Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização

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COMO O FUTEBOL EXPLICA

 

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I.

 

A fama de Pierluigi Collina desafia todas as leis da celebridade no esporte. Sua aparência mal-assombrada inclui uma cabeça de Kojak, a palidez de um tuberculoso e olhos arregalados saltando das órbitas. Ele corre como um avestruz. Há, porém, uma coisa muito estranha em relação à sua celebridade: ele não é um atleta, mas um árbitro.

Para sermos justos, não se trata apenas de um burocrático aplicador de regras. Collina é amplamente considerado o melhor praticante de seu ofício. Ele atuou – combinando uma obstinação excepcional com a sensibilidade de um diplomata – em finais de Copa do Mundo e em partidas como Argentina x Inglaterra, uma espécie de revanche da Guerra das Malvinas. Seu renome hoje é tal que ele aparece em anúncios da Adidas ao lado de David Beckham, Zinedine Zidane e outros virtuoses. Páginas de moda da revista GQ, assim como incontáveis perfis publicados em outros periódicos, mostram-no em sua bem cuidada casa de campo, brincando alegremente com seus cachorrinhos.

Não apenas nos Estados Unidos, mas em qualquer outro país essa adoração pareceria estranha. Os italianos, porém, costumam elevar seus árbitros à condição de celebridades. Colegas de Collina têm se candidatado ao Parlamento e, após a aposentadoria, assumido carreiras confortáveis como comentaristas de televisão. Os árbitros alcançaram essa notoriedade porque a mídia italiana devota uma atenção cuidadosa a cada cartão amarelo aplicado e a cada entrada faltosa ignorada. Os jornais usam sistemas de atribuição de estrelas para julgar o trabalho dos juízes, tal como fazem com restaurantes ou filmes. Publicam regularmente análises estatísticas – até a segunda casa decimal – que buscam revelar os verdadeiros vieses dos árbitros. Um programa de televisão de elevada audiência intitulado Il Processo reúne um júri de jornalistas e ex-jogadores que disseca as minúcias de decisões controversas. Para julgarem os juízes, os jurados utilizam um arsenal de ferramentas tecnológicas. O super slow motion pode mostrar que um jogador estava 16 centímetros além da linha de impedimento. Il Processo repete infinitas vezes a queda de um jogador, de modo a que o júri possa determinar com precisão se ele estava simulando uma falta.

Entender a importância da arbitragem exige uma breve menção aos paradoxos do futebol italiano. Como todos sabem, os homens italianos são os maiores janotas do planeta. Eles aplicam doses substanciais de produtos nos cabelos e gastam uma quantidade considerável de energia mental combinando as meias com os cintos. Graças ao seu dandismo, o mundo tem Vespa, Prada e Renzo Piano. Com essa devoção teológica ao prazer estético, é verdadeiramente assombroso que seu estilo de futebol seja tão desprovido de tal qualidade.

A partir da década de 1960, os italianos começaram a praticar uma estratégia altamente defensiva chamada catenaccio, o ferrolho. Essa formação acrescenta à defesa um reforço extra, o líbero, apoiando uma já robusta linha defensiva que marca homem a homem. Nesse arranjo, o ataque não tem muitas alternativas. Os gols são feitos em contra-ataque, com a bola sendo lançada em rápidos passes em profundidade. Dessa forma, os gols são raros, geralmente apenas um ou dois por partida. Com tão poucas oportunidades de marcar, e tão pouca margem para erro, os jogadores são obrigados a fazer o possível para ganhar o controle do jogo. Daí o maior clichê do futebol italiano – o apaixonado mamma mia gesticulando com as duas mãos em sua discussão com o árbitro.

Embora o antigo estilo catenaccio tenha sido consideravelmente modificado nos últimos anos para se tornar mais ofensivo, os fundamentos do sistema se mantêm. As reclamações e a malandragem ainda podem fornecer vantagens decisivas nas partidas. Jogadores se atiram no chão na esperança de induzir o árbitro a marcar uma falta. Contestam cada decisão, calculando que podem gerar dúvidas suficientes para ganharem uma compensação em outro momento do jogo. Depois de cada gol, a defesa levanta os braços em sinal de protesto, como se esse gesto pudesse forçar o auxiliar a erguer a bandeira marcando impedimento.