Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
Capítulo 10
Ao final do jogo, no campo, essas aspirações capitalistas ficam bem evidentes. Quando os protestantes comemoram um gol, são encorajados pelo capitão do time, um italiano de cabelos compridos chamado Lorenzo Amoruso, que parece um modelo masculino dos anos 1980. Agitando os braços, ele os exorta a cantar mais alto suas canções anticatólicas. A ironia é óbvia: Amoruso é católico. Por sinal, a maioria dos jogadores do Rangers também é. Desde o final da década de 1990, o Rangers rotineiramente põe em campo um número de católicos quase igual ao do Celtic. Seus jogadores vêm da Geórgia, da Argentina, da Alemanha, da Suécia, de Portugal e da Holanda, já que são os melhores que o dinheiro pode comprar. Ganhar campeonatos vale mais que manter a pureza religiosa.
Apesar de todos os objetivos capitalistas, o Rangers não faz muita força para desencorajar a intolerância religiosa. Seus torcedores continuam a usar uniformes de cor laranja. Pelo alto-falante do Ibrox, transmitem músicas que sabem que irão provocar letras anticatólicas: “Simply the best”, de Tina Turner, termina com 40 mil pessoas gritando “Foda-se o papa!”. Os clubes armazenam o ódio étnico, ou fazem apenas tentativas periódicas de desencorajá-lo, porque sabem que isso faz pleno sentido do ponto de vista comercial. Mesmo no mercado global, eles atraem torcedores que anseiam pela identificação étnica – e por participar de uma luta existencial em defesa de sua tribo. Se perdessem a fraseologia extremista, estariam perdendo dinheiro. De fato, desde o início de sua rivalidade, Celtic e Rangers foram cognominados a “Velha Firma”, pois são vistos como tendo feito um conluio para lucrarem com o ódio recíproco.
Evidentemente, a tese da modernização fornece uma profusão de explicações para os ódios mesquinhos – competição por empregos escassos, sistema de seguridade social inadequado –, mas nenhuma dessas condições apresenta grande concentração em Glasgow. A discriminação diminuiu. O problema do desemprego não é maior nem menor que no resto da Inglaterra. A cidade manteve vivo o tribalismo futebolístico, a despeito da lógica da história, porque ele lhe proporciona um prazer obsceno.