Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

o discreto charme do nacionalismo burguês

COMO O FUTEBOL EXPLICA

 

 

o discreto charme do nacionalismo burguês

 

I.

 

O lema do FC Barcelona é “Mas que un club”. A fim de me revelar completamente, eu concordo. É mais que um clube; é uma das grandes dádivas divinas para os momentos de lazer. Escrevi a última frase usando um boné do Barça e uma desgastada réplica de seu uniforme que comprei dez anos atrás. Mais tarde, vou fingir que escrevo este capítulo enquanto na verdade atualizo meu browser em busca das informações mais recentes sobre o jogo do Barça com o Newcastle United pela Liga dos Campeões. E hoje à noite vou sonhar com um longo lançamento em curva de Xavi que chegará aos pés de Javier Saviola depois de o homenzinho ter atravessado de forma inacreditável uma ampla porção do gramado. Mesmo tendo sido suspensas as regras da realidade, é um exagero imaginar-me no campo com Saviola. Mas ainda assim vou me incluir nessa cena, nas arquibancadas inferiores do Camp Nou, o estádio do Barça. Com o resto do estádio, eu estarei entoando o nome de Saviola como um canto gregoriano, exagerando cada sílaba em busca do efeito mais assustador. A pessoa sentada ao meu lado estará sacudindo uma bandeira catalã de três metros sobre minha cabeça.

O Barcelona tornou-se o meu time em 1994, durante uma viagem de inverno pela cidade. Minha visita coincidiu com a abertura anual gratuita do Museu do Barça. É o museu mais visitado da cidade, superando até mesmo uma grande coleção de pinturas de Picasso. Com ingresso gratuito, filas se arrastavam pelo estacionamento do estádio, cheias de garotos de oito anos com suas mães, senhores de cabelos grisalhos visitando velhos amigos na sala de troféus e moças adolescentes aparentemente pesquisando a história do time. O transcendente entusiasmo por um punhado de artefatos e fotografias em sépia me comoveu. Senti-me como um não-crente observando uma peregrinação religiosa. E a mera profundidade dessa fé acabou me transformando também num crente.

Se você é politicamente liberal e tem as inclinações de um yuppie, não é fácil encontrar um cantinho no firmamento do futebol em que se sinta em casa. O futebol europeu tem um número demasiadamente grande de clubes cujo estranho passado fascista resultou num presente xenofóbico. E esse é apenas o primeiro obstáculo para se encontrar um time. Você nunca aceitaria clubes com uma nuvem de racismo virulento pairando sobre si. (Exclua então da lista de potenciais favoritos o Paris Saint-Germain, o Chelsea, o Glasgow Rangers, o Estrela Vermelha de Belgrado e quase metade dos times italianos.) E, por respeito aos oprimidos, você não poderia colocar-se ao lado de conglomerados multinacionais, como o Manchester United e o Juventus, que compram campeonatos todos os anos.

O Barça preenche elegantemente esse vácuo. No curso de sua história, ele tem proclamado conscientemente sua sofisticação. O museu do Barça abriga pinturas de Dalí e Miró. Fora de seus portões, exibe esculturas modernas que vão do minimalismo à Donald Judd ao neofuturismo. Um discípulo de Le Corbusier desenhou o telhado de suas antigas instalações.

Ouvi, mas nunca confirmei, uma teoria segundo a qual a bandeira do clube é inspirada explicitamente nas cores – vermelho e azul – do estandarte tricolor da Revolução Francesa. Se não é verdadeira em relação aos fatos, a história o é do ponto de vista espiritual. Com efeito, a estética modernista do time deriva de sua inclinação política esquerdista. No auge da onda anarquista da década de 1930, o Barça tornou-se um coletivo de trabalhadores, um legado que continua. Quem adquire bilhetes para uma temporada ainda tem direito de votar nas eleições para a direção do clube, com os debates entre os presidenciáveis transmitidospela televisão e os candidatos fazendo promessas de campanha irrealisticamente grandiosas, como a de comprar um time de superastros. E o que é mais importante, segundo o folclore institucional: o clube foi um heróico centro de resistência à ditadura militar franquista. Somente o Camp Nou fornecia um lugar onde os catalães podiam gritar e bradar contra o regime em sua própria e banida língua. Manuel Vazques Montalbán, um dos grandes escritores espanhóis contemporâneos, publicou um romance sobre o Barça intitulado Offside. Descreveu o clube como “a arma épica de um país sem estado … As vitórias do Barça eram como as de Atenas sobre Esparta.”

Mesmo agora, em tempos mais plácidos, um fervor cativante cerca a política do clube. Autoridades governamentais discorrem sobre assuntos do Barça como se fossem questões de Estado. Em vários momentos, Jordi Pujol, que preside o clube há muitos anos, recomenda mudanças de escalação, formação estratégica e táticas de recrutamento. Os principais partidos políticos da Catalunha formam alianças secretas com os candidatos à presidência do Barça, na esperança de que o presidente do clube venha a convidar as lideranças partidárias a se sentarem na tribuna de honra do Camp Nou, no centro do estádio.

Graças ao seu senso de missão, o time tem gestos fantásticos a fim de provar sua pureza e mostrar que habita um plano superior ao mundo desprezível do comércio. De todos os clubes do mundo, o Barcelona é o único que não coloca anúncios no uniforme. Até 2003, ele se recusava a sequer examinar ofertas de compra desse espaço sagrado. Quando os jogadores mais bem pagos do mundo – Maradona, Ronaldo, Rivaldo – demonstram insuficiente entusiasmo pela causa, o Barça e seus torcedores lhes dão as costas. São mandados para outra cidade, apesar dos muitos gols marcados para o time. Se um técnico adota uma tática utilitária que restrinja o talento artístico, ele é afastado, não importam os troféus que possa ter acumulado. Os torcedores do Barça não desejam nada com tanto ardor quanto a vitória, com exceção do romance. E, como mostra a longa história de frustrações do clube, este último lhes tem sido muito mais generoso.

Infelizmente, grandes parcelas do globo não apreciam de todo os muitos esplendores do Barcelona. Mais que o Real Madrid e o Manchester United, times mais ricos que conquistam mais campeonatos, o Barça provoca incômodo e raiva. Eu vi tradutores sérvios e amigos croatas superarem suas desavenças mais profundas para expressarem o ódio mútuo pelo Barça. Testemunhei intelectuais israelenses e taxistas árabes unindo-se inadvertidamente para zombar da miséria alheia diante de uma derrota do Barça. Creio que posso entender esse sentimento. “Mas que un club” implica superioridade. A recusa em transformar seu uniforme num outdoor critica as decisões empresariais tomadas por todos os outros clubes com o objetivo de se manter à superfície. A arte moderna e os romances parecem afetações exageradas. O futebol é para ser apreciado com cerveja e hambúrgueres, talvez, mas não com capuccino e cigarros.

Mas se os inimigos do Barça considerassem de maneira objetiva o clube que desprezam, encontrariam uma importante razão para aplaudi-lo de pé. Os críticos do futebol afirmam que esse esporte culmina sempre em morte e destruição. Argumentam que ele dá vida a identidades tribais que deveriam estar desaparecendo num mundo em que a União Européia e a globalização, felizmente, reduzem a força desses antigos sentimentos. Outra tese semelhante a essa e bastante difundida sustenta que a raiz da violência pode ser encontrada no próprio ritmo do jogo. Como os gols surgem numa seqüência tão irregular, os torcedores gastam tempo demais sublimando suas emoções, antegozando-as, mas não necessariamente liberando-as. Quando essas emoções se expandem e se tornam incontroláveis, os torcedores irrompem em sombrios acessos dionisíacos de violência extática.

O Barça redime o esporte dessas críticas, mostrando que os torcedores podem amar um clube e um país com paixão sem se tornarem delinqüentes ou terroristas. Evidentemente, a torcida do Barça pode chegar aos píncaros da irracionalidade – pressupondo conspirações fantásticas, imaginando estar sendo vitimizada e se prevenindo contra supostos inimigos existenciais. Mas quase nunca ultrapassa os limites dos domínios mais sombrios do comportamento humano. Não há torcedores adversários que os do Barça considerem subumanos, e dificilmente ocorre algum tipo de violência que se possa associar ao clube. Seu estádio se enche mais de mulheres e crianças que qualquer outro na Europa. Também atrai imigrantes do sul da Espanha, que se associam ao clube para facilitar sua assimilação à vida catalã.

Para usar uma linguagem mais enfática, o Barça não apenas redime o futebol perante seus críticos, mas redime o conceito de nacionalismo. No final do século XX, pensadores políticos liberais, da filósofa Martha Nussbaum aos arquitetos da União Européia, responsabilizaram o nacionalismo pela maioria dos males da modernidade. É o tribalismo sob um disfarce mais moderno, denunciavam. Se conseguíssemos abandonar essa velha fixação em identidades nacionais, poderíamos finalmente ultrapassar os etnocentrismos, o chauvinismo vulgar e as rixas de sangue. Em lugar do nacionalismo, propunham que nos tornássemos cosmopolitas – aposentando o patriotismo e nos submetendo ao governo das leis e instituições internacionais.

É um belo quadro, mas nem um pouco realista. E dá as costas a uma corrente liberal que se inicia com John Stuart Mills e Alexis de Tocqueville para chegar a Isaiah Berlin. Essa tradição entende que os seres humanos anseiam por se identificar com um grupo. É um instinto inevitável, imemorial, profundamente entranhado. Já que a vida moderna deslocou a família e a tribo de suas posições centrais, a nação tornou-se o único veículo para esse impulso. Negar esse anseio é negar a natureza e a dignidade humanas.

Além disso, essa corrente da teoria política estabelece uma distinção entre o nacionalismo liberal e o nacionalismo intolerante. Os sérvios do Estrela Vermelha, para tomarmos o exemplo mais óbvio, praticam a variedade intolerante, sem respeito pela determinação de outras nacionalidades. Mas não há motivo para que o nacionalismo culmine necessariamente nesses sentimentos funestos. Culpar o amor excessivo ao país pelas guerras na Croácia e na Bósnia é subestimar as patologias da cultura sérvia. Ademais, em teoria, patriotismo e cosmopolitismo devem ser perfeitamente compatíveis. Você pode amar seu país – e até mesmo considerar seus habitantes superiores como grupo – sem desejar dominar outros grupos nem se fechar a estímulos vindos de fora. E isso não é só teoria. É o espírito do Barça. Gosto dele.

 

II.

 

O FC Barcelona poderia facilmente ter caminhado em outra direção. Poderia ter se tornado um caldeirão de radicalismo, violência e ressentimentos. Mas as raízes do nacionalismo cosmopolita do Barça são profundas. São parte da cultura nacional e também do espírito que presidiu a fundação do clube. Em 1899, um empresário protestante suíço chamado Joan Gamper uniu-se a expatriados ingleses para fundar o FC Barcelona. É surpreendente que um estrangeiro tenha criado o que seria uma instituição definidora do nacionalismo catalão.

Há uma explicação simples para a abertura da Catalunha a influências externas: ela se situa no meio do mundo mediterrâneo. Antes do século XV, como parte do reino de Aragão, os catalães haviam aberto caminho para o Leste até Atenas, a Sicília e a Sardenha. Mesmo então, no auge de sua grandeza, os homens mais poderosos da nação eram comerciantes e capitalistas. Barcelona tornou-se uma grande cidade comercial, profundamente entranhada na economia planetária, crescendo até se transformar num gigante industrial. No final do século XIX, só os Estados Unidos, a Inglaterra e a França superavam a produção das fábricas de tecido catalãs.

À medida, porém, que avançava economicamente, a Catalunha era submetida à dominação política. O poder político da Espanha, concentrado em Madri, consistia em vários proprietários de terras castelhanos. Os interesses do governo central colidiam com os dos capitalistas de Barcelona. O crescente contingente de nacionalistas burgueses da cidade ressentia-se do fato de os castelhanos usarem o governo para impor a cultura e a língua “espanholas”. Também não ajudava o fato de Madri direcionar a política governamental para a proteção da agricultura em detrimento da indústria. Os catalães descarregavam a raiva que sentiam desse arranjo injusto estereotipando cruelmente os castelhanos e sua capital. Enquanto a Catalunha representava a modernidade e o progresso, Madri era habitada por roceiros sem cultura. Não era uma imagem de todo distorcida. A burguesia de Barcelona provou ao mundo a sua grandeza patrocinando obras monumentais de arte e arquitetura – Gaudí, Doménech i Muntaner, Miró. E, por causa de sua imersão no mundo do comércio global, ela abriu auspiciosamente as portas a influências externas.

Joan Gamper e o futebol foram apenas outra importação a se tornar parte do tecido social catalão. A imagem de Gamper naquela terra não foi atrapalhada em nada pelo fato de ele admirar fervorosamente a causa catalã e ter traduzido seu próprio nome, Hans Kamper, para o idioma local. Segundo alguns relatos, Gamper desejava que o clube celebrasse aos catalães e seus sonhos de autonomia. Sob sua liderança, o Barça adotou um escudo contendo as cores nacionais e a cruz de São Jordi, o padroeiro da Catalunha.

As afirmações de superioridade nacional dos catalães não eram bem recebidas em Madri. O antigo regime castelhano tratou de colocar os presunçosos em seu lugar. Com o apoio do rei, em 1923 o general Miguel Primo de Rivera tomou o poder e instituiu uma ditadura que prefigurava o franquismo vindouro. Primo de Rivera proibiu a bandeira catalã e excluiu a língua local da esfera pública. Em função de seu papel simbólico, o Barça sofreu inevitavelmente a mesma repressão. Depois que sua torcida vaiou o hino nacional antes de uma partida de apresentação em 1925, o ditador mandou fechar seu estádio por seis meses e multou seus diretores. O governo deixou claro para Gamper que ele deveria deixar a Espanha ou sua família sofreria conseqüências desastrosas. Gamper partiu. Alguns anos depois, numa crise de depressão, potencializada por suas perdas no crack da bolsa de 1929, ele se suicidou.

Primo de Rivera tinha a mesma agenda de Franco mas sem um aparelho de Estado totalitário para sustentá-lo. Muito previsivelmente, a repressão por ele promovida provocou reações. Ele renunciou em 1930, sendo substituído por uma república democrática imbuída do fervor utópico do entreguerras. Havia, contudo, uma importante diferença entre as atitudes de Franco e as de seu antecessor. Primo de Rivera reagira ao Barça de modo furioso porque era um caudilho clássico, o ditador medíocre que esmagava qualquer dissidente capaz de ameaçar seu frágil poder. Já para Franco a luta contra o Barça assumiu a forma de um combate pessoal de natureza épica. No nível político mais óbvio, ele tinha boas razões para punir os devotados torcedores do clube. A Catalunha havia sustentado por mais tempo a oposição ao golpe. Os habitantes de Barcelona, após anos de contenda industrial pré-guerra civil, tinham se tornado os Henry Fords da construção de barricadas. Embora partes da cidade recebessem Franco de braços abertos, muitos de seus moradores desenvolveram a guerra urbana com um apetite que nem Che Guevara conseguiria igualar. Franco cobrou um preço por essa resistência. Quando a cidade caiu, ele mandou matar um sem-número de seus oponentes e os enterrou numa cova coletiva no morro Montjuic, onde futuramente se construiria o estádio olímpico.

Mas havia outra razão, igualmente importante, para o ódio que Franco devotava ao Barça. O Generalíssimo acompanhava obsessivamente o esporte e, de modo mais específico, o rival do Barça, o Real Madrid. Era capaz de citar de cabeça as escalações do Real de décadas anteriores e mandava anunciar que descansava em seu palácio acompanhando o jogo da semana pela televisão. (Não por coincidência, a TV estatal reservava ao Real Madrid, em suas transmissões semanais, um espaço muito maior que o de qualquer outro time.) Quando assistia aos jogos, ele até arriscava um palpite sobre os resultados. Franco gostava de jogar numa loteria estatal que lhe permitia fazer apostas no futebol.

Franco levou sua vingança pessoal contra o Barça às últimas conseqüências. Manuel Vasquez Montalbán escreveu: “As tropas de ocupação de Franco entraram na cidade. A quarta organização a ser expurgada, depois de comunistas, anarquistas e separatistas, era o Barcelona Football Club.” No início dos três anos da revolta de Franco, a milícia fascista prendeu e executou o presidente do Barça, Josep Sunyol, de orientação esquerdista, quando ele passava de carro pelas colinas de Guadarrama em visita aos soldados catalães que defendiam Madri, cercada por tropas de direita. Quando os soldados de Franco realizaram um ataque final para conquistar a insubordinada Catalunha, bombardearam o prédio que abrigava os troféus do clube. Depois de demolirem as instalações do Barça, os franquistas tentaram destituir o clube de sua identidade. O regime insistiu em mudar o nome de “Football Club Barcelona” para “Club de Football Barcelona” – não apenas uma particularidade estética, mas a tradução desse nome para o castelhano. Também insistiu em excluir a bandeira catalã do escudo do time. E isso foi somente o começo. Para supervisionar a transformação ideológica do clube, o regime impôs um novo presidente. Ele devia ser bem adequado para o cargo. Durante a guerra, fora capitão da “Divisão Antimarxista” da guarda civil. No Barça, ele mantinha cuidadosamente copiosas fichas policiais de todas as pessoas envolvidas com o clube, de modo a poder importunar e solapar quaisquer diretores que demonstrassem simpatias nacionalistas latentes.

Nos primeiros anos da era Franco, um evento se destaca nos livros de história. Em 1943, o Barça enfrentou o Real Madrid pelas semifinais da Copa Generalíssimo Franco. Momentos antes do jogo, o diretor de segurança do Estado entrou no vestiário do Barcelona – uma cena cultuada em Barça, a magistral história do clube escrita pelo jornalista Jimmy Burn. Ele lembrou aos jogadores que muitos deles tinham acabado de retornar à Espanha, de seu exílio em tempo de guerra, graças a uma anistia que perdoava sua fuga. “Não se esqueçam de que alguns de vocês só estão jogando pela generosidade de um regime que lhes perdoou a falta de patriotismo.” Naquela época de repressão, não foi difícil entender o conselho. O Barça perdeu por 11 x 1, uma das maiores derrotas da história do clube.

Esse foi o primeiro de muitos favores prestados pelo regime ao Real Madrid, que pareceu retribuir a afeição construindo seu novo estádio na Avenida Generalíssmo Franco. Segundo alguns, o governo deu ao Real uma ajuda decisiva na contratação do melhor jogador dos anos 1950, o argentino Alfredo di Stefano, embora o Barça já tivesse feito um acordo com ele. Quando o Real se sagrava campeão, Franco lhe concedia medalhas e honrarias não oferecidas a outros times vencedores. Paul Preston, biógrafo do caudilho, escreveu: “Franco via as vitórias do Real Madrid e da seleção nacional espanhola como, de alguma forma, suas.” Tudo isso é fato. Mas há um aspecto que não se encaixa exatamente na conspiração anti-Barça sustentada pelos catalães. Um detalhe importante desmente isso. Nos primeiros anos da era Franco, o Barça teve uma de suas melhores temporadas da história.

É um paradoxo – repressão e triunfo – que leva a uma das questões mais espinhosas na história política do esporte. Umberto Eco colocou-a desta maneira: “É possível ocorrer uma revolução num domingo de futebol?” Para o Barça, esse assunto é especialmente desconfortável. Seus torcedores gostam de se gabar de que seu estádio constituía um espaço em que podiam dar vazão ao ódio que sentiam pelo regime. Estimulados por cem mil pessoas cantando em uníssono, com a segurança de sua presença numérica, os torcedores aproveitavam a oportunidade para gritarem coisas que não podiam ser ditas, mesmo que furtivamente, na rua ou num café. Esse é um fenômeno bastante comum. Há uma longa história de movimentos de resistência inflamando-se num estádio de futebol. Na Revolução do Estrela Vermelha, Draza, Krle e outros hooligans de Belgrado ajudaram a derrubar Slobodan Milosevic. As comemorações pela classificação da Romênia à Copa do Mundo de 1990 se espalharam pelas praças de Bucareste, culminando num grupo de atiradores apontando seus rifles para o ditador Nicolae Ceausescu e sua mulher. O movimento que derrubou o ditador paraguaio Alfredo Stroessner também teve seu ponto de partida no esporte.

Mas quando os torcedores do Barça enfatizam o espírito subversivo do Camp Nou não conseguem explicar por que Franco simplesmente não o esmagou. É claro que ele poderia ter feito isso com facilidade. Governava um eficiente Estado policial em que tanto os trens quanto os grandes inquisidores funcionavam a tempo e a hora. Para esmagar o Barça, como Primo de Rivera tinha feito nos anos 1920, bastariam alguns soldados. Mas ele pôs de lado essa opção e preferiu deixar os adversários gritarem suas obscenidades. Franco nunca justificou explicitamente sua política de tolerância. Mas seu objetivo era bastante claro: deixar que o povo catalão canalizasse suas energias políticas num passatempo inofensivo.

Se o Barça possibilitava à Catalunha desabafar, esse arranjo acabou se revelando conveniente para todos os envolvidos. Franco nunca enfrentou uma oposição séria por parte dos catalães. Diferentemente dos bascos, a outra minoria lingüística perseguida pelo regime franquista, os catalães nunca se juntaram às frentes de libertação, nem seqüestraram presidentes de bancos de Madri, nem detonaram bombas em estações de ônibus. E os torcedores do Barça, apesar de todo o barulho no Camp Nou, jamais se opuseram seriamente aos apologistas de Franco que dirigiam o clube. Embora os catalães se mantivessem de cabeça baixa, eles tocaram em frente os negócios. A economia nacionalista de Franco, que incluía subsídios e tarifas, produziu um grande boom industrial na área metropolitana de Barcelona. Imigrantes do sul da Espanha, aos milhares nos anos 1950 e 1960, foram trabalhar nas fábricas da região. O novo esforço industrial e o bem-estar concomitante ajudaram a afastar das mentes a opressão e as memórias dos massacres.

Os catalães têm uma autodescrição que explica esse instinto de “tocar o barco”: gostam de dizer que possuem uma qualidade nacional chamada seny, palavra que se traduz como algo entre o pragmatismo e a sagacidade. É uma herança de séculos como mercadores do Mediterrâneo, a aversão do negociante à confusão. (Um exemplo clássico de seny: os catalães insistem em que sua língua seja ensinada nas universidades e usada nos sinais de trânsito. Ela pode ser vista por toda parte, menos nos classificados de imóveis de muitos jornais em catalão. O nacionalismo não deve jamais atrapalhar os negócios.) Nessa autodescrição, os catalães também admitem possuir um yin para contrabalançar o yang do seny: eles têm outra característica nacional chamada rauxa, uma tendência a surtos de violência. Foi essa característica que impeliu a Catalunha a lutar de forma tão determinada durante a Guerra Civil espanhola e a tornou tão turbulenta nos anos anteriores.

Fosse esse ou não o desejo de Franco, o Barça ajudou a manter o seny e o rauxa dos catalães num estado de equilíbrio confortável. Um jornalista esportivo me contou uma parábola que ilustra esse fato. Dois criminosos trancafiados numa prisão de Franco realizam uma fuga perfeitamente planejada. Coordenam a ação de modo a poderem assistir ao jogo do Barça com o Real Madrid no Camp Nou. Por força da boa sorte, os fugitivos presenciam a vitória do seu Barça. Agora têm a liberdade e o triunfo. Dali em diante, bastava seguir o roteiro estabelecido em dezenas de filmes policiais e pegar a estrada. Mas eles desempenhavam seus papéis como homens da Catalunha, não como atores de Hollywood: curados de seu rauxa pelo Barça, eles retornam ao presídio onde tinham sofrido por tanto tempo. Procuram um guarda e se entregam.

 

III.

 

Há uma linha tênue entre a paixão e a loucura. O ex-atacante do Barcelona Hristo Stoichkov freqüentemente a atravessa. Quando adolescente na Bulgária, uma vez provocou um grande conflito no intervalo de um jogo. Sua performance foi tão violenta, animalesca e incontrolável que a federação de futebol da Bulgária o baniu em caráter vitalício. Mas ele era bom demais, e venerado demais, para ter esse destino. Quando o público búlgaro se queixou por ter sido privado de seu herói, a federação reduziu a pena para um ano de suspensão. Seus surtos de violência de fato não arrefeceram com a maturidade. Em quatro anos de Barça, foi expulso de campo 11 vezes. Não apenas enfrentava os árbitros cara a cara, mas pisava nos pés deles. Poucos meses antes de eu visitá-lo em Washington, onde atuara na temporada anterior, ele tinha jogado uma pelada com garotos de faculdade, um jogo inocente e “amistoso”. Mas Stoichkov não tinha muita capacidade de moderar seu estilo, e a noção de amistoso carecia para ele de ressonância cognitiva. Na partida, ele atingiu um calouro por trás com uma tesoura voadora, e com tanta violência que quebrou os ossos do rapaz. O som da fratura atravessou o campo. Nas laterais do gramado, espectadores e jogadores tiveram ânsias de vômito.

Reduzir Stoichkov ao seu temperamento, contudo, é não fazer jus ao seu talento. Seu poder de atração é incrível. Uma pesquisa de opinião revelou uma vez que ele era o jogador mais popular do Barça em todos os tempos. Em parte, sua popularidade era apenas uma recompensa por seu desempenho. Entre 1990 e 1994, ele marcou 104 gols pelo clube. Sua excêntrica persona esportiva, oscilando entre a delicadeza e a brutalidade, contribuiu amplamente para o annus mirabilis do Barça, incluindo seu único título na Liga dos Campeões. Em 1994, ele ganhou o troféu de Jogador Europeu do Ano. Os catalães também veneravam Stoichkov porque sua paixão era uma réplica da deles – assim como as expectativas irracionais, as exigências injustas e o hipercriticismo que a acompanham. “Meus colegas são preguiçosos, tolos e famintos por dinheiro”, queixou-se ele uma vez. Tal como os catalães, Stoichkov acreditava que o Barça devia jogar pela causa, e não por um contracheque.

Poucos jogadores nativos da Catalunha têm defendido com maior entusiasmo a ideologia política do clube ou do país. Ela vai além do necessário ódio ao Real Madrid, embora Stoichkov tenha manifestado seu desdém com singular intensidade. (“Sempre odiarei o Real Madrid”, disse ele uma vez. “Preferiria que o gramado se abrisse e me engolisse do que aceitar trabalhar para eles. Na verdade, não gosto de falar sobre eles porque quando o faço tenho vontade de vomitar.”) Ele tem uma devoção fanática ao nacionalismo catalão. Quando a Bulgária jogou com a Espanha na Copa do Mundo de 1998, Stoichkov pendurou uma bandeira catalã na varanda de seu quarto de hotel. Prometeu que usaria uma camiseta por baixo do uniforme com palavras em defesa da secessão. Esses gestos, muito louvados e apreciados em Barcelona, eram apenas a culminância de uma história pessoal marcada pela defesa irada da autonomia catalã. Stoichkov foi um dos líderes de uma campanha para que a Catalunha deixasse de apoiar a seleção espanhola e apresentasse uma equipe própria na Copa do Mundo. Jornais de Barcelona relataram que ele apoiava o Partido pela Independência Catalã, colocando-se estranhamente à esquerda da corrente principal do nacionalismo catalão.

Stoichkov é uma prova do caráter includente do nacionalismo catalão – sua principal virtude. Ele recebe bem os estrangeiros, chegando até a venerá-los. A história do Barça está cheia de jogadores de fora – escoceses, húngaros, holandeses – que fixaram residência na cidade e se tornaram defensores da política do clube. (O grande holandês Johan Cruyff deu a seu filho nascido em Barcelona o nome de Jordi, provavelmente a primeira criança da era franquista a receber esse nome catalão.) Os estrangeiros podem se tornar catalães porque a ideologia catalã sustenta que a cidadania é adquirida, e não herdada. Para tornar-se catalão, deve-se apenas aprender a língua catalã, desprezar a Espanha castelhana e amar o Barça. O nacionalismo catalão não é uma doutrina racial ou teocrática, mas uma religião profundamente cívica. O nacionalismo catalão é tão cego que o aceita mesmo que você tenha uma personalidade incontrolável.

Não é fácil marcar uma entrevista com Stoichkov. Depois de semanas postergando, ele concordou em me encontrar após um treino no vestiário de seu clube, o DC United. Stoichkov estava sentado numa cadeira, de banho tomado, usando um robe de tecido felpudo com capuz. Para divertir os companheiros de equipe, ele jogou o capuz sobre a cabeça, pulou da cadeira e imitou os movimentos de um boxeador preparando-se para lutar. Havia um toque violento nessa cena. Ele dava socos fortes no ar e saltava sobre os colegas nus como se fosse golpeá-los. Quando voltou à cadeira, eu me sentei a seu lado e comecei a me apresentar.

— Em espanhol – disse ele. — É bem melhor em espanhol.

— Bueno. Yo soy…

Percebi que Stoichkov me deixava nervoso demais para fazer perguntas em espanhol. Ele cuspia suas frases; tinha aperfeiçoado o jeito de durão e mesmo naqueles trajes parecia ameaçador. Uma barba curta lhe cobria as bochechas macilentas. Ao fazer os movimentos mais inócuos, parecia estar se preparando para dar um soco em alguém.

Pedi ajuda ao assessor de imprensa do clube. Ele recrutou o gerente de equipamentos para fazer o papel de tradutor. Estava claro que a entrevista seria um desastre. Mas eu tinha passado tempo demais negociando a logística do encontro para perder a oportunidade. Quando comecei a explicar meu projeto, Stoichkov me interrompeu.

— Quantos exemplares você vai vender? Vou receber algum dinheiro por compartilhar minhas idéias?

Fez-se um longo silêncio, durante o qual ele me fitou intensamente. Eu não tinha idéia de como avaliar a seriedade do problema.

— Não – repliquei.

— Por que não?

— Sou um pobre jornalista.

Ele parecia muito satisfeito com essa linha de questionamento. Suas reações antecipavam a tradução.

— Você vai ganhar dinheiro?

— Talvez um pouco.

— Mas existem crianças pobres no mundo.

— Você é uma delas? – perguntei.

— Estou lhe dando uma oportunidade de ganhar algum dinheiro e não vou receber nada? Não quero o dinheiro. Não vou ficar com ele. Vou dá-lo às crianças pobres. Escrevi um livro em espanhol e ele vendeu 600 mil exemplares. Vou receber alguma coisa ou não?

Eu estava agora numa posição constrangedora, com a maioria dos jogadores entreouvindo nossa conversa.

— Não é assim que eu trabalho como jornalista – disse eu.

— Você pagaria a Michael Jordan? Hristo Stoichkov vai ajudá-lo a vender muitos exemplares. – Disse que se eu fizesse um cheque ele o entregaria pessoalmente ao Unicef. — Não é para mim.

Tentei explicar-lhe como funciona o jornalismo norte-americano.

— Essa não é nossa maneira de negociar. Não faz parte do nosso sistema ético.

Enquanto eu falava, ele se levantou e se dirigiu ao seu armário.

— Mas faz parte do meu.

— Então não vamos poder conversar?

— Não.

Ele tirou o robe. Não apertamos as mãos. Quando saí do vestiário, descrevi com raiva o pedido de propina de Stoichkov ao assessor de imprensa, que apenas deu de ombros. Como Stoichkov é um herói do Barça, eu mesmo não consegui ficar com raiva por muito tempo. Além disso, em nosso curto intercâmbio, embora não dissesse nada, ele conseguira resumir o ethos catalão – astúcia no comércio, juntamente com um laivo de petulância. E se a Catalunha era capaz de encontrar espaço no coração para perdoar sua loucura, eu também podia.

 

IV.

 

Alguns daqueles que acompanham o clube mais de perto, especialmente em Madri, poderiam discordar dessa caracterização do Barcelona como um bastião do patriotismo saudável, não-violento. Apontariam alguns jogos recentes contra o Real Madrid no Camp Nou, em que a torcida do Barcelona atirou sobre o campo sanduíches, frutas, bolas de golfe, telefones celulares, garrafas de uísque, correias de bicicleta e a cabeça decepada e sangrenta de um javali. Se houve algum espírito democrático nessa manifestação, foi a universalidade do ódio. Homens fumando charuto e usando ternos de três botões, mulheres com colares de pérolas e terninhos da grife Escada gritavam os mesmos palavrões, de modo tão vulgar e em tom tão elevado quanto os trabalhadores braçais.

Como um torcedor do Barça, não posso negar esses pecados. Meu clube sofre de um ódio patológico pelo Real Madrid. O Real é o Celtic, nós, os Rangers. Mas há muitas diferenças-chave entre essa rivalidade e sua correspondente escocesa. Enquanto o Celtic e o Rangers se aliam cinicamente para explorar o ódio e lucrar com ele, não há racionalidade em nossa má vontade, nem um superego que governe nosso id. Quando o Barcelona se lança sobre o Real, age de maneira estúpida, contraproducente, não-lucrativa. O Barça tem uma longa história de frustrações, resultados que não fazem jus a seus elencos estelares e a suas fartas folhas de pagamento. E essa história pode ser atribuída – ao menos em parte – a nosso complexo com o Real Madrid.

Não é fácil superestimar o Real. Por qualquer medida, é o clube de futebol de maior sucesso – um New York Yankees em escala continental. Ganhou mais títulos da Liga Espanhola do que qualquer outro clube. Tem dominado a Liga dos Campeões. Mas ainda assim o Barça consegue dar muito mais crédito ao Real Madrid do que ele merece. Esta é a sua versão da política do futebol espanhol: um partido com raízes franquistas governa a câmara de vereadores de Madri. Para subsidiar os jogadores de futebol, a câmara comprou o campo de treinamento do Real Madrid pela quantia de 350 milhões de dólares. Com um cheque, a câmara municipal ajudou a financiar a aquisição de David Beckham, Ronaldo e Zinedine Zidane, que podem ser considerados os três melhores jogadores do mundo. Na visão catalã, a rede política do Real começa em casa, mas se estende até o mais alto topo. O ex-presidente da Espanha, o direitista José Maria Aznar, torce pelo Real desde os sete anos de idade. Ele costuma jantar com a diretoria do clube. Em função das conexões políticas do Real, o clube consegue tudo que quer. Quando torcedores do Barça atingiram jogadores do Real com o que tinham nos bolsos, a liga puniu o clube injustamente, fazendo-o jogar duas partidas em casa com os portões fechados, sem a presença de torcedores.

— O Real só é campeão quando ditadores, como Aznar e Franco, estão no poder – disse-me o radialista Xavi Bosch.

É um imponente retrato do poder e da influência, exceto pelos detalhes. Tal como o Real explorou uma câmara municipal que lhe era simpática, o Barça também tentou. Mas a arrogância de alguns políticos catalães estragou o negócio. Quando descrevem Aznar como um novo Franco, estão cometendo uma enorme ingratidão. Por muitos anos, Aznar incluiu nacionalistas catalães em seu governo de coalizão, cumulando-os de gastos estatais e sem jamais dizer uma só palavra contra o seu nacionalismo. Também não podem provar que Aznar tenha alguma vez utilizado seu peso político em benefício do clube que ama. Apesar disso, eles ficam furiosos com as simpatias de Aznar. Depois de ele jantar com a diretoria do Real, o presidente do Barcelona exigiu que lhe fosse concedida a mesma honraria.

Quando torcedores do Real ouvem essas acusações, dizem que são sintomáticas do tipo de pressão exercida pelos catalães. Afirmam que os catalães gostam de proclamar sua “vitimização” para poderem intimidar o governo central – e a Federação Espanhola de Futebol – a lhe prestar favores indevidos. Por que outro motivo a Catalunha consegue extrair mais dinheiro do governo central do que qualquer outra região da Espanha?

Essa explicação, embora contenha um quê de verdade, carece totalmente de empatia. Os torcedores do Barça odeiam Madri porque também sentem um pouco da culpa do sobrevivente. Seus pais e avós sofreram sob a tirania de Madri; morreram na guerra civil; eram impedidos de falar a própria língua. Mas na prosperidade da era democrática os catalães não têm uma base objetiva para se queixarem. Sua riqueza e seu renascimento cultural deveriam provocar comemorações triunfalistas. Não provocam porque a maioria dos catalães não está disposta a isso. Depois de verem o heroísmo dos pais, sentem-se como se vivessem uma vida desprovida da luta e de qualquer dimensão épica. Preocupa-os o fato de que seus pais ficariam desapontados com a tranqüilidade de suas existências.

O Barça é um bálsamo para esses sentimentos. Dentro dos seus limites, ele permite aos catalães imaginar que se integraram a uma luta secular contra Madri e o centralismo castelhano. Permite que se sintam como se eles, do mesmo modo que seus ancestrais, estivessem esmagados sob o domínio de imperialistas arrogantes.

— Os catalães não querem que o Barça vença – diz o jornalista Joan Poqui. — Se quisessem, não teriam tanto prazer em se fazerem de vítimas.

Mas mesmo nesse lado inconveniente e autocomplacente do Barça existe um aspecto oportuno. Compare o Barça com o Celtic ou o Rangers. Os torcedores escoceses consideram-se mutuamente tribos inimigas dotadas de crenças inferiores que de fato não merecem ocupar sua cidade. É surpreendente que, apesar de todo o ódio pelo Real, a torcida do Barça sinta tão pouca animosidade em relação aos fãs do clube rival. São escassos os exemplos de hooligans do Barça enfrentando torcedores do Real. Isso porque eles não odeiam um grupo oposto de pessoas – têm raiva de uma idéia, a do centralismo castelhano. E não se pode bater numa idéia.

 

Sem um grupo de inimigos para focalizar sua atenção, o ódio dos torcedores do Barça tem como característica a falta de objetivo, a dispersão. Em conseqüência, eles dirigem seu ódio a si próprios com tanta freqüência quanto aos outros. Durante minha visita, vi a cidade se levantar contra o técnico do clube, um holandês chamado Louis van Gaal. Barcelona tem uma imprensa particularmente robusta cobrindo as atividades do clube. Dois jornais esportivos diários não têm outro objetivo óbvio senão ocupar cerca de 280 páginas por semana investigando a fundo as minúcias do Barça. Durante meses esse espaço foi usado exclusivamente para difamar Van Gaal. Uma reportagem típica analisa a comida consumida pelo técnico holandês em seus almoços, ao lado de fotografias documentando o crescimento de sua barriga. Quando ele se senta na 13ª fileira do avião do clube, os repórteres o interpretam como um sinal de sua deficiência de avaliação e de uma demissão iminente. Porém, esse é apenas o início de um mapeamento da paisagem midiática da Catalunha e de seus ódios. Um programa semanal de TV faz uma paródia do Barça, usando bonecos para produzir imagens cruelmente sarcásticas dos jogadores e do técnico, retratado sempre como uma pilha de tijolos com um pano de chão em cima.

Durante uma semana, a torcida promoveu demonstrações anti-Van Gaal em frente ao Camp Nou. Por vezes perturbavam de tal forma que Van Gaal interrompia o treinamento e levava a equipe para outro campo, mais reservado. Quando fiz contato com o grupo de manifestantes, ele me pareceu ser constituído principalmente por homens de meia-idade. Estavam atrás de um portão preto de ferro e gritavam na direção do campo, a cerca de 30 metros de distância. Embora fossem pouco mais de 20, produziam um efeito magnificamente ampliado. Não tinham uma única mensagem, apenas insultos e exigências quixotescas de novas escalações e estratégias. Como já estivessem protestando há uma semana – e a exigência de que Van Gaal fosse demitido parecesse perto de se concretizar –, nem o time nem a mídia pareciam dedicar-lhes muita atenção. Continuavam tocando solenemente os seus negócios.

Tentei conversar com esses descontentes. Um homem baixo e troncudo com uma combinação de suéter e blazer aceitou interromper por um instante sua gritaria. Ao me aproximar, seus insultos saíam com tal rapidez que eu realmente não conseguia acompanhá-lo. Era um dia de desconfortável calor mediterrâneo e ele ficava enxugando o rosto com um lenço.

— Por que está tão zangado? – perguntei.

Ele segurou meu antebraço com uma das mãos. Era difícil saber se esse gesto era de hostilidade ou intimidade. Por alguns instantes, talvez ele mesmo não soubesse.

— Nós o odiamos muito porque amamos muito o Barça. Dói.