Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
Prólogo
No futebol, sou um perna-de-pau.
Quando era garoto, meus pais ficavam de costas para o campo a fim de evitarem me ver jogar. Não os culpo. Só consegui dominar os fundamentos do jogo lentamente, depois de passar muitas temporadas correndo na direção oposta à da bola.
Apesar desses traumas, ou talvez em razão deles, meu amor pelo futebol transformou-se mais tarde numa coisa muito maluca. Eu tentava desesperadamente dominar o jogo que tinha sido fonte de tanta vergonha na minha infância. Como jamais conseguiria ganhar habilidade no esporte em si, só podia investir na segunda opção, que era tentar compreendê-lo em profundidade. Para um norte-americano, não era fácil. Durante minha infância, a TV pública reprisava irregularmente jogos da Alemanha e da Itália no horário dos televangelistas nas manhãs de domingo. Essas míseras reprises eram tudo de que se dispunha nos quatro anos que separavam duas Copas do Mundo. E olhe lá.
Mas lentamente a tecnologia foi preenchendo as brechas. Primeiro, graças a Deus, veio a Internet, onde você podia ler as páginas esportivas inglesas e seguir atentamente os jogadores que tinha conhecido na Copa do Mundo. Depois Rupert Murdoch, abençoado seja, criou um canal a cabo chamado Fox Sports, quase totalmente voltado ao futebol europeu e
latino-americano.a Agora, uma antena parabólica traz para a minha sala de estar o canal a cabo do Real Madrid, assim como jogos do Paraguai, Honduras, Holanda, Escócia e França, sem falar em Brasil, Argentina e Inglaterra.
Mais ou menos ao mesmo tempo em que essas estações de TV passaram a consumir parcelas incomodamente amplas do meu tempo de lazer, colunistas e economistas que escrevem em jornais começaram a falar da era da globalização. Como passo muitas das horas em que não estou vendo futebol exercendo a profissão de jornalista político em Washington, me vi atraído para o cerne dessa discussão. Graças ao colapso das barreiras comerciais e às novas tecnologias, dizia-se que o mundo tinha ficado muito mais interdependente. Thomas Friedman, colunista do New York Times e grande sacerdote da nova ordem, louvou “a inexorável integração de mercados, Estados-nações e tecnologias em um grau jamais observado antes – de uma forma que está habilitando indivíduos, corporações e Estados nacionais a se contactarem com o mundo de maneira mais ampla, rápida, profunda e barata do que em qualquer outra época”.