Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
a obscenidade das seitas
a Produtor de filmes de ação como Pearl Harbor, Armagedon,60 Segundos e A Rocha. (N.T.)
COMO O FUTEBOL EXPLICA
a obscenidade das seitas
I.
A plenos pulmões, eles cantam em louvor de nossa matança. “Estamos até os joelhos de sangue feniano.” São 44 mil, na maioria torcedores protestantes do Glasgow Rangers Football Club. Como esse é o Ibrox, o estádio de seu time, eles podem cantar o que quiserem. “Se você odeia a porra dos fenianos, bata palmas.” Nós, os sete mil torcedores do Celtic Football Club, time tradicionalmente católico de Glasgow, estamos sentados num setor isolado do estádio, reservado para visitantes, atrás do gol. “Rendam-se ou morram.” Embora câmaras de vigilância acompanhem cada movimento no estádio, é como se apenas uma fila de policiais de capas amarelas funcionasse como uma barricada para impedir que a turba doméstica concretize as letras de seus cânticos. “Com um rifle ou pistola na mão.”
Fora do estádio, a 30 minutos do final da partida, uma multidão de torcedores do Rangers movimenta-se em direção ao portão dos visitantes. Quando policiais a cavalo fecham o caminho, eles estendem os braços à frente numa saudação fria e entoam o “Rule Britannia”, o hino do império. Não é necessário explicar que acreditam que a Britannia deve dominar os católicos irlandeses, de origem celta. Em comparação com seus outros hinos e canções, isso mal chega a ofender. Espalhados pelas arquibancadas, os torcedores do Rangers usam camisas alaranjadas e portam bandeiras da mesma cor para comemorar a deposição da monarquia católica em 1688 por Guilherme de Orange, ou o “Rei Billy”, como eles o chamam. Os herdeiros modernos do Rei Billy também recebem seus tributos. Louvores à Força Voluntária do Ulster e à Associação de Defesa do Ulster, organizações protestantes paramilitares da Irlanda do Norte, foram impressos em faixas e transformados em hinos. Quando os Rangers cantam “Alô, alô, somos os Billy Boys”, estão se associando a uma gangue que agredia os católicos de Glasgow no período do entreguerras. Na década de 1920, os Billy Boys fundaram uma filial da Ku Klux Klan.