Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
a sobrevivência dos cartolas
COMO O FUTEBOL EXPLICA
I.
Quando marcam gols no estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, os jogadores têm visões da crucificação. Menos de 20 passos atrás do gol, uma cruz de madeira escura se projeta do vitral de uma capela ao estilo modernista de meados do século passado em honra a Nossa Senhora das Vitórias. Alguns passos à esquerda, perto da linha do escanteio, há um pequeno jardim cheio de pedestais com estatuetas em concreto da Virgem Maria e outros ícones. É assim que o resto do mundo espera que esse esporte seja praticado no Brasil, o berço da civilização futebolística: de maneira transcendental.
São Januário pertence ao Vasco da Gama, e o estádio em si é um santuário do futebol brasileiro. Por toda a história registrada do clube, seus jogadores têm encarnado perfeitamente o temperamento dionisíaco dos cariocas – como Romário, o astro da Copa do Mundo de 1994. Ele compensa sua indisfarçável aversão a correr com o dom de iludir seus adversários. Muito tempo atrás, como me contam todos os jornalistas do Rio, seus técnicos pararam de lhe implorar para abandonar a praia, afastar-se do bar e juntar-se ao time nos treinamentos.
Em 2002, Romário trocou o Vasco por um time rival da mesma cidade. Desde então, o principal ícone de São Januário não é mais um jogador. Seu rosto pode ser visto pouco acima de Nossa Senhora das Vitórias, num outdoor pendurado numa torre adjacente ao campo. É o rosto carrancudo de um homem de cabelo ralo e grisalho, com papada e pesados óculos de armação dourada. Seu nome é Eurico Miranda, deputado federal e presidente do Vasco da Gama. O cartaz o anuncia como um “símbolo da resistência”. Nas minhas visitas a São Januário, vejo esse símbolo por toda parte. Cartazes da sua campanha à reeleição – “uma voz contra os poderosos” – cercam a parte externa do estádio. Do outro lado da rua, em frente ao portão principal, um Ford Escort com alto-falante no teto toca um samba que proclama: “Eurico é o candidato dos pobres.” Ao entrar no estádio, um inevitável estandarte no centro de campo apregoa: “Paixão pelo Vasco, devoção a Eurico!”
Os norte-americanos chamam seus clubes desportivos de “franquias”. Os brasileiros jamais tolerariam o uso desse termo. Tem muitas associações com organizações comerciais, como cadeias de lanchonetes e lavanderias. Em vez disso, os brasileiros chamam seus times de “clubes”, pois a maioria deles realmente o é. Eles têm piscinas, restaurantes, quadras de tênis, jardins cobertos por palmeiras e sócios que pagam mensalidades – lugares para a classe média passar uma tarde de sábado. Embora paguem seus jogadores, os clubes mantiveram sua condição de entidades amadoras sem fins lucrativos. Isso significa que suas contas não estão sujeitas à fiscalização pública, e que seus executivos não mantêm uma contabilidade legal. Em suma, suas diretorias constituem o refúgio perfeito para pessoas mal-intencionadas. Estas se tornaram de tal forma integradas ao futebol brasileiro que todos as chamam pelo apelido: cartolas. Como parte da estrutura amadora do esporte, os cartolas geralmente não recebem salários. Supostamente trabalham por seu cavalheiresco amor ao clube. Na prática, contudo, eles muitas vezes “retiram” do patrimônio do time a recompensa por seus esforços voluntários.
Quando Eurico Miranda entrou para a diretoria do Vasco, em 1975, aos trinta e poucos anos, era um homem de recursos limitados. Filho de um padeiro português, tinha trabalhado como vendedor numa concessionária carioca da Volkswagen. Mas, com seu carisma e habilidade política, não demorou a subir na hierarquia do Vasco. Isso mudou sua vida. Comprou casas à beira-mar, além de um iate. Não se trata de uma história de riqueza obtida com os próprios esforços. Atualmente, a imprensa brasileira e uma investigação promovida pelo Congresso têm documentado os delitos de Eurico Miranda. Em 1998, o Vasco recebeu 34 milhões de dólares em dinheiro do NationsBank (atual Bank of America), ávido por estabelecer o seu nome no grande mercado brasileiro por meio do patrocínio de uma marca esportiva popular. Quando o banco assinou o contrato, anunciou que o dinheiro seria suficiente para sustentar o clube por 100 anos. Dentro de dois anos, porém, essa quantia havia praticamente desaparecido. Cerca de 124 mil dólares tinham sido usados na compra de camisetas e material de propaganda para a última campanha eleitoral de Eurico Miranda. Doze milhões foram parar em contas de uma empresa das Bahamas chamada Liberal Banking Corporation Limited. A companhia era mesmo muito liberal, como se viu depois. Qualquer representante legal do Vasco podia sacar o dinheiro. Segundo um relatório publicado pelo Senado brasileiro, o dinheiro retirado foi usado em pagamentos da concessionária de automóveis, de investimentos empresariais, do cartão de crédito, do irmão e do provedor de Internet de Eurico Miranda. “Está claro”, concluiu o relatório, “que o sr. Eurico Miranda tem desviado para suas contas dinheiro pertencente ao Vasco.” Ele não tivera cuidado em disfarçar sua trilha. Não precisava. Como detinha uma cadeira no Congresso, a imunidade parlamentar impedia que o processassem. Com o apoio dos muitos torcedores do Vasco, parecia que ele iria ficar impune para sempre.
Tendo ele, contudo, esbanjado o investimento do Bank of America, o Vasco mergulhou em dívidas e na mediocridade. Em 1998, o time ganhara a Copa Libertadores da América. Três anos depois, o clube devia ao seu astro Romário 6,6 milhões de dólares em salários atrasados. Pior que isso: para manter a equipe em campo, o próprio Romário teve de tirar dinheiro do bolso para cobrir as remunerações de seus colegas de time. Desesperado por dinheiro extra, o Vasco começou a amontoar torcedores nos grandes jogos em São Januário. Na última partida de 2000, a diretoria do Vasco permitiu que a lotação máxima do estádio fosse ultrapassada em 12 mil pessoas. Depois do início de uma briga nas arquibancadas, os torcedores começaram a fugir e a cair uns sobre os outros. Despencaram na direção do campo, sendo amparados somente por uma cerca enferrujada. Quando esta se rompeu, a multidão desabou no gramado. Houve 168 feridos. Qualquer pessoa teria cancelado a partida assim que os corpos começaram a se empilhar no gramado e a ser levados pelos helicópteros. Eurico Miranda insistiu para que o jogo prosseguisse.
II.
Em vista da elegância com que o Brasil triunfou na Copa do Mundo de 2002 – Edmílson pulando de costas, como uma catapulta, num chute de bicicleta digno de um pôster; Ronaldo marcando um gol com um toque do bico da chuteira –, você não imaginaria a crise que essa paixão nacional está atravessando. Mas o estado do futebol brasileiro não poderia ser mais lamentável – não é possível ser mais corrupto, menos estimulante para os torcedores, menos interessante para os investidores. Poucos clubes operam fora do vermelho. Em 2002, o Flamengo do Rio de Janeiro, de longe o clube mais popular do país, devia mais de 100 milhões de dólares a seus credores, uma soma incompreensível na economia brasileira. Os sinais de decadência estão por toda parte. Assistindo a jogos nos estádios mais famosos do país, comprando os ingressos mais caros, eu me flagrei preocupado com lascas e pregos enferrujados projetando-se dos assentos de madeira apodrecida.
Em geral, essas condições deploráveis são atribuídas à pobreza. Mas é difícil alegar que o futebol brasileiro tenha sofrido de falta de capital. Na verdade, houve um empreendimento internacional com grande sustentação financeira para elevar a qualidade desse esporte no Brasil a um padrão semelhante ao da Europa Ocidental. Em 1999, um fundo de investimentos sediado em Dallas, no Texas, chamado Hicks, Muse, Tate & Furst despejou milhões de dólares no Corinthians, de São Paulo e no Cruzeiro, de Belo Horizonte. A ISL, empresa suíça de marketing esportivo, adquiriu uma participação no Flamengo. Poucos anos antes, a gigante italiana Parmalat, do ramo alimentício, começara a administrar o Palmeiras, de São Paulo. Esses investidores chegaram prometendo implicitamente varrer as práticas dos cartolas corruptos e substituí-las pela ética do profissionalismo, pela ciência do marketing moderno e pela preocupação com o equilíbrio no balanço das empresas. “O capitalismo está vencendo a luta contra as atitudes feudais que por tanto tempo prevaleceram no esporte”, saudou o respeitado jornalista esportivo Juca Kfouri no auge do influxo de capital estrangeiro. Os jornais apresentavam previsões de que dentro de alguns anos o futebol iria gerar 4% do Produto Interno Bruto.
Quando os investidores falavam em explorar o potencial do futebol brasileiro, desejavam aproveitar um único aspecto do esporte no país: o fato de ele ser esteticamente mais agradável que qualquer outro no planeta. Nos anos do pós-guerra, quando de fato começou a competição internacional, o Brasil se tornou uma potência mundial porque jogava sem as rígidas restrições do futebol europeu. Posições, formações e defesa não eram nem de longe tão valorizadas quanto a espontaneidade, a destreza e os gols. Parafraseando o diretor de cinema italiano Pier Paolo Pasolini, enquanto o estilo europeu era prosa, o brasileiro era poesia. Os brasileiros criaram todo um novo conjunto de convenções para o jogo: passes de calcanhar, uma série de truques com a cabeça e os quadris, o gol de bicicleta.