Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

; Miranda, Eurico,

VI.

 

Alguns críticos atribuem motivações sombrias aos investidores estrangeiros. Acusam-nos de usar os clubes para lavar dinheiro e encobrir transações de reputação duvidosa. E em alguns casos pode haver alguma verdade nessas acusações. Mas a maioria dos investidores estrangeiros chegou ao Brasil com um brilho utópico no olhar. Tudo de que se precisava para transformar o futebol, teorizavam, era um pouco de transparência, a moderna mágica do mercado e a exploração de sinergias. Falavam em transformar o esporte num grande e lucrativo espetáculo – o que se completaria com cabines vip nos estádios e proveitosos contratos de TV. A Hick, Muse de Dallas chegou até a trazer a Pan-American Sports Network para transmitir os jogos de seus times. Era um plano ambicioso, e poderia ter funcionado se alguns cartolas tivessem sido afastados.

 

Eurico Miranda me convida para visitar São Januário na manhã seguinte ao 104º aniversário do clube. Na noite anterior tinha havido uma festa de gala na orla do Rio. Nessa manhã, ele convocou uma coletiva de imprensa para anunciar a contratação de um emigrante sérvio muito elogiado de nome Dejan Petkovic. A comemoração da noite anterior, diz ele, o motivou a “fazer algumas mudanças”. Mas existe outra razão para ele precisar de Petkovic. O Vasco não começara bem o campeonato e o fato de a equipe estar ocupando uma das últimas posições na tabela ameaçava sua reeleição. Na linguagem da ciência política norte-americana, o mau desempenho do time ameaçava reduzir o afluxo da base eleitoral de Eurico Miranda. Petkovic é uma peça de uma jogada política, uma tentativa de última hora de reenergizar a torcida do clube.

Miranda não faz muito esforço para ocultar suas motivações. Na coletiva de imprensa, seus assessores colocam três sujeitos troncudos atrás da mesa com os microfones. Momentos antes de Eurico aparecer com Petkovic, quando serão ligadas as câmeras de TV, um assessor entrega aos fortões camisetas com o nome e a marca de Eurico. Quando os jornalistas chegam para a coletiva, realizada na “sala de reuniões presidencial” do estádio, um dos assessores de Eurico lhes oferece um adesivo de campanha. Ele grita para um câmera:

— Não se pode usar bermuda no escritório do presidente.

Eurico chega para a coletiva de imprensa. Está usando um cordão de ouro. O cabelo foi bem penteado com brilhantina. Um de seus críticos de longa data me diz que cerca de 20 anos atrás ele era um homem bonito. Embora a beleza não exista mais, ele ainda chama muita atenção. Mesmo quando Petkovic está respondendo uma pergunta, Eurico Miranda requisita a atenção da platéia. Senta-se numa cadeira e se recosta, exibindo orgulhosamente sua corpulência. Durante a coletiva, fuma um enorme charuto, alisando-o com os dedos enquanto tira longas e profundas baforadas. É impossível deixar de notá-lo.

Uma das características definidoras do populista brasileiro é seu “pugilismo”. Num certo sentido, a atração que exercem depende de serem percebidos como rebeldes prontos para o combate, retratando seus acusadores como membros de uma elite negligente. Eurico também gosta de uma boa briga. Quando o governador do Rio de Janeiro, o evangélico Anthony Garotinho, cancelou um jogo do Vasco depois do desastre em seu estádio, Miranda o chamou de “frouxo … devia estar fazendo suas preces falsas para Jesus”. Quando o juiz expulsou três jogadores do Vasco num jogo em 1999, Miranda invadiu o gramado, à frente de um bando de seguranças. Antes que ele pudesse agredir o árbitro, a polícia interveio.

Durante a coletiva com Petkovic, Miranda não se constrange em interromper bruscamente um jornalista:

— Essa pergunta é estúpida – diz ele repetidas vezes.

Ele faz um movimento circular com a mão, o mesmo usado pelos treinadores para indicar uma substituição. Talvez temerosos de suas agressões verbais, os jornalistas aquiescem. No momento em que ele encerra a coletiva de imprensa e se senta para conversar, também estou um pouco assustado.

Conheci muitos torcedores do Vasco da Gama, pessoas sensíveis que desprezam a corrupção, mas adoram Eurico Miranda. “Ele pode ser um canalha, mas é o meu canalha”, é o clássico refrão. Como muitos homens de poder, Eurico não consegue distinguir entre seus próprios interesses e os do clube – a figura do pai que protege o Vasco das pedras e flechadas de um mundo malévolo. Ele é especialmente duro com os investidores estrangeiros, aos quais acusa de tentarem destruir seu clube.

— De uma hora para outra, os investidores estrangeiros vieram e tentaram transformar isto aqui numa coisa que eles chamam de empresa. Devido às práticas culturais que temos aqui, eles enfrentaram sérias dificuldades. Porque a abordagem não era correta. Eles vieram com um objetivo: vamos cuidar do balanço. Empresa é isso. Mas essa maneira simplesmente não funciona aqui. Existem práticas locais que devem ser observadas. Eles entendem de negócios, mas não sabem nada de nossa cultura, de nossas características locais.

Isso é totalmente falso, para dizer o mínimo. Eurico fechou negócio com o NationsBank, convidando-o a fazer parte do clube. O banco nunca teve nem de longe a influência sobre o clube que Eurico alega. Mas ele usa essa retórica com inegável maestria. Ele tem mantido sua base política por tanto tempo porque recorre a uma linha de argumentação poderosa.

Sentado em frente a uma mesa da sala de reuniões, balançando a cadeira, Eurico me diz:

— O Vasco é um clube de imigrantes. Foi fundado por portugueses e brasileiros. E é o único clube que tem uma história. O Vasco teve o primeiro jogador negro da história. O futebol era praticado pelas elites. Este é o único clube cujos sócios compraram cada centímetro de terra sem ajuda do governo. Nenhuma. É um clube pioneiro.

Eurico Miranda argumenta que as multinacionais acabarão destruindo inevitavelmente essas tradições. Os investidores estrangeiros vão trazer pessoas “que mal falam português”. Com o objetivo do lucro, eles tentarão vender o clube ao maior público possível. No Palmeiras, a multinacional italiana Parmalat mudou as cores do time. No Corinthians e no Flamengo, os investidores estrangeiros venderam seus astros para rivais odiados da mesma cidade – algo antes impensável. Em todos os lugares a que foram, os investidores se gabaram de seus planos de marketing. Eurico Miranda está tentando dizer que os estrangeiros criaram a impressão de que os clubes são apenas negócios, e não repositórios da tradição e da moral mais elevada. Porém ele só começou a apresentar esses argumentos contra a globalização depois de roubar os investidores estrangeiros.