Certa herança marxista
4.14. Categorias fibriladas
No entanto, as novas formas de associação continuam recolocando em sua base a mesma contradição originária entre meios de produção e trabalho, ambos isolados de suas condições efetivas de existência e somente se acoplando se, primeiramente, forem traduzidos em preços, em seguida, se operarem para fazer crescer o bolo do lucro. Se essa composição técnica ainda procura ser expressa pela composição do valor, o movimento interno de diferenciação das forças produtivas impede que o desdobramento das categorias desenhe a figura do círculo fechando-se em si mesmo.
Se, na verdade, um único capital perde sua capacidade de medir todos os processos produtivos que ocorrem no intervalo de sua reposição, na base de um só parâmetro, ainda não conservaria seu sentido de indicar como forças sociais antagônicas são de fato unificadas na reiteração do processo produtivo, mediante a ilusão necessária de que, em última instância, elas continuam sendo mensuráveis na sua totalidade? E as mensurações efetivadas nos vários setores confirmam a ilusão parcial da completude. Se, além do mais, o descompasso entre essas categorias básicas e seus suportes faz com que eles se despersonalizem, isso não consistiria condição para que o sistema funcione sem a perspectiva de um colapso final? Se a contradição entre capital constante e variável permanece exprimindo como o trabalho é comandado de fora, sem, todavia pôr em xeque o elo que os une, ela não passa igualmente a traduzir uma forma travada de sociabilidade, uma sociabilidade que não pode nem mesmo encontrar distintamente as expressões numéricas pelas quais pensa repor-se automaticamente? Mas se perde assim seu sentido econômico mais profundo, sua capacidade de medir efetivamente a riqueza social produzida em termos de valor-trabalho, não continua sendo a única forma de sociabilidade pela qual essa riqueza é gerada?
4.14. Categorias fibriladas
Não há dúvida de que essa travação afeta o comportamento dos agentes. Vimos que personificam categorias conforme suas próprias ações passam a ter sentido diferente daquele originariamente visado, conforme o sentido particular de cada ação é socializado por um processo de conformação de um sentido social que oculta seu fundamento, o capital na sua qualidade de comando do trabalho alheio. Por outro lado, eles se conformam para seguir a regra determinada pela categoria e se reconhecem como indivíduos dotados de direitos sobre a mercadoria que trazem para o mercado. Sem as crises, esse equilíbrio visado, ocultando a exploração do trabalho, não chegaria à consciência dos assalariados estruturada inicialmente pelas formas alienadas da distribuição tríplice dos rendimentos. O mesmo acontece com a organização das classes, que aglutina outros atores. Mas o obstáculo da reificação se torna ainda muito mais intransponível quando se esfuma a diferença específica entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo. As relações sociais de produção continuam a se apresentar como combinatório dos fatores de produção, sem que se possa explicar então como essa combinação vem a formar uma totalidade que se coloca como fim em si mesma. Por que todos esses fatores continuam subordinados à substância do capital como esse fim em si mesmo, que somente existe se crescer continuadamente? Todo o processo produtivo fica submetido ao pressuposto de que esses fatores devem ter preço, calculáveis, por conseguinte por uma medida que os torne homogêneos entre si enquanto produtos. Somente quando essa medida for traduzida em termos da teoria do valor-trabalho, em suma, quando o preço dos produtos, inclusive da força de trabalho, remeter a seu fundamento comum, fica patente que a circularidade em si do capital é gerada a partir do pressuposto de que todo o processo produtivo se move tendo como princípio um quantum de trabalho morto em vista do qual o trabalho vivo se mede socialmente. Marx procura, então, mostrar que a combinatório dos fatores de produção, demarcada pelas três fontes de rendimento, depende do desenvolvimento formal do valor, subsunção dos valores de uso aos valores de troca, os quais surgem como determinações quantitativas de uma massa de valor, posta a crescer por si mesma. Trata então de traçar a gênese das formas mais aparentes da sociabilidade capitalista. Mas a explicação do sentido profundo da relação entre capital-lucro, terra-renda, trabalhosalário, termina por mostrar que, em virtude do desenvolvimento tecnológico, as formas de lucro e aquelas de juro, ligadas profundamente a esse lucro, não logram mais se exprimir em preços do mercado, já que o pressuposto da homogeneidade do trabalho se perde no percurso de sua realização. No entanto, visto que os fatores de produção continuam se combinando para se integrar numa totalidade que há de crescer por si mesma, por conseguinte, sendo remetidos a um fundamento comum, as categorias que configuram as formas trinitárias continuam a ser propostas de medida sem lograr medir do ponto de vista social total. Cada fator de produção é medido por seu preço, sendo que todos eles somente se combinam na esperança de lucro. Sendo cada fator posto como produto, todos eles devem exprimir o tipo de trabalho social que os gera. Já que essa forma de sociabilidade abstrai qualquer outra determinação a não ser aquela que é posta pela troca de produtos, todo trabalho vivo, que o sistema produtivo requer, deve ser medido objetivamente pelo trabalho morto socialmente necessário. No entanto, esse processo de medida social fica impedido conforme exprime diferenças de produtividade que apenas se aglutinam em blocos. O pressuposto da comensurabilidade total é sempre reposto pela intenção do sistema produtivo de gerar continuadamente lucro onde o capital for investido, sem, todavia se perfazer num único quantum determinado. É posto para medir sem lograr a medida social a que se propõe. Em vista dessa sua qualidade, as categorias não perdem sua determinidade quantitativa, mas deixam de servir de parâmetro quantitativo para a distribuição da riqueza social. Elas fibrilam, vale dizer, deixam de ser quantidades determinadas para conservarem a intenção social de ser quantificáveis. Essa nova irracionalidade implode o sistema produtivo numa totalidade centrífuga. Os atores agem tomando um padrão que não logra unificar socialmente os padrões efetivos confirmados pelo mercado, o que conduzo sistema a uma crise permanente, como se suas categorias demarcassem intervalos sem poder determinar os números que deveriam preenchê-los. Fibriladas, as categorias necessitam, para vir a ser formas sociais de pensamento, de outras instituições que compensem o que elas não podem pensar e medir. Aquela desarrumação constante, acima observada, da proporcionalidade, que assegura o método de projeção das forças produtivas nas relações sociais de produção, termina por institucionalizar intervenções contínuas no mercado, para que o lucro social continue a crescer.
Essa perda de sentido social das relações econômicas é um fato que a Escola de Frankfurt já tinha notado a partir dos anos 30. A dificuldade, porém, é interpretá-lo. Ora, por mais que a crise se torne sistêmica, o capital não coloca em xeque a matriz de sua positividade; por certo a cliva em regiões de produção que vão ser ligadas por correntes diversas, combinando economia e política, mas não é por isso que leis econômicas deixam de ter o sentido profundo que o capital lhes imprime e que as formas trinitárias expressam. É por isso que tento sublinhar as soluções de continuidade dos vetores responsáveis pelo desenho dos elementos idênticos formadores da composição orgânica do capital, mostrando assim que a perda de sentido já nasce no nível do travejamento das forças econômicas. No entanto, essas categorias explicativas e descritivas também modificaram seu sentido estrutural primeiro, de elementos encarregados de marcar os pontos duradouros da linguagem da produção; se continuam sendo postos para medila, ficam desprovidos de seus métodos de mensuração. Os agentes agem conectados a uma gramática profunda só percebida quando descrevemos o travejamento que demarca suas condutas, mas o profundo deixou de ser transformador, de tender a um fundo unitário, para contentar-se com a experiência da perda de sentido. Se a mão invisível do mercado de agora em diante necessita dos empurrões da política, esta por sua vez adquire seu sentido contemporâneo conforme orienta as forças econômicas para confirmar o capital como um fim em si mesmo ou para negar essa sua finalidade fetiche. Para Marx o capital vai fundo quando revela o lado material mais simples do processo produtivo. Ele mesmo saliente que somente o capital substitui o trabalho pela máquina onde o trabalhador pode trabalhar o máximo de tempo para ele.
Por meio desse processo fica de fato reduzido a um mínimo o
quantum de trabalho necessário para a produção de certos
objetos, mas apenas a fim de que um máximo de trabalho seja
valorizado no máximo de tais objetos. O primeiro lado é
importante, porquanto aqui o capital – inteiramente sem essa
intenção – reduz o trabalho humano a um mínimo, o dispêndido
de força. Isso favorece o trabalho emancipado e é condição de
sua emancipação. (G, 589)
Essa emancipação, contudo não ficou comprometida pela viscosidade do capital, que estilhaça sua positividade sem retirar dela o caráter de fetiche? Além do mais, o que pode significar essa redução do trabalho ao desgaste de sua força física, quando a homogeneidade visada do quantum de trabalho tomado como pressuposto da reflexão do sistema se põe pela mediação de quanta centrífugos? Não é ó próprio sentido do projeto emancipatório que há de ser reformulado?
A alienação do capital se ossifica sem que sua aparência traduza o sentido de sua reificação, como se as crises, catástrofes maiores ou menores, se resumissem a questões de desajuste natural sem pôr em xeque a própria racionalidade do modo de produção capitalista. Por isso o cotidiano se consola com a irracionalidade vivida. Nesse plano, tudo se coloca em termos de uma equidade prometida, que assim poderia ser lograda sem que a questão do trabalho social pudesse ser resolvida pelos elementos que sua reflexão centrifuga.
Com a indiferenciação entre trabalho produtivo e improdutivo, a mais-valia nunca chegará a ser exclusivamente para si, deixa de servir de medida objetiva da exploração do trabalho, de sorte que nunca os trabalhadores poderão se constituir no "trabalhador total" (Gesamtarbeiter) a que Marx se refere tantas vezes, ou, em termos sociológicos, nunca o proletariado se constituirá em classe para si, de sorte que a contradição se trava, não se perfaz, conforme se desfibram as individualidades do capital e do trabalho vivo a mover o trabalho morto se ambas as partes assumirem mil faces, lusco-fusco de aparências anárquicas, isto é, sem princípio unívoco, embora continue a sustentar aquela racionalidade perversa, segundo a qual meios de produção somente são movidos pelo trabalho para criar maior riqueza monetária, alimentada como fim em si mesmo.
Para sublinhar as peculiaridades da dialética marxista, convém lembrar que a contradição entre capital constante e capital variável, entre essas duas diferenças da substância valor, não pode escapar da ilusão quantitativa. Se na verdade a massa pressuposta não se repõe como um quantum inteiramente adequado ao pressuposto, não é por isso que todas as relações sociais de produção capitalista deixam de ser determinadas, em última instância, por sua intenção mensurante. O jogo dos preços, ademais, não repõe a ilusão de que tudo se passaria sem crise? A substância capital continua sendo a pretensão de medir por um mesmo padrão quer o trabalho morto incorporado nos meios de produção, quer o trabalho vivo. Se a crise revela empiricamente seu insucesso, a retomada do crescimento do capital como finalidade em si mesma indica como o equilíbrio proposto pela lei de Say faz parte da ilusão constitutiva do modo capitalista de produção.
Assim sendo, a dialética da contradição visada por Marx não toma distância daquela dialética da qualidade que Hegel opôs a Schelling? Posto o sujeito como identidade reflexionante, por conseguinte, como Eu igual a Não-Eu, surge a dificuldade de traçar, nessa contraposição, o limite do campo de cada um deles. A Schelling, que aí vê uma divisão quantitativa, Hegel, desde os tempos de Iena, objeta que esse limite é a qualidade de ser quantificável, vale dizer, uma determinidade do ser. Somente assim a oposição entre o Eu e o Não-Eu pode vir a ser uma contradição em que o negativo possui a qualidade de ser positivo, portanto, de encontrar em si mesmo o empuxo de sua superação, sua capacidade de formar nova identidade. Somente assim a oposição entre o positivo e o negativo pode se superar (aufheben) em positivo em si e negativo em si, abrindo o espaço que permite à oposição transformarse em contradição determinante e, caminhando então para o fundo, também caminhar para seu fundamento, pois a identidade resultante possui a qualidade da unidade. Se na dialética da quantidade e da qualidade Marx é herdeiro de Hegel, pois, como vimos, é a qualidade do capital ter como pressuposto o processo de homogeneização do trabalho que marca o início da reflexão desse capital, o processo de medir esse homogêneo chega a resultados diferentes. O valor é procedimento de medida realizado socialmente, forma de agir e pensar, mas o comum de que é constituído, alinhavando os inúmeros valores de troca, somente opera graças à ilusão de uma clausura efetiva. A análise de Marx incorpora, pois, um elemento kantiano, uma ilusão necessária pela qual as atividades se aglutinam, se socializam e perdem seus sentidos imediatamente visados, uma espécie de dever ser prático que foge do movimento efetivo. É sintomático que as categorias de superfície, ao serem analisadas por Marx, assumam o caráter de ideias reguladoras, pois esse movimento de expressão nunca pode terminar expressando por completo o expressado, como acontece lógica especulativa. Obviamente, ao introduzir esses novos elementos no desenvolvimento da dialética, Marx não poderia encontrar uma contradição que respeitasse os cânones hegelianos de superação. Vimos como a qualidade de quantum se efetiva em quanta centrífugos, de sorte que, se existe contradição em virtude de uma ilusão metafísica que opera no nível das ações, ela só poderia perder seu empuxo de superação. Em vez de se espiritualizar, como pretende Hegel, ela vai ao fundo apelando para o elemento natural, o dispêndio de energia, apenas reduzido à sua expressão mais simples, cuja unicidade, porém, é posta em xeque pelo próprio desenvolvimento categorial.
Chega-se aos limites da dialética que as relações sociais de produção tecem com o desenvolvimento das forças produtivas, configurando nova identidade que deveria ser o positivo no negativo, portanto, unidade qualificando as diferenças. Mas o desdobramento das categorias, se tende a destruir a identidade ilusória do pressuposto, em contrapartida, não consegue instalar aquela unidade qualitativa das diferenças centrífugas. Essa unidade só poderá ser obtida se um novo sistema de forças sociais vier se articular para repor o que o jogo das forças econômicas é incapaz de operar. Não será esse o sentido da política contemporânea?