Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
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Como fã de futebol, eu entendia exatamente o que ele estava dizendo. Não se tratava apenas da maneira como a Internet e os satélites haviam tornado o mundo do futebol tão menor e tão mais acessível. Era possível ver a globalização em ação: nos anos 1990, times bascos, orientados por técnicos galeses, abasteciam-se de jogadores da Holanda e da Turquia; equipes da Moldávia importavam nigerianos. Subitamente parecia que, para onde se olhasse, fronteiras e identidades nacionais tinham sido varridas para a lata de lixo da história. Os melhores clubes agora competiam entre si quase semanalmente em torneios como a Liga dos Campeões Europeus ou a Copa Libertadores da América.
Era fácil entusiasmar-se com a nova ordem. Esses torneios eram o doce sonho de um fã: a chance de ver o Juventus de Turim jogar numa semana com o Bayern de Munique e com o Barcelona na seguinte. Ao criarem alquimias culturais a partir de suas escalações, os técnicos muitas vezes produziam novos e maravilhosos espetáculos: o estilo italiano, cínico e defensivo, vitalizado pela infusão da liberdade de estilo de holandeses e brasileiros; o estilo duro (ou a falta de estilo) dos ingleses temperado por uma pitada de perspicácia sob a forma de atacantes franceses. Visto da minha poltrona, o futebol parecia estar muito mais adiantado no processo de globalização do que qualquer outra economia do planeta.
Mais que isso, eu podia imaginar um outro benefício da globalização do futebol que ainda estava por se concretizar: alguém precisava escrever um livro sobre o assunto, o que exigiria o trabalho (extremamente árduo…) de viajar pelo mundo, assistir a jogos, comparecer a treinamentos e entrevistar seus heróis. Tirei uma folga de oito meses de meu emprego na revista New Republic e visitei os estádios que mais ardentemente desejava conhecer.
Mais ou menos quando comecei a trabalhar neste livro, no outono de 2001, o consenso sobre a globalização mudou consideravelmente – por motivos óbvios. Não era mais possível falar de modo tão entusiástico, tão messiânico, sobre a promessa política de interdependência econômica. E havia outro problema: o breve experimento mundial de interdependência não chegara nem perto de produzir a prosperidade anunciada. Este livro tenta usar a metáfora do futebol na abordagem de algumas questões incômodas relacionadas com esse fracasso: por que algumas nações permaneceram pobres, embora tenham sido alvo de tanto investimento estrangeiro? Que perigo representam as corporações multinacionais que tanto atraem a ira da esquerda?
Isso não significa reviver as velhas e desgastadas críticas marxistas ao capitalismo das grandes corporações – a grande questão que este livro aborda é menos econômica que cultural. A inovação da esquerda antiglobalização é seu apego ao tradicionalismo: a preocupação de que gostos e tendências globais venham a sufocar as culturas nativas. Evidentemente, o futebol não é a mesma coisa que Bach ou o budismo. Mas freqüentemente provoca um sentimento mais profundo que a religião e, tal como esta, é uma parte do tecido comunitário, um repositório de tradições. Durante o regime franquista, o Atlético de Bilbao e o Real Sociedad eram os únicos espaços em que o povo basco podia expressar seu orgulho cultural sem ir para a cadeia. Em cidades industriais inglesas como Coventry e Derby, os clubes de futebol ajudaram a aglutinar pequenas comunidades em meio a uma poluição opressiva.
Pela lógica tanto de seus críticos quanto de seus proponentes, a cultura global deveria ter varrido do mapa essas instituições locais. Com efeito, viajando pelo mundo, é difícil deixar de se assombrar com o poder de megamarcas como o Manchester United e o Real Madrid, patrocinados pela Nike e pela Adidas, que cultivam seu apoio através dos continentes, afastando torcedores de seus antigos clubes. Mas essa homogeneização revelou-se mais exceção que regra. Perambulando entre torcedores lunáticos, dirigentes sem escrúpulos e artilheiros búlgaros ensandecidos, observei as formas como a globalização havia fracassado em reduzir as culturas futebolísticas regionais, as disputas sangrentas e mesmo a corrupção no plano local. Na verdade, comecei a suspeitar que a globalização de fato havia aumentado o poder dessas entidades locais – e nem sempre no bom sentido.