Certa herança marxista

José Arthur Giannotti · Capítulo 17 de 29

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Certa herança marxista

4.3. Trindade dos objetos-signos

Marx estuda o desenvolvimento das categorias do capital a partir da sequencia Dinheiro/Mercadoria/Dinheiro-Aumentado (D – M – D'), tratando de mostrar como a reflexão desse processo vai clivando os termos simples, conforme suas possibilidades de se projetarem uns em outros formam oposições e contradições, que representam obstáculos naturais e sociais a serem superados e integrados no seu movimento circular de reposição. Desenha assim, a partir de seus elementos simples, a gênese daquelas categorias complexas que operam na superfície da experiência capitalista. Para abreviar, vamos esboçar o caminho inverso, tomando as categorias mais superficiais, embora complexas do ponto de vista lógico, e investigar como apontam para seu fundamento.

O capitalista individual relaciona de imediato sua produção a seus custos, ao quanto ele paga pelos fatores que mobiliza para obter mercadorias a serem vendidas no mercado. Mas para compreendermos o lado místico dessa riqueza geral é preciso ir além do encantamento e da inversão que se dá no nível das trocas mercantis, do mero fetiche das mercadorias. Os indivíduos participam dessa riqueza social conforme eles próprios são proprietários de um pedaço dela, a qual surge então como totalidade representada coletivamente. O conjunto dos atores principais do sistema se diferencia, pois, da seguinte maneira: o primeiro grupo se dirige diretamente para um ramo produtivo esperando que seu investimento lhe propicie lucros; o segundo aluga sua terra ou sua casa na expectativa de obter renda; o terceiro vende sua força de trabalho por salário; o quarto compra mais barato para vender mais caro, retirando para si lucro comercial; e o quinto, finalmente, deixa seu dinheiro no banco, na certeza de mais tarde receber juros. O capital enquanto processo de autovalorização se diferencia, pois, à medida que produz lucro, renda, salário, lucro comercial e juro, em suma, diferenciações quantitativas que identificam as atividades desenvolvidas por grupos de atores. Como veremos logo adiante, essas figuras não possuem os mesmos graus de independência, sendo lucro, renda e salário as três categorias principais. Mas agora não insistiremos nesse ponto, pois, sem a dedução a partir do simples, a diferenciação se faz empiricamente. Importa-nos apenas sublinhar que a busca do lucro marca a intencionalidade da reflexão do capital como um todo. Em vista dessa intenção imediata que visa a seu fundamento, a totalidade aparente do novo capital obtido se distribui segundo três vias elementares:

No capital/lucro, ou melhor, no capital/juro, na terra/renda

fundiária, no trabalho/salário, nessa trindade econômica,

enquanto conexão das partes constitutivas do valor e da

riqueza em geral juntamente com suas fontes, completa-se a

mistificação do modo capitalista de produção, o crescimento

conjunto e imediato das relações materiais de produção com

suas determinidades sociais e históricas: o mundo encantado,

invertido e posto de cabeça para baixo, onde Monsieur le

Capital et Madame la Terre, como caracteres sociais e de modo

igual e imediato como meras coisas, impulsionam seu espectro

[K, III, 25, 858].

O fetiche do capital, sujeito universal, substância mística pondo-se a si mesma na sua diferenciação, perfaz-se nessa trindade distributiva, onde a identidade da riqueza surge de imediato por meio de três fontes, o capital, a terra e o trabalho, alimentando os rios caudalosos do juro, da renda e do salário. Estes desenham o mapa-múndi de ações efetivadas em vista do panorama de ilusões necessárias, cujo produto, porém, é a riqueza capitalista. Sem essa dualidade entre atividade e padrão de comportamento projetado como princípio dela, como razão de seu ser, a objetividade do capital se dissolveria no ar. Mas desse modo a distribuição não aparece como responsável pela produção?

Por certo o dinheiro se torna autônomo diante de todos os sistemas produtivos em que impera a produção de mercadorias (K, III, 25, 532). No entanto, cabe lembrar que o capital-dinheiro (Geldkapital) é particularmente fictício, na medida em que alimenta a ilusão de que sua mera existência possui a virtude de produzir juros. Mas esse fetiche não teria subsistência se, de um lado, não fosse alimentado por ações reiteradas, de outro, não se mantivesse graças a relações formais em que cada figura se imbrica numa gramática totalizante, conformando a carapaça das relações sociais de produção. Só assim o fetiche do capital-dinheiro, forma complexa do fetiche do capital, se diferencia de uma alucinação subjetiva. E tal estrutura se resolveria na reiteração de seu lado místico, se não se revelasse como aquela identidade da aparência que se liga à atividade de conformar coisas e, por esse esforço, diferenciar-se. Isso ocorre além da mera superfície expressiva, pois só assim a reflexão do capital se resolve num processo produtivo no sentido mais lato. Sem congeminar ações determinadas e gramática da ilusão, o materialismo de Marx se converteria numa caricatura, em que o fetichismo da mercadoria resumiria a complexidade das manifestações do capital numa única fórmula simplificada. Mas a estruturação do dinheiro e aquela do capital são diferentes, seu processo de diferenciação, diverso. Basta, para perceber essa diferença, levar em conta que, no modo de produção simples de mercadoria, as alterações de produtividade do trabalho estão pressupostas, enquanto no capitalismo são êmbolo do processo. Não atentando para essa diferença, volta-se à dialética hegeliana e rebate-se a potência constituinte do trabalho para o lado do Conceito, de sorte que, ao reunir universalidade e substância, o fetiche, enclausurando as representações dos agentes, se transformaria na efetividade da Ideia. Na verdade, o processo de reificação, a projeção das relações sociais nas coisas sociais, consiste precisamente nesse esvaziamento da base técnica e do processo efetivo do trabalho, de tal maneira que o comando concreto que o capital exerce sobre ele aparece como se resultasse do processo místico de autovalorização do valor. Dessa óptica, os três modos originários de distribuição, ligando-se a momentos do processo produtivo – capital, terra e trabalho –, tornar-se-iam responsáveis por todo esse processo de autoposição, como se proviesse da particularização do Conceito.