Certa herança marxista

José Arthur Giannotti · Capítulo 23 de 29

Páginas do PDF

Certa herança marxista

4.9. Dialética constrangida

verdade, porém, elas são as condições materiais para explodi-

los (G, 593-4; trad., 85).

Em que condições, todavia, se dará essa explosão? Ora, se o próprio capital se torna incapaz de perfazer o desenho de sua identidade ilusória, igualmente o novo indivíduo social perde o padrão de sua identidade, porquanto esta depende daquela como ponto de referência da luta de classes. A unidade substantiva do capital se esgarça, mantendo sua capacidade de continuar comandando trabalho alheio, muito mais, porém, em virtude das posições estratégicas que ocupa no mundo da produção e das finanças do que na capacidade de medir como trabalho morto o trabalho vivo de que se alimenta, por conseguinte, de se medir legitimamente como a força produtiva principal. Em poucas palavras, mantém-se a qualidade do capital continuar crescendo, sua substancialidade, embora a quantificação pressuposta não logre encontrar sua expressão numérica, pois lhe falta aquele padrão social geral, cuja constituição se dá, como sabemos, no fim do ciclo, quando a medida esperada se confirma na demanda efetiva. Por certo, embora todo trabalho incorporado dependa da venda e da compra da força de trabalho, não desaparece aquela tendência de subsumi-lo à mesma abstração. Mas esse pressuposto reafirmado no nível dos preços não se realiza por completo no nível dos valores que integram o circuito totalizante do capital social. Note-se que também o mercado de trabalho se cliva em virtude do monopólio das qualificações, de sorte que a concorrência dos trabalhadores entre si – que, nas formações normais do capital, está alinhavada por uma única taxa de exploração, resultante da homogeneização dos vários processos produtivos – põe em xeque a unidade social do proletariado.

 

4.9. Dialética constrangida

Tudo isso resulta num impasse. O tempo disponível, supérfluo, em vez de ser orientado para a livre formação dos indivíduos, fomenta a matriz da dispersão e do desperdício. A segunda natureza criada pelo trabalho faz com que o trabalho abstrato perca sua função mensuradora efetiva, impondo-se, sobretudo por sua dimensão ilusória, sendo então posto para medir sem lograr medir. Lembre-se que a medida do valor é post festum, comprova o caráter social do trabalho depois do valor realizar-se no consumo, produtivo ou não. Quando o consumo produtivo não consegue inteirar-se no capital social total, o que vale a proposta da medida? Como pode funcionar essa "contradição em processo" se deixa de cumprir a determinação completa que permite sua superação? Em vez da esperada proletarização das massas, isto é, a totalização correspondente à unificação dos capitais numa única substância, recriam-se corporações que cotidianamente colocam em xeque a ideia reguladora do indivíduo social. Além do mais, o capital, para poder crescer desmesuradamente, trata de continuar impondo de fora um padrão de medida que não cabe mais nos seus casos, exportando miséria para fora de seu movimento reflexionante, cuja circularidade depende agora de toda sorte de irracionalidade externa. O próprio Marx já percebera que o desenvolvimento tecnológico tende a substituir trabalho onde existe força de trabalho excedente (G, 589), vale dizer, nos setores em que as forças produtivas estão mais desenvolvidas, de sorte que o novo capital passa a ser originariamente responsável por um desemprego externo à trama do sistema ou que circula nos seus poros. Se crescem as forças produtivas é porque uma parte da força produtiva dos trabalhadores é projetada para fora, de tal maneira que, em vez do tempo disponível, criam-se indivíduos sem nenhum vínculo social prévio, mas incapazes de chegar ao nível de formação requerido pela nova sofisticação do capital.

Tudo se passa como se a face idêntica da contradição entre capital e trabalho, ao perder a nitidez de seu perfil, porque a contrariedade interna de seus fatores também se esfarela, continuasse a ser reposta mediante imagens retorcidas. Quando, como ocorre hoje em dia a olhos vistos, nas forças produtivas avulta o peso das ciências e da inteligência do próprio trabalhador, onde se encontra o fio que alinhava suas formas de organização? A riqueza social se avoluma conforme aumenta sua capacidade de dispensar trabalho vivo. Isso, porém, é feito de tal maneira que:

se reduz ao mínimo o quantum de trabalho necessário para a

produção de determinado objeto, mas para que um máximo de

trabalho seja aproveitado [verwertet] para o máximo de tais

objetos. Esse primeiro aspecto é importante, pois aqui o capital

– totalmente sem querer – reduz o trabalho humano a um

mínimo, a dispêndio de força. Isso vem beneficiar o trabalho

emancipado e é a condição de sua emancipação (G, 589).

Mas para que essa revolução ocorresse, seria preciso que o novo indivíduo social pudesse tomar consciência de que seu trabalho foi reduzido ao mínimo denominador comum do dispêndio da energia natural, que a diversidade de suas formas estivesse soldada por conteúdo material mínimo. Para Marx a contradição vai ao fundo quando expõe o nervo vivo da relação material do homem com a natureza, quando o polo negativo, porque submetido ao comando do capital, evidencia sua positividade, sua brutal dependência física. Além do mais, visto que o trabalho social também é trabalho de organizar-se socialmente, vale dizer, processo reflexionante, ficaria aberta a possibilidade de que o trabalhador se reconheça como parte de nova identidade social, o proletariado. Mas onde reside o princípio de individuação desse reconhecimento, a pauta de seu aprendizado, quando a trama das relações sociais, em vez de indicar seu fundo, seu fundamento material, passa a sublinhar a particularidade e o privilégio do conhecimento científico, vale dizer, espiritual?

Em vez de empurrá-los para os limites da oposição, o novo capital solta os indivíduos de sua reflexão determinante para deixá-los girando em volta do circuito interno do sistema, como se fossem asteroides desgarrados de seu centro. Por certo, todos habitam o campo de sua gravitação universal, embora os dispensáveis sintam sua presença de modo tão fraco que se tomam como se estivessem subordinados ao acaso. Não se imaginaria, além do mais, que reinventariam nos poros do modo de produção capitalista formas précapitalistas de trabalho informal, distantes da influência direta do movimento do capital, da força centrípeta de sua substância-sujeito. O que lhes restará como princípio unificador a não ser uma forma de consumo? Desse modo, a oposição ao capital, quando surge, não se põe exclusivamente em termos de uma contradição entre forças produtivas e relações de produção, como se as primeiras não pudessem comportara individualidade positiva do proletariado. Além do mais, os periféricos miseráveis que o capitalismo continua produzindo em grau cada vez maior e a massa de consumidores vorazes, que tudo fazem menos se conformar a uma individualidade social, não constituem forças produtivas diretas do capital, precisamente porque foram excluídos praticamente do universo do trabalho moderno. Cria-se, pois, enorme capacidade de trabalho desobrigada de crescer, sem pôr em xeque a divisão entre trabalho necessário e trabalho dispensável, embora a fronteira entre essas duas partes oscile continuadamente, incapaz de configurar-se num padrão de medida homogêneo.

A contradição básica esgota seu empuxo interno, sem desenhar o novo em suas entranhas. Um tema que já estava na pauta do próprio Marx por volta de 1858 se dá para nós hoje em dia como enorme desafio: "Dialética dos conceitos: força produtiva (meios de produção) e relações de produção, dialética cujos limites estão por determinar e não suprime as diferenças reais" (G, 29; trad., 129).

É desse modo que, no final da Introdução de Para a crítica da Economia Política, Marx lista as grandes dificuldades que terá de enfrentar. A relação dialética das forças produtivas com as relações sociais de produção possui limites a serem determinados, não pode ser tomada como panaceia universal capaz de explicar todo tipo de sentido das relações sociais. Da substância capital começam a escapar forças produtivas e relações sociais de produção que não mais se subordinam à sua boa infinitude ilusória, sem que esse estilhaçamento do sistema capitalista prefigure seu avesso. Pela primeira vez na história da humanidade, a multidão dos assalariados poderia satisfazer suas necessidades básicas e gozar do lazer que os distanciaria do reino de necessidade. No entanto, em vez daquela esperada diminuição substantiva da jornada de trabalho, primeira condição para reduzir a corveia do metabolismo com a natureza, as relações sociais de produção continuam a ter como parâmetro, ideia prática reguladora, o crescimento ao infinito da riqueza social, ainda que isso custe maior desigualdade na sua distribuição. O imenso desenvolvimento da produtividade do trabalho se confirma apenas em certos pontos de um sistema produtivo que se globaliza reforçando a injustiça social. Nessas condições, porém, que sentido ainda pode manter a categoria capital, na sua qualidade de substância e de sujeito?

Teria Marx tomado consciência desses impasses? No prefácio ao segundo livro d' O capital Engels nos informa que o núcleo do terceiro livro foi escrito por volta de 1865 ou de 1867, trabalho que foi interrompido para terminar o primeiro livro, publicado nesse último ano. Depois disso, em virtude de seus compromissos políticos e do estado de saúde que se agrava, Marx somente consegue trabalhar intensamente durante períodos curtos, que vão até 1878. Mas para aprontar o terceiro livro, no qual esses impasses são retomados, embora já apareçam luminosamente durante a redação dos textos publicados pelos Grundrisse (1857-8), Engels precisou escolher uma dentre várias versões, às vezes privilegiando redações mais antigas. É de notar que, nos tempos em que a doença se agrava, Marx se dedica ao estudo de "agronomia, relações agrárias americanas e notadamente russas, mercado da moeda, estruturas bancárias e, por fim, ciências naturais: geologia e fisiologia, em particular, estudos matemáticos" (K, II, 24, 11). Esforço impressionante para um doente. Não há dúvida de que Engels fez um monumental trabalho de edição; contudo, para arredondar o texto, não foi obrigado a desprezar aquelas versões que precisamente desviavam da linha geral do argumento, mas que para nosso entendimento histórico de seu trabalho de pesquisa seriam aquelas de maior importância? Somente uma análise detalhada desses manuscritos, infelizmente muitas vezes quase ilegíveis, poderá determinar aqueles limites encontrados pelo próprio Marx no esforço de alargar sua pesquisa. No entanto, o estudo cuidadoso dos textos atualmente disponíveis conduz, isto me parece inegável, a impasses que nos obrigam a repensar toda a arquitetura de sua construção. Uma obra de gênio é como uma cidade, cujo plano o autor traça, mas cujos meandros vão sendo paulatinamente descobertos por seus comentadores. Não é isso que lhe dá vida? Puxando o fio dos argumentos, estou tentando mostrar que, nos limites dos muros da cidade, Marx se envolve em aporias que, em vez de diminuírem sua grandeza, fazem dele um autor que pensa até o extremo, nas fronteiras de seu próprio pensamento. De meu ponto de vista, prefiro essa herança a tentar a todo custo fechar o sistema a golpes de machado. O limite que mais impressiona é aquele encontrado pelo próprio desenvolvimento das categorias, que, como era previsto, esgota sua capacidade de exprimir o desenvolvimento das forças produtivas até então medido por elas. Em poucas palavras, "os limites da dialética dos conceitos: força produtiva (meios de produção) e relações de produção". Disso não há que duvidar, pois o texto é explícito. Não dizem eles respeito ao esgotamento da capacidade da lei do valor-trabalho medir essas forças produtivas?

Marx está, pois, indicando que, conforme os meios passam a ser infiltrados pelas ciências, nem toda produção social vem a ser completamente conformada pela lei do valor-trabalho, por conseguinte, que o capital como substância alienada perde sua capacidade de quantificar a riqueza social como um todo. O capital como riqueza social se distancia da riqueza da sociedade. Ao enervar, porém, a matriz quantitativa unificadora dos processos produtivos não retirava igualmente do horizonte do proletariado a matriz capaz de fundar sua própria unidade social? Sem esse contrapeso o capital poderia crescer indefinidamente por saltos e crises, aprofundando a anarquia da produção, sem projetar, contudo, a figura salvadora do trabalhador total. O compromisso político, assumido nos tempos em que ainda pensava segundo os parâmetros da dialética hegeliana, não se legitima por aquela contradição desenvolvida que Marx esperava encontrar por meio da crítica da Economia Política. As categorias se dissolvem sem que a contradição entre capital e trabalho se reforce como diferença, em que cada parte seja empurrada para formar um elemento simples que anseia por autonomia, pronto para absorver a contradição levada a cabo. No jogo desses conceitos nada assegura a tomada de poder de uma das partes como representante da nova totalidade. Pelo contrário, a luta pode desaguar numa guerrilha, numa transgressão de individualidades moles, muito diferente da tese do colapso final do capitalismo. Desse ponto de vista, para continuar mantendo pelo menos o princípio de sua crítica, a denúncia da positividade postiça do capital, seu último recurso, como já vimos na sua critica aos ricardianos, seria insistir no caráter substantivo do capital, finalidade em si, mas sem rumo.