Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

Capítulo 9

O tom de rejeição e a evidente insegurança pareciam não combinar com o personagem. Mesmo que os maneirismos e o tom de voz de Edward muitas vezes traíssem seu nervosismo, suas palavras sempre transmitiam total confiança. Quando seu contrato expirasse, ele iria para uma liga da Europa Ocidental. “A Espanha é o lugar para o qual eu gostaria de ir depois.” Mas fora do vestiário ele se via diante do fato apavorante de que sua carreira na Ucrânia talvez não durasse muito tempo.

Os colegas de time de Edward já haviam trocado de roupa e entrado no ônibus do clube que os levaria ao centro de Lviv. Uma multidão de torcedores do Karpaty tinha se despedido deles. Edward não se juntou aos companheiros. Um dirigente da federação ucraniana o escolhera aleatoriamente para um teste de dopping, e a comissão técnica do clube queria pesá-lo. Estavam preocupados com a possibilidade de que um excesso de peso estivesse reduzindo sua velocidade em campo. Edward caminhava pelas instalações do Karpaty de pés descalços, ainda de uniforme.

— Não sei por que o técnico e o diretor-geral querem que eu me pese. Não estão fazendo isso com mais ninguém. Nenhum outro jogador. Dizem que estou muito pesado. Mas eu tinha 77 quilos quando cheguei aqui. – Ele me segura gentilmente pelo cotovelo para garantir minha atenção. — Agora tenho 71. Não sei por que eles cismaram comigo. Por que eles cismaram comigo?

O zelador do campo interrompeu Edward. Queria fechar o estádio. Com a mão, fez um gesto para que ele parasse de falar, pegasse suas coisas e saísse.

 

— Veja você, sou um cidadão do mundo – diz o técnico sérvio Ivan Golac.

Com um sotaque que contém apenas ligeiros traços de suas raízes balcânicas, ele apresenta evidências para sustentar a afirmação. Sua principal residência ainda fica em Viena. No verão, ele foge para um apartamento na França, bem perto da fronteira com a Espanha, onde caminha com a mulher por trilhas tranqüilas na montanha. Porém, mais que um cidadão do mundo, ele é, de coração, um cidadão inglês.

O caso de anglofilia de Golac começou como uma obsessão de adolescente. Antes mesmo que o termo aparecesse na Belgrado comunista, ele era um adepto do flower power. Usava o cabelo pelo ombro e adquiriu um interesse fanático pela cena musical inglesa que ia muito além dos Stones, dos Kinks e do The Who. A Swinging London contava com um bom cartaz no futebol, a seleção inglesa vencera a Copa do Mundo nos anos 1960. Seus componentes jogavam com tal entusiasmo e brilho que Golac desejava desesperadamente se juntar a eles.

— Eu sonhava em jogar na Inglaterra.

Por uma década, ele viveu esse sonho jogando no Southampton e levando uma vida de fidalgo rural no verdejante sul da Inglaterra.

Tal como Edward, Golac foi mandado para lugares distantes pela economia do futebol. Quando apareceu a oportunidade de treinar o Karpaty, seu contrato por tempo reduzido com uma equipe da Islândia sediada do outro lado da baía de Reykjavik acabara de expirar.

— Um amigo me disse que havia um clube da Ucrânia com um dono ambicioso. Isso me interessou profundamente.

Quando nos sentamos no Café Vienense e pedimos sorvete, ele já tinha sobrevivido por quatro meses no futebol ucraniano. Seu começo no cargo não fora muito bom. Golac chegou ao Karpaty e mergulhou imediatamente num período de derrotas. Sua concepção inglesa do jogo não combinava com os hábitos lobanovskianos dos jogadores. Os dirigentes do clube ficavam tensos com sua preferência por dar aos jogadores o poder de tomar decisões de ordem tática durante as partidas. E, ao ganharem um pouquinho de livre-arbítrio em campo, eles pareciam idiotas em matéria de futebol.

— Para mim foi um choque. Eles não tinham permissão para pensar.

Também era preciso enfrentar o problema dos nigerianos. Era impossível negar que o experimento químico do time havia criado compostos corrosivos.

Em meu primeiro encontro com Golac, ele deixou claro que se considerava abençoado por ter estado fora da Sérvia no período de guerra. O desmoronamento da Iugoslávia multiétnica o havia entristecido e perturbado. Em sua condenação do racismo ucraniano, ele invocou novamente essa posição:

— Sei como é o nacionalismo e fiquei surpreso ao ver como ele é forte aqui.

Voltando ao tema de Edward e Samson, ele disse:

— São bons rapazes. É difícil para os jogadores africanos se adaptarem, especialmente tendo de treinar a uma temperatura de menos 25. É difícil para nós europeus, que dirá para eles. Eles ficam muito por baixo, muito deprimidos. É aí que é preciso ser muito cuidadoso, muito gentil com eles.

Ouvindo-o falar com sua voz confiante e suave, eu o imaginei como um fantástico psicólogo. No treinamento, tinha percebido que ele criticava os jogadores sem lhes ferir o ego. Pedi que explicasse a metodologia.

— Pode descrever a abordagem da gentileza?

— Eu digo a eles: “Rapazes, vocês têm habilidade. Imagino que tenham ambição. Se não se saírem bem, se não forem disciplinados, se não tiverem ambição suficiente, e não puderem se adequar à minha ambição, mando vocês de volta para a África.”

 

Nossa conversa me fez reviver o clima da semana anterior. Depois de orientar o time durante uma série de amargas derrotas, o treinador resolveu recorrer à ajuda divina. A equipe visitou uma igreja da aldeia, não muito distante do complexo de treinamento do Karpaty, a 15 minutos do centro da cidade de Lviv.

Na árvore genealógica do cristianismo, os ucranianos têm o seu próprio ramo divergente, chamado catolicismo grego. Como se evidencia pela arquitetura da igreja, a denominação compartilha muitos traços e tradições com a ortodoxia russa. Essa igrejinha de aldeia tem uma cúpula coberta de prata, que se afunila numa curva caracteristicamente oriental ao estilo da Praça Vermelha. Lá dentro, são abundantes os ícones à moda pré-perspectivista medieval, exibidos num altar com três bancadas e folheado a ouro.

No caminho para a igreja, o ônibus passou por uma família numa carroça puxada a cavalo e por camponesas usando enxadas para cavar seus pequenos jardins dianteiros. Quando o time chegou a seu destino, a última missa não tinha terminado. A equipe desceu do ônibus e esperou em frente à igreja. Como sempre, Edward e Samson ficaram juntos. Em trajes de corrida e de tênis, dificilmente pareceriam preparados para uma cerimônia sagrada.

Do outro lado da rua, o treinador e a comissão técnica aguardavam, formando seu próprio grupo. O principal auxiliar técnico, um homem de aparência rude com um corte de cabelo marcial, os entretinha.

— Edward está sempre se benzendo. – Ele inclinou a cabeça e fez o gesto, na versão greco-católica, com o exagero de um comediante. Os técnicos riram. — Queria que os rapazes ucranianos fizessem a mesma coisa com maior freqüência.

Ele juntou as mãos, olhou para o céu e sorriu com sarcasmo. A comissão riu um pouco mais.

Após alguns minutos de uma espera constrangedora, o diretor executivo do clube fez um sinal para que o time entrasse na igreja. Os ucranianos fizeram o sinal da cruz sobre o peito em rápida seqüência praticamente a cada batente e dobradiça de porta. Suas mãos nunca repousavam. Numa entrada, pararam para beijar os pés de um crucifixo pendurado numa parede lateral quase invisível. Um sacerdote de barba espessa vestido num traje branco ondulante cantava o fim da liturgia.

Enquanto os ucranianos caminhavam entusiasticamente na direção do sacerdote, os dois jogadores muçulmanos do Karpaty, ambos da antiga Iugoslávia, pararam perto da parte de trás da igreja. Embora parecessem muito concentrados no ritual, ficavam mexendo as mãos, do bolso para as costas e novamente para o bolso. Os ucranianos – e a Igreja Católica Grega – tinham apoiado vigorosamente seus irmãos eslavos da Sérvia em sua guerra contra os muçulmanos da Bósnia. Quando o cetro do sacerdote espargiu água benta sobre a equipe do Karpaty, os dois jogadores se esquivaram como se fossem toureiros.

Sem uma palavra de explicação, o sacerdote então desapareceu por trás do altar e voltou aos cânticos. Um por um, os atletas caminharam para a frente da igreja e realizaram os rituais greco-católicos. Edward tentou imitar os ucranianos: fazer o sinal da cruz sobre o peito; ajoelhar-se no chão; beijar o ícone de Jesus com sua mortalha; limpar as marcas dos lábios com a roupa; repetir o ciclo.

Edward levantou-se. Seguindo os companheiros de equipe, caminhou para o altar dourado. Na frente dos ícones, ajoelhou-se. Fez o sinal da cruz, juntou as mãos e rezou.