Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
Capítulo 2
Os hooligans mais velhos interferem nas operações dos jovens porque relutam em dar adeus a todos os prazeres da batalha – e estão cheios da nostalgia de sua própria juventude. Também têm um senso de obrigação para com a instituição que os alimentou por tanto tempo.
— Sentimos certa responsabilidade pelos garotos – disse Alan. — Queremos que tenham êxito. Eles são o Chelsea. E nossa experiência pode lhes ser útil.
Tal como uma associação de ex-alunos de uma universidade, os hooligans semi-aposentados fazem questão de permanecer unidos. Mantêm-se em contato por meio de uma rede de mensagens, na qual discutem a Youth Firm, compartilham histórias de guerra e opiniões sobre seu amado clube. Não surpreende, para um grupo que tem saudade do passado, que grande número de suas mensagens diga respeito à maneira como cada um se viu representado nas memórias publicadas pelos companheiros. Eles são especialmente sensíveis às descrições do Chelsea nos livros escritos por torcedores de clubes rivais. Em resposta às memórias de um hooligan do Hull City, um sujeito que se intitula “Monkey hanger” repudia a bravura do autor do livro: “Monte di babaca di merda nois tomamo a cidade, eles ficaro naquele pubzinho o bacalhau di prata onde tava seguro … sobre o livro não digo mais nada, papel higênico mi vem a mente.” Depois de ler as memórias de um torcedor do West Ham United, alguém contesta, fulminante: “Pura Ficção! A Única Forma de Vencerem o Chelsea.” Quando o barão judeu russo Roman Abramovich comprou o Chelsea, entrei na Internet para ver a reação na rede de mensagens – e ver se Garrison iria dar sua opinião. A rede faz questão de declarar: “Bem-vindo à rede de mensagens do Chelsea. Esta rede não se presta para fins de organizar a violência ou expor comentários racistas”. Desnecessário dizer que essa advertência não impede exatamente o anti-semitismo. Quase em seguida à aquisição do clube por Abramovich, um sujeito chamado West Ken Ken reclamou: “Gosto do dinheiro, mas a estrela de Davi estará tremulando na ponte [de Stamford] logo, logo.” Alguns comentários esparsos endossavam os sentimentos de West Ken Ken. Considerando-se alguns ataques ao Tottenham saídos de sua boca é, de certo modo, surpreendente que Garrison se mostrasse sensível a esse acesso de ódio aos judeus. Ele apareceu na rede e dedicou a West Ken Ken uma severa e pedante reprimenda: “Ser um Yeed significa que você aceita essa merda [do Tottenham]. Forma totalmente diferente [sic] é ser um judeu, você sabe, os caras que dão porrada nos muçulmanos.” É uma resposta brilhante. Ela invoca a idéia de Muskeljudentum, dos israelenses que dão porrada, para defender seu povo nos termos próprios dos hooligans. E a única resposta aceitável para Garrison é: “Sim, esqueci que você pertence à raça escolhida.”
Quanta violência Alan ainda pode causar? Ele diz que iniciou uma segunda carreira como “soldado da fortuna”, trabalhando para uma empresa alemã que contrata mercenários. Mencionou seu trabalho na Croácia e em Kosovo. Em sua última viagem aos Bálcãs, disse à mulher que iria apenas treinar soldados, não lutar.
— Ela pensava que eu estivesse muito velho e fora de forma para fazer isso.
Mas, no seu retorno, ele estava sentado em casa com a mulher, mudando de canais, quando deram por acaso num documentário sobre a guerra de Kosovo. A cena de abertura mostrava Alan no meio de uma batalha.
— Ela não ficou muito satisfeita comigo aquela noite.
Esses dias de luta agora são provavelmente parte do passado. Mas Alan afirma que não se aposentou por completo do hooliganismo. Umas quatro vezes por ano, em geral depois de partidas contra o Tottenham, ele diz que sai por aí para distribuir uns socos. Eu não sabia se devia acreditar nele. A melhor maneira de avaliar, pensava eu, era vê-lo em seu hábitat natural. Queria ver qual era o grau de intimidade dele com os hooligans da ativa.
Num dia de jogo, eu me encontrei com Alan e seus amigos num bar localizado no segundo andar de um shopping center não muito distante de Stamford Bridge. Alan tomou uma coca e se dirigiu a uma das mesas. Ele me apresentou a Angus, seu melhor amigo, e me lembrou das aparições deste no seu livro. Angus trouxera consigo sua filha de vinte e poucos anos. Os três riam das piadas sujas que ele recebia por mensagens de texto em seu celular. Ao lado havia uma mesa cheia de outros amigos de Alan. Só a filha de Angus estava de uniforme.
— Nós preferimos não nos identificar. Gostamos de poder nos misturar com a multidão – disse Alan.
Mas, com base no comportamento e na aparência, esses personagens não pareciam malfeitores ativos. Na verdade, não pareciam ter se levantado com muita freqüência de seus sofás, muito menos ter dado joelhadas em violentos sociopatas.
Eu disse a Alan que tinha visto torcedores do Manchester City, o adversário daquela semana, num pub mais adiante na mesma rua.
— Estão sentados do lado de fora, bebendo. Vão permitir que façam isso? Ninguém vai lhes dar uma lição?
Descrevi para Alan a fachada do pub.
— É um pub do Chelsea – disse ele. Virou-se e disse a um de seus amigos, em tom de ultraje: — Frank diz que havia torcedores do City aqui na rua. Estavam num pub do Chelsea.
Da outra mesa, seu amigo me procurou com o olhar. Estava coletando dinheiro com o grupo para alugar uma van que os levaria a Liverpool na semana seguinte.
— Alan ainda teria energia. Se os caras do Tottenham estivessem aqui, ele poderia até dar umas porradas. – Ele revirou os olhos.
Além disso, mesmo que não fossem velhos demais para fazer isso, ainda assim não seriam suficientemente loucos para se colocarem nesse tipo de situação, brigando tão perto do estádio. Esse estilo de batalha é uma memória distante. Há muitos policiais rondando pubs.
Alan e eu atravessamos o salão na direção de Angus e sua filha. Angus agora estava um pouco embriagado e o leão-de-chácara tentava acomodá-lo numa cadeira, onde não atrapalhasse a passagem dos garçons.
Angus começou a contar a história de uma viagem a Nottingham Forest.
— Éramos só dois de nós e dois deles. Os tiras nos viram encostados um no outro. E acharam engraçado. Estavam rindo pra cacete. Deixaram que ficássemos apoiados um no outro. É claro, esse cara aqui – apontou para Alan – começou a atacar o baixinho, eu peguei o grandão. – Imitou um homem flexionando os músculos. — Eu pulei em cima dele e lhe arranquei a orelha com uma mordida.
Virou-se para a filha, que se dobrava de rir, e terminou de contar sua história.
— Bons tempos! – disse Alan.