Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

Capítulo 11

A imprensa gosta de descrever o Celtic e o Rangers como moralmente iguais. E é verdade que o Celtic tem usado seu estádio para a celebração de missas ao ar livre, que parte de seus administradores apoiava com devoção a causa republicana e que durante os anos 1990 sua diretoria foi composta exclusivamente de católicos. Havia, contudo, uma diferença substancial entre as práticas dos dois clubes. O Celtic antecipou-se, calculadamente, ao colocar católicos usando seus uniformes nas cores verde e branco; o Rangers não fez nada parecido. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Rangers instituiu uma política de “só para protestantes”, extensiva dos atletas aos zeladores. E ela se tornou ainda mais rigorosa: o clube negava promoções a executivos que se casassem com católicas. O Rangers permitiu que o transformassem no palco de uma gritante política protestante. Enviava equipes a Belfast para participarem de jogos beneficentes, mandando os fundos obtidos para as sedes locais da Ordem de Orange, na Irlanda do Norte – fraternidade anticatólica que parece existir por uma única razão: marchar ameaçadoramente pelos bairros católicos no dia 12 de julho, aniversário do triunfo do Rei Billy, em 1690, na Batalha de Boyne. O estádio de Ibrox tornou-se o foco da cidade de Glasgow nas comemorações dessa data. Uma das histórias oficiais do clube descreve seu ethos de modo curto e grosso: “um clube protestante para pessoas protestantes”.

Considerando-se a história do pós-guerra – descolonização, direitos civis, tendência global em direção à liberalização –, o Rangers teimou nesse programa por tempo demais. Talvez tenha sido apropriado o fato de o clube pôr abaixo o seu muro religioso em 1989, o ano da Revolução de Veludo. Seu novo presidente, David Murray, estimulado por seu gerente Graeme Souness, contratou um ex-jogador do Celtic, católico, de nome Maurice Johnston. (Na verdade, o pai de Johnston era um protestante que torcia pelo Rangers, e ele próprio nunca foi um católico praticante.) Mesmo então, a decisão do Rangers não foi tomada por “bom-mocismo”; foi apenas comercial. Durante a década de 1980, seduzida pelas crescentes rendas proporcionadas pela televisão, uma nova geração de capitalistas entrou no jogo com o objetivo de ganhar um bom dinheiro – uma turma bem mais sofisticada que os trapaceiros amadores e a burguesia de pretensões filantrópicas que predominava anteriormente. David Murray, por exemplo, fizera fortuna como magnata do aço. Embora seja difícil afirmar que defendesse uma política progressista, ele percebia que o sectarismo se tornara um obstáculo financeiro em potencial. A Federação Européia de Futebol, temia ele, iria impor custosas sanções ao Rangers se o clube não alterasse sua política de contratações. Ele também percebeu que basear-se exclusivamente em protestantes tinha privado o clube do talento para competir nos níveis mais elevados do futebol europeu, em que grandes equipes como o Milan e o Real Madrid importavam jogadores latino-americanos católicos fervorosos.