Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
Capítulo 14
Mais que qualquer outro clube do mundo, o Chelsea foi transformado pela globalização e pela renovação arquitetônica da cidade. Passou de clube mais intimamente identificado com o hooliganismo dos anos 1980 àquele que mais se identifica com o cosmopolitismo da década de 1990. O desenvolvimento imobiliário em Stamford Bridge foi apenas uma parte desse processo. A renovação também pode ser vista em campo. O Chelsea contratou uma série de autoridades italianas e holandesas para treinar sua equipe e nela imprimir sua cintilante marca estrangeira. Sob a orientação desses nomes, o Chelsea teve a distinção de ser o primeiro clube da Inglaterra a montar um time sem nenhum inglês. Essa postura exuberante exacerbava a tendência ao cosmopolitismo, atraindo uma batelada de investimentos estrangeiros. A companhia aérea Air Emirates, do Oriente Médio, passou a anunciar no uniforme do time. Em 2003, o segundo homem mais rico da Rússia, um judeu magnata do petróleo de nome Roman Abramovich, adquiriu participação majoritária no clube e começou a gastar sua fortuna construindo uma equipe com o calibre de campeã.
Para muitos, Alan inclusive, esses melhoramentos caíram como uma detestável agressão à base do clube, formada por gente da classe trabalhadora, como se o time tivesse abandonado seus torcedores mais fiéis em favor da afiliação efêmera de pessoas fúteis atraídas por modismos. Entre as muitas mudanças, houve um momento mais doloroso. Em 1983, o presidente do Chelsea, Ken Bates, propôs que os torcedores fossem rodeados por uma cerca elétrica de 12 volts que lhes causaria choques se tentassem sair de seu setor.
— Iam nos tratar como se trata um animal – diz Alan.
Só a intervenção do governo local impediu que esse plano fosse posto em prática. Mas o dano em matéria de relações públicas já estava feito.
Até a década de 1990, grande parte da elite social da Inglaterra tratava o futebol com desdém. Antes de Rupert Murdoch tentar adquirir o Manchester United, ficou famoso o rótulo que seu jornal Sunday Times atribuía ao futebol: “um esporte de favela praticado por favelados”. A primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, principal defensora dos supostos valores da classe média, exibia mais do que ninguém o seu desprezo. Kenneth Clark, amigo íntimo da Dama de Ferro, disse que ela “via os torcedores de futebol como inimigos internos”. Durante grande parte de seu mandato, ela demonstrou abertamente o desejo de declarar guerra aos hooligans. E em 1989 seu governo teve o pretexto ideal para agir: no Estádio Hillsborough, em Sheffield, 95 torcedores que assistiam à partida entre o Liverpool e o Nottingham Forest foram asfixiados contra as cercas das arquibancadas superlotadas que ocupavam. Em resposta a essa carnificina, uma comissão governamental exigiu que os estádios transformassem as arquibancadas, nas quais os torcedores eram obrigados a ficar em pé, em assentos, como os de um teatro. O policiamento dos estádios enfim se tornaria um assunto sério, com câmeras de vídeo registrando todas as brigas e hinos.
As novas exigências transformaram a economia do esporte. Para financiar a reconstrução de seus estádios, os antigos proprietários, na maioria pequenos empresários que se fizeram por conta própria, importaram montanhas de capital novo. Grande parte dele veio de espertos investidores urbanos que percebiam que o futebol tinha um mercado cativo gigante e sólidas fontes de lucro inexploradas. As novas instalações incluíam luxuosas suítes executivas alugadas a grandes empresas. Os clubes lançaram ações na bolsa de valores, aumentaram o preço dos ingressos e venderam os direitos de transmissão dos jogos da Liga ao serviço de TV por satélite de Rupert Murdoch. O plano funcionou perfeitamente. Um novo tipo de torcedor, mais abastado, começou a freqüentar os jogos em estádios mais seguros e confortáveis. Pela primeira vez, viam-se muitas mulheres nas arquibancadas.
Mas essas mudanças tiveram um custo. A nova clientela acabou com a antiga atmosfera de classe operária turbulenta. Ao explicar essa transformação, Alan evocou uma época em que “dez mil homens vinham ao estádio”.
— Seis mil estavam prontos para brigar. O resto vinha ver a briga. Certo, eles diziam que ficavam enojados. Mas se você lhes perguntasse depois no pub: “Você viu a briga ou o jogo?” – Inclina-se e faz uma voz pedante. — “Ah, é claro, a briga.” – Ele ri de sua própria observação. — Agora as pessoas só querem ir ao jogo para poderem dizer – retoma o estilo pedante – “Vejam só, estou por dentro. Vou ao Chelsea.” Quando me levanto para cantar, eles me mandam sentar.