Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
c Apelido do Rangers. (N.T
a tatuagem dos Gersc no antebraço. O clube de Billy se coloca como o último bastião contra a inevitável invasão católica nesta parte da cidade, uma fortaleza sem janelas marcada pelas cicatrizes da guerra. Uma cerca alta contorna o prédio. A bandeira da Escócia tremula no alto de um poste. O lixo se espalha pelo estacionamento em frente.
— Estamos mais interessados em permanecer aqui do que em embelezar o local – desculpa-se ele.
Do outro lado da rua, ele aponta para os destroços de uma igreja protestante. Foi totalmente destruída por incêndios três vezes.
Os jogos da Velha Firma, ao que parece, provocam tantas vítimas na Irlanda do Norte quanto em Glasgow, se não mais. Enquanto em Glasgow a violência assume um padrão desconexo, dependendo sobretudo de bandidos cruzando seus caminhos aleatoriamente, na Irlanda do Norte ela acontece regularmente nas fronteiras que separam os bairros católicos e protestantes. No dia em que cheguei da Escócia, tinha havido uma batalha a noite inteira, do outro lado da província, na cidade de Derry. A Velha Firma coincidira com uma marcha anual protestante que atravessa a cidade, e a confluência dos dois eventos foi explosiva. Reportagens dos jornais mostravam a cidade ardendo com carros em chamas, bandos de católicos marchando em massa para o centro a fim de impedirem as comemorações dos protestantes, policiais mantendo-se firmes enquanto católicos atiravam fogos de artifício sobre eles. Facadas e tiroteios foram registrados.
Há uma razão básica para os nativos da Irlanda do Norte abraçarem a Velha Firma com tanto fervor. Eles não têm nada comparável do seu lado do mar da Irlanda. O país simplesmente não comporta algo assim. Nem sempre foi desse jeito. No passado, a cidade abrigou um time chamado Belfast Celtic, baseado no conceito original escocês. E ele até tinha seu rival protestante, um time chamado Linfield. Mas em 1949 a equipe católica faliu. A diretoria do Belfast Celtic concluiu que o clube não podia mais depender dos policiais protestantes para proteger seus jogadores e torcedores. Um ano antes, tinham visto policiais comemorarem gols do Linfield. Quando os torcedores deste invadiam o gramado e começavam a bater em jogadores, chegando a quebrar as pernas de alguns, os tiras ficavam parados nas laterais do campo. Com o tempo, todos os clubes católicos da Irlanda do Norte acabaram seguindo o exemplo do Belfast Celtic e abandonaram as competições inter-religiosas. Despida de sua própria rivalidade, era natural que a Irlanda do Norte recorresse à Escócia.
No ferryboat, Jimmy continua passando da brincadeira para o discurso sério. Bebendo sua cerveja aos golinhos, encosta-se numa banqueta, os tênis apoiados sobre a mesa.
— Glasgow não é como aqui. – Faz uma pausa. — Lá você pode andar pela rua com uma camiseta do Rangers e nada lhe acontece. Aqui é vida ou morte, cara. Esses sujeitos são animais. Matam criancinhas.
Glasgow, explica ele, admite um estranho tipo de escapismo político. Não é que você deixe as idéias políticas em casa. Na verdade, ocorre o oposto. Pessoas como Jimmy podem entregar-se a suas paixões políticas mais profundas na Escócia. Podem fazê-lo das formas mais fanáticas. A diferença é que, na segurança do estádio de futebol de Glasgow, não precisam ficar calculando as conseqüências de exporem suas crenças aos gritos.
Antes de o barco atracar em Belfast, os amigos de Jimmy começam a se portar de maneira menos frenética. Um deles, o de uniforme laranja do Rangers apertado ao corpo musculoso, pulara no convés o tempo todo, cantando uma canção intitulada “Bouncy, bouncy” [“Saltitante, saltitante”]. “Se não pode fazer o Bouncy bouncy, você é um Tim.” Com a noite como fundo, a camisa fluorescente fazia dele a única paisagem visível no horizonte. Ao desembarcar no porto, ele veste um blusão azul-marinho e o fecha até o pescoço. Dá uma olhada na cintura para ver se a camisa não está de fora do blusão. Puxando o boné azul da Nike sobre os olhos, ele se volta para mim.
— Tudo bem – diz, e desaparece na multidão que desembarca.
Em terra em Belfast, passageiros continuam se queixando aos oficiais do ferryboat do comportamento de nosso grupo. Mas a prometida equipe de segurança não aparece para intervir. No esquema de delitos da Velha Firma, essas infrações são muito pequenas para que alguém se incomode. Esperando que a esteira traga nossa bagagem já verificada, Jimmy senta-se a um canto discutindo com a mulher pelo celular. Quer que eu cancele a reserva no hotel e durma no divã de sua casa. A mulher quer censurá-lo por ficar fora todo o fim de semana. Antes de irmos para a sua casa, ele insiste em pararmos para um drinque com Ralphie, o motorista de caminhão, no Carrickfergus Glasgow Rangers Club. Em Belfast, pedir a um taxista que o leve a um clube associado ao Rangers pode ser um negócio complicado. Num passeio como esse, você não gostaria de se arriscar a ter no volante um torcedor do Celtic ou um simpatizante do IRA. Jimmy diz ao motorista repetidas vezes que estamos indo para o Glasgow Rangers Club e avalia cuidadosamente cada reação. Como o semblante do motorista permanece sereno, Jimmy começa a cantar e joga a sacola de viagem dentro do grande táxi preto.
Sossegado, Jimmy liga para uma garota de Edimburgo que Ralphie conhecera no bar depois do jogo e por quem está caído. Baixo, de bigode, quase incompreensível devido ao forte sotaque do Ulster, Ralphie é o ideal platônico de um camarada. Jimmy passa-lhe o telefone e ele gagueja. Nós rimos desse flerte desajeitado.
— Ela está a fim – Jimmy sussurra para ele.
Mas quando o motorista dobra para fora da estação do ferryboat e entra numa rua escura, Ralphie diz abruptamente para a garota que ligará para ela mais tarde. Um ar de pânico toma conta de seu rosto.
— Merda, Jimmy. É a porra da Estrada Falls.
A Estrada Falls é um notório centro de atividades do IRA, um lugar em que um torcedor do Rangers seria imediatamente espancado. Jimmy toma o celular da mão de Ralphie e começa a ligar para amigos no Carrickfergus Rangers Club. Serão nossos reforços – pelo menos saberão onde encontrar nossos corpos contundidos.
— Basta dizer a eles que você é norte-americano. Ninguém vai tocar em você – aconselha ele.
No momento em que consegue discar o número, aparece uma indicação na estrada. Três dias de farra fizeram com que eles perdessem a orientação geográfica. Jimmy bate no plexiglas que nos separa do motorista e lhe faz um sinal com o polegar para cima. Ele e Ralphie começam a cantar. “Nós somos o melhor da liga, nós somos o melhor da liga, e você sabe.” Ao cantar, Jimmy ergue os braços acima da cabeça em sinal de triunfo.