Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

Capítulo 8

Lobanovsky dirigiu intermitentemente o Dínamo de Kiev durante décadas, e mais tarde a seleção nacional da Ucrânia. Seu sistema virou um evangelho, internalizado por gerações de técnicos e jogadores. Mesmo após sua morte, em 2002, a federação nacional continua a enviar cientistas a todos os jogos profissionais realizados na Ucrânia. O sistema de Lobanovsky privilegia um estilo de jogo muito específico: vigoroso e frenético. Os jogadores trabalham incansavelmente para ganhar pontos. Jogam de forma mais agressiva na defesa que no ataque, porque é lá que se obtêm os pontos. De certa maneira, esse sistema imita o regime soviético no qual foi concebido. Tal como os soviéticos, ele inibe a iniciativa individual. Não há nada em sua avaliação de pontos que meça a criatividade ou a ousadia. Um passe vertical recebe a mesma pontuação que um passe horizontal; um drible espetacular não significa nada.

Multiplicando o efeito inibidor do sistema de Lobanovsky, os ucranianos transformaram a ação dos treinadores num fetiche. Eles desempenham um papel semelhante ao do Partido Comunista, impondo as formações estratégicas corretas e uma cultura autoritária. Os jogadores ucranianos comumente observam seus treinadores, tentando descobrir se ganharam sua aprovação. A iniciativa humana não tem lugar nesse mundo.

O futebol ucraniano não podia ser mais diferente do nigeriano. O paradigma que governa o futebol nigeriano trata o esporte menos como ciência que como arte. A Nigéria é o Brasil da África – engenhoso, indisciplinado e elegante. Os ucranianos se lançam loucamente sobre a bola, independente da parte do campo em que ela esteja. Os nigerianos são treinados para poupar energia, e perseguem a bola de maneira mais seletiva. Além disso, atacam de forma diferente. Os ucranianos gostam de fazer gols explorando com rapidez os lapsos da defesa, fazendo a bola atravessar o campo por meio de passes longos. Freqüentemente executam jogadas ensaiadas, com os jogadores se movendo segundo padrões predeterminados, jogadas tão intrincadas quanto as concebidas pelo treinador de futebol norte-americano Vince Lombardi. Os nigerianos, por outro lado, estão acostumados a um ritmo de ataque mais cadenciado, em que as oportunidades são criadas por meio da habilidade e dos passes curtos.

Tudo isso é uma forma de desculpar Edward por seu desempenho abaixo da média no Karpaty – e o fato de os outros africanos que jogam na Ucrânia não conseguirem realizar plenamente o seu potencial. Em dois anos, Edward marcou poucas vezes. Apesar da abundância de seus talentos naturais, ele nunca parece natural num campo ucraniano. Os jogadores se chocam com ele quando chuta, algo que nunca tinha vivenciado antes. Treinadores e colegas de equipe exigem que ele ajude na defesa. Como nunca aprendeu a arte do desarme, sempre calcula mal o tempo e acaba acumulando faltas ridículas.

 

Quando assisti a um jogo do Karpaty, o time precisava desesperadamente da vitória. A temporada se estenderia por mais dois meses apenas, e só uma pequena distância o separava da zona de rebaixamento. Nessa conjuntura decisiva, o técnico tirou Edward da escalação inicial pela primeira vez desde sua chegada ao Karpaty. Só o utilizou, como substituto, nos cinco minutos finais. Edward se esforçou, correndo para cima e para baixo pelo lado direito. Mas só uma vez a bola tocou em seus pés.

Depois do jogo, nós nos encontramos fora do vestiário. Todos os outros jogadores pareciam exultantes – ou pelo menos aliviados – pelo resultado da partida, uma vitória por 1 x 0.

— Parabéns – disse eu.

— Parabéns por quê? Joguei cinco minutos. Não fiz nada.