Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

a Apelido do Rangers. (N.T

II.

 

Na noite anterior ao jogo da Velha Firma, estou tomando uns drinques no pub Grapes, um dos epicentros da torcida do Rangers, localizado na margem sul do rio Clyde. Cartões-postais com fotos da rainha Elizabeth foram dispostos em fila e pairam no bar. Bandeiras britânicas cobrem a maior parte da superfície da parede que não foi ocupada por fotos emolduradas de jogadores do Rangers. A parte de fora foi adequadamente pintada no azul que simboliza a realeza. Estranhos que entram no pub são encarados como possíveis torcedores do Celtic infiltrados. Para facilitar minha assimilação, um amigo chama um freqüentador que testemunha a meu favor perante a clientela. Minha apresentação não ajuda muito junto a alguns dos bêbados. Eles riem quando me apresento como Frank.

— Não é o diminutivo de Francis? – pergunta um deles. — Você não

é um TIMa, é?

E ninguém está especialmente interessado em conversar com um jornalista que, tenho certeza, eles suspeitam que vá ridicularizá-los em função das crenças que sustentam de modo tão arraigado. Depois de alguns instantes, eu desisto e me sento no bar, observando um bêbado tentando passar cantadas canhestras nas duas únicas mulheres presentes. É quando um homem chamado Dummy [Pateta] me abraça e lança um bafo de uísque no meu ouvido.

— Em 1979 – diz ele –, passei 16 horas sendo sacaneado num bar nos arredores de Buffalo.

Dummy se apresenta como James, mas avisa que prefere ser chamado pelo apelido. Transmite atrevimento, diz ele, e o atrevimento é uma das principais características dos gângsteres do cinema. Desde o início, Dummy se esforça ao máximo para estabelecer seus antecedentes de homem durão. Mostra-me duas cicatrizes recentes, produzidas por faca, de brigas no pub por causa de dinheiro que lhe deviam – “apenas nos últimos seis meses”, afirma. Mas essas brigas foram atavísticas. A carreira de Dummy como durão é coisa do passado. Agora tem mais de 40 anos, rosto enrugado, mulher, filhos adolescentes e um negócio legítimo. Com efeito, diz que está ficando rico com sua firma, que coloca andaimes em canteiros de obras.

Dummy é originário da costa oeste da Escócia, mas mora numa cidade industrial inglesa que fica a muitas horas de carro de Glasgow. O pai mudou-se com a família para o sul seguindo a migração da indústria na década de 1960. Levou consigo o intenso orgulho escocês e o amor pelo Rangers. Embora não tenha conseguido doutrinar os irmãos de Dummy, este mordeu profundamente a isca. Pensa em morar em Glasgow um dia, quando se aposentar.

— Está certo que não é nenhuma Flórida – diz ele, empurrando a barriga contra o balcão, tentando atrair a atenção do barman. — Este é o melhor lugar do planeta. A água tem um gosto melhor. As pessoas não são inglesas. São da melhor qualidade aqui.

Dummy assume a missão de me converter à causa do Rangers.

— Não há como você, um homem inteligente, especialmente um norte-americano inteligente, sair deste jogo sem amar o Glasgow Rangers. Os torcedores do Celtic são terroristas. Ouça todas aquelas canções sobre o IRA. Depois do 11 de setembro, como é que podem fazer isso?

Como ele me pagou dois copos do uísque barato fabricado pela casa, seus argumentos fazem algum sentido. Mas Dummy vende seu peixe principalmente pela maneira como veicula sua mensagem, e não pela essência desta; sua paixão pelo time é avassaladora. Ele aponta para seu calção do Rangers.

— Eu adoro o Rangers Football Club. Se tivesse de escolher entre meu trabalho e o Rangers, escolheria o Rangers. Se tivesse de escolher entre minha mulher e o Rangers, escolheria o Rangers.

De fato, cerca de 16 fins de semana por ano ele escolhe o Rangers, em detrimento de sua mulher, juntando-se aos amigos, bebendo dois grandes copos de uísque no caminho, ouvindo músicas sectárias no carro e fazendo o longo percurso rumo ao norte.

Entre os torcedores de futebol, há um continuum de hooliganismo. Num dos extremos estão os bandidos autênticos, por exemplo os torcedores de clubes ingleses como o Millwall e o Cardiff City. Embora todos professem o amor ao clube, espancar pessoas de forma cruel (incluindo colegas de torcida) é o seu hobby. Bandidos desse tipo, contudo, são poucos e isolados, e muitos foram proibidos de assistir a partidas de futebol em cidades maiores, como Glasgow, Manchester e Londres. Em seguida, alguns passos mais perto da sanidade mental, vem um amplo Lumpenproletariat. Enquanto os bandidos freqüentemente se organizam em “firmas” de saqueadores, o Lumpenproletariat pertence à parte benigna da torcida do clube, encontrando-se para tomar cerveja e viajando juntos para os jogos em ônibus fretados. Não são homens inerentemente violentos. Têm bons empregos e boas famílias. Mas, como a maioria dos britânicos, quando consomem muita cerveja podem ficar um pouco agressivos. Nos fins de semana, podem ser vistos xingando um motorista de táxi pertencente à torcida rival ou entrando numa confusão em frente ao bar do Celtic no final do quarteirão.

Há uma tendência a caricaturar os sentimentos de torcedores como Dummy. Freqüentemente esses homens são descritos como fantoches de políticos manipuladores, levados ao ódio por ignorância, ressentimento econômico ou apenas um profundo senso de inferioridade. Mas é difícil detectar qualquer uma dessas características num torcedor do Rangers. Na verdade, eles estão longe de parecerem ignorantes, e possuem um notável conhecimento histórico. Ao descrever seu amor pelo Rangers, Dummy fornece uma história convincente do protestantismo escocês:

— Em 1646, em Portadown…

De cabeça, apesar de bêbado, ele desfia dezenas de datas importantes.

A história do Celtic e do Rangers remonta ao século XVI. A Reforma Protestante fincou suas garras na Escócia com maior ferocidade do que em qualquer outro lugar da Europa. Quando os discípulos de John Knox se espalharam para o norte, a partir de sua base em Glasgow e Edimburgo, esmagaram violentamente as cidadelas católicas, em alguns casos recorrendo à limpeza étnica. Sua teocracia executava estudantes de Edimburgo por duvidarem casualmente da existência do Senhor – e extirpou da sociedade a maioria dos vestígios do papismo. Ao final do século XVIII, Glasgow tinha 39 sociedades católicas e 43 anticatólicas.

Trezentos anos depois da Reforma, contudo, os católicos começaram a reaparecer de forma majoritária. Com a Grande Fome da Batata tornando insustentável a vida na área do mar da Irlanda, milhares de imigrantes fugiram para Glasgow em busca de alívio. Estavam entre os emigrados mais pobres e menos instruídos – os que não puderam comprar passagens para Boston e Nova York. Confusos com o novo lar e excluídos do resto da sociedade, não tiveram muita escolha senão fechar-se em si mesmos. Desenvolveu-se uma estrutura de apartheid virtual. Os católicos de Glasgow freqüentavam escolas distintas. Excluídos das empresas profissionais protestantes, abriram as suas. E em 1888 um irmão marista chamado padre Walfrid fundou o clube de futebol da comunidade, o Celtic.

Walfrid criou o time por medo. No final do século XIX, os católicos tinham boas razões para se preocuparem com a influência dos missionários protestantes, cuja riqueza e dispensários de comida permitiam-lhes pregar em redutos católicos. O tempo de lazer dos jovens católicos precisava ser preenchido por instituições católicas, senão os protestantes entrariam no vácuo. Um time de futebol vencedor, esperava Walfrid, poderia derrubar o mito da inferioridade dos católicos. Com efeito, o Celtic teve um sucesso enorme. Por jogar buscando provar alguma coisa, o time logo ganhou quatro de seis campeonatos da liga.

A Escócia protestante não aceitou passivamente o sucesso do Celtic. A imprensa esportiva bradava por uma equipe “escocesa” para recuperar o título. O Rangers começou sua trajetória sem nenhuma aspiração religiosa ou política em particular. Mas, quando acumulou vitórias contra o Celtic, a Escócia protestante lhe impôs tais aspirações e gradualmente adotou o clube.

A Velha Firma não começou como algo especialmente violento, mas rapidamente se transformou nisso. Durante as duas primeiras décadas do século XX, o ódio étnico em Glasgow esquentou. O Estaleiro Harland and Wolf, uma empresa protestante, mudou-se de Belfast, trazendo consigo milhares de trabalhadores protestantes e seu know-how de desprezo aos católicos. O novo estaleiro, porém, não conseguiu compensar as desgraças sofridas pela indústria naval de Glasgow. Na década de 1920, com a ascensão dessa indústria nos Estados Unidos e na Alemanha, a Escócia sofreu a Grande Depressão dez anos antes de qualquer outro lugar. Com a intensa competição por um número limitado de empregos, a inevitável busca de bodes expiatórios religiosos também entrou em cena, e a Igreja da Escócia começou a resmungar sobre a ameaça irlandesa. Foi aí que a Velha Firma se tornou venenosa. A gangue de bandidos do Rangers chamada Billy Boys, juntamente com suas equivalentes McGrory Boys e McGlynn Push, do lado do Celtic, enfrentavam-se com armas de fogo, facas e nenhum limite.