Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

a questão judaica

a Apelido do Rangers. (N.T.)

b Em 1947, Jackie Robinson (1919-72) tornou-se o primeiro jogador negro a integrar a liga

principal do beisebol norte-americano desde o século XIX. (N.T.)

c Apelido do Rangers. (N.T.)

COMO O FUTEBOL EXPLICA

 

a questão judaica

 

— Quer alguma coisa para ler?

— Sim, você tem algo bem leve?

— Que tal este livro bem fininho: Ídolos judeus do

esporte?

Do filme Avião, 1980

 

I.

 

Cresci imaginando que os grandes atletas judeus aparecem uma vez a cada década, se o pool genético tiver sorte. Nos anos 1960, havia o lançador do Los Angeles Dodgers chamado Sandy Koufax; na década seguinte, o nadador Mark Spitz; depois, muitos anos em branco. Em casa, meu pai e eu imaginávamos que vários atletas escondessem o fato de serem judeus, como os Marrano sobreviventes da Inquisição espanhola. Meu pai era particularmente insistente em afirmar que Sid Bream, um homem de base magro e enérgico que jogava no Atlanta Braves, era um desses. E, para ser justo, tanto o nome quanto o sobrenome tornavam essa idéia plausível. Mas, em retrospecto, havia detalhes biográficos que provavelmente refutariam nossa análise. Sid Bream gostava de falar de sua paixão pela caça, e dirigia uma picape. Sim, ele usava um bigode ao estilo Mark Spitz, mas 20 anos depois de isso ser moda em nossa comunidade. A verdade nua e crua é que nós estávamos apreensivos demais para tentarmos descobrir a verdadeira etnicidade de Bream.

Antes de Bream cativar a imaginação de minha família, eu tinha esbarrado no Hakoah, um clube de futebol de Viena, vencedor do campeonato austríaco de 1925. O grande triunfo do Hakoah aconteceu quando o futebol austríaco representava o padrão-ouro mundial em matéria de estilo e estratégia. Embora tivesse jogado poucas vezes contra as outras grandes equipes da época, o Hakoah quase sempre as vencera. Com base em todas as evidências de que dispúnhamos, essa espécie de seleção judaica foi, por um curto período, um dos melhores times do planeta.

O Hakoah atraiu minha atenção pela primeira vez em um livro que descobri esquadrinhando o velho quarto de meu tio, na casa de meus avós: Grandes ídolos judeus do esporte. Tinha uma lombada azul puída que podia ser removida para revelar a capa nua. Fotografias em sépia enchiam suas páginas. Esse livro caiu em minhas mãos quando eu tinha oito anos de idade, e logo se tornou um dos meus favoritos. Por ter sido escrito no início dos anos 1950, não estava muito distante da renascença dos atletas judeus nos Estados Unidos, em meados do século, composta por gigantes como Sid Luckman, zagueiro do Chicago Bears, e Hank Greenberg, primeira base do Detroit Tigers. Tal como a maior parte da vida judaica naquele momento, o livro era esquizofrênico no que se refere à identidade étnica. Tal como me recordo dele, era um preito tanto às realizações dos judeus quanto à assimilação, mas principalmente a esta. Não trazia a Estrela de Davi na página de rosto nem historietas sobre Greenberg escapando de um jogo crucial de fim de temporada para participar das cerimônias do Yom Kippur. Foi por isso que o Hakoah se destacou naquelas páginas para mim. Não havia nenhuma tentativa de ocultar que seus jogadores eram judeus. O time tinha um nome hebraico e apregoava o judaísmo em seu uniforme.

Desde o começo, em outras palavras, o Hakoah me pareceu quimérico. Minha pesquisa sobre o time acentuou ainda mais essa impressão. Viajei para Viena com promessas de apoio de acadêmicos e líderes comunitários. Com sua ajuda, comecei a compilar nomes de judeus vienenses na casa dos 80 e dos 90 anos que poderiam ter alguma lembrança da temporada em que o Hakoah foi campeão. Desde 1949, a população judaica de Viena reduziu-se de aproximadamente 200 mil pessoas para sete mil. Esses remanescentes incluem imigrantes do antigo bloco soviético e meia dúzia de israelenses que se mudaram para aquela cidade por motivo de negócios. O grosso consiste em idosos naturais da cidade. Muitos têm filhos nos Estados Unidos e chegaram a passar anos no exterior. Mas voltaram para viver os últimos anos de vida na cidade de sua juventude, de modo a poderem ter um estilo de vida que lhes fosse familiar. Muitos austríacos receberam os nazistas com entusiasmo, essas pessoas freqüentemente se desculpam por continuarem a residir em Viena. Um professor de economia aposentado disse-me num sotaque norte-americano perfeito:

— Que posso fazer? Sei que os austríacos são os piores. Talvez fizessem tudo outra vez. Mas tenho interesses aqui, e amigos. É reconfortante.

Esses idosos judeus desejavam ardentemente falar do passado, de política e de seu amor pelos Estados Unidos, pagar-me uma refeição num restaurante chinês e um pastel numa lanchonete. Mas para meus objetivos, essas conversas nada tinham a ver, nem de longe, com futebol. Nenhum deles tinha praticado esse esporte, considerado por seus pais sujo, violento e proletário demais. Os judeus vienenses estavam entre os mais burgueses dos burgueses. E mesmo aqueles velhos judeus eram jovens demais para se lembrar dos dias de glória do Hakoah nos anos 1920. Disseram-me que talvez em Nova York houvesse alguém com quem eu pudesse conversar. Eu tinha atravessado o planeta só para me dizerem que as respostas que eu procurava poderiam ser encontradas na esquina da minha casa. Lamentavelmente, em Nova York e na Flórida, onde eu tinha mais contatos, também não avancei muito. Não dava. Quem poderia lembrar-se do Hakoah em seus melhores momentos está velho demais para isso ou não está mais conosco. Pelo que sei, a memória histórica do clube agora mora com um gentil jornalista esportivo sueco da cidade de Hässelby, chamado Gunnar Persson, que tem rastreado todos os fiapos de evidências vagamente relacionadas ao Hakoah. Com sua ajuda, comecei a costurar a história daqueles judeus prodigiosos.

 

Embora a idéia de uma equipe de futebol profissional composta por judeus pareça tão estranha agora, isso só acontece porque pouquíssimas dessas equipes sobreviveram a Hitler. Mas, nos anos 1920, os clubes de futebol judeus floresceram por toda a Europa metropolitana: em Budapeste, Berlim, Praga, Innsbruck e Linz.

Os times judeus se cobriam com o manto do nacionalismo judaico, e não húngaro, austríaco ou alemão, literalmente vestindo a camisa do sionismo. Décadas antes de serem forçados por Adolf Eichmann a portarem a estrela amarela, alguns desses clubes jogavam com o símbolo do rei Davi costurado no peito. Usavam uniformes em tons de azul e branco, as cores de Israel. Seus nomes inegavelmente hebraicos – Hagibor (“O Herói”), Bar Kochba (em homenagem ao líder da revolta contra os romanos no século II) e Hakoah (“Resistência”) – ostentavam matizes claramente nacionalistas.

Se tudo isso parecia excepcionalmente político, é porque esses clubes eram produtos de uma doutrina política. Todo um segmento do movimento judaico acreditava que o futebol, e o esporte de maneira mais geral, os libertaria da violência e tirania do anti-semitismo. O polemista Max Nordau, um dos pais do sionismo da virada do século, criou uma doutrina intitulada Muskeljudentum, ou judaísmo musculoso. Nordau afirmava que as vítimas do anti-semitismo padeciam de uma doença própria, chamada Judendot, ou angústia judaica. A vida no gueto sujo provocara nos judeus a efeminação e o nervosismo. “Nas estreitas ruas judaicas”, escreveu ele, “nossos pobres membros esquecem como é caminhar com alegria. Na escuridão de casas sem a luz do sol, nossos olhos se acostumam a piscar com nervosismo. Por medo da perseguição constante, o timbre de nossas vozes se reduz a um suspiro ansioso.” Para derrotar o anti-semitismo e erradicar a Judendot, os judeus precisavam não apenas reinventar sua política corporal – tinham de reinventar os próprios corpos. Nordau escreveu: “Desejamos devolver ao flácido corpo judeu o tônus perdido, torná-lo forte e vigoroso, ágil e potente.” Os judeus, exortava em artigos e palestras, deviam investir em ginásios e pistas de atletismo, pois o esporte “vai reforçar-nos no corpo e no caráter”.

O judaísmo musculoso não foi uma quimera intelectual. As palavras retumbantes de Nordau capilarizaram-se pelas lideranças das comunidades judaicas da Europa Central. Das 52 medalhas olímpicas obtidas pela Áustria entre 1896 e 1936, 18 foram ganhas por judeus – 11 vezes mais do que teriam obtido se seu desempenho fosse proporcional ao tamanho de sua população. E embora a maior parte desses feitos tenha ocorrido em competições individuais, especialmente na esgrima e na natação, os judeus também brilharam no futebol. Durante as décadas de 1910 e 1920, boa parte da seleção húngara de futebol era composta de judeus. Por um breve momento, o sucesso obtido por eles no esporte imitava suas realizações no plano intelectual.

 

Há algo assustador na descrição de Max Nordau do corpo judeu como doentio e efeminado. E o que assusta são as semelhanças com a caricatura anti-semita. Talvez não seja coincidência. O sionismo e o moderno anti-semitismo europeu derivam da mesma fonte intelectual do fin-de-siècle. Ambos os movimentos nasceram na virada do século passado, em meio a outra onda de globalização maciça e mudança social desconcertante, quando a intelligentsia européia reagiu fortemente aos valores do Iluminismo. Seus membros adotaram um conceito científico de raça, uma obsessão quase homoerótica pela perfeição do corpo e uma idéia romântica sobre a terra-mãe. Nada disso enfatizava a fraternidade universal do homem, o ideal da Revolução Francesa.

Mas essa fase contra-iluminista passou há muito tempo, derrotada na guerra e desacreditada intelectualmente. Os últimos 50 anos de política européia correram decididamente na direção oposta, um retorno à celebração da razão e do universalismo. Decerto é essa a teoria por trás da União Européia, presumindo que o conflito pode ser evitado com o diálogo e que a comunhão de interesses pode transcender até mesmo a inimizade mais profunda.

Essa liberalização do pensamento não expurgou o anti-semitismo do sistema europeu. Pela maioria das avaliações, o anti-semitismo continental é tão difundido como sempre foi no pós-guerra, ou até mais. Certamente está presente no futebol europeu. Mas isso não significa que o anti-semitismo europeu de hoje seja o mesmo de antes da guerra. É uma fera inteiramente diferente, que não tem nem de longe a mesma propensão a matar, tornada menos perniciosa pelas transformações que a globalização provocou na Europa. Com a imigração de africanos e asiáticos, os judeus foram substituídos como alvos principais do ódio europeu. Essas mudanças podem ser vistas em microcosmo na história do futebol judeu. Mas antes de explicar o presente é necessário voltar atrás e contar a história do Hakoah de Viena.

II.

 

No início do século XX, movimentos revolucionários de direita e de esquerda percebiam que havia uma “milhagem política” a ser ganha com o futebol. Os clubes da juventude socialista patrocinavam seus times, enquanto pretendentes a fascistas tentavam infiltrar-se em clubes populares. Em Viena, um reduzido círculo de intelectuais sionistas enxergou o mesmo potencial nesse esporte. O grupo incluía um dentista e um advogado, ao lado de Fritz Beda-Löhrner, o libretista de cabaré que escreveu “Yes, We Have No Bananas”. Eles também desejavam que o esporte funcionasse como propaganda a favor de seu movimento.

Em 1909 esse grupo criou, no espírito de Max Nordau, o clube atlético Hakoah. Como o nome hebraico indica, a finalidade do clube era projetar a resistência. O time deveria romper estereótipos, mas, pelo menos num aspecto importante, ele os confirmou. Antes de qualquer outra agremiação européia, o Hakoah adotou as leis do mercado. Pagava seus jogadores, e pagava bem – cerca de três vezes o salário médio de um operário. Esses salários mais altos, ao lado da missão ideológica, ajudaram o Hakoah a montar uma seleção de jogadores judeus recrutados na Áustria e na Hungria. Embora só contratasse atletas judeus, o clube trouxe os melhores treinadores, incluindo técnicos ingleses que lhe instilaram o que havia de mais atual em matéria de estratégia.

Havia um perigo inerente no conceito do Hakoah. Os anti-semitas vienenses em geral não precisavam de pretexto para destilarem sua bile ou se engajarem em brigas, mas o Hakoah lhes forneceu uma desculpa perfeita. Drecskjude (judeu sujo) e o paradoxal Judensau (porco judeu) eram gritos comuns das torcidas adversárias. Para dar a seus torcedores alguma confiança de que poderiam escapar vivos desse ambiente, o Hakoah montou um corpo de guarda-costas a partir dos clubes de boxe e lutas marciais que também controlava. Quem mais simbolizou essa política de autodefesa foi o lutador judeu Mickey Herschel. Nas fotos, parece um Charles Atlas, de sunga e com uma musculatura a princípio impossível num mundo anterior aos coquetéis de proteínas e aos esteróides anabolizantes. Herschel e sua equipe transformaram-se numa força de segurança comunitária que às vezes se postava na entrada de sinagogas e de bairros, lançando olhares intencionalmente atemorizantes sobre potenciais promotores de pogroms.

Lendo os jornais da época, não fica claro se o time judeu possuía um talento superior. Mas os clippings de fato mencionam os entusiásticos torcedores judeus e a garra dos jogadores. A performance mais corajosa de todas ocorreu no melhor momento da história do Hakoah. No antepenúltimo jogo da temporada de 1924-5, um jogador adversário desabou sobre o goleiro do Hakoah, Alexander Fabian, nascido na Hungria, quando ele agarrava a bola. Fabian caiu sobre o braço, contundindo-se de tal maneira que não poderia continuar jogando no gol. Não era um problema que se pudesse remediar com facilidade, posto que as regras da época impediam substituições em quaisquer circunstâncias. E assim Fabian retornou ao campo com o braço na tipóia e trocou de camisa com um companheiro, passando à posição de ponta-direita. Sete minutos depois da calamitosa contusão, o Hakoah avançou num contra-ataque. Um jogador chamado Erno Schwarz colocou a bola nos pés de Fabian. A nove minutos do final da partida, Fabian marcou o segundo gol, que garantiu tanto a vitória quanto o campeonato para o Hakoah.

De certa forma, o Hakoah conseguiu exatamente aquilo que seus fundadores esperavam: era um time vitorioso composto por um grupo de judeus. As mesmas elites judaicas que desprezavam esse esporte como reduto de rufiões da classe operária começaram a bancar o Hakoah, acreditando que o respeito que os gentios tinham por ele poderia se estender a elas. Judeus assimilados que não gostavam de reconhecer ou ostentar sua identidade na frente de gentios começaram a encher o estádio do clube, com capacidade para 18 mil pessoas, no segundo distrito de Viena. Contavam uns aos outros histórias como a de um gentio que, desejoso de que o Hakoah vencesse um rival de seu time, gritava “Vamos lá, senhor judeu” forma de encorajamento altamente respeitosa em comparação com o restante. Como relembra Edmund Schechter, diplomata norte-americano, em suas memórias da juventude em Viena: “Cada vitória do Hakoah se tornava mais uma prova de que a época da inferioridade judaica em atividades físicas tinha chegado ao fim.”

Da mesma forma que montou seu time utilizando os métodos da administração moderna, o Hakoah explorou seus sucessos com um plano de marketing que poderia ter sido elaborado por alguém com MBA no assunto. Fora da temporada, o time excursionava pelo mundo, como o Manchester United agora estabelece seu nome com turnês ao Extremo Oriente e aos Estados Unidos. Mas, em vez de vender uniformes, o Hakoah vendia o sionismo. Para preparar suas visitas, o clube enviava previamente propagandistas encarregados de gerar burburinho a respeito da Muskeljudentum e distribuir ingressos para empresas povoadas de empregados judeus. Eles estimulavam imensas multidões a conferir essa curiosidade. Em Nova York, o Hakoah levou 46 mil torcedores ao Polo Grounds. Judeus lituanos viajaram a noite toda de bicicleta para ver o time. Essas platéias faziam com que o Hakoah jogasse muito mais do que jogaria pelo talento natural. Contra a equipe londrina do West Ham United, os judeus obtiveram uma vitória de 5 x 1. Negativistas ressaltam a escalação do West Ham naquele dia, e é verdade que os hammers não levaram muito a sério aqueles judeus viajantes, enfrentando-os com um time formado principalmente por reservas. Mas o feito se sustenta. Antes do Hakoah, nenhuma equipe do continente tinha vencido um time inglês em solo inglês, onde o esporte foi criado.

Esse sucesso trouxe, contudo, uma conseqüência inesperada. Na viagem da equipe em 1925, os jogadores tiveram um vislumbre de Nova York, metrópole aparentemente não afetada pelo anti-semitismo europeu. Ela passou a ser o seu Sião, no lugar de Jerusalém, e no ano seguinte eles emigraram em massa para lá. Privado de nove de seu melhores atletas, o Hakoah tentou uma ressurreição, mas só atingiu a mediocridade. Pelo resto de sua curta vida, ele lutou para manter um lugar na divisão principal do futebol austríaco, às vezes caindo fora dela. E depois seus jogadores tiveram de lutar contra a morte. Com o Anschluss de 1938 e o domínio que a Alemanha passou a exercer sobre seu país, a liga austríaca acabou com o Hakoah, anulou os resultados dos jogos de que ele participou e entregou seu estádio aos nazistas.

 

Quando voltei de Viena para Washington, fui à biblioteca do Museu do Holocausto. Um intelectual me havia indicado que procurasse um documentário que continha cenas com jogadores do Hakoah. Der Führer schenkt den Juden eine Stadt (O führer dá uma cidade aos judeus) mostra a vida no campo de concentração tcheco de Theresienstadt. Os nazistas criaram Theresienstadt como uma aldeia exemplar para mostrarem aos dinamarqueses, à Cruz Vermelha e a outros grupos humanitários. Lá, os judeus freqüentavam aulas e tocavam sinfonias. Como poderia haver genocídio?

Muito satisfeitos por sua habilidade em ocultar a realidade aos humanitários, os nazistas tentaram apresentar Theresienstadt a uma platéia bem mais ampla. Eles registravam as imagens no celulóide e as distribuíam fartamente. No verão de 1944, os nazistas encarregaram o corpulento cômico e diretor judeu Kurt Gerron de produzir o filme. Gerron tornara-se um grande nome do renascimento cinematográfico de Weimar, um colega de Marlene Dietrich. Mas agora ele não estava filmando apenas por sua reputação, acreditava que poderia fazer um filme capaz de agradar os nazistas o suficiente para salvar sua vida.

Os nazistas atribuíram a Gerron uma tarefa impossível. Disseram-lhe para fazer um filme sem lhe dar controle algum sobre o roteiro e a montagem. Na verdade, ele morreu em Auschwitz sem ter visto nada dos 17 mil pés de película que filmou. Mais que isso, os habitantes de Theresienstadt não se prestaram à propaganda. Nem mesmo modernos efeitos especiais poderiam corrigir os rostos tristes de pessoas jogando xadrez ou a pressa assustadora com que crianças pegam pedaços de pão com manteiga de um prato.

Para agradar os nazistas, Gerron adotou o estilo deles – especialmente o culto do corpo. Mulheres fazem aeróbica com shorts curtos. Um trabalhador sem camisa bate o martelo numa bigorna sobre a qual uma barra de aço exala fumaça. Um grupo de homens joga futebol. É a perversa inversão nazista da Muskeljudentum.

 

NARRADOR: O uso do tempo livre fica por conta de cada indivíduo. Com freqüência,

os trabalhadores se reúnem para jogar futebol, o principal evento desportivo de

Theresienstadt.

Mostra-se o pátio do antigo quartel militar usado como um campo. Homens e garotos

lotam o portal observando o campo sujo. A câmara passa para os times entrando no

quartel. Tal como o Hakoah, um deles usa estrelas de Davi sobre o uniforme branco.

NARRADOR: Devido a limitações de espaço, cada time tem sete jogadores.

Os jogadores apertam a mão do juiz.

NARRADOR: Apesar disso, torcedores entusiasmados assistem a um jogo animado do

começo ao fim.

Começa o jogo. Alguns jogadores do time de uniforme escuro devem ter sido

profissionais. Apesar do campo pequeno, eles tabelam com habilidade e marcam um gol

desviando um escanteio. A cada gol, a platéia comemora aos pulos.

Por dois minutos, a ação desenrola-se sem narração. A cena então muda abruptamente

para os banheiros, um tributo à impecável higiene do campo de concentração. Uma

fileira de homens nus marcha para os chuveiros.

 

III.

 

Não é exatamente uma novidade que, 60 anos depois do Hakoah, o anti-semitismo persista na Europa. Há até sinais – a ascensão de políticos de ultra-direita na França e na Áustria; o aumento da violência física contra os judeus franceses; charges políticas que relembram os clássicos estereótipos do nariz adunco – de que possa estar aumentando. Por mais assustador que isso possa parecer, a honestidade intelectual exige uma distinção entre o antigo anti-semitismo e o atual.

O anti-semitismo de agora é algo singular e novo – não tão aceito socialmente, tampouco não tão inaceitável. Talvez não haja exemplo mais estranho dessa atitude em relação aos judeus do que o Tottenham, time com sede em North London. Seus torcedores referem-se a si mesmos como os Yids ou Yiddoes. Quando esse nome sai de suas bocas com o sotaque cockney, parece um xingamento grosseiro. E, é verdade, as conotações desse nome não são das melhores. Quando as gangues do fascista inglês Oswald Mosley marcharam pela parte judaica do East End de Londres em 1936, seus membros gritavam: “Abaixo os Yids!” Ao longo da história, muitos outros inimigos dos judeus têm usado o termo exatamente dessa forma. Mas os torcedores do Tottenham aplicam a alcunha a si mesmos de maneira lisonjeira e com orgulho.

Quando um jogador do Tottenham dribla ou dá um chute de fora da grande área, os torcedores comemoram entoando “Yiddo, Yiddo”. Para empurrar a equipe em momentos de insegurança, a torcida incita seu time cantando: “Quem, quem, quem deixou os Yiddos de fora?”. Eles saúdam seus jogadores favoritos chamando-os de “judeus”, ainda que nenhum deles se enquadre sequer nos padrões mais frouxos do halakhah. Quando o grande atacante alemão Jürgen Klinsmann chegou ao clube em 1994, a torcida o recebeu cantando:

 

Chim-chiminee, chim-chiminee,

Chim-chim churoo

Jürgen era alemão

Agora é um judeu.