessante observar certas semelhanças estruturais entre eles e o que escreveram autores que procuraram ler Marx a partir da sociologia compreensiva. Não é por meio de um universal prático que o próprio Max Weber faz com que os interesses se tornem coletivos e se liguem a imagens do mundo?

São os interesses [...] não as ideias que dominam de imediato a

atividade dos homens. Mas as "imagens do mundo", que são

engendradas pelas "ideias", muitas vezes desempenharam o

papel de agulha para determinar as vias pelas quais a dinâmica

de interesses impulsiona a ação [Weber, Gesammelte Aufsätze

zur Religionssoziologie, I, 252].

Essa ideia de imagem do mundo, por certo problemática para o próprio Weber, nos indica uma matriz de identidade representada que, se não podemos agora estudá-la em toda sua complexidade, nos serve para lembrar que os conceitos de razão por ele utilizados mantêm no horizonte uma articulação de fins fixada, diante da variação dos meios a que ela dá margem. Esse procedimento, mutat is mutandis, será traduzido a seu modo por autores da Escola de Frankfurt, abrindo então caminho para toda sorte de logomaquia. Daí o interesse de apanhar essa ideia no momento em que surge no pensamento de Max Weber. Impossível examinar aqui todos os meandros desse pensamento, cuja riqueza nunca será esgotada. Mas esboçar um flagrante dele, embora beire à caricatura, salienta a originalidade do caminho percorrido por Marx. Não é isso o que nos importa?

Lembremos que, desse ponto de vista, toda ação social possui um sentido apreendido por uma espécie de intuição intelectual, por uma evidência, que pode ser de caráter racional ou meramente afetiva, receptivoartística (Wirtschaft und Gesellschaft, Studienausgabe, Colônia/Berlim, Kiepenheuer & Witsch, 1956, I, II, § 2, 17 [WG]; trad. espanhola, Economía y Sociedad, I, 4-5, Fondo de Cultura Económica, 1944). Note-se que esse sentido da ação social sempre implica captar uma referência subjetiva a algo, mentado realmente nas ações particulares ou na média delas, de modo aproximado. Por isso é possível, por exemplo, falar no sentido da ação de um grupo de pessoas. Ainda essa compreensão pode remeter a um sentido construído cientificamente graças à conformação de um tipo ideal. Mas também aqui a variação dos exemplos, para que se abstraia a identidade do tipo, reporta-se a um sentido representado, posto como referência para a análise do investigador. Por certo, esse sentido sempre remete à ação de outros, seja a indivíduos, seja a um grupo indeterminado. "Dinheiro", por exemplo, significa um bem que o agente adquire porque espera que muitos outros estejam dispostos a aceitá-lo (WG, I, II, § 6,53; trad., I, 20). Mas também nesse caso a multiplicidade está sempre representada, desprovida de qualquer reflexão interna. Cumpre ainda lembrar que a ação é "economicamente orientada" quando "seu sentido subjetivo está orientado pelo desejo de obter certas utilidades". Esse recurso a um tipo particular de sentido, um bem, dispensa explicitamente os conceitos de valor-trabalho e de valor marginal. Isso porque o sentido que marca a atividade econômica, assim como todas as outras dirigidas a objetivos, implica a ponderação de meios e fins que ambiguamente – não se cansam de salientar os comentadores – tanto realiza a ação do ponto de vista social como a torna compreensível do ponto de vista da Ciência contemporânea, toda ela imbuída dessa forma de racionalidade.

Atua racionalmente em vista a fins aquele que orienta sua ação

pelo fim, pelos meios e pelas consequências implicadas nela, e

para isso pondera [abwägt] racionalmente os meios com os fins,

os fins com as consequências implicadas e os diferentes fins

possíveis entre si; em todo caso ele não está atuando quer

afetivamente (emotivamente, em particular), quer em vista da

tradição [WG,§ 2, 4, 13; trad., I, 24].

Toda a dificuldade, assim me parece, reside nessa referência ao processo de ponderar. Costuma-se, com o apoio do livro terceiro da Ética Nicomaquéia, atribuir a Aristóteles a tese de que a deliberação sempre diria respeito apenas aos meios. Sendo postos os fins é que cabe examinar assim aqueles meios pelos quais os objetivos podem ser realizados no mundo afetado pela contingência (Ética Nicomaquéia, III, 3, 1112 b 26 ss. [EN]). A análise seria sempre regressiva, pois a variação dos fins não obedece aos mesmos incidentes impostos pelo mundo sublunar. No entanto, os comentadores contemporâneos sublinham passagens do livro sexto nos quais cabe a uma percepção (aísthesis) particular o papel de apreender no caso o universal por meio de um procedimento implicando a ponderação do pensamento:

E, que a sabedoria prática [phrónesis] não é ciência

[epistéme],é evidente, já que lida com o particular, como foi dito,

pois desse tipo é aquilo que é feito [tò praktón]. Opõe-se, então,

ao intelecto [noûs], visto que o intelecto lida com definições das

quais não há demonstração [lógos], enquanto a sabedoria

prática lida com o particular, do qual não há ciência, mas

apenas percepção [aísthesis] – não a [percepção] dos sensíveis

próprios, mas aquela pela qual percebemos algo particular; nas

matemáticas, é um triângulo, pois paramos ali. Mas essa

[percepção do particular como triângulo] é mais percepção do

que sabedoria prática, embora sua espécie seja diferente [EN,

VI, 9, 1042 a 23-30, trad. Alonzo Muñoz].

Daí, quando se decide sobre o equitativo, a importância de parâmetros indefinidos, de uma estranha forma de medida: "De fato esta é a razão por que nem tudo é determinado pela lei e ordenações especiais se tornam muitas vezes necessárias. Pois o indefinido em si mesmo só pode ser medido por um cânone indefinido, como aquele cânone de chumbo usado pelos construtores de Lesbos" (EN, V, 10, 1137 b 27-32).

Para apreender em cada caso o tipo, Aristóteles lembra a necessidade de empregar parâmetros maleáveis, como aquela vareta de chumbo que prefigura o oco e serve para escolher a pedra que vai lhe ser mais adequada. Como, porém, determinar o campo dessa maleabilidade?

Voltemos a Weber. Ao recusar a diferença entre fenômeno e númeno, mediante a qual Kant ainda podia distinguir o fim posto na natureza e o escopo moral, Weber, seguindo os neokantianos, pode variar no mesmo plano, meios e fins, mas necessita então recorrer a um aprendizado da ponderação no curso do tempo. É nesse nível que as dificuldades se armam e apontam para soluções. Na história, esse padrão se configura conforme as civilizações vão sendo atravessadas por atividades racionais em vista de seus fins; nas ciências, conforme progride a explicação baseada em tipos ideais, construções significativas a demarcar o campo da análise causal. A ação social tradicional ou afetiva se determina por sentidos que se impõem como costume enraizado ou estados de alma atuantes. Mas já se torna racional em relação a valores quando os meios para atingi-los passam a ser sopesados. Somente, entretanto, chega a ser racional com respeito a seus fins quando também estes são igualmente avaliados. Mas esse processo de abstrair funciona como um compasso que precisa fixar uma ponta para que a outra possa mover-se. Ora, essa avaliação se faz tanto pelos atores como pelos cientistas, de sorte que estes formulam regras que estão sendo seguidas por aqueles. É a mesma, porém, a prática científica e a prática social? A construção do tipo ideal daquele agente racional em relação a seus fins é ambígua. Em certos textos, Weber insiste numa solução de continuidade entre o tipo, conceito heurístico para compreender a ação social, e o comportamento racional do ator; noutros é como se existisse um fio vermelho ligando os dois lados, pois a mesma forma de racionalidade, embora diversamente clara, opera entre eles. Com efeito, o cientista somente pode construir o tipo da ação racional em relação a fins, vale dizer, ponderadora de meios e fins, se estiver ligado à herança ocidental que se configura por excelência na ética protestante da convicção. A elaboração dos tipos ideais, a formulação de hipóteses e "o sólido esqueleto da imputação causal" configuram condições de validade para as ciências em geral, de sorte que "é verdade cientifica somente a que quer valer para todos aqueles que querem a verdade" (Gesammelte Aufsätze zur Wissenschaftslehre, 184). Por isso toda ação dotada de sentido é potencialmente racional (cf. Colliot-Thélène, Marx Weber e a história, São Paulo, Brasiliense, 1995, 112 ss.).

No entanto, se a racionalidade é progressiva, para Weber ela nunca pode deixar de ser situada. Até quando consegue avançar a ponderação dos fins? Se a racionalidade do pesquisador depende da racionalização de sua imagem do mundo, se esta, por sua vez, está ligada à ética protestante da convicção, sua racionalidade simplesmente não vem a ser a racionalização de uma conduta de vida irracional? Esta, conforme nos informa Habermas (Theorie des kommunikativen Handelns, 1, 260, Suhrkamp, 1981), é a objeção feita por L. Brentano. A ela Weber responde:

É de fato assim. "Irracional" não é sempre algo em si, mas a

partir de determinado ponto de vista "racional". Para os

irreligiosos toda conduta de vida religiosa é "irracional", o

mesmo valendo para o hedonista em relação à vida ascética,

embora, medida por seu valor último, [essa conduta] possa

também ser uma "racionalização". Se este ensaio [sobre o

espírito do capitalismo] contribui para algo, será para desvendar

as múltiplas facetas do conceito de "racional", um conceito que

não é unívoco a não ser na aparência [Weber, Gesammelte

Aufsätze zur Religionssoziologie, 1, 35, n. 1].

Habermas não aceita essa resposta, pois Brentano contesta a consistência interna de uma forma devida, considerada por Weber a figura exemplar daquela forma que, incorporando aspectos básicos da racionalidade prática, continua, porém, exprimindo uma especificidade cultural. Se essa razão posta pela ética da convicção comporta traços irracionais situados no mesmo nível em que a análise opera, então a contradição somente se soluciona quando é estabelecido o caráter parcial dessa figura histórica da racionalidade ética. Como sempre, Habermas constrói a contradição impondo a Weber sua concepção de universal e de significação. Se a ação comunicativa serve de paradigma universal para o resto das ações com sentido, segue-se que qualquer ação racional em relação a fins, cuja ponderação dos fins esbarra num valor imponderável, se torna irremediavelmente parcial. Não haveria, porém, outro modo de constituição da universalidade? O relacionamento do pesquisador com sua imagem do mundo não é causal, esta lhe apresenta um horizonte de possibilidades que ele mesmo deve fazer avançar. O que é feito graças à experiência de mudar os pontos de vista a partir dos quais a racionalidade dos meios e dos fins parciais é ponderada; em suma, quando se aprende a mudar de pontos de vista e essa técnica fica à mão. Caso se pretenda dar assentamento sociológico a essa variação, como fez Karl Mannheim, atribui-se ao grupo social dos intelectuais a capacidade de assumir esse ponto de vista universalizante, a partir do qual o universo se desvela. Mas o pensamento situado, perspectivado, não pode encontrar outra espécie de universalidade que não necessite pressupor uma medida determinante válida para todas as situações? Não é o que pretendem filósofos de tradições tão diferentes como Merleau-Ponty, explorando a crise da fenomenologia, e Wittgenstein, ao ir além da filosofia analítica? Mas ambos precisaram colocar em xeque essa própria ideia de limite, procurando o universal no processo de reposição de sistemas de regras que se voltam umas para as outras. Seguindo por esse caminho, procurarei mostrar que, para Marx, o jogo da razão e da irrazão vai ser tecido no próprio desdobramento dos conceitos contraditórios que travam o modo de produção capitalista.