Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

Capítulo 7

Com a saída desses investidores, Eurico não tem um bom bode expiatório que possa atacar para desviar os olhares de suas próprias falhas. Está em campanha pela reeleição à sombra de uma temporada desastrosa. Agora ele não assiste aos jogos na tribuna de honra, de uma cabine à altura do meio do campo tradicionalmente ocupada pelos presidentes do clube. Ele vê as partidas de seu escritório, que dá vista para o campo, por trás de um vidro escuro.

Logo após a entrevista com Eurico, tenho um encontro com um ex-jogador olímpico de voleibol chamado Fernandão. Ele lidera um grupo subversivo de oposição, o Movimento Unido Vascaíno. É subversivo porque Eurico Miranda expulsou Fernandão e seus amigos do clube. Hoje em dia, eles colocam outdoors anti-Eurico perto de São Januário, entregam panfletos a vascaínos que vão assistir aos jogos no estádio. Fernandão me diz que a riqueza obtida com a transação do NationsBank fez com que Eurico ficasse “embriagado pelo poder”.

Alguns meses depois, a avaliação de Fernandão se provou verdadeira. Eurico aparece na seção eleitoral com dois guarda-costas armados. Ele insiste em furar a longa fila de eleitores. No caminho, faz uma pausa para agredir verbalmente uma repórter. Era demais, mesmo para os torcedores do Vasco. Na seção eleitoral, tem início uma revolta. Eleitores começam a gritar “ladrão”. No final do dia, o inimaginável aconteceu: Eurico Miranda perdeu não apenas a cadeira no Congresso, mas também a imunidade parlamentar a ela associada. Os promotores federais ansiavam por esse dia. Estavam sentados sobre um memorando de 37 páginas relacionando os crimes de Eurico. Depois de derrotar os investidores estrangeiros, ele próprio fora derrotado.

 

Com os investidores estrangeiros fora do Brasil, o principal defensor do capitalismo futebolístico – um tecnocrata vitalício e velho amigo do presidente Fernando Henrique chamado José Luís Portella – tornou-se ministro dos Esportes. Ele me convidou a assistir ao seu jogo semanal de futebol, disputado num campo na zona norte de São Paulo. Os jogadores da sua liga têm, como regra, pelo menos 45 anos de idade. Portella é um homem baixo, sem um talento óbvio para o futebol. Não poderia ser mais diferente de Pelé. Mas não está nem de longe tão fora de forma quanto alguns companheiros de equipe. Alguns são tão gordos que nunca correm mais de cinco segundos de cada vez. Diversos companheiros de time de Portella estão na casa dos 65. Essas limitações, contudo, praticamente não impedem que Portella e seus colegas encarem o esporte com a maior seriedade. As equipes têm treinadores que percorrem as laterais do campo praguejando contra a falta de empenho e os passes errados. Contrataram um árbitro recém-aposentado que atuava na divisão principal do campeonato brasileiro. Apesar de sua experiência, os jogadores discutem com ele como se fossem profissionais, se não mais. No final do primeiro tempo, o próprio ministro dos Esportes recebeu cartão amarelo por gritar na cara do árbitro.