Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

a Jornalista norte-americano, colunista do

Mas enquanto o estilo brasileiro e alguns jogadores do país prosperaram na economia global, o Brasil em si não. No mundo todo, o futebol não é conhecido pelo apego à ética. Mas os cartolas são uma casta especial. A cada vez que um astro em ascensão se torna um favorito dos torcedores, ele é vendido para Europa. Não é somente a busca cobiçosa por salários; um número substancial de brasileiros prefere jogar em ligas tão pouco glamourosas quanto as das Ilhas Faroe, do Haiti e da Albânia do que permanecer em seu país. Estão fugindo dos caprichos dos cartolas, que a cada ano modificam as regras do Campeonato Brasileiro – em geral para beneficiar os clubes politicamente mais poderosos. Como Ronaldo disse aos repórteres em 1998: “Não haveria oferta que me fizesse voltar para o Brasil agora.”

Apesar da ambição e dos recursos, os investidores estrangeiros nada fizeram para mudar essa situação. Menos de três anos depois de chegarem, eles saíram derrotados do país. No Corinthians, a torcida realizou manifestações de protesto contra a Hicks, Muse por não ter cumprido a promessa de comprar grandes jogadores e construir um estádio moderno. No Flamengo, a ISL foi à falência. O capital externo não havia transformado o futebol brasileiro numa NBA do esporte global nem o livrara da corrupção. Na verdade, segundo muitos indicadores objetivos, o esporte está agora em pior estado do que quando os investidores estrangeiros chegaram. Assim, esta é mais do que uma trágica história de decadência do esporte. É um exemplo de como as facetas negativas da globalização podem solapar as boas. É um relato de

como a corrupção supera a liberalização e vira Thomas Friedmana de cabeça para baixo.

III.

 

Tal como em qualquer história sobre o futebol brasileiro, há um lugar natural para se começar: pelo rei. Claro que me refiro a Edson Arantes do Nascimento, quer dizer, Pelé. Ele é o ponto de partida por ser um personagem central na globalização do futebol brasileiro e na luta para salvar o esporte do domínio funesto dos cartolas. Mas ele também é um bom ponto de partida porque sua biografia se confunde com a história econômica do Brasil.

Sua trajetória tem início em 1940, em Minas Gerais, numa cidade pobre chamada Três Corações. Franzino (pesava 65kg no começo da carreira), o corpo de Edson Arantes parecia mais adequado para engraxar sapatos ou revender o fumo obtido de cigarros descartados, suas primeiras ocupações. Mas ele tinha um pai determinado, Dondinho, cujas aspirações ao sucesso no futebol e à ascensão social terminaram com a ruptura dos ligamentos do joelho direito em sua primeira e única aparição como profissional. Desde o princípio, estava claro que Dondinho tinha motivos para encorajar o filho. Apesar de suas limitações físicas, Pelé tinha uma fantástica capacidade de chutar de ângulos impossíveis, uma forma de lidar com a bola que parecia mais uma carícia do que um drible, um estilo carismático. Por força de contusões sofridas por seus colegas de equipe, aos 16 anos ele estreou no prestigioso Santos Futebol Clube, sediado na cidade portuária de mesmo nome, cujo progresso se devia ao fato de ser o grande escoadouro das exportações de café. Em 1958, aos 17 anos, com um toque que encobriu o goleiro sueco Anders Svensson, ele ganhou sua primeira Copa do Mundo.

O Brasil é uma curiosa versão dos Estados Unidos. É um país do Novo Mundo fantasticamente vasto, rico em recursos naturais, que não ganhou a hegemonia mundial. No auge de Pelé, os anos 1950 e 1960, o Brasil resolveu conscientemente reverter essas condições. Uma série de presidentes populistas (1956-64), e depois a ditadura militar (1964-1985), puseram em prática um tipo agressivo de industrialização forçada e nacionalismo econômico, elevando tarifas, abrindo empresas estatais e encomendando projetos de obras públicas a um ritmo furioso. “Cinqüenta anos em cinco” foi o lema de tom soviético do regime do presidente Juscelino Kubitschek no final da década de 1950 e início da de 1960. O comércio foi estimulado por investimentos. Ao final do governo Juscelino, em 1961, o PIB estava crescendo a uma taxa de 11% ao ano.

Pelé tornou-se para o regime o símbolo desse boom, que os economistas denominaram o “Milagre Brasileiro” – prova de que o Brasil poderia tornar-se uma potência internacional em seus próprios termos, sem plagiar modelos estrangeiros. Nos anos 1970, os ditadores mostravam seu rosto em outdoors ao lado de seus slogans (“Ninguém segura este país!”). Nos eventos oficiais, executava-se a música tema da conquista da Copa do Mundo de 1970 pela equipe liderada por Pelé. Na volta da seleção ao Brasil, o presidente Emílio Garrastazu Médici anunciou: “Eu identifico essa vitória obtida na fraternidade da boa prática desportiva com a ressurreição da fé em nosso desenvolvimento nacional.”

Tal como o país, Pelé acumulou uma pequena fortuna. Seu time, o Santos, deu-lhe um salário de 125 mil dólares, um Volkswagen e uma casa para seus pais. Ele se transformou num dos atletas mais bem pagos da época. Mas essa fortuna nunca fez dele um homem rico. Bajuladores saquearam suas contas. Um empresário espanhol chamado Pepe Gordo, apresentado a Pelé em 1965 por um colega de time, dilapidou suas finanças com uma série de investimentos em empresas sem credibilidade e imóveis indesejáveis. (Em vez de romper com Pepe Gordo, ou, melhor ainda, demiti-lo, Pelé o convidou para ser o padrinho de seu primeiro casamento.) Em outra época, ele teria recuperado rapidamente o que perdeu assinando um contrato com um time rico da Europa. Mas em 1960 o governo o declarou “patrimônio nacional não-exportável”.

Pelé parece não ter assimilado as lições de seus erros. E assim os repetiu. Depois de se aposentar, em 1974, ele confiou em conselheiros que fizeram dele, inadvertidamente, o fiador de um empréstimo elevado que deu errado. “Mais uma vez, depois de todas as advertências e de toda a experiência ruim, eu tinha assinado uma coisa que não deveria”, escreveu ele em suas memórias em 1977. Foi uma humilhação pública. Um ano após aposentar-se, entre despedidas sentimentais, ele voltou atrás para recuperar um pouco do que tinha perdido. Assinou contrato com o New York Cosmos, time pertencente a Warner Communications, na recém-criada Liga de Futebol da América do Norte, para jogar três temporadas por sete milhões de dólares.

Seus fracassos eram o espelho dos erros desastrosos cometidos pelo próprio Brasil. Tal como Pelé, a ditadura atraiu trapaceiros que assaltaram o tesouro nacional. E a má administração foi pior que isso. Depois do choque do petróleo de 1973, a ditadura militar insistiu em manter a economia voltada para a mesma taxa espetacular de desenvolvimento, o que significava mais gastos do Estado, ou seja, tomar empréstimos em bancos estrangeiros. Durante a década, o governo criou uma dívida de 40 bilhões de dólares. Isso desencadeou uma reação sinistra: incapaz de obter empréstimos, o governo não podia mais financiar a indústria; não podendo financiar a indústria, o Brasil foi atingido pelo desemprego. A inflação, alimentada pelos gastos estatais e acentuada pelos novos pagamentos da dívida, aumentou a pobreza dos desempregados. Ao final da ditadura militar, em 1985, o Brasil constituía um dos piores exemplos do mundo em matéria de desigualdade de renda.

Por um período entre o final da década de 1970 e o início da de 1980, a trajetória de Pelé foi diferente da do Brasil. Com o Cosmos, ele finalmente prosperava financeiramente. Em 2001 ele declarou à revista Time que os Estados Unidos lhe haviam ensinado que “não se pode fazer negócios com membros da família. Não se pode nomear alguém presidente de uma empresa porque ele é um amigo ou irmão. Deve-se nomear a pessoa mais capaz. Negócios são negócios. É preciso ser duro.” Em outros termos, os Estados Unidos o tornaram um capitalista. De fato, um capitalista muito bom. Mesmo depois de se aposentar, com as cenas de seus triunfos ficando mais e mais esmaecidas, sua rentabilidade continuou crescendo num ritmo quase exponencial. Pelé se tornou a imagem perfeita da pós-modernidade, uma marca respaldada por companhias multinacionais. Sua figura hoje aparece em dois milhões de cartões Mastercard. Viagra, Nokia, Samsung, Coca-Cola e Petrobrás o contrataram como porta-voz internacional. A cada ano ele ganha, pelo que se noticia, 20 milhões de dólares somente de patrocínios.

É tentador vermos Pelé, com sua história de menino pobre e sua

conduta invariavelmente afável, como o Steppin Fetchitb brasileiro, o garoto-propaganda empresarial idealmente inofensivo. Mas isso é menosprezar Pelé e suas ambições. Ele queria construir sua própria versão brasileira da Warner Communications. Em 1993, resolveu comprar da CBF os direitos de transmissão para o Brasil do campeonato nacional. Como o homem cuja imagem mais se associava ao sucesso do futebol brasileiro, ele estava certo de que seria recompensado por uma vida de contribuições. E para garantir sua posição ele apresentou dinheiro – um milhão de dólares a mais que o concorrente mais próximo. Mas seus muitos anos de experiência na seleção brasileira deveriam ter lhe ensinado que a CBF não é governada exatamente pelas leis do mercado. Como os jornais depois noticiaram, um dos subordinados do chefe da confederação exigiu que Pelé depositasse um milhão de dólares numa conta de um banco suíço pelo direito de ter seu lance reconsiderado pela CBF. Ele se recusou e perdeu o contrato.

Ressentido e humilhado, Pelé partiu para a revanche. Falou da propina numa entrevista à Playboy. Não poderia atingir alvo melhor. Os investigadores do Congresso Nacional depois usariam Ricardo Teixeira como símbolo do “antigo regime” do futebol brasileiro. Um advogado pouco conhecido, sem envolvimento anterior com o futebol ou a administração desportiva, ele atingira a mais alta posição do esporte brasileiro por uma razão bastante previsível: seu sogro era João Havelange, o então todo-poderoso presidente da Fifa. Reportagens da Rede Globo revelaram quão rápido Teixeira adquirira um padrão de vida invejável, incluindo um apartamento em Miami. Enquanto cresciam as dívidas da CBF, o salário de Ricardo Teixeira cresceu mais de 300%, de acordo com a investigação do Congresso Nacional. Acusações de corrupção (nem sempre comprovadas, devemos ressaltar) o acompanhavam por toda parte.

Para os poucos cruzados anticorrupção, parecia que o salvador tinha finalmente chegado. Inimaginavelmente rico, pensavam, Pelé podia dar-se ao luxo de falar a verdade aos poderosos. Afinal de contas, ele tinha sido um garoto-propaganda com princípios morais, recusando-se a fazer anúncios de cigarros e bebidas alcoólicas. “Só ponho o meu nome nas coisas em que acredito”, gostava de dizer aos repórteres. Princípios sempre foram parte da persona de Pelé. Quando marcou o milésimo gol, no Maracanã, em 1969, os repórteres correram para ouvir suas declarações. Ele bradou: “Lembrem-se das crianças, nunca esqueçam as criancinhas pobres do Brasil.”

As críticas de Pelé a Ricardo Teixeira eram adequadas à época. A América Latina atravessava uma transformação profunda – uma ampla revolta contra a corrupção. Após décadas de protecionismo e de inflação, ela estava pronta a rejeitar o estilo que favorecia os pares dos ditadores militares. Em seu lugar, escolheu (ou pelo menos suas elites escolheram) o neoliberalismo da escola de Washington. Na vanguarda da mudança estava o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, convertido num improvável capitalista e num político sedutoramente informal. Nos anos 1970, ele escrevera o texto Dependência e desenvolvimento na América Latina, marcante na esquerda brasileira. Suas críticas ao governo militar renderam-lhe interrogatórios, detenções, a explosão de uma bomba em seu escritório e uma temporada no exílio. Mas sem o contraponto da ditadura militar, após o colapso do regime em 1985, Fernando Henrique foi se tornando cada vez menos radical. Quando se elegeu presidente, em 1994, ele se tornara o centro vital da política brasileira.

Vendo Pelé em sua luta contra os influentes da CBF, Fernando Henrique percebeu uma índole ideológica análoga e a oportunidade de uma política combativa. Nomeou Pelé ministro extraordinário dos Esportes, o primeiro negro a exercer um cargo desse nível. “Um símbolo do Brasil que veio de baixo … que triunfou”, declarou Fernando Henrique ao anunciar a nomeação. Desde o início, estava claro que Pelé acreditava na agenda de “modernização” do governo. Com um ano no cargo, ele propôs a Lei Pelé, um conjunto de reformas ao estilo FMI para o futebol, exigindo que os clubes funcionassem como empresas capitalistas transparentes, com registros abertos e administradores responsáveis. A lei dava aos jogadores o direito ao passe livre, ou seja, de abandonarem os clubes após o término dos contratos. Celso Grellet, assessor de Pelé, disse-me que “na época pensávamos em trazer para os clubes a racionalidade e o profissionalismo empresariais”. Pelé esperava que as reformas atraíssem investidores estrangeiros que transformariam “o futebol brasileiro na NBA do mundo futebolístico”. Em 40 anos, Pelé tinha passado de mão-de-obra explorada do Terceiro Mundo a ícone do autoritarismo e depois acólito neoliberal.

 

IV.

 

Chegando ao Rio de avião, a oeste do Cristo que reina sobre a cidade do alto de uma montanha, pode-se ver a construção mais famosa do Brasil, o estádio do Maracanã. Da rua, contemplando-se seu sólido anel, o Maracanã não parece capaz de abrigar mais de 200 mil pessoas – como aconteceu na final da Copa do Mundo de 1950, o maior público que já compareceu a um jogo de futebol. Ele nem é mais alto que os prédios do bairro de classe média em que está localizado. Do alto, porém, a magnitude do Maracanã se torna evidente. É um imenso buraco no chão. Parece ter um inesgotável suprimento de cantos para os quais os torcedores podem ser empurrados. Contornando o campo, separado do gramado por um fosso profundo, um anel de concreto pode acomodar 40 mil pessoas além dos assentos nas arquibancadas acima.

Tal como um duomo, o Maracanã está repleto de memórias de heróis, mártires e seu santo padroeiro, Pelé. Foi lá que ele marcou seu milésimo gol, em 19 de novembro de 1969. E foi lá, em 1961, como celebra uma placa na entrada do estádio, que ele fez “o gol mais bonito de todos os tempos”. Depois de pegar a bola em frente ao seu próprio gol, Pelé atravessou toda a extensão do gramado. Sem dar um passe, mas com muitas fintas, abriu caminho entre seis defensores do time adversário. A bola não saiu de seu pé até ser colocada na rede. Como a maior parte dos grandes feitos de Pelé – os dois dribles que deu num goleiro senegalês, os oito gols que marcou num grande time do Rio numa única partida –, isso não foi registrado em filme, apenas em memórias que se esvaem e no folclore.

A aura do passado mítico do Maracanã é tão poderosa que três dos quatro grandes times do Rio fizeram dele o seu estádio. Numa noite perfeita de agosto, no início de uma nova temporada, fui assistir a um jogo de um desses clubes, o Botafogo. Minha expectativa era de uma grande experiência esportiva. E a entrada não me desapontou. Você passa por uma calçada de granito polido, como a Calçada da Fama de Hollywood, com blocos dedicados aos maiores jogadores, técnicos e cronistas desportivos do Brasil. Bem antes do pórtico da arena, é possível ouvir a cadência do samba ressoando dos tambores.

As músicas e a batida se originam num setor do estádio, bem ao lado do gol. É a curva, como a chamam os italianos. Por toda a América Latina, a curva é o lugar em que tradicionalmente se concentram as exuberantes torcidas. Elas agitam vigorosamente suas bandeiras, com slogans que expressam sua lealdade eterna ao clube que amam. Passam a semana compondo novas canções que serão usadas para ofender os adversários e aclamar seus jogadores favoritos.

O Maracanã oferece toda a emoção que um torcedor poderia desejar, exceto por uma coisa: companhia. Além dos fiéis fanáticos da curva, e de algumas dezenas de torcedores que acompanham o time visitante e que foram isolados em sua própria curva, do outro lado, por motivo de segurança, não há quase ninguém no grande estádio. Quando o locutor anuncia as escalações das equipes, o eco do estádio torna suas palavras incompreensíveis. De acordo com o número divulgado no placar eletrônico, o público foi de apenas quatro mil espectadores. É um número tristemente característico: há milhares de pessoas a mais assistindo aos jogos comuns em Columbus, no estado de Ohio, ou em Dallas, no Texas, do que às grandes partidas do campeonato brasileiro.

Depois que se passa uma semana no Rio, as razões dessa escassez de público se tornam evidentes. Câmeras de vigilância onipresentes reduziram o roubo que assombrava o estádio, mas o bairro em volta é um campo de tiro. Ir ao banheiro significa atravessar lagos de urina. Com muita freqüência, também se pode sentir o mau-cheiro fora dos banheiros. Muitos torcedores brasileiros não querem se arriscar a perder uma jogada fazendo o longo percurso até os banheiros. O Maracanã recentemente reformou sua infra-estrutura, não apenas para se ajustar às novas normas de segurança, mas também para reverter os efeitos corrosivos da urina sobre vigas de concreto reforçado com aço.

Talvez o público pudesse sobreviver a essas indignidades. Mas os dirigentes do futebol brasileiro têm cometido pecados muito maiores do que privar os torcedores de conforto. Eles desorganizaram o próprio esporte. A cada ano inventam um novo sistema para a confederação, um novo calendário e uma nova fórmula para se ganhar o campeonato. Numa temporada, a renda da venda de ingressos era computada na classificação para as finais. As agendas dos times ficaram tão cheias de torneios sem sentido que os jogadores basicamente não tiravam férias.

A alguns assentos de distância, no intervalo do jogo do Botafogo, um homem está lendo uma matéria de jornal sobre Ronaldo. Segundo o texto, o Real Madrid está tentando comprar o dentuço atacante do Internazionale de Milão por 20 milhões de dólares. Na época de Pelé, os maiores jogadores brasileiros jogavam no Brasil, e portanto os torcedores brasileiros podiam assistir aos melhores jogos do planeta. Agora, até meus amigos torcedores brasileiros mais fanáticos têm dificuldade em dar a escalação de clubes famosos como o Botafogo. Dos 22 jogadores que vestiram a radiante camisa amarela da seleção brasileira na Copa do Mundo, apenas sete jogavam em seu país naquele momento. Estima-se que cinco mil brasileiros tenham contratos com equipes estrangeiras. O êxodo do futebol brasileiro constitui uma das grandes migrações de talentos na história recente, o equivalente esportivo da fuga de cérebros pós-soviética ou da debandada de intelectuais de países africanos em guerra. Os heróis brasileiros viraram algo semelhante à guerra na Chechênia – distantes e estranhos, presentes apenas em raras aparições na seleção nacional e na despedida de algum craque.

 

V.

 

Bem antes de Fernando Henrique Cardoso nomeá-lo para seu ministério, Pelé já mantinha uma relação confortável com o poder. Mas depois de usar seu prestígio para aprovar no Congresso, em 1998, as reformas anticorrupção e pró-capitalistas (a Lei Pelé) ele pediu exoneração do cargo.

Sem sua força para sustentar a Lei Pelé, porém, o lobby do futebol recuperou o controle da situação. Os louros obtidos murcharam antes que Pelé pudesse descansar sobre eles. Dois anos depois de sua saída, seus adversários orquestraram uma legislação que desfez as reformas mais importantes antes de elas entrarem em vigor. Os cartolas não seriam obrigados a prestar contas ou a assumir a responsabilidade jurídica por suas extravagâncias contábeis. Como sempre, a corrupção no Brasil mostrou sua extraordinária capacidade de recuperação. Quando defrontado com esse fato, a reação de Pelé foi surpreendente. Em fevereiro de 2001, ele convocou uma coletiva de imprensa juntamente com o chefão do futebol brasileiro, Ricardo Teixeira, no Rio de Janeiro. Eles estavam juntando esforços, nas palavras de Pelé, num “pacto para salvar o futebol brasileiro”. Teixeira anunciou que Pelé chefiaria uma comissão especial encarregada de reorganizar a administração do esporte. Depois beijou a mão do rei. “Cometi um grande erro ao me afastar do maior ídolo do país. Reconheço meu remorso e conto com a nobreza de Pelé em aceitar minhas desculpas.” Então, em frente das câmeras, para as primeiras páginas dos jornais, Teixeira e Pelé se abraçaram.

Na verdade, nada poderia ser mais corrosivo para a nobreza de Pelé. Ele não era mais o terror dos cartolas. Na coletiva, ele condenou a investigação promovida pelo Congresso por destruir o prestígio do futebol brasileiro. Proporcionou credibilidade a Ricardo Teixeira num momento em que o Congresso estava pronto para enfiar uma estaca nos cartolas. José Trajano, colunista do jornal desportivo Lance!, bradou: “A união de Pelé com Ricardo Teixeira é a maior punhalada nas costas que nós, que lutamos pela ética no esporte, poderíamos receber … Ele vendeu a alma ao diabo.”

Depois do abraço, os participantes da cruzada anticorrupção, como Juca Kfouri, deram as costas a Pelé. Jornalistas com espírito reformista, especialmente no jornal Folha de S. Paulo, começaram a rever a passagem de Pelé pelo Ministério dos Esportes. Será que ele fora tão idealista quanto havia parecido ao aprovar a Lei Pelé? Seu sócio, Hélio Viana, me disse que foi ele quem escreveu o esboço da Lei Pelé. Celso Grellet, assessor de Pelé, admitiu para jornalistas que Pelé esperava ter lucros com as novas leis. Grellet me disse que foi Pelé quem intermediou a relação entre Eurico Miranda e o NationsBank. (Quando solicitei uma entrevista a Pelé, ele recusou.)

 

De repente, o ícone estava à beira de um vexame. Algumas acusações eram infundadas, do tipo divulgado pela imprensa marrom a respeito de sua vida pessoal. Infelizmente, acabou se revelando um caso muito mais sério. No inverno de 2001, a Folha de S. Paulo acusou Pelé de ter embolsado 700 mil dólares de um jogo beneficente que sua empresa, a Pelé Sports & Marketing, havia organizado para a Unicef, jogo que seria disputado em Buenos Aires. Era um esquema que envolvia duas empresas de fachada, segundo as cópias dos contratos que tenho em mãos. Pelé alegou desconhecer o fato, e culpou um sócio com quem trabalhava há 20 anos; ele o despediu, e depois o processou e fechou a Pelé Sports & Marketing. No entanto, ele nunca devolveu os 700 mil dólares.

Quando questionei amigos de Pelé sobre esses pontos duvidosos em seu currículo, eles ofereceram diversas desculpas. Alguns dizem que sua infância pobre o tornou ávido por dinheiro. Mas dizem que é também algo mais digno que isso. Quando uma pessoa o ajuda, mesmo que por hipocrisia, ele esquece voluntariamente os defeitos dela. Perdoa seus erros mesmo depois que deixa de ser socialmente aceitável perdoar. Isso não está muito longe do famoso estudo sobre corrupção publicado em 1958 pelo sociólogo Edward Banfield, The moral basis of a backward society [A base moral de uma sociedade retrógrada]. Banfield explicou que as sociedades mais alicerçadas na família, onde é mais forte o senso de obrigação, são as que mais alimentam o nepotismo e o clientelismo. Em outras palavras, Pelé e o Brasil não estavam apenas despreparados para a reforma. Estavam despreparados para o capitalismo.