Certa herança marxista

José Arthur Giannotti · Capítulo 24 de 29

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Certa herança marxista

4.10. Uma obra feita por vários caminhos

Tal como aparecem, os dois últimos volumes d' O capital, arredondados por Engels, tratam em linhas gerais de apontar para o colapso do modo de produção capitalista. Para esse propósito a lei da taxa declinante de lucro serve às mil maravilhas, pois, em primeiro lugar, se arma a partir do modo das categorias se quantificarem umas em relação às outras; em segundo lugar, converte esse modo de quantificar no crescente obstáculo à expressão de sua base, apontando assim para a derrocada definitiva. Todo o marxismo centrou seu fogo nesse alvo, mas os resultados foram pouco satisfatórios.

Em 1932 vêm à luz os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, redigidos quando Marx ainda se iniciava na crítica da Economia Política, por conseguinte, sem ter posto à prova seu método critico, naquela época muito próximo da dialética feuerbachiana. Esse texto abre o caminho para toda sorte de marxismo humanista. A partir de 1939 começam a ser publicados os Grundrisse, como indica o nome, feixe de notas explorando caminhos nem sempre convergentes. Essas duas publicações servem de base para o processo de implodir o corpus marxiano, liberando em geral as mais dispares interpretações. Como se encontra, hoje, a obra de Marx forma um arquipélago cujas ilhas podem ser ligadas por viagens diferentes, e não houve moda no pensamento do século XX que não tivesse sua contrafação marxista. A circularidade da dialética marxista não se fecha numa Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften, nem sua leitura cheia de obstáculos nos leva a perceber no final que os caminhos de Swan e dos Guermante formam um círculo, a despeito de se contraporem na geografia da infância. Um lado da obra inacabada de Marx aponta para a dissolução das determinidades relativamente simples em que as forças produtivas se projetam; outro, para o enrijecimento das proporcionalidades quantitativas que bloquearia o lucro, razão de ser do sistema. Apostar na primeira direção terminaria por retirar do capital aquelas determinações pelas quais uma contradição, no sentido hegeliano da palavra, encontraria o fundamento evanescente de sua superação. Marx se encontraria assim na difícil situação de pregar o socialismo científico sem ter logrado estabelecer as bases consensuais de sua crítica científica. Não é natural que procure incessantemente formular com precisão a lei interna que leve ao colapso o modo capitalista de produção, vale dizer, a lei da taxa declinante do lucro?

Para compreender melhor essa última aposta é preciso retomar a gênese das categorias que marcam a superfície da realidade capitalista e, embora muito brevemente, voltar ao problema da transformação do valor em preço. Uma questão crucial para os economistas da época, adeptos da teoria do valor-trabalho, era explicar como diversos processos de trabalho, atuando em diferentes esferas produtivas – por conseguinte, dotados de diferentes produtividades –, conseguem formar uma taxa de lucro única abraçando todo o sistema, que, caso contrário, explodiria em forças centrífugas. Interpretando a diferença entre capital constante e capital variável como contradição, Marx pretende mostrar que a mais-valia resultante de cada um dos setores operando com produtividade particular tende a se distribuir entre eles, de tal modo que o excedente econômico total seja relacionado às parcelas do capital investido. Se os capitalistas, na busca incessante de maiores rendimentos, estão sempre se deslocando para as áreas mais produtivas e, desse modo, também assegurando a diversidade de produtos de que eles e a sociedade precisam, todo o sistema precisa então operar tendo em vista o mesmo parâmetro de uma única taxa de lucro. Mas como fazer a ponte entre valores e preços de mercado? Acontece que, para formular os esquemas numéricos de transformação de valor em preço, os bens de produção só podem ser calculados pelos preços de produção, não por seus valores; a quantificação desses últimos fica assim encoberta pela concorrência intersetorial. Não são apenas os críticos de Marx que logo percebem essa dificuldade formal do modelo, ele mesmo a reconhece, embora lhe dê pouca importância para a discussão em que está engajado: