Certa herança marxista
4.5. Sentidos roubados
Atentemos primeiramente para os agentes responsáveis pela produção da riqueza capitalista e que atuam tendo em vista leis a eles se impondo como segunda natureza. Por que a reflexão do capital os determina como se fossem suportes de um processo cujo sentido lhes escapa? Vejamos como se dão os processos sociais pelos quais se realiza socialmente a composição orgânica do capital. Os agentes se apresentam desde logo como proprietários de mercadorias, mas igualmente como proprietários de partes do processo produtivo, meios de produção, terra, dinheiro, e força de trabalho, que somente se dispõem para o real se a propriedade inicial for valorizada. Note-se que isso também vale para os assalariados, que cuidam de transformar sua mercadoria em dinheiro. Já na estrutura mais simples, vigente entre produtores de mercadoria, as primeiras trocas somente podem deixar de ser acidentais quando encontram o padrão do equivalente geral e passam a ser feitas mediante o dinheiro já constituído (K, I, 23, 102). Do mesmo modo, os trabalhadores só colocam suas respectivas forças de trabalho sob a forma de valor depois que estas forem reiteradamente trocadas. Mas, na medida em que conformam sua força de trabalho para a troca, eles ficam impedidos de perceber a relação de dominação a que se submetem. A exploração se oculta ao assumir a forma de troca de equivalentes, da qual se torna privilégio participar. E só obtém emprego quem está livre das peias das sociabilidades pré-capitalistas ou é capaz de enfrentar a concorrência feroz de outros desempregados.
Do lado dos capitalistas, a propriedade do capital, mesmo quando se encontra efetivamente sob forma da posse de meios de produção, virtualmente sempre se coloca sob a forma de dinheiro, que se valoriza aparentemente se for investido na terra, na fábrica, no comércio, num serviço etc. ou aplicado no mercado financeiro. Essas opções estão no nível da vontade e do cálculo dos capitalistas individuais, sendo que agem, pois, tendo em vista taxas de retorno previamente representadas. Mas essa equivalência representada das opções é falsa da óptica sistêmica, porquanto no todo não se realizariam se parte considerável dos agentes não se inserisse na diversidade reflexiva do capital produtivo. É impossível todos ganharem investindo dinheiro a juros. No fundo, deve haver uma fonte de valor alimentando essa distribuição da nova riqueza social gerada. Isso significa que o sentido de cada ação é roubado pela maneira como ela se efetiva no contexto gramatical de outras ações. O sentido subjetivo de cada comportamento – e aqui subjetivo não diz respeito apenas ao lado mental, mas ainda àquela maneira pela qual uma representação se liga a uma categoria que se personifica na superfície das relações de produção – vai sendo subvertido pelo sentido que os produtos vão adquirindo na configuração de um processo total responsável pela reposição do sistema em funcionamento. No horizonte Marx está sempre imaginando que essa subtração de sentido das ações dos representantes de cada categoria do sistema será integralizada pela categoria de capital social total, quando todos os agentes, no que respeita ao lado representativo e gramatical de seus comportamentos ligados às suas respectivas propriedades, estiverem sendo subsumidos ao movimento de perequação da taxa de lucro, vale dizer, da uniformização do processo de autovalorização. Em poucas palavras, a reposição do pressuposto quantitativo, a despeito da ramificação crescente dos incidentes mediadores, estaria assegurada pela identidade congelada do capital como substância capaz de se autovalorizar e de encontrar sua própria medida.
Convém demorar-se no que estou chamando subtração de sentido. Os agentes agem efetivamente, de acordo com certos parâmetros vigentes, diante das opções que lhes são oferecidas; suas ações por sua vez resultam respectivamente em lucro, renda ou salário, ou ainda numa das configurações derivadas dessas categorias elementares da diferenciação do capital. Mas para que o representado na ação real seja logrado é preciso que certas mediações também se realizem, as quais em contrapartida vão dando sentido diferente ao sentido visado e aparentemente obtido, conforme elas ligam os produtos àqueles processos que os conduzem a seus respectivos destinos sociais. Os meios de produção devem, em última instância, estar vinculados a processos de trabalho que, por sua vez, somente se efetivam se forem, primeiramente, postos sob forma-valor, depois, integrados no processo mais geral de autovalorização do valor. Mas o arredondamento dessa reflexão está supondo falsamente, primeiro, que o caminho da mediação não esteja criando atritos e deixando rastros, os quais, por fim, viriam pôr em xeque a mensuração representada e requerida; segundo, que a formação de cada agente como suporte da nova categoria seja capaz de evitar que esse indivíduo se comporte de modo inadequado. Não reside aqui a chave da ilusão daqueles que acreditam no ajuste contínuo da oferta e da demanda, conforme a lei de Say? A mera intervenção de nova categoria – no caso mais simples, a troca de mercadorias passando a ocorrer em virtude da mediação do dinheiro – abre o espaço restrito de uma ação incorreta. Por isso Marx encontra a matriz formal da crise, já no modo de produção simples de mercadorias, na possibilidade de interromper a cadeia M – D – M, quando, por exemplo, alguém entesoura dinheiro e bloqueia sua capacidade de pagamento, impedindo assim a finalização do valor. Desse modo, oferta e demanda ficam sem poder de efetivação (K, I, 23, 128; TMW, 3, 510). É de notar, porém, que o comportamento certo e aquele errado hão de ser julgados no nível em que a razão da troca se efetiva. Se outras indagações sobre a racionalidade do sistema são possíveis, não é por isso que sua racionalidade pode ser avaliada do ponto de vista da reflexão exterior.
No entanto, assim como a cristalização da sequencia M – D – M oculta para a representação dos agentes a primeira possibilidade formal da crise, criando a ilusão de que o processo reflexionante se faz sem risco e sem solução de continuidade, também a formalização das relações do capital com o lucro, da propriedade fundiária com a renda, do trabalho com o salário cria a ilusão de que lucro, renda e salário nada mais seriam do que resultantes naturais do processo de trabalho. Se o aumento da riqueza aparece como processo natural, também é natural que cada trabalho receba sua remuneração. As relações profundas responsáveis pelo movimento de cada categoria do capital como um todo, porque o sentido de cada categoria está sendo roubado pelo movimento de seu produto, aparecem então exclusivamente como se fossem determinadas tão-só pelos momentos do processo de trabalho, isolado de seu movimento de socialização. Tudo se passa como se a reflexão do capital estivesse sendo mobilizada pelo esforço do assalariado, do capitalista e do proprietário fundiário, representantes dos três momentos do processo de trabalho. A racionalização da exploração irracional do trabalho alheio aparece, pois, como atividade racional em relação a fins.