Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

Capítulo 1

Devido ao papel fundamental do árbitro para o resultado dos jogos, os times fazem o possível para influenciá-lo. Quase todo ano há um novo debate sobre os procedimentos de contratação dos juízes. No sistema atual, uma comissão composta por dois membros dá uma peneirada no pool de juízes antes que seus nomes sejam submetidos a um sorteio. Sabe-se que um dos membros da comissão tem o apoio dos clubes mais poderosos, o Juventus de Turim e o Milan. O outro representa o restante da liga. O resultado é que o Juve e o Milan muitas vezes se vêem na possibilidade de manipular o sistema, fazendo com que seus jogos sejam apitados pelos árbitros mais medíocres e de mentalidade mais provinciana, que são (inconscientemente) mais deferentes em relação a esses prestigiosos clubes. É raro que o famoso Collina e colegas escrupulosos como ele sejam designados para apitar os jogos do Juve. Outros juízes que marcaram pênaltis decisivos contra o Juve acabaram atuando na humilde série B.

Nosso conhecimento limita-se à manipulação aberta. É claro que há muito mais por trás dos panos. O fato de Milan e Juventus terem tanto poder sobre o processo de seleção é em si mesmo uma evidência segura de negócios escusos, levantando uma longa série de questões sobre transações entre dirigentes de clubes em salas esfumaçadas. Todos comentam sobre essas tramóias secretas, mas raramente têm provas concretas daquilo que afirmam. Só em poucas ocasiões é que alguns dos sórdidos detalhes ocultos vieram à tona. Em 1999, o jornal Gazzetta dello Sport expôs que o A.S. Roma tinha dado a cada um dos principais árbitros italianos um Rolex de 13.500 dólares, no evento que foi denominado “A Noite dos Relógios”. Segundo a reportagem, nenhum dos juízes devolveu o presente.

Inegavelmente, Juventus e Milan obtêm mais benefícios de arbitragens amigáveis que quaisquer outros clubes italianos. E, de certa forma, isso não choca. Os clubes grandes, historicamente dominantes, parecem gozar universalmente do benefício da dúvida. Mas a manipulação dos árbitros na Itália é coisa bem mais deliberada. Juventus e Milan usam dois caminhos muito diferentes para obter um tratamento generoso, e esses dois modos não revelam apenas um contraste entre organizações. Revelam diferenças básicas entre seus proprietários – as forças mais poderosas na Itália do pós-guerra, representantes de dois estilos muito diversos de oligarquia.

O Juventus é um brinquedo da família Agnelli, proprietária da Fiat e de uma percentagem substancial da bolsa de valores de Milão. Mais que qualquer outra família na Europa, os Agnelli representam o estilo de classe dominante pré-globalização que imperou em grande parte do mundo latino durante o século XX. Embora sejam industriais, no auge de seu poder os Agnelli se comportavam como latifundiários da América Central. Pouco faziam para alardear sua influência, preferindo esconder-se nos bastidores, enquanto controlavam tranqüilamente os políticos que regulamentavam seus impérios empresariais. Sua discrição contribuiu para um problema duradouro da política italiana: ninguém conseguia localizar os verdadeiros centros de poder, condição que exacerbava a permanente tendência italiana de se preocupar com conspirações. Apesar do sistema obtuso, tornou-se claro que ele funcionava desta maneira: uma coalizão de industriais do norte, políticos democrata-cristãos corruptos e mafiosos do sul controlava o país. Os políticos viviam das propinas dos industriais, e estes sobreviviam dos contratos com o Estado, que recebiam em retribuição. Só com as investigações anticorrupção dos “mãos-limpas” no início dos anos 1990 e o indiciamento de centenas de políticos é que esse sistema caiu por terra.

Durante a maior parte do pós-guerra, o Juventus gozou de um domínio semelhante ao dos Agnelli, interrompido apenas por um curto intervalo nos anos 1960. Tornou-se uma espécie de seleção italiana, com mais torcedores espalhados pela península do que qualquer outro time. Mas nos anos 1980 o Juve viu seu poder seriamente ameaçado pelo Milan. Os arrivistas deviam o sucesso recente quase que exclusivamente a seu extravagante proprietário, Silvio Berlusconi. No curso de duas décadas, ele construiu um grande império, partindo do ramo imobiliário para se estender à televisão, aos jornais, à publicidade e aos seguros. Oito anos depois de comprar o clube, em 1986, ele fez com que o sucesso o levasse aos pináculos do poder, tornando-se primeiro-ministro, cargo que agora ocupa pela segunda vez.

Segundo seus críticos de esquerda, seu emaranhado de interesses representa um perigo para a democracia, o prenúncio de um novo ditador: o magnata da mídia ao estilo Cidadão Kane, capaz de manipular e controlar o discurso público a fim de atingir um nível tal de lucros e poder que jamais será de fato ameaçado. E na economia globalizada, argumentam, a mídia tem muito mais poder. Esses magnatas não precisam mais competir com redes públicas de televisão nem lutar por fatias do mercado com empresas estatais, enfraquecidas pela privatização e a desregulamentação. Agora que podem operar no plano global, é possível a magnatas como Silvio Berlusconi desenvolver economias de escala que os tornam ainda mais oligárquicos e politicamente intocáveis.

Mas existem diferenças-chave que distinguem os novos oligarcas de seus predecessores. Como vendem ações de suas empresas nas bolsas de valores e fazem negócios com corporações multinacionais, fica mais difícil esconderem sua riqueza e influência. E, mesmo que pudessem fazê-lo, essa humildade iria contra seu estilo. Tal como Berlusconi, são novos-ricos que tendem a ostentar suas riquezas. Conseqüentemente, todos conhecem e compreendem seus conflitos de interesses. É claro que isso não desculpa os pecados dos novos magnatas – e com certeza não desculpa Berlusconi pelas propinas, pela manipulação do governo para promover seus interesses e por outros pretensos delitos –, mas os torna mais transparentes e, de uma forma peculiar, um avanço democrático em relação aos antigos regimes.

 

II.

 

Quando Berlusconi comprou o Milan, este era um time com um passado glorioso que mergulhara em tempos difíceis. Ele o tornou grande outra vez, infundindo-lhe brilho, jogadores estrangeiros e seu faro para o espetáculo. O Juventus tem um estilo totalmente diverso. Sempre foi grande, exibindo a simplicidade do dinheiro velho. Seus proprietários, os Agnelli, são com freqüência descritos como “a monarquia não-oficial italiana”. Enquanto Berlusconi tenta projetar uma persona populista, os Agnelli preferem a imagem da nobreza. O falecido pater familias Gianni Agnelli, com suas echarpes, era o opulento playboy europeu por excelência. Circulava com Jackie Kennedy e Rita Hayworth. Passou anos afastado da devastação da Itália do pós-guerra, perambulando pela Riviera.

Como os Agnelli não alardeavam sua riqueza e poder, era fácil subestimá-los. Calcula-se que, no início dos anos 1990, os Agnelli influenciavam ou controlavam empresas de serviços bancários, seguros, produtos químicos, têxteis, armamentos, serviços financeiros, cimento e publicações, com um valor de mercado que totalizava cerca de 60 bilhões de dólares. Isso significa aproximadamente um terço de toda a capitalização do Milan no mercado de valores. A Fiat controlava uma parte substancial do império editorial Rizzoli, além de jornais importantes, incluindo o Corriere della Sera,o New York Times italiano. Seria de se estranhar que tanto dinheiro e influência não comprassem um enorme poder. Segundo uma antiga piada, o papel do primeiro-ministro italiano é polir a maçaneta dos Agnelli. Eles consideravam direito seu exercer influência na política. “Os industriais são ministeriáveis por definição”, proclamou uma vez o avô de Gianni Agnelli.

O Juventus tem o apelido de “Velha Senhora”, denominação improvável para um clube dirigido por um proprietário tão elegante quanto Gianni Agnelli. Apesar dos vistosos jogadores estrangeiros e dos ocasionais períodos de futebol atraente, seu estilo tem sido principalmente uma extensão da monotonia de seu uniforme preto e branco. Suas obsessões táticas e defensivistas deixam pouca margem para o erro e põem muita coisa nas mãos dos árbitros. Não obstante, o Juventus se coloca como a monarquia informal do futebol italiano. Desde de 1930, quando o esporte se profissionalizou, o clube ganhou 25 campeonatos e foi vice 14 vezes.

O que é chocante nesse retrospecto, excluindo-se o domínio cabal que ele representa, é a freqüência com que o Juventus tem ganhado o campeonato no final da temporada em partidas de arbitragem duvidosa.

A extensão dessas paródias arbitrais pode ser vista no site www.anti-

Juve.com. Vale a pena ver com os próprios olhos as faltas fantasmas anulando gols vitais dos oponentes do Juventus. Vêem-se flashes em que a bola cruza a linha do gol do Juve, mas, inexplicavelmente, o árbitro não assinala o tento.

Um exemplo recente dessa história de infâmias ilustra perfeitamente o argumento dos críticos. Em 1998, o Juventus ganhou a chamada “temporada do veneno”. O triunfo deveu-se ao fato de árbitros terem anulado gols claros de seus adversários e deixado de marcar faltas cometidas por seus jogadores. Embora o Juve tivesse cometido mais faltas que qualquer outro time da liga, recebeu o menor número de cartões vermelhos, uma incoerência estatística que desafia o raciocínio lógico. A temporada pode ser resumida por um jogo contra seu rival mais próximo, o Inter de Milão. Quando um jogador do Juve derrubou claramente o atacante brasileiro Ronaldo, do Inter, o juiz não deu o pênalti. Um pouco depois, do outro lado do campo, ele marcou uma penalidade duvidosa a favor do Juve num ato evidentemente teatral em que a causa da queda de um jogador não podia ser explicada por nenhuma lei da física conhecida. O jogo foi decidido de forma tão patética que até mesmo um jornal de propriedade dos Agnelli, o La Stampa, condenou a entrega do troféu de campeão ao Juventus. “Não se pode ficar indiferente quando se é confrontado com certas coincidências tão singulares e, digamos, ‘oportunas’…”

Depois da temporada, o poder do Juventus tornou-se uma vez mais objeto de um intenso debate. No Parlamento, um político pós-fascista chamado Domenico Gramazio protestou contra as paródias pró-Juve. “Um monte de árbitros italianos dirige Fiats”, exclamou ele na sede do Legislativo. Sua acusação atingiu profundamente um de seus colegas, um ex-jogador do Juventus chamado Massimo Mauro. Em resposta aos ataques à honra de seu clube, Mauro começou a gritar: “Palhaço, palhaço!” Foi necessária a intervenção de seguranças uniformizados para impedir que Gramazio agredisse Mauro. Para evitar mais problemas e novas humilhações, o vice-primeiro-ministro encerrou a sessão.

Gramazio foi um pouco além das evidências. Excetuando-se casos isolados ocorridos no passado distante, não há provas diretas do envolvimento do Juventus em grandes propinas. Não obstante, o currículo do clube parece muito suspeito para ser creditado ao mero acaso e a erros pessoais de árbitros. Além disso, sabemos muita coisa sobre o estilo de Agnelli, da Fiat e da oligarquia italiana do pós-guerra. Não há dúvida de que Agnelli transformou a Fiat num gigante industrial por meio de uma esplêndida e carismática administração. E não há dúvida de que suas táticas administrativas incluíam o suborno de políticos. Ele mesmo já o admitiu. No início dos anos 1990, confessou que a Fiat havia pagado 35 milhões de dólares em propinas nos últimos dez anos. Embora a Fiat tivesse mais poder que a maioria das grandes empresas, dificilmente se poderia dizer que estivesse sozinha no que se refere a passar envelopes gordos por baixo da mesa. Sob o governo monopolista do Partido Democrata Cristão – organização que constituiu o cerne de todos os governos italianos do pós-guerra até a década de 1990 –, o suborno era um traço regularizado do mundo dos negócios na Itália. Os políticos assinavam contratos entre o governo e as grandes empresas e instituíam tarifas elevadas a fim de protegê-las. Em retribuição, essas empresas ajudaram a consolidar o controle dos democrata-cristãos e pagavam vultuosas gorjetas aos políticos pela ajuda. Carlo de Benedetti, o magnata que dirigia a Olivetti, um gigante da indústria, descreveu a Itália do pós-guerra como “mais perto do souk árabe do que de Bruxelas”.