Certa herança marxista

José Arthur Giannotti · Capítulo 27 de 29

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Certa herança marxista

4.13. Contradição travada

Sendo que essa normatização está na dependência do real funcionamento das relações sociais de produção, cuja face mais aparente são as relações de propriedade, vale a pena estudar como estas últimas se comportam quando o modo de produção capitalista atinge alto grau de diversidade e dispersão. O próprio Marx percebe que a natureza das relações sociais se altera com a crescente complexidade do sistema. Exemplifica-o a maneira como interpreta o desenvolvimento do crédito e do capital por ações. Como vê essa socialização do capital privado, que deixa de ser comandado pelo empresário individual, em que o lucro é distribuído entre diversos acionistas?

Isso é a superação do modo de produção capitalista no interior

do próprio modo de produção capitalista e, assim, portanto,

deve ser uma contradição superando-se a si mesma, a qual

prima facie se apresenta como mero ponto de passagem a uma

nova forma de produção. Também na aparência ela se

apresenta como tal contradição. Estabelece o monopólio em

certas esferas e, por conseguinte exige a intervenção do

estado. Reproduz uma nova aristocracia financeira, nova

espécie de parasitas na figura de projetistas, fundadores e

meros diretores nominais, fraudadores e mentirosos no que

respeita aos empreendimentos, despesas de comércio com

ações. É a produção privada sem o controle da propriedade

privada [K, III, 25,454; trad., IV, 333, modificada].

Deixemos de lado a acuidade dessa descrição para atentar exclusivamente para seu aspecto lógico. O que significa "uma contradição que se supera si mesma" sem abolir o caráter contraditório de seu fundamento, de sua produção, mas reforçando o caráter de embuste, de farsa, de todo o processo?

Antes de tudo uma contradição fenomênica, aparente, sem contestar seu fundamento, sentido complexo cujos termos antagônicos mais simples ainda não têm força de ir ao fundo, de diluir a contraditoriedade originária desse antagonismo, e precisando, para manter-se como identidade viva, do embuste e de forças externas, principalmente aquela do estado como garantia dos contratos. A ilusão necessária perde sua idealidade intransponível para revelar seu caráter de farsa, instrumento ad hoc de exploração. Por sua vez, concentração de capitais e formação de monopólios, associadas à autonomização do capital financeiro, tornam obsoleta a figura do empreendedor. A empresa constitui uma unidade coletiva, mas que se particulariza no tipo de competição que estabelece com as outras e com o estado. Operando com diversas taxas de produtividade do trabalho, ou levando em consideração as formas contemporâneas de capital, provocando essa diversidade graças ao monopólio da invenção cientifica e explorando-a em vista de seu lucro privado, cada empresa trata de montar e proteger sua própria composição técnica, de sorte que fica bloqueada sua expressão completa em valor. Os fatores de produção continuam a ser expressos em termos de preços, embora esses preços passem, por exemplo, a conhecer novas variações, provocadas pela interferência de diferentes taxas de câmbio. Mas o relacionamento de cada produto com a totalidade de seus valores de troca fica bloqueado, pois, se no plano da representação essa referência ao todo continua valendo, visto que todos os produtos têm preço, no plano da efetivação desse todo, vale dizer, na constituição da demanda efetiva que confere o caráter social da produção, ele não encontra aquele comum, a equiponderabilidade dos produtos de um trabalho homogêneo, que assegura a identidade fetiche do valor. Não que o valor desapareça, pois blocos de produto de cada setor continuam a ser comparáveis entre si do ponto de vista de sua produtividade, mas o comum é enviesado, mais Proposto do que reposto, de sorte que a riqueza social como um todo é arquipélago de ilhas proteiformes lutando entre si pela preferência dos consumidores.