Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
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De modo bem previsível, a aquisição de jogadores católicos não foi aceita com facilidade pelos fiéis. Torcedores reuniram-se fora do Ibrox para queimar bandeiras e ingressos para temporada. Organizaram velórios para chorar a morte da identidade protestante do clube. Na Irlanda do Norte, associações de torcedores aprovaram resoluções proibindo as viagens para jogos em Glasgow e boicotando a compra de produtos com a marca do Rangers. Efígies de Graeme Souness foram queimadas nas ruas de Belfast.
Ao se tornar um Jackie Robinsonb do futebol escocês, Johnston colocou em perigo a própria vida. Torcedores do Celtic promoveram protestos, denunciando-o como um vira-casaca. Espalharam grafites ameaçando: “Colaboradores não podem jogar sem joelheiras.” Por um momento, parecia que os autores dessa frase – ou seus simpatizantes – poderiam concretizar a ameaça. Um mês após a chegada de Johnston, a polícia deteve torcedores do Celtic que haviam supostamente organizado um complô para assassinar o jogador. Para manter a nova aquisição em ação, o Rangers o enviava toda noite de Glasgow para Londres num jato fretado. Johnston mais tarde mudou-se para uma residência segura nos arredores de Edimburgo. Em meados da década de 1990, ele abandonou de vez a Escócia, estabelecendo-se no território mais amistoso de Kansas City.
A presença de Jackie Robinson transformou a cultura do beisebol, quebrando lentamente o racismo dos clubes. Maurice Johnston, estranhamente, produziu o efeito oposto. O time começou a viajar com um retrato da rainha, que era pendurado nos vestiários utilizados. Os jogadores começaram a aparecer fotografados, na Irlanda do Norte, na companhia de paramilitares. Atletas protestantes escoceses teriam defecado por todo o vestiário do Celtic alugado pelo Rangers para uma partida. O próprio Mo Johnston foi visto cantando o “Sash”, uma balada com conotações anticatólicas. E o crescente contingente de católicos torcedores do Rangers seguiu esse exemplo, cantando canções que insultavam sua fé.
Como explicar essa estranha inversão? Glasgow não é uma cidade enorme. Pessoas comuns geralmente se encontram com seus ídolos do futebol. Correm para eles nos pubs e nas ruas. Se os atletas não se mostram adequadamente entusiastas em relação a sua causa, suas vidas podem ficar muito difíceis. Já são obrigados a enfrentar metade da cidade, que os odeia; não precisam ter seus próprios torcedores contra si. Isso cria um circuito de retroalimentação que garante a persistência do sectarismo. Quando Graeme Souness deixou o clube, em 1991, declarou numa coletiva de imprensa: “A intolerância nunca caiu bem sobre meus ombros, e ela sempre estará presente no Ibrox.” Com Dummy sussurrando em meu ouvido “Jamais contratarei um torcedor do Celtic”, penso que sei o que ele quis dizer.
III.
No dia seguinte, quando eu estava saindo do hotel para o estádio, os funcionários tentaram me aconselhar. A maioria nunca foi a um Celtic x Rangers, apesar da importância do evento para a vida da cidade. Ainda assim, sentiam uma espécie de orgulho cívico, o tempo todo garantindo minha segurança no Ibrox. Na saída, uma recepcionista levantou-se da cadeira.
— O senhor vai viver momentos fantásticos – disse ela, interrompendo-me subitamente. — Espere. Abra o casaco.
Alguns dias antes, eu tinha lhe contado que sofro de um leve daltonismo que me faz confundir o vermelho e o verde. Então, ela queria conferir minhas roupas para assegurar que eu havia eliminado todo o azul real, o laranja do Ulster e o verde irlandês que poderiam incitar um delinqüente bêbado. Todo glasgowniano sensato me havia avisado para alardear minha neutralidade do modo mais claro possível. Um amigo me aconselhou a “ir de preto”. Antes da intervenção da recepcionista, eu já colocara de lado os suéteres cujos tons não queria arriscar. A recepcionista riu de si mesma por realizar esse exame.
— O senhor ficará bem. Só não se esqueça de que, não importa o que ouça, não é isso que eles realmente querem dizer.
Tudo que eu faço durante o jogo para assinalar minha condição de não-combatente parece fracassar. Embora eu me apresente como um jornalista norte-americano em missão de pesquisa, meus vizinhos na arquibancada do Celtic insistem no partidarismo. Frank, um colocador de telhas sentado ao meu lado, tenta explicar a atmosfera apontando para o gramado e entoando:
— O bem contra o mal.
Outro vizinho enrola em meu pescoço uma faixa com as palavras “Lutador irlandês”. Ele ergue meus braços no ar sobre minha cabeça, um gesto de reverência, enquanto estão cantando a balada “You’ll never walk alone”, de Rodgers e Hammerstein.
Depois de o Celtic marcar um gol com apenas 20 segundos de jogo, o abraço de um estranho me ergue do assento. O celular cai do meu bolso duas fileiras abaixo. Nosso setor vira-se para os torcedores do Rangers e canta as façanhas do IRA. Não sei as letras, e nem sempre entendo o sotaque para poder decifrá-las, mas algumas frases são fáceis de entender. Foda-se a rainha. Canalhas laranjas. Frank fica traduzindo para mim, até explicar que essa grosseria o envergonha.
Estimulados por seus torcedores e atuando em casa, os jogadores do Rangers transpiram o obstinado calvinismo que eles imaginam representar. Atacam com vigor e não se esquecem de nenhum detalhe na defesa. Seu meio-campo se infiltra no do Celtic, e o esforço produz uma série de três gols sem revide. Quando os protestantes cantam “merda de bastardos fenianos”, não temos outra resposta senão estender os dedos médios e usá-los como batutas para ironicamente reger os seus insultos.
O Rangers ganha o jogo por 3 x 2, e só há uma explicação para o resultado: a indolente e relaxada defesa do Celtic. Esse fato não interfere nas justificativas para a derrota que consigo entreouvir:
— Dê um apito a cada homem-laranja…
Outro homem se refere ao trio de arbitragem como os “maçons de preto”. Sem dúvida, reclamar da atuação dos juízes é um direito fundamental dos torcedores. Por que culpar o time que você ama quando a responsabilidade pela derrota pode ser facilmente deslocada para outro lugar?
Os torcedores do Celtic são um caso especial. Não apenas acreditam que os árbitros tentam prejudicá-los como crêem já ter provado definitivamente esse fenômeno. A acusação contra os “maçons de preto” chegou às páginas de opinião dos grandes jornais e às do periódico da arquidiocese de Glasgow, e também aparece, de modo mais elaborado, num estudo do padre jesuíta Peter Burns. Com base em décadas de reportagens esportivas do Glasgow Herald, padre Burns descobriu que os juízes haviam anulado 16 gols do Celtic, mas apenas quatro do Rangers. O Celtic tivera a seu favor dois “pênaltis duvidosos”, contra oito do Rangers. “Parece razoável concluir”, escreveu ele, adotando o tom neutro de um acadêmico, “que as acusações, freqüentemente apresentadas e freqüentemente negadas, de favorecimento do Rangers por funcionários responsáveis pela condução das partidas, pelo menos nas da Velha Firma, de fato se sustentam diante de um exame minucioso.” Quando torcedores do Celtic apresentam seus argumentos, invariavelmente apontam uma série de incidentes. Em primeiro lugar, um trecho das memórias de um jogador do Rangers relembrando um árbitro aposentado que se gabou de ter garantido vitórias para o seu clube marcando faltas inexistentes. Depois, relatam que um jogador foi expulso de campo em 1996 por fazer o sinal da cruz depois de pisar no gramado – o árbitro considerou esse gesto uma provocação.
Na grande imprensa, há uma expressão que descreve essas queixas: paranóia dos torcedores do Celtic. A noção que prevalece é de que os católicos imaginaram os crimes cometidos contra eles, se apegaram em demasia à idéia de sofrimento. Isso nos evoca a prática de culpar a vítima. No entanto, quanto mais examinamos as evidências, mais essa tese se torna plausível. Os torcedores do Celtic têm uma predileção por escavar a história antiga e combiná-la com fatos recentes. O estudo do padre Burns, por exemplo, baseia-se em clippings de jornais dos anos 1960 para sustentar as acusações contra os juízes escoceses.
De certa maneira, essa confusão de passado e presente capta com perfeição a condição dos católicos escoceses. Sem dúvida, eles continuam a sofrer preconceito nos dias de hoje. Mas quando se pede que dêem exemplos das feridas infligidas pelos protestantes de seu país, eles retroagem a histórias que herdaram de seus pais e avós. Na verdade, trata-se de relatos freqüentemente arrasadores: católicos discriminados no emprego, expulsos de universidades e impedidos de se apaixonar por mulheres protestantes. O oeste da Escócia foi um lugar em que, nas palavras do romancista Andrew O’Hagan, “os pássaros sobre as árvores cantam canções sectárias”.
Mas as memórias do passado são tão facilmente acessíveis que ofuscam as percepções do presente. Quando os analistas sugerem a criação de um novo sistema educacional secular que aboliria o custeio de instituições paroquiais, alguns católicos farejam nisso a ressurreição de John Knox. “Precisamos tentar ser invisíveis, ou sofrer as inevitáveis conseqüências discriminatórias”, foi a resposta enfurecida do crítico literário Patrick Reilly. Eles se queixaram em tom vociferante quando o recém-criado Parlamento escocês assumiu como sede a antiga Casa de Reuniões da Igreja da Escócia. Não importa que a Igreja da Escócia, tal como o restante da corrente principal do protestantismo, tenha se tornado um bastião do liberalismo fervoroso, torturada pela culpa de seu passado anticatólico. E não importa que o Parlamento só tenha ocupado esse prédio como acomodação provisória.
Embora a discriminação não possa existir às claras, o preconceito pode. Sentados no Ibrox, ouvindo os xingamentos dos torcedores do Rangers, os católicos sabem com certeza que alguns desses fanáticos são membros do Parlamento escocês e críticos das escolas católicas. É difícil não ficar desconfiado.
IV.
De jeans e suéter de malha cinza manchado de cerveja Guinness, Dummy parece inegavelmente um torcedor de futebol. Donald Findlay não. Está usando um conjunto de três peças com calça listrada e paletó azul-marinho de tecido luxuoso da Saville Row. Da corrente de um relógio de bolso de ouro que atravessa o colete pendem a miniatura de uma coroa e mementos da família. A barba ao estilo Gilbert-and-Sullivan cobre as bochechas e se interrompe no queixo. No Ibrox, referem-se a ele afetuosamente como Muttonchops, Costeletas de Carneiro. Em sua carreira como um dos maiores advogados da Escócia, Findlay desenvolveu uma persona melodramática para combinar com seus trajes floreados. Ele caiu na infâmia por libertar alguns de seus clientes mais difíceis, incluindo hooligans dos dois lados da Velha Firma. Sua oratória brilhante levava os jurados às lágrimas.
Depois do jogo, encontro-me com Findlay num bar de hotel. Apesar de uma carreira jurídica repleta de êxitos em casos de repercussão, ele sempre será mais conhecido pelo período em que foi o extravagante vice-presidente do Rangers. Nos jogos realizados no Celtic Park, ele se sentava na cabine reservada à administração da equipe visitante. Mostrava sem constrangimento seu desdém pelo ambiente, tirando os sapatos sociais de bico fino e colocando-os sobre o assoalho encerado da cabine. Acossado por uma torrente de ofensas, tirava longas baforadas do charuto, parecendo totalmente indiferente. Quando seu Rangers fazia um gol, Findlay gostava de comemorar do modo mais espalhafatoso e alegre possível, o único homem de pé e aplaudindo em meio a um oceano de desalento. Nas entrevistas, ia um passo além, repetindo uma velha piada sobre não comemorar seu aniversário por ele cair no dia de São Patrício. Em vez disso, dizia que o comemorava no dia 12 de julho, aniversário do triunfo do Rei Billy. Em sua sala de estar, ele encenava as marchas de Orange.
Numa noite de maio de 1999, sua carreira no Rangers terminou abruptamente. Findlay cantava “Estamos até os joelhos de sangue feniano” na máquina de karaokê, o braço de bêbado sobre o ombro de um jogador. Ele tinha se reunido com o resto do clube para celebrar uma vitória sobre o Celtic. Em sua alegria, repetira letras de música que os torcedores do Rangers entoam toda semana, que luminares da sociedade cantavam há gerações. A maioria deles, contudo, nunca fora objeto de uma gravação em vídeo que seria entregue ao Daily Record. Na mesma noite de primavera em que Findlay ergueu a caneca de vidro e amaldiçoou os papistas, os impulsos mais sombrios da torcida do Rangers foram culpados por atos igualmente sombrios. Torcedores do clube foram responsáveis por facadas, tiros e espancamentos que vitimaram três jovens fãs do Celtic. Mataram um e deixaram outro em condições críticas.
Se esses eventos não tivessem coincidido, Findlay talvez pudesse ter se defendido via imprensa. Mas o ambiente não comportava desculpas. Na manhã em que a reportagem sobre Findlay saiu no jornal, ele se demitiu da diretoria do Rangers. Nos meses seguintes, como escoceses eminentes se juntassem para condená-lo, ele se abasteceu de pílulas e flertou com o suicídio. A Universidade St. Andrews, onde acabara de exercer o mandato de seis anos como reitor, cancelou os planos de outorgar-lhe um diploma honorário. A Ordem dos Advogados Escoceses, que controla os profissionais dessa área em âmbito nacional, aplicou-lhe multa de 3.500 libras.
Findlay tinha se tornado a pedra de toque de um debate nacional. Dando a tônica no Festival de Edimburgo, o grande compositor escocês James MacMillan declarou: “Donald Findlay não é o único exemplar de sua espécie. Acreditar nisso é enganar-se, pois nossa [sociedade está] repleta de pessoas como ele.” Mac-Millan afirmou que a Escócia sofria de um tipo de “intolerância sonambúlica”. Articulistas declararam Findlay uma vergonha nacional. Mas ele também teve seus defensores. Até alguns diretores do Celtic testemunharam em favor do seu bom coração. Com efeito, o debate sobre Donald Findlay levantou uma questão essencial para a Velha Firma: quando falavam de assassinato e terrorismo, era só brincadeira ou a expressão de consciências corrompidas?
Quase três anos depois da gravação dessa fita, Findlay continua sendo um dos cinco advogados mais ricos da Escócia. Conseguiu reabilitar-se a ponto de se tornar uma figura intelectual de aparição bastante regular nos jornais e na TV. O partido Tory da Escócia realmente não tem um porta-voz mais proeminente. Mas Findlay não consegue deixar o episódio para trás. Ele o assombra e o obceca. Quando por fim concordou em me conceder a entrevista, eu imaginei formas inteligentes de conduzi-lo para o tema da fita. Ele logo as tornou supérfluas.
— Sobre as fitas: eu devia ter armado uma briga. Tentaria desafiá-los a apresentar um ser humano que tivesse sido prejudicado por mim em função de religião, cor ou qualquer outra coisa. – Enfrentando as elites politicamente corretas, ele teria provado que as cantigas são tradições essencialmente inofensivas. — Trata-se de entrar na cabeça do adversário. É um jogo, está no contexto do futebol. Você quer ficar até os joelhos de sangue feniano? Não seja ridículo.
Como muitos dos mais ardorosos torcedores do Rangers, ele não cresceu em Glasgow. Veio do leste da Escócia, de uma cidadezinha chamada Cowdenbeath, nascido numa dedicada família tory da classe operária. E, tal como a maioria da torcida do Rangers, ele não acredita no protestantismo que seu time representa.
— Não tenho crenças religiosas. Pode acreditar. Tentei muito, mas isso não se ensina.
O que ele de fato herdou foi uma crença na monarquia e na união britânica que sobrepujava a afeição dos católicos escoceses pela Irlanda como terra-mãe. Jocosamente, penso eu, ele anuncia seu teste preferido para a cidadania britânica: se uma tropa com as cores da rainha “não faz seus olhos se encherem de lágrimas, então foda-se!”.
É fácil estabelecer uma ligação entre a predileção por um time de futebol e a religiosidade. No entanto, de uma forma importante, o Rangers realmente substituiu a Igreja da Escócia. Ele permite que homens como Findlay se liguem à tradição e às instituições de seus antepassados, que mitiguem o medo de abandonar a história sem terem de abraçar a escatologia de seus predecessores.
Findlay espalhou-se por nossa cabine, as calças arregaçadas acima dos tornozelos. Ele saboreia suas cigarrilhas. Desde o momento em que fomos apresentados, exibe-se como um provocador. No meio da conversa, ele aproveita:
— O único impedimento absoluto é que você não deve jamais prejudicar um homem por causa de sua religião. Se eu quiser contratar um negro, uma lésbica, um católico, ótimo. Mas não se permite que você diga que não gosta da religião católica, que ela envolve a adoração de ídolos?
O argumento é retoricamente estruturado, como uma hipótese de um professor de direito. Com seu tom acadêmico, minha expectativa é de que ele pare de difamar a fé católica depois de provar seu raciocínio. Mas não pára.
— Por que você não pode ser perdoado por achar que confessar-se a um padre que se confessa a Deus é ridículo e ofensivo? Ou que o papa é um homem da perdição?
Pouco depois ele propõe que os escoceses deveriam ter o direito de dizer “que os padres se cobrem de jóias e riqueza, embora vivam em meio à pobreza”.
A sociedade escocesa é um paradoxo. Conseguiu, de certa forma, erradicar a discriminação na esfera pública. Os católicos têm uma representação bastante eqüitativa nas universidades e na força de trabalho. Mas a intolerância em relação a eles permanece. Não houve um movimento de direitos civis que varresse o anticatolicismo – a discriminação só diminuiu graças à globalização. Os estaleiros e siderúrgicas de Glasgow, que costumavam praticar uma política de contratação abertamente anticatólica, sucumbiram em seguida ao choque do petróleo de 1973. A maior parte da indústria sobrevivente caiu nas mãos de norte-americanos e japoneses, uma nova ordem econômica vinda de “lugares que não estão nem um pouco tão obcecados em defender os muros de Derry da Meretriz da Babilônia”, como afirmou o crítico Patrick Reilly. Os católicos ganharam a igualdade social sem forçarem a Escócia a ajustar contas com suas crenças mais profundas. É por isso que a sociedade escocesa continua a abrigar, e até recompensar, Donald Findlay, os torcedores do Rangers e sua ideologia.
V.
No dia seguinte ao jogo da Velha Firma, viajei para Belfast sob um instável sol de inverno. A última migração importante de irlandeses para a Escócia terminou cerca de 50 anos atrás. Cada vez que Celtic e Rangers se enfrentam, contudo, há uma oscilação demográfica. Vários milhares de irlandeses do norte, católicos e protestantes, pegam o ferryboat para Glasgow a fim de assistir à Velha Firma. Vários milhares fazem a viagem. Um sociólogo chamado Raymond Boyle concluiu que 80% dos torcedores do Celtic de Belfast fazem 16 viagens por ano para ver o seu time. Para financiar essas aventuras, são obrigados a gastar centenas, por vezes milhares de libras.
No momento em que estou embarcando, a grande maioria da torcida já foi para casa. Só permanece aquele núcleo duro, que deseja espremer a última gota das garrafas de cerveja do fim de semana. Um contingente vindo de Carrickfergus, que fica no litoral a dez minutos de Belfast, chegou na sexta-feira após meia jornada de trabalho como motoristas de caminhão, operários de construção e barmen. Alguns nem tinham ingressos para o jogo, e eram escassas as esperanças de conseguirem entrar. Começaram a beber logo após embarcarem no ferry, que tem dois bares servindo bebidas alcoólicas, e não pararam mais. Jimmy, 32 anos, o líder informal do grupo, dormiu no chão da casa de um amigo em Glasgow tendo ao lado uma garrafa de vinho para afugentar desconfortáveis vicissitudes referentes ao nível de álcool em seu sangue. No barco de volta a Belfast, com a mulher o aguardando na chegada, Jimmy toma mais cinco doses.
Como é normal o ferryboat transportar tanto torcedores do Celtic quanto do Rangers, em geral funciona um código tácito de comportamento. Os torcedores do time da casa podem cantar o quão alto e irritantemente quiserem. Enquanto isso, os pequenos grupos que torcem pelo time visitante não expõem sua preferência nem discutem com os oponentes. Como este é o último barco da noite de domingo, está repleto de torcedores do Rangers, o time da casa esta semana. Mas também transporta casais que passaram o fim de semana fazendo compras em Glasgow, assim como pessoas de classe média que foram visitar parentes. Só os bêbados barulhentos e desleixados que viajam na parte de trás do barco indicam claramente que houve um jogo da Velha Firma.
A maioria dos torcedores do Rangers neste último barco adotou um novo conjunto de etiquetas. Nesta multidão altamente heterogênea, inevitavelmente apinhada de católicos, xingar é proibido. A bebedeira da turma de Carrickfergus, contudo, impede a prática da moderação. Jimmy, magricela, louro e vestido com roupa de jogging, lidera o grupo numa série de canções no espírito do mais desavergonhado triunfalismo. Na verdade eles não conversam, apenas emendam uma canção na outra. À simples menção de uma expressão – “o maior da liga”, “Rei Billy”, “bastardo feniano de merda” –, eles se soltam.
Como eu pago uma rodada de bebida, eles me recebem com entusiasmo. Jimmy pede que eu me esprema num canto já congestionado do barco.
— O que você quiser saber, eu conto. É só perguntar. Eu respondo qualquer coisa.
Mas antes que eu possa fazer a primeira pergunta ele começa a se gabar de sua amizade com o rapaz que se apresenta como o mascote do time do Rangers. No fundo, os companheiros de viagem de Jimmy cantam seu pot-pourri anticatólico, repetindo a frase “Foda-se o papa” com particular satisfação.
Jimmy junta-se a eles, e então coloca a cerveja na mesa e o braço no meu ombro.
— Diga, meu amigo Frank: “Foda-se o papa” me implora ele. — Não vamos falar com você até que você diga. Vamos lá: “Foda-se o papa.” Faz bem dizer isso.
Os companheiros favoritos de Jimmy – duas mulheres de vinte e tantos anos, um carpinteiro bigodudo mais velho chamado John Boy, o motorista de caminhão Ralphie e uns seis caras mais jovens – seguem a deixa do líder. Começam a bater palmas e cantar ritmadamente: “Foda-se o papa!”. Uma das mulheres é mais estridente:
— Não seja um feniano de merda, Frankie. Vamos lá: “Foda-se o papa”.
Dou de ombros, olhando em volta para ver se alguém mais está prestando atenção, e tento pronunciar a frase como uma questão retórica. Ao som de “Campton races”, eles começam a cantar, como se tivesse sido planejado com antecedência: “Frankie é sectário. Du-dá, du-dá.”
É óbvio que o uso repetido e feroz da frase “Foda-se o papa” dificilmente poderia atrair a afeição do restante do barco. Durante toda a viagem, Jimmy trocou olhares com um homem de suéter. Num banco próximo, outro grupo reclama das canções.
— Estragando nossa viagem, esses aí. Não paguei 40 paus para ser insultada desse jeito – uma mulher se queixa a uma comissária.
Alguns instantes depois, a comissária se aproxima de nós, inclina-se e diz:
— Desculpem. Vocês têm de parar. São as regras. É melhor para vocês.
Aparentemente, é a terceira vez que ela repreende o grupo. Quando chegarmos a Belfast, diz ela, a segurança estará esperando para resolver o assunto. Em circunstâncias normais, mais sóbrias, a ameaça poderia ter algum significado.
— OK, tá certo – diz Jimmy, e me aponta. — Foi este norte-americano sectário que causou todo o problema.
Uma vez mais, ele começa a cantar o meu nome. A comissária levanta-se e se retira.
A conexão entre Escócia e Irlanda – ou, mais precisamente, entre Glasgow e Belfast – é profunda. Pode-se vê-la por toda Belfast. No centro da cidade, tanto Celtic quanto Rangers têm estabelecimentos que vendem seus uniformes. Aqui e ali, organizações de torcedores também funcionam como lojas da Ordem de Orange. Um taxista de nome Billy leva-me ao seu clube num bairro que já foi protestante, mas que, quase que da noite para o dia, virou católico. O clube tem um bar, mesa de bilhar, aparelho de TV para assistir aos jogos e cadeiras para reuniões. É um lugar em que você pode, sem inibições, arregaçar as mangas e exibir