Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
o hooligan sentimental
COMO O FUTEBOL EXPLICA
I.
Até onde sei, só existe um exemplo do oposto ao exército yid do Tottenham: um torcedor de futebol judeu que ofende orgulhosamente os adversários com insultos anti-semitas. Eu o conheço pelo nome de guerra, Alan Garrison.
O sobrenome é um pseudônimo que ele adotou quase 30 anos atrás para complicar suas interações com a polícia. Desde os cinco anos de idade, Alan torce para o rival do Tottenham na West London, o Chelsea. Ele merece uma página própria nos livros de história, e não apenas como excentricidade. Em meados da década de 1960, era um dos chefes de uma das primeiras torcidas organizadas de hooligans ingleses. Praticamente inventou o gênero. Sob sua liderança – quer dizer, até ele ir para a prisão, onde passou a maior parte das décadas de 1970 e 1980 –, o Chelsea começou a emergir como o mais famoso bando de delinqüentes do futebol de todo o planeta, aquele com a maior capacidade de odiar e destruir.
Mas, antes de descrever essa contribuição à civilização européia, devo atenuar minha caracterização de Alan como judeu. E admito que não é uma atenuação de pouca monta. O pai de Alan Garrison era um alemão que serviu como tenente na SS de Hitler, sendo acusado pelos Aliados de crimes de guerra cometidos na campanha da Rússia, embora nunca o tenham processado. Quando foi atingido no estômago num choque com tropas britânicas no sul da França, tudo em sua vida se inverteu de repente, e de maneira estranha. Os Aliados capturaram seu corpo ferido e misericordiosamente o mandaram para tratamento numa enfermaria militar em Edimburgo. Acamado e com roupa de hospital, totalmente dependente da bondade dos adversários, ele se apaixonou perdidamente por sua enfermeira, uma judia escocesa, e ela por ele. Em 1946, tiveram Alan, o primeiro de seus três filhos de origem ariano-judia. Era uma bomba pronta para explodir. Tanto a família quanto a comunidade da mãe afastaram-se deles. Quando a vergonha e o estigma se tornaram insuportáveis, eles fugiram com o bebê para uma nova vida, menos tensa, mais anônima, em Londres.
Da aparência de Alan como adulto – rosto descorado, olhos caídos, dentes tipicamente ingleses, óculos grossos, ralos cabelos grisalhos –, percebe-se que ele teria dificuldades no playground mesmo sem considerar seus antecedentes. Sua origem mista não o ajudou. “Jacó burro”, meninos insensíveis o chamavam num dia, chutando-o e maltratando-o. “Bárbaro nazista de merda”, gritavam no dia seguinte, reencenando seu pogrom anti-semita como um heróico ataque ao bunker de Hitler.
A identidade de Alan tornou-se um obstáculo. Quando a mãe quis que passasse pelo Bar Mitzvah, ele se recusou terminantemente. Disse à pobre senhora que havia abandonado de todo a religião judaica. Daquele dia em diante, passou a praticar o paganismo e a adorar a deusa Ísis, parte de uma fé que o professor de arte explicara num curso sobre civilizações antigas. Alan tomou outras resoluções a respeito de si mesmo. Seria um homem forte. Aprenderia a lutar boxe e usaria seus golpes contra qualquer idiota que ousasse insultá-lo. Faria o possível para obter as boas graças do grupo dos durões. Fazendo amizade com eles, estaria se colocando sob uma bolha protetora capaz de repelir quaisquer agressores.
No quinto aniversário de Alan, seu pai, então trabalhando como contador, proporcionou-lhe uma trégua. Levou-o para assistir a um jogo do Chelsea, o clube local, no estádio de Stamford Bridge. A West London de então não tinha restaurantes japoneses nem bares da moda. O Chelsea, tanto o bairro quanto o clube, não tinha nem um pouco do glamour e do cosmopolitismo que hoje o definem. Nos dias de semana, cães corriam na pista que margeia o campo de futebol. No Shed, da mesma forma que em grande parte dos estádios de futebol ingleses antes da década de 1990, não havia assentos, apenas arquibancadas de concreto. Nelas se podia amontoar uma quantidade infinita de pessoas, e os vendedores de ingressos nunca se mostravam propensos a interromper o fluxo. O estádio, tão cheio de paixão e companheirismo, dominou a imaginação de Alan. Também queria isso em sua vida. Quando ficou um pouco mais velho, começou a ir aos jogos sozinho e fez amizade com outros garotos que freqüentavam o Shed. Adoravam futebol, com certeza, mas também gostavam de exibir seu mau comportamento.
Eles estabeleceram um novo padrão de perversidade durante um jogo, em 1963, contra um clube da região industrial do norte chamado Burnley. Algumas centenas de torcedores do Burnley estavam sentados na ala norte do Stamford Bridge, do lado oposto ao Shed. Alan e seus amigos enfureceram-se com a presença de tantos estranhos. Resolveram aparecer de surpresa na ala norte e ensinar aos torcedores do Burnley como se comportar em visita ao Chelsea. Como Alan não tinha nem 16 anos – e muitos de seus companheiros eram ainda mais jovens –, o ataque foi facilmente repelido por uns poucos homens na faixa dos 30, donos de bíceps impressionantes produzidos pelo trabalho em oficinas mecânicas e linhas de montagem. “Foi um protesto justo”, recordaria Alan muitos anos depois. Poucos minutos depois de lançar o ataque, ele foi empurrado vários degraus abaixo. Precisou de muitas canecas de cerveja para afastar a dor.
Mas nem o álcool poderia apagar a humilhação. Depois daquela noite no pub, Alan e seus colegas começaram a planejar uma visita a Burnley na temporada seguinte. Iam se guiar por táticas furtivas, misturar-se à massa do Burnley, e só então armariam o ataque. Funcionou às maravilhas. Ninguém pode afirmar com segurança quantos torcedores do Burnley foram mandados para o hospital naquele dia. Mas foram suficientes para que os jornais prestassem atenção. A imprensa inglesa registrou uma ameaça a que chamou de arruaceiros [hooligans] do futebol.
II.
Quando me encontrei com Alan pela primeira vez, num pub, ele me pareceu um homem que passava grande parte do tempo montado numa Harley Davidson. Usava uma jaqueta de cetim preto do Oakland Raiders. O cabelo era curto dos lados e espesso no topo, no estilo conhecido como half-mullet. Um amuleto Wiccan – um pentágono invertido – pendia de um cordão no pescoço. Vendo esse homem de meia-idade, pensei que, se o pior viesse a acontecer, eu pelo menos seria capaz de ganhar dele na corrida.