Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

; brasileiro,

Vezes sem conta, Franco, Mussolini e uma alta percentagem de todos os ditadores modernos estabeleceram elos entre o esporte e a política populista. Para os críticos de Berlusconi situados à esquerda, a semelhança com esses tiranos não é acidental. Ele é seu herdeiro. Tal como os caudilhos latino-americanos, dizem, Berlusconi é profundamente corrupto. Ao mesmo tempo em que assumiu a responsabilidade de governar a Itália, ele manteve um vasto império empresarial que obtém lucros com a generosidade do Estado e sua relutância em estabelecer mecanismos regulatórios. Previsivelmente, quando seus interesses pessoais entram em conflito com o bem-estar público, ele recua. Apesar de sérias acusações de corrupção pessoal, em 2003 Berlusconi orquestrou a aprovação de uma lei que lhe garante plena imunidade processual. Ele descriminalizou o delito de falsa contabilidade, que sua empresa é acusada de haver cometido.

Suas transações futebolísticas têm a mesma nódoa. Ele pode não fazer ofertas por trás dos panos para árbitros e políticos ao estilo Agnelli, mas o sistema parece sempre pronto a promover seus interesses. No futebol, o substituto de Berlusconi no Milan, Adriano Galliani, tornou-se o presidente da Liga Italiana – com uma agenda que inclui a imposição da disciplina e a negociação dos direitos de transmissão pela TV.

Nos Estados Unidos, as acusações contra Berlusconi poderiam ser intoleráveis para a sociedade politicamente organizada. Mas na Itália o eleitorado não pune Berlusconi por tais conflitos de interesses. Esse tipo de corrupção é difundido demais para que um só homem seja acusado disso. Os críticos que apontam seus conflitos são vistos como hipócritas. As pessoas não querem um mundo em que a mídia se apegue apenas à verdade e à objetividade jornalística. Idealizam o tempo em que socialistas e socialdemocratas controlavam as duas redes estatais de televisão. Ninguém, de nenhum dos lados do espectro, tem qualquer interesse real em racionalizar os contratos do governo, principal veículo da corrupção.

Levando-se em consideração esse consenso contra a reforma, fica difícil focalizar a fúria simplesmente em Berlusconi. Em comparação com os canais ocultos da antiga oligarquia, ele faz suas manipulações às claras, como no caso da assessoria de imprensa do Milan. Em 2003, quando pressionou o Legislativo a aprovar uma lei garantindo-lhe plena imunidade processual, os italianos puderam acompanhar as tramitações pelos jornais e pela TV. Uns poucos militantes ocuparam as ruas, mas só uma pequena parcela da Itália tomou conhecimento.

 

IV.

 

Numa noite chuvosa eu me encontrei com Tommaso Pellizari, um jovem repórter do jornal Corriere della Sera e torcedor fanático do rival mortal do Milan na mesma cidade, o Inter. Procurei Tommaso porque ele é um dos mais ferozes críticos do clube de Berlusconi. Em 2001, ele publicou um texto polêmico intitulado No Milan, inspirado em No Logo, o tratado antiglobalização de Naomi Klein. O livro é um ataque inteligente, um tanto sarcástico, mas principalmente raivoso, contra tudo que se relaciona com o Milan. Tommaso elenca os dez jogadores da história do Milan que mais odeia – e os dez de que mais gosta, pois confirmam a inferioridade do clube.

Seu argumento sedutor termina com um floreio inesperado. No último capítulo, Pellizari admite sua gratidão a Berlusconi pelo fato de ser proprietário do time inimigo. Para a maioria dos torcedores do Inter, essa confissão seria um anátema. A conta bancária essencialmente inesgotável de Berlusconi tem financiado um adversário implacável. Mas Pellizari preocupa-se tanto com a saúde espiritual e moral de seu clube quanto com ganhar campeonatos. E graças à ligação de Berlusconi com o Milan, afirma ele, os italianos não podem mais fechar os olhos à perversidade desse clube. Ele se tornou objetivamente odioso. Com efeito, Pellizari percebe um “efeito bumerangue”. Os italianos têm feito manifestações contra o Milan porque o vêem como símbolo da corrupção do regime conservador.

De maneira geral, não há muitas evidências de um bumerangue se voltando contra o Milan. Na verdade, tem ocorrido o oposto. Por causa do glamour dos jogadores e troféus de Berlusconi, o time tem ampliado de tal modo sua torcida no plano nacional que poderá em breve eclipsar a ampla base do Juventus. Em determinados círculos intelectuais, contudo, o Milan se tornou tão desprezado quanto Tommaso esperava. Para ilustrar isso, ele me levou a um teatro e clube cultural boêmio chamado Comuna Baires. Desde que Berlusconi voltou ao poder em 2001, a Comuna Baires formou uma aliança com o Inter de Milão. Ela abriga eventos literários envolvendo o time. Em suas palestras, jogadores estrangeiros do Inter (originários da Colômbia, Turquia e assim por diante) dividem o palco com escritores de seus países. Depois dos eventos, jogadores, treinadores e diretores do clube se juntam a intelectuais pró-Inter numa mesa comprida no porão do teatro para jantar. É o tipo de noitada que só pode acontecer com intelectuais da esquerda italiana, que se nutriram em Antonio Gramsci e suas teorias de contra-hegemonia.

Na noite em que Tommaso me levou à Comuna Baires, o clube realizou uma palestra em homenagem a Javier Zanetti, o argentino capitão do time. Todos pareciam conhecer Tommaso. Uma equipe da rede de TV a cabo do Inter o deteve para uma rápida entrevista. Belas mulheres vestidas de preto o paravam para beijá-lo duas vezes no rosto. Deixamos os casacos numa chapelaria, longe da multidão. Tommaso sussurrou:

— Devo adverti-lo: essas pessoas são realmente comunistas. Não estou exagerando. São realmente comunistas.

Caminhamos para fora da sala e ele me cutucou, inclinando a cabeça na direção de um retrato de Che Guevara que nos observava de uma trave de madeira.

Como qualquer teatro boêmio, o Baires tem a aparência de um prédio em ruínas. O palco principal fica numa sala totalmente negra com platibandas e raquíticos bancos de madeira. A palestra fora organizada com a platéia disposta em círculo; um grupo de homens e mulheres com óculos minúsculos cercava Zanetti. Ele estava sentado a uma mesa em frente ao microfone, coberta por um pano nas cores do uniforme do clube. Esperando o início do programa, ele se mexia na cadeira.

O diretor do teatro foi o mestre de cerimônias do evento. Homem de meia-idade vestido com uma camisa de linho para fora das calças, ele aqueceu a platéia com um apaixonado elogio do Inter. Louvou o clube por sua visão de mundo “anti-Bush, anti-Berlusconi, anti-norte-americana”. Para justificar sua afirmação, citou a longa lista de situações em que o time deixou de ganhar o campeonato por muito pouco. Em contraste com a ética do capitalismo norte-americano, os torcedores do Inter sabem que há “coisas mais importantes na vida do que vencer”.

Um desfile de jornalistas, romancistas e poetas o seguiu ao microfone, cada qual pagando seu tributo ao Inter e a Zanetti, muitos deles assumindo a mesma linha anticapitalista do mestre de cerimônias. Nos intervalos entre os oradores, o diretor entregava a Zanetti pinturas a óleo feitas em sua homenagem.

Havia algumas contradições nesse esforço de atribuir ao Inter uma identidade de esquerda. Em primeiro lugar, não faz sentido ligar o clube ao movimento antiglobalização. Seu dono é um magnata do petróleo. Embora tenha simpatias pela centro-esquerda, e tenha até flertado com uma carreira política, ele dirige o clube numa linha claramente capitalista. Depois, quando eles tentam associar seu clube ao cosmopolitismo, fracassam terrivelmente. Não podem jamais ignorar o fato de que o Inter representa a pequena burguesia do norte da Itália, um grupo que, mais que nenhum outro, tem ressentimentos contra os imigrantes. Nos jogos do Inter, sua torcida apresenta mais cantos e faixas racistas nas arquibancadas que a do clube de Berlusconi.

Esse decerto não é o primeiro exemplo de irracionalidade e incoerência da esquerda italiana. Mais que qualquer outro povo da Europa Ocidental, os italianos se comprazem com uma política romântica. Embora os julgamentos espetaculares dos anos 1930, o pacto de não-agressão entre Hitler e Stálin, o esmagamento do levante na Hungria e a queda do Muro de Berlim tenham afastado do comunismo a maior parte da humanidade, o entusiasmo dos italianos pela doutrina de Karl Marx jamais se reduziu. Eles mantiveram a fé no Partido Comunista até a década de 1990, embora o partido continuasse proferindo palavras ríspidas sobre revolução e ditadura do proletariado. Não se tratava de um pequeno segmento do eleitorado. Os comunistas estavam acostumados a receber 30% dos votos.

E há outra praga amaldiçoando a esquerda italiana – uma tendência ao esnobismo. Berlusconi e o Milan foram transformados num vilão maior que Agnelli e o Juventus porque o primeiro não podia ser mais déclassé. Como me disse um colunista:

— Ele importa filmes e programas de TV norte-americanos de baixo nível, conta piadas sujas e comete gafes ridículas.

Uma importante investigação sobre a gênese de seu império foi batizada de “O cheiro do dinheiro”. Mas às vezes parece que sua verdadeira maldição é ter o cheiro do dinheiro novo.

A reação apoplética da esquerda a Berlusconi solapa sua capacidade de combatê-lo. Em vez de satisfazer o desejo dos italianos por espetáculo, seus oponentes são políticos sem graça, geralmente com pedigrees acadêmicos e maneiras suaves. (Romano Prodi, arquiinimigo de Berlusconi, faz questão de alardear sua devoção ao ciclismo, esporte que não tem nem de perto a massa de torcedores do futebol.) Eles ficam acusando Berlusconi por crimes que já foram expostos e, para o bem ou para o mal, perdoados pelo eleitorado. Tal como os intelectuais do Inter, parecem ridiculamente desconectados da realidade de seus potenciais seguidores.

No jantar, Tommaso e eu sentamo-nos em frente a Zanetti. Ele não podia estar mais agradecido ou feliz por se encontrar à mesa.

— De onde você é? – perguntou-me em espanhol.

Enquanto batíamos um papo agradável e superficial, a mesa irrompeu num debate loquaz sobre os méritos das antigas equipes do Inter. Os intelectuais mostravam uma especial propensão a celebrar as qualidades místicas e as sensibilidades estéticas dos jogadores, da mesma forma que antes haviam louvado Zanetti. À margem dessa conversa, Zanetti ouvia com atenção, olhando por sobre o ombro de outros participantes. De início, tentou hesitantemente introduzir-se na conversa, fornecendo observações ilustrativas em primeira mão sobre o que é jogar pelo Inter. Mas essas intervenções não eram ouvidas, tanto quanto pude perceber, no meio do barulho. Discutindo os heróis do passado, os participantes da mesa ignoravam o herói do Inter do presente que eles mesmos tinham acabado de celebrar em termos tão arrebatados. Após alguns minutos, Zanetti desistiu da conversa e concentrou-se em acabar de comer rapidamente a pizza que estava no seu prato. O herói desculpou-se educadamente, recolheu suas pinturas e saiu.

 

a Estrategistas políticos que desempenharam papel fundamental na campanha que levou George

W. Bush à presidência. (N.T.)